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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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As cartas literárias de Adolfo Caminha Sânzio de Azevedo
No Rio de Janeiro de então, centro das letras
nacionais, os poetas mais prestigiados eram os parnasianos, como Olavo
Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, sendo que os ficcionistas
mais reverenciados eram Machado de Assis, com seus romances realistas, e
Aluísio Azevedo, chefe dos naturalistas em nosso país. Os simbolistas,
seguidores de Cruz e Sousa, hostilizavam os ídolos do tempo: Gustavo
Santiago, por exemplo, tirava o chapéu para Machado de Assis, não,
entanto, como uma homenagem ao literato sem talento e sem obra que vive,
por aí, assinando futilidades que se conhecem pelos nomes de Quincas
Borba, Memórias de Brás Cubas e D. Casmurro, mas ao funcionário
exemplar da Secretaria de Viação, que ele o é (Luís Edmundo, O
Rio de Janeiro do meu tempo, s/d).
Adolfo Caminha, cearense que, em 1893, havia
engrossado as fileiras do Naturalismo com o romance A normalista,
publica em 1895 (antes de fazer editar o Bom-Crioulo, desse mesmo
ano), seu único livro de críticas, as Cartas literárias,
impressas na tipografia Aldina. Logo na abertura do volume há uma expressiva
dedicatória: A Isabel C***. Quero que o nome dela fulgure como uma
legenda de ouro à primeira página de meu livro… Quem conhece os
dados biográficos do escritor, sabe que ele, quando oficial da marinha,
na Fortaleza de 1889, se uniu a Isabel Jataí de Paula Barros, que
abandonou o marido, um alferes do Exército, o que gerou um escândalo na
cidade provinciana e hipócrita, levando o jovem tenente a abandonar a
Armada. A dedicatória é assim uma homenagem à mulher que transformou
sua vida e como que uma resposta à sociedade que condenou a ambos. Formado por artigos que haviam surgido na Gazeta
de Notícias, do Rio, de novembro de 1893 a julho de 1894, aos quais
acrescentou o autor pelo menos dois trabalhos aparecidos na Revista
Moderna, de Fortaleza, em 1891, o livro revela, como seria de se
esperar, mais que os outros, o espírito combativo do escritor.
O que mais nos parece é que o escritor cearense,
vendo-se atacado pela crítica do Rio de Janeiro (José Veríssimo,
Valentim Magalhães e outros), e não tendo no momento um nome de peso que
saísse em sua defesa, apelou para esse artifício, supondo que, assinando
o próprio nome, talvez não despertasse o interesse dos leitores, que o
julgariam suspeito para falar em causa própria. Mas nas Cartas literárias,
assumiu a autoria dos trabalhos, e o primeiro da série no jornal passou a
sétimo no livro, com o título Em defesa própria; nele o autor se
defende das acusações que se haviam feito ao romance A normalista,
considerando-o hoje fora de moda, emprestando-lhe feições
libidinosas, e, por conseguinte, nocivas à moralidade social. Reage o
escritor, dizendo, entre outras coisas: Aluísio Azevedo, cujos
processos diferem dos meus, não foi mais escrupuloso nem menos cruel
quando pintou a vida fluminense nas páginas admiráveis da Casa de
pensão e do Cortiço. Percorrendo-se as Cartas literárias, pode-se
ver como o ficcionista se comportava no âmbito da crítica e, com isenção,
pode-se constatar que o livro apresenta altos e baixos, com inegáveis equívocos
ao lado de admiráveis conclusões e até mesmo predições. No primeiro
capítulo, Novos e velhos, lamenta Adolfo Caminha o quadro
desolador a que, segundo ele, havia chegado a literatura nacional, e
fazendo ligeiro retrospecto das letras no Brasil, afirma: Com José de
Alencar morria o romance brasileiro, que ele criara cheio de zelo pelas
coisas do seu país. É que, para o crítico, os leitores não
suportavam mais o sentimentalismo de Macedo: dos contemporâneos de
Alencar, para ele, somente Machado de Assis pudera escapar à indiferença
pública, e precisamente porque se fora desembaraçando cautelosamente
dos velhos moldes e enveredando pela psicologia. Mas o ideal, para
Caminha, era o Naturalismo, tanto que, ao tratar das Memórias póstumas
de Brás Cubas (a nosso ver um dos pontos mais altos da ficção
machadiana), conclui: Não é tudo o que se poderia desejar, mas difere
muito dos velhos contos e fantasias. Já O mulato, romance de
estréia de Aluísio Azevedo, é, na sua opinião, um primoroso romance
de cunho nacional. Há no livro não poucos ataques aos simbolistas.
Apesar de o escritor admirar Antônio Nobre, o fato de o Simbolismo ir
contra o domínio do Realismo-Naturalismo faz com que ele escreva coisas
como esta, referindo-se aos novos poetas: Essa aristocracia, que se
pretende criar na arte, não consultando a intelectualidade da maioria,
redunda em um monopólio odioso e incoerente. Em outro passo do livro
censura essa mocidade que anda se iludindo com os simbolismos de uma
arte falsa e pobre, rebuscada em Verlaine. Entretanto, logo no
primeiro trabalho afirma: Se me perguntassem, porém, qual o artista
mais bem dotado entre os que formam a nova geração brasileira (…) eu
indicaria o autor dos Broquéis, o menosprezado e excêntrico
aquarelista do Missal, muito embora sobre mim caísse a cólera do
Parnaso inteiro. A explicação, porém, para Caminha atacar os
simbolistas e exaltar Cruz e Sousa, o maior deles, está nessa observação
do mesmo trabalho: Não tem escola; sua escola é o seu temperamento, a
sua índole, e este é o maior elogio que se lhe pode fazer. Opinião
que, supomos, o poeta catarinense não deve ter endossado…
Comentando o romance Lupe, de Afonso Celso,
ataca o jacobinismo em arte e indaga: Por que razão havíamos de negar
talento às gerações que nos precederam? E, em Musset e os novos,
investe contra os que, empolgados com a arte de Baudelaire, desmerecem nos
versos do poeta de Nuits, fazendo esta profecia admirável: As
escolas desaparecem, ficam as obras; amanhã, quem sabe? Outro poeta virá,
outro gênio com idéias novas, com uma forma absolutamente original; mas
nem por isso Baudelaire será esquecido. Três artigos não poderiam ter boa repercussão no
Ceará: Uma estréia ruidosa, praticamente o mesmo que, sobre os Versos
diversos, de Antônio Sales, fora estampado na Revista Moderna,
de Fortaleza, em 1891; A fome, da mesma revista e da mesma época,
abordando a estréia de Rodolfo Teófilo no romance; e A Padaria
Espiritual, falando da originalíssima agremiação criada por Sales e
da qual ele, Caminha, fora um dos fundadores, na Fortaleza de 1892. Há, nesses três artigos, algumas observações interessantes, mas o que predomina neles são os traços de flagrante injustiça, o que levou Antônio Sales (O Pão, n. 25, 01/10/1895), assinando-se M. J. (Moacir Jurema, seu nome de guerra na Padaria Espiritual), a sentenciar: Caminha é arroubado, birrento, rancoroso, e não é dessa massa que se fazem os críticos dignos de tal nome. Até Frota Pessoa (Crítica e polêmica, 1902), grande amigo de Adolfo Caminha, reconheceu que nem sempre sua crítica foi impassível: Algumas vezes exagerou o encômio e outras vezes a censura; mas dentro dela estava inteira a sua alma de lutador vibrante no seu entusiasmo renascente. Em nossos dias Lúcia Miguel-Pereira (Adolfo Caminha, 1960) observou que o autor de A normalista, nas páginas impressionistas de Cartas literárias, deixou vários juízos e depoimentos de interesse para o estudo de sua época, e, sobretudo, para o seu próprio estudo. Nem precisaremos nos alongar mais neste comentário, porque, graças à iniciativa das Edições UFC, está sendo pela primeira vez reeditada essa obra, que há muito se transformou em raridade bibliográfica. |
Sânzio de Azevedo. Historiador. Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |