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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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A linguagem musical de Alberto Nepomuceno Caio Sílvio Braz
Primeiro Alberto Nepomuceno não foi um músico
moderno, mas sim um compositor consciente das transformações por que
passava a música do seu tempo e o que é mais importante, um artista
atento e progressista incorporando as conquistas musicais da sua época no
seu trabalho, e em muitos momentos um revolucionário, senão vejamos: - foi o primeiro compositor brasileiro a se utilizar
da bitonalidade; utilizou a escala por tons inteiros de Debussy (ópera Abul,
1899), além de ser o responsável pelo "ingresso do Brasil no século
XX" em termos de música; - traduziu do alemão e tentou implantar no
Instituto de Música o "Tratado de Harmonia de Shöemberg", só
não o fazendo devido à grande reação dos seus colegas; - foi o primeiro compositor brasileiro a utilizar o
sétimo grau abaixado dando um tratamento sinfônico à música
nordestina; "Sesta na Rede" da "Série Brasileira, (1891);
o que foi tentado com a Orquestra Armorial recentemente; - primeiro compositor brasileiro a usar o 4º grau
aumentado na sua última composição "A Jangada" e "que
seria usado exaustivamente pela corrente nacionalista de nossos
dias".
- o responsável pela adoção do canto em português
na música erudita; bem como pelo aportuguesamento deliberado das expressões
musicais só ousado anos depois por Nazaré e fora da academia;
- o primeiro a levar para uma sala de concertos do
Instituto Nacional de Música, a música popular com Catulo da Paixão
Cearense; ousadia maior que a tão decantada apresentação de Ernesto
Nazaré no mesmo Instituto de Música, em 1922, levado por Luciano Gallet,
um dos mais fiéis seguidores de Nepomuceno. Podemos ver, sem nenhum esforço o sentido e a intenção
do trabalho de Nepomuceno. Talvez se estivesse vivo por ocasião da Semana
de Arte Moderna, que aconteceu dois anos depois de sua morte, Nepomuceno
teria seu trabalho hoje melhor reconhecido. Aliás, Villa-Lobos, o
compositor adotado por Mário de Andrade e representante musical na
"Semana de Arte Moderna" de 1922, já antes estava sob proteção
de Nepomuceno quando este intercedeu, junto ao editor Sampaio Araújo,
para imprimir as obras deste, "na época l’enfant terrible da música
brasileira e uma personalidade musical extremamente controvertida. Durante
anos, as publicações da Casa Napoleão continham na capa as composições
de Nepomuceno e no verso as de Villa-Lobos". Nos seus últimos
concertos sinfônicos Nepomuceno revela o "Concerto para
violoncelo" de Villa-Lobos, em 1919, tendo no ano anterior, afirmado
publicamente o gênio deste compositor incluindo várias de suas obras em
seus concertos, dentre outras: "Elegia" e "Marcha
religiosa". Mas voltemos às considerações anteriores, no que
concerne à utilização das formas e moldes europeus em sacrifício dos
moldes brasileiros. Pergunta-se: Que moldes? Não existiam moldes
brasileiros. Segundo José Maria Neves, a música popular continha
elementos da cultura negra e indígena, que caminhava para a nacionalização
desses elementos constitutivos, mas podemos falar em arte erudita
brasileira? No começo do século o país carecia de compositores e obras
de estruturação sólida e Nepomuceno aspirava "colocar a música
brasileira no âmbito universal" não apenas por meio de efeitos e
temas característicos, mas do conteúdo estruturado no plano tradicional
das grandes formas: Sonatas, Sinfonias…(Helza Cameu). O que se conclui
é que, ao mesmo tempo em que procurava uma forma brasileira de expressão
musical, Nepomuceno não abria mão do patrimônio musical deixado pelas
gerações anteriores, o que é de fato, uma virtude.
A "Suite Antiga", como o nome sugere,
composta dentro de forma tradicional, é citada pela crítica quando se
quer comentar a descontinuidade da obra de Nepomuceno comparando-a a
outras composições de caráter nacionalista, como a "Dança de
Negros", composta em Fortaleza (1881) e outras composições.
Primeiro não podemos deixar de ver o contexto em que esta obra foi
escrita, como prova final do curso de composição em conservatório alemão,
e depois o que aparece como "indecisões de comportamento" nos
parece, refletir esse esforço no sentido de dominar a técnica
composicional e de todo o metier da linguagem musical nos moldes acadêmicos,
e a afirmação de uma musicalidade brasileira no universo musical de sua
época. É bem verdade que esta linguagem passava por rupturas e
transformações profundas que estavam sendo acompanhadas e absorvidas por
Nepomuceno, que teve participação ativa neste processo. Seu trabalho
representou para nós o que foi Grieg, Pedrell, Smetana e Glinka para suas
respectivas pátrias.
Mário de Andrade, orientador de vários
compositores nacionalistas da geração posterior à Nepomuceno tinha
consciência de que toda a técnica composicional, a estruturação melódica
e harmônica, o tratamento orquestral e formal, é importada e dizia:
"Brasil sem Europa não é Brasil não, é uma vaga assombração
ameríndia, sem entidade nacional, sem psicologia técnica, sem razão de
ser". É intrigante a falta de atenção à obra de
Nepomuceno por parte da crítica e estudiosos em geral. Ora lhe imputam o
selo de precursor e mudam de assunto, ora comenta-se o fato de usar formas
tradicionais sem situar historicamente o fato, e por aí vai. Tomemos por
exemplo o comentário de Otto Maria Carpeaux na sua "Uma nova história
da música" quando, ao referir-se ao início do nacionalismo, diz:
"Precursor do nacionalismo no Brasil foi Alexandre Levy (1864-1892),
inspirado pelo romantismo schumanniano, cujas obras significativas, o
poema sinfônico Comala (1890) e a Suite Brasileira (1890)
ficavam, porém, por enquanto inéditas. Nacionalista de inspiração mais
moderna, pós lisztiana, foi Alberto Nepomuceno (1864-1920); sua Série
Brasileira (1897), para orquestra, foi um triunfo". Não se trata aqui de disputar quem começou
primeiro o nacionalismo, se fosse este o caso, teríamos que incluir aqui
Basílio Itiberê da Cunha, diplomata, músico diletante que compôs
inspirado na canção popular gaúcha "Balaio", "A
Sertaneja", em 1860, e pode-se tomar como marco inicial do
nacionalismo. Mas parece-nos desatenção com a obra de Nepomuceno
o fato de citar a "Suite Brasileira" como sendo de 1897 quando
esta data refere-se à estréia orquestral tendo a peça sido escrita em
1891 em Berlim. No entanto cita a "Série brasileira" de Levy na
data de sua criação, o que está correto, e considera-o precursor do
nacionalismo mesmo afirmando o ineditismo da obra. Ora, Alexandre Levy
tinha de fato preocupações nacionalistas como compositor jovem que era e
sensível às tendências musicais de sua época como podemos sentir por
um depoimento de João Gomes de Araújo: "Discorria sobre a arte dos
sons, dizendo que cada nação tinha a sua música característica e que o
Brasil um dia haveria de revelar a sua. Afirmava que para escrever música
brasileira era preciso estudar a música popular de todo o Brasil,
sobretudo a do Norte do país". Nepomuceno, por ter nascido no Ceará,
certamente estava melhor aparelhado no que concerne ao conhecimento da música
popular do "Norte" a que almejava o jovem Levy.
Para concluir gostaria de lembrar que Nepomuceno foi
a figura central da cultura brasileira no seu tempo, idealista convicto,
"o mais culto e mais capaz dos compositores do seu tempo",
ansiava por colocar o Brasil no cenário universal e o fez através do seu
trabalho "meditado, consciente, de profundidade evidente, resultante
do conhecimento dos problemas artísticos brasileiros", e como
educador, ensinando e mostrando aos brasileiros o que se passava com relação
à música. Artista refinado e de personalidade forte, Nepomuceno lutou
pelo reconhecimento dos compositores que trabalhavam no país na sua época.
Não foi somente um pioneiro, quando ousou cantar em português, ou quando
soube incorporar as conquistas musicais do seu tempo a serviço de uma
expressão artística nacional, ao tentar introduzir o dodecafonismo no
Brasil etc. Nepomuceno deixou uma grande obra que deve ser melhor
divulgada e compreendida, sem preconceitos e rotulações que sempre
diminuem e atrapalham a compreensão das mesmas, pois "não importa
onde ou quando se produzam as obras, não importa se tenham ou não
elementos nativos, não importa qual procedimento técnico se use, o
importante para conseguir uma obra artística de alcance universal é a
criação de algo que leve o selo inconfundível do pessoal, que se
expressa com absoluta honradez de propósitos e que se diga na linguagem
própria da época do autor, que contribui assim para a "consolidação
do progresso atingido pelas disciplinas artísticas através dos
anos" (Roque Cordero, compositor).
Maestro, compositor, pianista, folclorista, educador, Nepomuceno fez a sua parte. Cabe a nós, depositários do seu esforço, continuarmos o trabalho de construção dessa nossa pobre e desmemoriada nação sob a pena de estarmos sempre começando, do nada! |
Caio Sílvio Braz (Fortaleza, 1956). Compositor. Foto de AN por Eliseo Visconti. Contato: gaia@secrel.com.br. Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |