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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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Peter Greenaway: o universo como metáfora Eric Ponty
Um paralelo interessante seria compará-los entre
Gustav Flaubert (Madame Bovary) e Alexandre Dumas (Os três
mosquiteiros), isto porque o segundo tem a técnica de um mestre, ao
usar a técnica do entretenimento, sem obrigar ao leitor-espectador a
fazer quaisquer peripécias para captá-lo, enquanto que o primeiro é o
mestre da técnica e obriga ao espectador a fazer o mesmo trajeto da arte
para captar as nuanças de uma nova perspectiva técnica. Segundo Ivana Bentes, Peter Greenaway é "o
cineasta-pintor-videasta-instalador [que] faz, assim, um cinema
antinaturalista, onde o mais importante não é a narração nem a história,
mas a estrutura que as sustenta. A surpresa é que esta mesma estrutura é
freqüentemente tão arbitrária quanto todo o resto, e, no entanto
rigorosamente construída. Como em um jogo, resta ao espectador descobrir
ou inventar uma chave ou regra de leitura do filme." Ou seja, ao
utilizar-se deste recurso, o cineasta está criando uma obra de arte de
duas mãos, ao obrigar ao leitor-espectador ter sua própria captação da
realidade ali expressa.
No ensaio sobre A última tempestade, Steve
Marx faz as seguintes considerações: "com este trabalho, acredito
eu que a peça é baseada no Livro de Gênese, eu descobri conversações
e ligações que deram uma nova vida ao filme para mim. Em um comentário
caprichoso, incluído no enredo publicado, implica que a fonte do filme de
Greenaway é um tomo imaginário: Este é o livro-exemplar, o
modelo para a imagética de Prospero que, neste livro, que é um primeiro
livro de ensino da educação de humanista, povoa a ilha como uma máquina
fotográfica que detém o Grande Livro de Mitologias e o título do filme Os
livros de Prospero é superposição. Entretanto, a Bíblia nunca é
mencionada com relação a este livro de fonte de histórias sobre deuses
e heróis, e era muito como um primeiro livro de ensino de educação
humanista, como o clássico grego e romano. E, entretanto, referências
explícitas à Bíblia são raras no filme e na peça de Shakespeare. O
espetáculo serviu, de fato, como um só modelo gerador. O Prospero de
Greenaway foi dividido em 24 livros: nenhum livro a mais e nenhum livro de
menos. Há 24 livros na Bíblia hebréia que são tradicionalmente
associados aos 24 anciões circunvizinhos ao trono de Deus no Livro de
Revelação. O Livro de Revelação é o mais provável
candidato bíblico para modelo de A Tempestade e dos Livros de
Prospero, por causa das representações compartilhadas da dissolução
do mundo e a dissolução de formas discursivas convencionais." Ou
seja, a narrativa greenawayana pede o tempo inteiro que o
leitor-espectador faça este mesmo trajeto para a construção de seu próprio
filme (narrativa).
Gustave Flaubert (1821-1880), o grande romancista
francês da escola realista, sempre foi elogiado por sua objetividade e
seu esmerado estilo, mas sempre teve a consciência de um artista, mesmo
ao usar de uma técnica legível, este inova nos ângulos de visão
do romance, como em Madame Bovary (1857), ao criar um realismo que
choca (com propriedade) a sociedade da época. Se Gustave Flaubert tivesse optado por ser um
artista menor poderia ter ficado aí com seu romance acrescentando apenas Salammbô
(1863), A tentação de Santo Antão (1874) e L'Éducation
sentimentale (1870). Porém, este escreve Três contos (1877),
onde funda novamente um outro experimento narrativo, ao qual acrescentaria
seus dois trabalhos editados postumamente, que são, ao meu ver, suas
obras maiores: o inacabado romance Bouvard e Pécuchet (1881) e seu
complemento, o Dicionário dos lugares-comuns (1913), porque estes
não se bastam em retratar apenas o mundo, mas buscam transformá-lo em
uma nova consciência metafórica do mundo.
George Lucas (1944) diretor e produtor de cinema
norte-americano, realizou, entre outros filmes, Loucuras de verão
(1973) e Guerra nas estrelas (1977), que revolucionou a indústria
de cinema comercial. Foi produtor executivo dos dois filmes que completam
a trilogia: O império contra-ataca (1980) e O retorno de Jedi
(1983), além de Ameaça Fantasma (1999), que é uma nova série
sobre Guerra nas estrelas.
George Lucas se inspirou principalmente em
Joseph Campbell, e em seu livro O poder do mito. Com este elemento
nas mangas, o diretor já pega uma boa parcela do público
inconscientemente, recorrendo à velha forma do cinema de entretenimento
angariar as massas e a bilheteria. Este novo filme não passa de uma
releitura dos episódios anteriores como em uma boa novela já clássica
em que são modificados alguns elementos narrativos, mas a estrutura
permanece a mesma. Ao basear-se em Joseph Campbell, deixa bem claras as
suas intenções mercadológicas, bastando citar, por exemplo, seu filme
de estréia, ao meu ver ainda seu melhor filme: TXH380.
O Romancista e dramaturgo francês Alexandre Dumas
(1802-1870), mais conhecido como Dumas, pai. É o grande mentor dos
romances históricos de entretenimento, como Os três mosquiteiros
(1844) e o farsesco O conde de Montecristo (1844), que vêm pegando
várias gerações deste que foram escritos. Aliás, sabe-se que este
escritor usava do talento de outros escritores para escrever seus livros,
e que estes somam em 1.200 volumes como uma prolífera indústria da pena
que se utiliza dos arquétipos para assim constituir seus modelos. O cinema de Peter Greenaway abunda em referências
que não se esgotam como signos, mas é um grande leque de possibilidades
como se este estivesse todo o tempo refazendo a linguagem do cinema e
precisasse de um novo espectador (uma nova visão) a cada película
projetada na tela.
Enquanto o cinema de George Lucas necessita de um
novo hardware e software a cada filme, para colocar a alta
tecnologia para narrar a mesma história, este já não precisa de um novo
espectador porque repete os mesmos arquétipos, utilizando-se de todas as
armas artesanais para que a verdade ali expressa seja uma realidade.
Desde que o entretenimento é entretenimento, um
filme como Metrópoles de Fritz Lang é ainda mais moderno que este
tipo de filme de ponta, porque é belo como metáfora (coisa que a
industria cinematografia odeia). O problema que difere os dois cineastas não é a tecnologia empregada. Peter Greenaway, em A última tempestade, usou o que havia de mais moderno (grande arte, como a de um Gustave Flaubert), da mesma forma que George Lucas recorreu ao que havia de mais de ponta para narrar A ameaça fantasma (grande entretenimento, como em Alexandre Dumas). Os dois filmes diferem da qualidade na estrutura narrativa e na possibilidade de um ser uma metáfora ou apenas mais uma variação de um arquétipo. |
Eric Ponty. Poeta e ensaísta. Contato: alderei@mgconecta.com.br. Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |