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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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Almada Negreiros e o desígnio do claro Sérgio Lima
Além de uma abordagem formal, mais do que uma datação,
em sua aventura do revolucionário ao restaurador, vemos um desígnio
explicito de destino, de destinação na cunha do pessimismo que perpassa
por toda uma dita nova, cuja negação reenvia diretamente ao propósito
do Romantismo. Sabe-se que as duas utopias modernistas, o Simbolismo e o
Surrealismo, fazem com que vigore no período modernista o esgar radical
do Romantismo. E Almada vem diretamente do Simbolismo e seu anarquismo
finissecular, sendo participante ativo dos vanguardismos dos anos 10 em
mais de um diapasão. Caso entendamos o Romantismo não como escola literária
ou apenas estilo artístico, nem redutível a devaneios ou a uma efeminada
posição contra-revolucionária e passadista, mas sim como visão de
mundo/Weltanschauung – e visão de mundo originária da segunda
metade do século XVIII que vigora até ao presente, pois fenômeno específico
da cultura da época Moderna –, creio, com tal abordagem, pois, podermos
aclarar algumas das coordenadas mais ocultadas e pertinentes ao curso
singular da obra plural de Almada Negreiros. Procuremos seguir a ótica articulada por esta
proposição, a de uma raiz romântica em contramão da modernidade,
foco que se fazia presente em vários autores e que, recentemente, Michael
Löwy e Robert Sayre formalizaram em Revolta e melancolia (O Romantismo
na contramão da Modernidade). Estudo e pesquisa histórica, a partir de uma concepção
marxista-dialética, que vem corroborar de modo categórico o ângulo aqui
proposto. Tal foco analítico fizera-se presente, em graus diversos, nos
principais críticos e historiadores das rupturas e transgressões do período
Moderno, desocultando certas linhas significativas. Para nos atermos aos
mais recentes, basta listar as contribuições de Lukács, Benjamin,
Bloch, Péguy, Marcuse, Brown ou Lefebvre. Acrescentemos, também sublinhado no estudo de Löwy
e Sayre, as tentativas diversas dos pensadores anteriores e dos críticos
para precisarem o fenômeno do Romantismo, visceralmente incompatível com
as classificações redutoras (da mesma maneira que uma apreciação
formal das pinturas do Simbolismo ou do Surrealismo não conseguiram
estabelecer uma categoria estética única para tais movimentos, seus
pontos em comum passando por outra ordem de fatos que não o dos estilos). Löwy e Sayre acrescentam à sua hipótese a avaliação
dos dois tipos mais característicos do espírito romântico, ou
desse estado de espírito que se denominou Romantismo, pois que divergem
entre si, a partir do mesmo mal-estar causado pela civilização modernista,
isto é, o que se chamou de melancolia. Teríamos assim o dito Romantismo
revolucionário-utópico e o Romantismo restaurador-tradicionalista,
adversários entre si, com vertentes distintas senão opostas. Frutos que
são de um mesmo mal-estar e de uma mesma recusa (a dos
progressos, a da perda da natureza e seus valores, a da moeda como único
valor do reino da quantidade, a da perda da alma substituída que
fora pelos produtos etc.), embora contrários, como dissemos, possuem um
mesmo ponto de partida: a contestação dos modernismos. Contestação que, por sua vez, assume sentidos
distintos, segundo as duas vertentes. Embora ambas reenviem ao período
anterior ou a um período anterior ideal, perdido por culpa e obra dos modernismos
e suas pás-de-cal sumárias. Enquanto a vertente do Romantismo restaurador
volta-se para o passado, de forma reformista, reacionária ou somente
passadista, para um pretérito pois, para aí restaurar seus valores
(quase que em um efetivo anacronismo), a vertente do Romantismo
revolucionário rearticula esta volta ao passado em termos da
reatualização do mesmo e de sua projeção no futuro, do hoje
para frente. Neste segundo caso, trata-se de uma volta pelo passado em
direção ao futuro, em uma nova e revolucionária reapresentação do
mesmo, ou como queria Rimbaud, em uma perspectiva absolutamente moderna.
Ou ainda, em um projeto comum de transformar o mundo (Marx) e mudar
a vida (Rimbaud), como assinala o Surrealismo.
Assim, volta pelo passado em direção ao futuro,
em uma espécie de dialética do processo da busca, em toda sua
acepção oriental e/ou cifrada. O conhecimento que a preside, e a
arte não sendo mais que um meio de ampliar o conhecimento
(Duchamp), opõe-se por definição ao discurso, ao oficial,
ao cânone, plástico ou outro, resultando disto que arte/conhecimento
pressupõe e implica formação (dar forma, deformar, e a imaginação
das matérias), sendo que o caminho a ser feito é sua conquista – que
principia pela conquista da liberdade, divisa ímpar do Romantismo.
Não é por acaso ou mera identidade formal que André
Breton houve por bem declinar em todas as suas letras que o Surrealismo é
a cauda do cometa (do) Romantismo, e sua cauda mais apreensiva e
mais atual, sublinhando ainda, desde as páginas do Second
manifeste que … (o Romantismo) dont le Surréalisme veut bien
passer historiquement pour la queue… qui commence seulement à faire
connaître son désir, através do Surrealismo mesmo. De outra parte, é de conhecimento público a plêiade
de nomes do Simbolismo que o Surrealismo reclama para si, enquanto
prenunciadores de sua perspectiva revolucionário-utópica. E perspectiva
para a aventura do humano. Cabe frisar dois detalhes.
Primeiro: enquanto o Romantismo mantém em seu ponto
de partida um acento religioso, o mesmo conservado pelos simbolistas, por
exemplo, no caso do Surrealismo temos a particularidade de ser, segundo
Walter Benjamin, uma iluminação profana. Ou seja, a introdução
de um sentido extra-religioso do sagrado veio a se constituir em um dos
aportes significativos do Surrealismo ao período Moderno, com sua linha
do coração e o erotismo que o enverba desde o fundo. Segundo: em todos os percursos sob a ótima romântica,
seja desta visão característica da cultura moderna européia, têm
ocorrido deslizamentos de seus nomes e artistas, de um pólo político
para outro, ou seu oposto: desde os primeiros nomes do Romantismo vários
passaram de uma posição revolucionária para uma reacionária, ou
restauradora, quase sempre vinculados aos ditamos religiosos da ordem
e do que hoje chamamos posição da direita, onde o nacional,
o patriótico, a família, a igreja e a tradição
constituem pontos cardeais; e vice-versa: vários artistas e nomes da direita
passaram para a esquerda (ou catástrofe), onde se incluem
dos revolucionários aos místicos e messiânicos, mais anarquistas e seu
auge fin de siècle. (Assinalemos que nem sempre, no coração,
prevaleceu uma fidelidade à Poesia entendida em seu caráter mais intenso
e extremo.) Ao nos atermos às coordenadas estabelecidas pela
abordagem aqui proposta, verifica-se que a perspectiva apocalíptica
cara ao pensamento tradicional, e que identificamos na vertente
restauradora, teria seu reverso na perspectiva utopista, que
identificamos por sua vez na vertente revolucionária (que inclui
tanto uma radicalização dialética quanto uma dissidência anárquica). Em sua iluminação, o reencantamento do
mundo pela veia romântica veio assumir formas mais radicais com o
Simbolismo e os meios do resgate da psiquê ao final do século,
passando expressamente à plataforma revolucionária com o Surrealismo e
seu manifesto. E Surrealismo, como movimento, resulta de uma tomada de
posição frente aos anos impregnados do Simbolismo, dos sucessivos
vanguardismos e do pós-Primeira Guerra.
Em sua litania, Almada já retoma o canto da destruição
proposto por Monelle (Marcel Schwob) e o premonitório Larga
tudo! (Breton). É particularmente significativa a máxima Larga
tudo! – palavra de ordem que retoma a encantantória e o pessimismo
da evocação de Monelle, de Marcel Schwob, ao mesmo tempo que
prefigura a somação radical do Lâchez tout! (1922), de André
Breton. Destaque-se o fato do poema de Almada Negreiros
constituir expressamente a cena desta convocação. E, como a
cena, esse quadro-vivo extraordinário do que apresenta, e não uma
narrativa ou seu discurso – fato que o torna mais flagrante em
sua identidade essencial com as ditas cenas de Schwob, e seu
simbolismo e seu transe de volúpia, sua hysteria da beleza, sua
transgressão. (Schwob foi um dos mestres do poema em prosa e sua característica
baudelairiana de tableaux-vivants.) E sua denúncia do progresso,
chave dos modernismos: Tu consegues ser cada vez mais besta / e a este
progresso chamas Civilização. Tanto o Larga tudo! de Almada quanto o Lâchez
tout! de Breton são reenvios expressos a Marcel Schwob, figura
decisiva do Simbolismo – seu Le livre de Monelle (1894, reeditado
em 1903) apresenta toda uma litania dedicada à destruição e à
exaltação do momento – sem dúvida componentes daquilo que será
a beleza convulsiva no Surrealismo. Canto máximo da negação, do pessimismo, da
recusa e do reino branco (Il faut détruire pour obtenir
le royaume blanc… toute confession est une destruction), Monelle
fora seguidamente hasteada em bandeira por Jarry, Gide, Valéry e
Apollinaire, entre outros (e logo também por Vaché e Breton) –,
marcando toda uma geração de forma inequívoca com seu misterioso halo. Les
Parolles de Monelle (ou de mon-Elle?) calaram em certos casos
de forma literal, como nas injunções de Almada e de Breton. Em 1915 e
1922, respectivamente, ambos escrevem de novo a máxima derivada das
palavras de Monelle: Larga tudo!
O percurso de Almada Negreiros e seu processo múltiplo,
além de datar suas incursões nos ismos modernistas, e mesmo na
ruptura do Dada, possui mais de uma filiação. Dentre as quais uma visão
de mundo do Romantismo, em sua ligação ao imaginário e à poética
do Simbolismo. E ligação esta que ocorre em suas duas vertentes,
respectivamente. Na primeira, a do revolucionário-utópico, aproxima-o do
Surrealismo em seus inícios – caudatário que era das experiências do
automatismo (da psicanálise), das palavras-em-liberdade (do
cubo-futurismo) e de uma imagem nova (inclua-se a redescoberta do
corpo e da linguagem da transgressão, a erótica que necessariamente
ilumina o sagrado, então colocado como algo anterior, selvagem ou,
mais precisamente, extra-religioso). E na segunda, posição que
assumirá da metade dos 20 para frente, a do restaurador-tradicionalista,
aproxima-o do pensamento esotérico e das ciências ditas herméticas ou
ocultas, leia-se ocultadas. É igualmente reconhecido de
todos o grande impulso dado às Ciências Tradicionais no período que
corresponde ao Simbolismo, caudatárias que eram, por sua vez, das revoluções
do Amour Courtois e das romanças, ou da legião branca cantada
por Dante – aos P.R.B. (Pre-Raphaelite Brotherhood) e dos nabis. Em
uma linhagem que inclui o St. Simonnisme e o fourierisme. Não
por acaso o grupo formado ao redor de Gauguin-Bernard-Sérusier vem se
autodenominar de profetas (nabis), a partir, por sinal, do
quadro Bois D’Amour.
Almada Negreiros dava continuidade a seu caminho e
suas procuras, em um singular percurso que também atravessa o modernismo
português e suas etapas. Percurso cujo ápice não deixará de
coincidir com o ver (plástico) das artes, enquanto conhecimento
cifrado – a ser revelado, como diz em invenção do (dia) claro, na
Revelação da pintura. E seu desígnio. Caso relacionemos a questão do erotismo com
a do objeto, ambas engastadas no próprio âmago da proposição
surrealista da beleza convulsiva – uma das contribuições que
data o período em que se inaugura sua discussão no seio do Movimento -,
compreende-se o quanto o espírito novo vinha implicar uma linguagem
nova. Beleza convulsiva que tinha no instante, por exemplo, da parada
do flagrante do gestual flamenco uma de suas imagens características
do momento, do instantâneo ou explodente-fixo. Linguagem
essa que não mais se articulava em uma eventual topologia ou em
uma variação de deslocações e permutações apenas – mas sim em uma
específica tropologia de fundo. Vaga donde emergem tanto o desejo
(e o homem do desejo) quanto uma nova revelação, ou mesmo, a
rigor, um verdadeiro descobrimento: visão e mundo novo. Entretanto, a pouca
realidade dada estava tomada, ocupada por um parti-pris da
continuidade e do continuísmo unidimensional, linear ou, digamos, de mão
única: um mundo de fragmentos e alegorias. O não às concepções do
dualismo vigente, resgatava a perspectiva do humano e sua múltipla experiência,
sua polimorfa e maravilhosa instância primeira. Em mais de um aspecto, o reaver
a inocência, da ingenuidade e do primitivo, inscreve-se no retorno
pelo passado, em direção ao novo, ao espírito novo e à sua
animação. Operação regida pelo olhar selvagem, como lembra o
Surrealismo, desde 1925, quando André Breton começa a publicar Le
Surréalisme et la Peinture, na revista do grupo. Duas décadas depois, Almada retornará a esta petição, a esta invocação de mais luz: publicando em 1942, o Prefácio ao livro de qualquer poeta (na revista luso-brasileira Atlântico, número 2). À época, já voltado para o seu projeto maior do VER, Almada retoma a seu modo os pilares que fundamentam, que constituem o que chamamos de Poesia – e que de certo modo corrobora o ângulo que adotamos nesta apreciação do seu período inicial, senão decisivo. Destacamos, pois, no dito Prefácio…, as abordagens com que circunscreve certos paralelismos: – os poetas e os versificadores (Basta de Realidade que se meta pelos olhos dentro! Agora é a vez de Ela ficar espantada connosco Poetas!); os poetas e os aventureiros (O aventureiro é um libertador, o Poeta é o liberto nato. O Poeta é o único que nunca esteve na bicha da Liberdade. A Liberdade é Ele, a Poesia!); cita expressamente Santa Teresa d’Ávila (uma das primeiras a praticar o automatismo) e mesmo reenvia a Rimbaud, com a Apologia da arte sobre o joelho; em outra passagem, questiona: Por que será a recitação a maneira menos indicada para comunicar Poesia? A Poesia não aceita intermediários. É directa. (…) Acto puro. Filha do momento. – Momento esse já exaltado por Schwob como vimos, e outros mais. E reitera também a questão do Sonho: o sonho é a grande prova do fenômeno pessoal da individuação: no sonho atingimos o que ainda não somos! Etc. Note-se que um apelo como aquele que encerra seu Prefácio… – Reaver a inocência: ex-libris de José de Almada Negreiros Pintor – fora imeditamente precedido pela valorização do misterioso, do mistério ou do conhecimento. Como disse Almada: É conhecimento verdadeiro a ingenuidade, e esta não serve a quem busque saber. A ingenuidade é o resultado de nos termos abandonado asceticamente à nossa simpatia. É por simpatia que surgem as faculdades mágicas do mistério exatamente em Nós. (…) Se se é tão curioso de aprender, por que não se é também de desaprender?! |
Sérgio Lima. Poeta e ensaísta. Contato: scflima@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Almada Negreiros (Portugal). |