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Os viventes (novos e antigos)
Carlos
Nejar
Não sei a que ponto deponho
sobre minhas criaturas, ou elas sobre mim. Não importa. Não deixa de ser
uma forma de ficarmos sós com aquilo que amamos, assim pensava
Novalis. Ou de expandirmos o que amamos para o mundo.
Em julho de 1967, nasceu o
primeiro vivente, na pessoa de Francisco Tesser, vereador de pássaros,
que encontrei, em Guaporé, Rio Grande do Sul. A partir dele, criei O
anel do vento (espécie de apresentação teatral) e vieram poemas
aos filhos, amigos, poetas, seres bíblicos, alguns benditos e outros
danados, seres que se inventam e que me foram pelo caminho inventando. Os
últimos a brotarem nessa leva foram Damuel Patriarca e Augusto
Parreira, malandro de muita fé, aparecidos em outubro de 1978. E o
livro saiu no ano seguinte, pela Nova fronteira, com 66 personagens e
excelente acolhida, tanto da crítica, quanto do público, pois logo se
esgotou a edição. Sobre o livro, assim escreveu Carlos Drummond de
Andrade, no ano de sua saída: Estou circulando entre Os viventes e
sentindo o calor existencial, a vibração humana que ele contém e
distribui. É obra que, sucedendo ao canto anterior e antecipando o canto
que continuará extraindo de sua mina poética, nos dá um belo exemplo de
permanência e invenção contínua.
E
bem previu Carlos Drummond. Em janeiro de 1980, recomecei esse paciente
trabalho e novos seres surgiram, tipos, sonhos de nossa atribulada condição
humana. O anel do vento ficou intocado. Houve a inclusão de novos
capítulos ou livros (dentro do livro), na medida em que poemas tomavam
rosto, tais como: A casa dos nomes (onde se enxertaram os viventes
familiares, amados e os mais íntimos); A arca da aliança, com as
criaturas emanadas do Velho e Novo Testamento, todas ganhando voz,
entre experiências e revelações, tendo acrescentado, apenas nessa
parte, 25 personae; Os ofícios divinos e terrestres, desde O
médico de campanha, Eugênio Taylor até Arão, o peixe, entre
outros, trazendo à baila mais 22 seres, além dos já existentes. E em Baldeações,
misturei os mitos (Narciso, Sísifo, Tântalo, a jovem Parca, Caronte) às
criaturas da história (Ovídio, Napoleão Bonaparte, Dante e algumas de
suas imaginações, Pablo Neruda, D. Fernando VII, Giordano Bruno, Nicolau
Copérnico, Luís de Camões, Borges…) ou às criaturas da arte, pintura
e escultura (Os bufões de Velásquez, várias figuras de Goya, Corot,
Rodin, Camille Claudel…), ou aos servos da fereza, maldade,
espanto, poder, amor, usura, sovinice, cumplicidade, literatice, preguiça
ou insânia. Sem esquecer O último pampeano (sobrevivente da
Guerra dos Farrapos), os constituintes, os moratórios, os cassados ou
fantasmas civis, os vitimados das guerras (do soldado desconhecido aos
designados heróis), Públio Orégano – o ditador, o garimpeiro da Serra
Pelada, ou o Robinson da Silva Brasil Crusoé, perfazendo mais quarenta
personagens, além dos anteriores. Adicionei um coro, o coro dos viventes,
para que todos, unidos na palavra se fizessem ouvir, reinvidicatórios,
conscientes de sua transitoriedade e duração. Pois, o que condena um
ser, a outro salva. / O que é vivo se nutre do que é vivo.
Mantive
o derradeiro capítulo do livro publicado em 1979, denominado Minudências,
inserindo A nuvem de sementes, Ode ao pampa, Genealogia
da palavra, Testamento verde e Pedra votiva. E não me
contentei com os viventes humanos, voltando ao sentido original de que vivente
é tudo o que tem fôlego, sopro de vida. Construí o Livro das
bestas e insetos, composto de trinta e três poemas, entre cães,
formigas, búfalo, baleia, cabra, águia, gato, mosca, elefante, hipopótamo,
urso, zebra, cavalo… Certo de que os animais se parecem tanto com o
homem, que às vezes é impossível distingui-los (k’nio mobutu).
Terminei minha empreitada de lucidez, perseverança e febre, apenas em
maio deste ano, decorridos 22 anos desde o poema inicial e 20 anos após a
publicação (apenas núcleo do atual volume) de sua primeira edição. No
ínterim, vaguei pelo interior do pampa, morei em Porto Alegre, vivi no
exterior, depois aportei no Espírito Santo, primeiro em Vila Velha, Vitória,
hoje, aqui, neste Paiol da Aurora, diante do mar de Guarapari, onde
encontrei Ulisses. E agora, no prelo da editora Record, ansiosos,
aguardam. Porque tudo é deste reino, mesmo que seja de passagem.
Quanto aos nomes dos viventes,
recordo-me do que salientou Faulkner: Meus personagens escolhem sempre
os seus nomes. Não preciso inventá-los. De repente os meus personagens
dizem quem são. Às vezes até durante a sua criação, mas nunca muito
depois, me declaram a sua identidade. E os nomes estão ligados ao seu
destino, como também, se carregam de qualidades, desígnios, defeitos. Ou
é somente o tempo que lhes ocupa o nome. Não me cabe julgá-los, nem
julgar por eles. Os meus viventes falarão o que calei. Ou falarão,
existindo. Sua juventude é a alma. E alma é sem idade. Como os sonhos.
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