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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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Keith Jarrett: as notas do abismo Floriano Martins
Keith Jarrett estava então rompendo com o conceito
usual de improvisação jazzística, onde se parte de uma melodia dada a
ser expandida ao ritmo do estado de espírito do músico que a recebe.
Jarrett vai mais além, partindo do princípio de que somente na escuridão
é que refulgirá o verdadeiro fogo. Propõe então que se parta de um
braseiro, ou seja, que as chamas se entreguem a elas próprias. Busca a
pureza do fogo, no caso a pureza da música, não como um modelo a ser
cristalizado, mas antes como uma encarnação de seu estado irrepetível.
O crítico Lynm Newton disse que parecia algo inconcebível, sobretudo nas
primeiras audições, que alguém pudesse improvisar a partir do nada,
regido unicamente por um espírito de improvisação.
Não é bem assim. O próprio Jarrett esclarece na
sintética declaração que imprime no encarte de Vienna Concert
(1992): "Cortejei o fogo durante um longo tempo, e muitas faíscas
voaram até o passado, porém a música nesta gravação fala, finalmente,
o idioma da própria chama". Não se trata portanto de um devaneio,
mas antes de uma visão plena da exatidão, da precisão. Basta pensar um
pouco na própria formação deste músico, suas origens buscadas na música
clássica e as inúmeras experiências jazzísticas.
Nascido nos Estados Unidos (Allentown, PA) em 1945,
de família mestiça, Jarrett mostrou-se um talento incomum para a música
desde os três anos de idade, quando começou a tomar lições de piano.
Segundo seu biógrafo, Ian Carr, passou a compor a partir dos seis anos.
Nesta ocasião, a escola onde deveria iniciar estudos, considerou como de
gênio seu QI, o que fez com que partisse adiantadamente do terceiro ano.
Espantava a todos sua performance ao piano, sobretudo pelas mãos tão
pequenas e afoitas a acordes prodigiosos. Aos nove anos tocou em uma
convenção no Madison Square Garden. Aos doze já tocava
profissionalmente. Até aqui, vinha de formação clássica. A grande
peculiaridade era seu interesse visceral por aprender todos os
instrumentos. Na escola chegou a tocar sax soprano, bateria e violão.
O jazz veio como uma conseqüência desses anos
juvenis. Jarrett vivia então a obsessão da aprendizagem. Isto o conduzia
a estudos cujos custos estavam além de suas possibilidades. Tocar na
noite foi uma opção gratificante. Art Blakey o ouviu e logo o convidou
para integrar seu New Jazz. Pouco depois passou a integrar o Charles Lloyd
Quartet, um dos mais considerados grupos de jazz naquele momento. A seqüência
incluiria inúmeras particularidades, entre elas um convite de Miles Davis
para compor sua banda – quando então tocou com Chick Corea. Nesta época
conheceu também outro grande músico, Gary Burton. Estas são as movimentações que o levaram a
estabelecer uma espécie de tríptico em seu tratamento com a música: a
inicial formação clássica, sua experiência jazzística e a
essencialidade de uma assinatura estética. Certamente que haver conhecido
o produtor Manfred Eicher – da gravadora ECM – foi o mais feliz
acontecimento de sua vida. Aos 28 anos de idade Jarrett começa a
registrar em disco sua inusual proposição de criação artística. Neste
mesmo período formou seu primeiro grupo, um quarteto que contava com Jan
Garbarek (sax tenor), Palle Danielson (baixo) e Jon Christensen (bateria).
As gravações se sucedem, em um total de seis discos, entre eles My
song, Eyes of the heart e Personal Mountains, todos na
segunda metade dos anos 70.
Jarrett é contemporâneo de músicos fundamentais
que registraram a improvisação em seus trabalhos: de Art Tatum à New
Age, passando por Miles Davis, Charlie Parker, John Coltrane, Herbie
Hancock, Chick Corea, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal. Suas idéias de
improvisos jazzísticos, destacadas em discos de trio ou quarteto,
salientam uma necessária diversidade no conceito da música com que lida.
Estas são, contudo, as idéias norteadas pela presença de um grupo.
Segundo ele próprio, aí o músico tem que procurar conviver com o estado
de espírito de seus pares. Trata-se de comunhão, do exercício de
dialogar com a paixão alheia. Não se busca audiência para si mesmo e
sim para um completo registro de afinidades. Ao visitar Bach, Shostakovich ou Goldberg, por outro
lado, não o fez movido pela grandiloqüência, mas sim por uma identificação.
As fugas são uma primeira noção de improviso, neste sentido encarnado
da paixão que Jarrett define em seu trabalho. As fugas guardam em si o
silêncio de vibrações interiores. São como o registro de uma
religiosidade sedimentada, apreendida. A aparente clareira das fugas de
Bach guarda em seu íntimo uma dicção de recolhimento que busca
expandir-se através das vibrações, das preces, do alcance salmódico de
sua chama. Jarrett acaba questionando um aspecto mais extenso: o que temos
produzido hoje, todos nós, define-se pela seqüência de um diálogo ou
pela afirmação de que não haverá amanhã?
Um dos mais recentes concertos registrados de Keith
Jarrett é La Scala, dado em 1995, porém só registrado em disco
no final de 1997. O disco traz uma particularidade rara: o bis incluindo a
canção "Over the rainbow", uma leitura envolvente que remete a
um Jarrett tomado pelo alheio – a exemplo do que antes já houvera feito
com "The wind", em Paris Concert (1990). Refiro-me a isto
pelo fato de que ele próprio defende a criação como uma "recepção",
uma "carnação", enfim, uma "identificação".
Jarrett propõe uma insólita conexão entre o piano tocado atrás e o
piano tocado hoje. Uma sombra entregue a seu feixe de luzes. La Scala
traz um Jarrett profundamente inspirado, em uma partitura repleta de
politonias e atonalidades, fragmentos de baladas, salmos, minimalismo
desconcertante, passagens melódicas realçadas por intenso romantismo,
com todo o virtuosismo que lhe é peculiar.
Quanto ao jazz, nos anos 90 surge a nova formação de um trio, desta vez acompanhado por Gary Peacock (baixo) e Jack DeJohnette (bateria). Após inúmeras apresentações, em repertório escolhido ao acaso no cancioneiro popular estadunidense, gravam discos como Stille live e Standards (vols. 1 e 2). São discos que naturalmente possuem a marca inconfundível do pianista, marca que possui um caráter profundamente religioso, ao desvelar uma escritura mística, uma maneira de encarnar a arte com toda a força do espírito. O próprio Keith Jarrett nos diz: "Se eu pudesse chamar a tudo o que fiz de Hino, isto seria o mais apropriado, porque é isto o que são quando estão corretas". |
Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta e ensaísta. Um dos editores da Agulha. Visite: www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm. |