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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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Amedeo Modigliani: dolorosos direitos da beleza Floriano Martins
Na verdade, não se trata tão-somente da Europa, e
sim de toda uma circunstância de fundamento da criação artística em
todo o mundo. Tínhamos os olhos voltados para o Velho Mundo, e ali foram
dar todas as vozes que buscavam algum reconhecimento. Para ali foram o
russo Kasimir Malevich e o brasileiro Vicente do Rego Monteiro, entre inúmeros
outros. E mais do que para a Europa, todos iam para Paris, centro magnético
de toda a revolução artística daquela época. Não foi diferente para o
italiano Amedeo Modigliani. Nascido na Toscana, em julho de 1884, Modigliani foi
desde cedo um impetuoso apaixonado pela vida, disposto por natureza a não
seguir regras de espécie alguma. Sua infância dividiu com uma série de
complicações de saúde e a desdobrada atenção de sua mãe, que o
levava a visitar os museus. Foi assim que tornou-se aluno do estúdio de
Guglielmo Micheli, um paisagista algo distanciado das tendências do que
então era dado como vanguarda. O agravamento da saúde o conduz a várias
cidades, sempre em busca de tratamento. A passagem por Capri, Nápoles,
Roma e Florença alia um roteiro de cura à oportunidade de dedicar-se
exclusivamente ao desenho.
Sempre acompanhado de sua mãe, Modigliani segue
revelando um espírito irreverente, dotado de intenso sentido de independência.
Pouco afeito às aulas nos estúdios em que se inscrevia, segue preferindo
os passeios por museus. Sua última instância na Itália é Veneza,
quando conhece obras do Impressionismo e sobretudo apaixona-se pelo
expressionismo alemão. Tem pouco mais de 20 anos e logo compreende que não
pode seguir residindo na Itália. Muda-se então para Paris, em 1906, e
logo passa a conviver com os artistas do Bateau Lavoir, um grupo que se
encontrava freqüentemente nas mesas do Lapin Agile, em Montmartre.
Modigliani trazia consigo alguns sinais de resistência
que já o singularizavam: sua rejeição a pintar natureza-morta ou
paisagens. Tinha uma exacerbada preocupação com o humano, e buscava sua
expressão justamente onde melhor poderia encontrá-la: no olhar, nos
rostos, nos retratos. Paris urdia sua revolução artística. Exultantes
à luz estavam os pós-impressionistas, enquanto que ardia sob a escuridão
a arte rebelde, marginalizada sobretudo no que trazia de ousadia para os
padrões morais da época. Modigliani conhece então Brancusi (1876-1957)
e Max Jacob (1876-1944), amizades que o marcarão bastante. Com Brancusi
passa a aprender modelagem e escultura. Em 1908 expõe pela primeira vez, no Salão dos
Independentes, em Paris, uma vez que havia se tornado membro da Sociedade
dos Artistas Independentes. Foi uma de suas raras exposições coletivas.
Participa de uma mostra de telas com o português Amadeu de Souza-Cardoso,
no atelier deste último, em 1910. Dois anos depois expõe no Salão de
Outono, juntamente com dois outros escultores. Nova exposição, em 1917,
ao lado de Picasso e alguns mais. Pequenas mostras coletivas. E uma única
exposição individual: a mostra de seus nus, em 1917, na galeria Berthe
Weil, graças ao empenho do poeta e marchand Léopold Zborovski, um de
seus mais dedicados protetores.
A exposição provocou um natural escândalo.
Modigliani punha à mostra uma série de mais de vinte nus, alguns deles
revelando os pelos pubianos. Na verdade, desvelava dois aspectos: o
desnudamento do olhar e a irreverência diante dos temas tipicamente
abordados por sua época. A cidade luz era tão conservadora quanto
qualquer outra província do planeta. Os pelos nus das modelos de
Modigliani faziam cair por terra toda aquela fanfarra estética de luz,
sombra, cor, princípio de composição e construção de uma nova
realidade, cópia ou não cópia do real etc. Modigliani dizia que as
personagens de Cézanne, "como as belas estátuas antigas, não têm
olhar". Descobriu na pupila uma exímia forma de contestação da
moral reinante.
Críticos de Modigliani dizem que seu alcoolismo ou
o vício em haxixe foram empecilhos da aceitação de seu trabalho.
Modigliani adorava beber enquanto pintava. Tinha uma personalidade
fustigadora, de se entremear pelos olhares das pessoas, buscando seus
sinais de humanidade. Uma saúde precária, uma sociedade ainda mais precária.
Não buscava formas e sim expressões humanas. Já havia adquirido as
formas de seu dizer. Cantava quando pintava. Era um homem tomado de urgências.
Pintava e bebia exaustivamente. Nada que seu tempo pudesse lhe dizer
importava tanto quanto o que seguia lendo nos olhos das pessoas que
pintava. Havia um largamente tradicional equívoco em relação
ao corpo. Seu sentido de movimento e conseqüente erotismo foi ressaltado
por Modigliani. Ao expor uma indecente carnalidade buscava mais do que o
escândalo em torno dos pudores disfarçados da época. Modigliani
revelou, no traço, na singeleza com que buscou o delineamento de seus
retratos, e na significação do olhar de seus modelos, uma essencialidade
do corpo, ou seja, uma carnalidade essencial à filosofia. Definiu assim
uma erótica, em contraponto a um brutal preconceito carnal existente. Foi
naturalmente considerado obsceno. Situou a importância do corpo antes que
surgisse sua aceitação por vias freudianas.
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Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta e ensaísta. Um dos editores da Agulha. Visite: www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm. Página ilustrada com obras do artista Amedeo Modigliani (Itália). |