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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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Arthur Rimbaud, une saison en enfer: poesia e revelação Weydson Barros Leal
Na conferência pronunciada em 22 de novembro de
1994 durante o lançamento da edição bilíngüe da "Poesia
Completa" de Arthur Rimbaud, no Rio de Janeiro, seu maior tradutor
para a língua portuguesa – o poeta Ivo Barroso – afirmava ser
"absolutamente necessário ler Rimbaud, mas é preciso saber lê-lo".
Os leitores "hão de ver que sua poesia é a preview de sua
vida, que nela estão os sóis, as savanas, e as selvas que ele encontrou
em sua segunda etapa; que a ânsia de explorar o desconhecido território
abissínio é apenas um eco de seu anseio de desbravar o reino das
palavras; que suas investidas pelo desconhecido continente africano
equivalem aos seus arrojos na procura de meios de expressão que pudessem
revelar o Novo". Mas advertia: "Nada disso altera o valor intrínseco
de sua obra. O que conta é o que ficou, a obra em si, e nas circunstâncias
em que nasceu ou foi criada". Rimbaud morreu há 107 anos, 5 meses e 27 dias, em
Marselha, na França, aos 37 anos. Nasceu na pequena cidade de
Charleville, ao norte de Paris, em 20 de outubro de 1854. Foi o segundo de
quatro filhos que a mãe, Vitalie Rimbaud, abandonada pelo marido – o
capitão de infantaria Frédéric Rimbaud –, criaria sozinha a partir de
1860.
No colégio, logo o pequeno Arthur impressionaria
amigos e professores. Inteligente e impulsivo, num de seus primeiros
registros escritos – um texto assinado aos nove anos – questionava
assim as normas curriculares: "Por que aprender o latim? Ninguém
fala essa língua. Às vezes vejo o latim nos jornais; mas, graças a
Deus, eu não serei jornalista". Apesar das críticas, dois anos
mais tarde começava a escrever, em latim, os seus primeiros versos. A partir de 1868, quando tinha treze anos, a poesia
já lhe despertava vivo interesse. A caminho do colégio, em companhia do
irmão e de dois amigos, Rimbaud parava diariamente nas pequenas
livrarias, onde encontrava as últimas publicações parisienses, como os
fascículos mensais do Parnasse Contemporain, em que lia os poetas
do momento: Théophile Gautier, Théodore de Banville e Paul Verlaine.
Entre os 13 e os 15 anos, seu virtuosismo em versos latinos impressionava
a todos. Prêmios e láureas escolares estimulavam sua impetuosidade, e
ainda aos 13 anos, enviou em segredo ao príncipe imperial 60 hexâmetros
(em latim) para saudá-lo por sua primeira comunhão.
Sua capacidade intelectual desde cedo reflete um espírito
de estranhos impulsos, para quem a dedicação aos estudos e a superação
de seus limites lhe serviriam de libelo contra as instituições que o
cercavam – a escola e a família – e que formavam até então o seu
impaciente universo. Aos 14 anos, num registro do que poderíamos
considerar uma de suas estranhas premonições, em seu primeiro concurso
de redação escolar (onde deveria abordar os versos de Horácio) escreveu
que num sonho recebera de Febo – deus do Sol – a sentença: Tu
Vates Eris (tu serás poeta).
Façamos uma pausa nesta introdução biográfica
para observarmos agora alguns aspectos ligados aos estudos rimbaldianos.
Muito já se escreveu sobre o poeta Arthur Rimbaud.
Na verdade, nem tudo foi justo, e talvez pela própria enfermidade de que
sofrem suas biografias quanto a interpretações e à pluralidade de dados
sobre um mesmo fato, crescem os equívocos. Uma das proposições mais comuns nesses estudos,
reivindica uma análise de sua poesia independente de "apegos"
à sua biografia. Assumem riscos, seus autores, ao fecharem sobre o poeta
um foco que exclua esta visão: afinal, a obra de Rimbaud é tão
influenciada e entrelaçada por sua vivência quanto pelos montes de
livros, enciclopédias, tratados de Ocultismo e revistas literárias que
leu, na infância e na adolescência, o menino de Charleville. O paralelo
biográfico, na maioria dos casos, é até esclarecedor, pois uma análise
meramente teórica dos poemas de Une Saison en Enfer (Uma Estadia
no Inferno), por exemplo, não se explicaria por si. É preciso conhecer a
história e o espírito de seu criador para compreender, através de sua
impressionante personalidade, o sentido de poemas que se tornam quase
imperscrutáveis se relacionados apenas com a poesia anterior a eles.
Formalismo somente, não é entendimento de poesia. Um exemplo marcante da simbiose entre a vida e a
poesia de Rimbaud observa-se em 1870, durante o período da guerra entre
França e Prússia. Esta guerra, com forte ressonância sobre a pequena
Charleville, reflete-se sobre boa parte dos poemas, cartas e manifestos
que escreve. E uma vez convencido de que deveria tomar parte nas
trincheiras populares, com o dinheiro da venda de um relógio de prata ele
foge de casa, em fevereiro de 1871, em direção a Paris. Esta seria a sua
terceira tentativa – a primeira com sucesso. Paris está tomada pela
queda do Segundo Império: há desordem e fome. Durante alguns dias,
perambula pela cidade, dormindo em praças e cais. Desolado e sem
dinheiro, volta a pé para Charleville, cruzando as forças inimigas. Anda
aproximadamente 180 km, dizendo-se franco-atirador para os camponeses que
lhe dão guarida. Está com 16 anos, e um mês após o regresso, foge de
novo, engajando-se então na Comuna de Paris e estagiando numa
caserna. (São deste período os poemas Canto de GuerraParisiense, As
Mãos de Jean-Marie e Paris se repovoa). Já em maio, de volta
a Charleville, escreve aos amigos Paul Demeny e Georges Izambard as
famosas cartas ditas "do Vidente", onde explica suas novas
teorias estéticas e seu método visionário.
O ano de 1872 marcaria o início da inquieta relação
entre os dois poetas. Verlaine, recém-casado, morava na casa dos sogros,
para onde Rimbaud, a princípio, é levado. Logo nas primeiras semanas de
sua estada, tendo provocado diversas brigas conjugais, o hóspede é forçado
a mudar de endereço, sendo recebido em casa de outros poetas, onde também
não fica por muito tempo. A vida literária é agitada, e as reuniões
noturnas, regadas a vinho, absinto e poesia, agravam as relações
matrimoniais do amigo. Rimbaud é aconselhado a voltar para Charleville
– o que faz, ainda a contragosto – mas em pouco tempo, atendendo a um
chamado de Verlaine, está de novo em Paris, trazendo novos poemas. Em
julho deste ano, Rimbaud decide ir para a Bélgica – e o amigo abandona
a esposa para segui-lo. De lá, vão para a Inglaterra, onde Rimbaud
escreve seus últimos poemas em verso e inicia a composição das
Illuminations, textos que o conduzem a novos limites de sua linguagem
poética, com inspiração nos poemas em prosa de Baudelaire – "um
verdadeiro deus", segundo ele. Em Londres, problemas financeiros perturbam o
relacionamento entre os dois poetas, e no final de 1872 Rimbaud decide
voltar a Charleville. Verlaine fica só e toma conhecimento de um processo
de separação encaminhado pela esposa. Em profunda depressão, adoece no
início de 1873, pedindo a presença de sua mãe e de Rimbaud. Após um
encontro de poucos dias, Rimbaud retorna para a casa da família, onde
começa a escrever "Uma Estadia no Inferno". Em maio de 1873, os dois amigos se encontram na França,
e Verlaine convence o outro a ir de novo tentar a vida na Inglaterra. Em
Londres, novas brigas os separam, e desta vez é Verlaine quem parte.
Segue para Bruxelas, onde está a esposa, e tenta reatar o casamento. Nada
conseguindo, escreve desesperado para Rimbaud, pedindo que este venha ao
seu encontro. Em Bruxelas, Rimbaud comunica ao amigo a disposição de
separar-se definitivamente de seu convívio, e depois de uma briga,
Verlaine dispara dois tiros contra ele, ferindo-o no pulso. Preso,
Verlaine é condenado pela justiça belga a dois anos e meio de prisão,
sendo solto antes do final da pena por bom comportamento. De Bruxelas,
Rimbaud retorna a Charleville, onde termina o grupo de poemas de "Uma
Estadia no Inferno". Com dinheiro conseguido junto à mãe, imprime o
livro na Bélgica, e distribui alguns exemplares.
Mas voltemos um pouco no tempo. Em Post Scriptum
a uma carta de 25 de agosto de 1870 ao amigo e ex-professor Georges
Izambard, Rimbaud escreveu: "Em breve, revelações sobre a vida
que vou levar após… as férias…" É no mínimo curioso que
nove meses antes das duas cartas ditas do Vidente (uma ao próprio
Izambard e a segunda - definitiva para esta compreensão – ao amigo Paul
Demeny) ele já citasse "revelações" sobre uma vida
ainda planejada. Mas é nestas cartas (e mais precisamente na segunda, de
15 de maio de 1871) que seu projeto ao que chamamos de primeira
"etapa" – como define Ivo Barroso – a do poeta-criador - se
constrói. Da primeira delas, colheríamos apenas estas frases
inquietantes: 1) Serei um trabalhador… 2) Trabalhar
agora, jamais, jamais, estou em greve… 3) Quero ser poeta e
trabalho para me tornar Vidente…
A utilização do verbo trabalhar em três
situações seguidas e conflitantes revela, em princípio, um espírito
ainda indefinido, mas em processo de organização de algo a se realizar.
Esta indefinição, no entanto, é dissipada na correspondência seguinte,
onde as tortuosas afirmações dão lugar a proposições mais claras para
refletir o seu "projeto". E aqui, chegamos ao cerne do planejamento
da "primeira etapa". Escreve Rimbaud: "Afirmo que é
preciso ser vidente, fazer-se vidente. O poeta se faz vidente por um
longo, preciso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as
formas de amor, de sofrimento, de loucura; busca a si, esgota em si mesmo
todos os venenos, a fim de só reter a quintessência…" Analisemos o trecho citado comparando-o, por partes,
aos fatos que compõem este período. "Afirmo que é preciso ser
vidente, fazer-se vidente": Esta afirmação encontra reflexo no
próprio processo em que se fundamentam suas projeções. A expressão
"fazer-se vidente" traduz a idéia de preparação, de
planejamento, ou do que se espera que aconteça. "O poeta se faz
vidente por um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos":
Este "desregramento racional", ou seja, consciente, se configura
inicialmente pela perda do balizamento disciplinar da escola e da família
quando, nesta época, o poeta já decidira não mais voltar ao convívio
dos "velhos imbecis do colégio", como escreve, e ainda
inicia sua rotina de isolamentos para leitura e de fugas da casa materna.
Esta afirmativa é seguida pela explicação pormenorizada de como se
daria o desregramento de que fala. "Todas as formas de
amor, de sofrimento, de loucura; busca a si, esgota em si mesmo todos os
venenos, a fim de só reter a quintessência": Para traduzir em
fatos esta frase, cabería-nos apenas reproduzir aqui os seus períodos de
Paris, que resumem todas as transgressões, experimentadas principalmente
com o poeta-amigo Paul Verlaine, como o uso do haxixe, do absinto e do ópio
(por onde chegaria também a um "desregramento dos sentidos"):
tudo, enfim, refletindo uma busca incessante, que acabaria na retenção
de sua própria quintessência nos poemas de Illuminations e,
posteriormente, de "Uma Estadia no Inferno". (É preciso,
aqui, que os "venenos" a que Rimbaud se referia sejam
interpretados de formas diversas: os venenos das relações
humanas; os venenos de si mesmo, que ele encontraria em sua busca
pessoal; os venenos do amor e da vida…)
De toda poesia rimbaldiana, "Uma Estadia no
Inferno" é, em seu conjunto, a mais autobiográfica de suas obras.
Mais do que as correspondências de caráter visionário, os poemas de Une
Saison nos servem ainda como registros de algumas de suas premonições.
Sob o aspecto autobiográfico, é em Delírios I – Virgem
Louca (O Esposo Infernal) que se encontra, por exemplo, um
relato poético que revelaria, para a maioria dos críticos, aspectos
claros de sua relação com Paul Verlaine. Neste poema, o outro é
quem fala, num texto sempre entre aspas, pois as palavras – a despeito
de algumas controvérsias - a nosso ver seriam pronunciadas por Verlaine:
"Ele, quase uma criança… Fui seduzida por suas misteriosas
delicadezas. Larguei todo dever humano para segui-lo".
Este também é o poema em que a sexualidade latente da relação é
definida de forma mais clara: "Cheios de emoção, trabalhávamos
juntos. Mas, ao fim de penetrante carícia, me dizia: Como te parecerá
estranho tudo isto por que passaste quando eu não estiver mais aqui.
Quando não mais tiveres meus braços ao redor de teu pescoço, nem meu
peito para nele repousares, nem esta boca em tuas pálpebras. Pois força
é que um dia eu vá para bem longe".
Aqui, façamos um parêntese. Uma questão polêmica
ainda hoje nos estudos rimbaldianos, é a determinação de datas para as Illuminations
e para o que parece ser a última obra de Rimbaud, Une Saison en Enfer.
Alguns de seus mais importantes biógrafos ou estudiosos de sua obra –
como Rolland de Renéville, Jules Mouquet, Edmund Wilson e Hugo Friedrich
– concordam na desinência cronológica de Une Saison; outros,
como Enid Starkie, Pierre Matarasso e Henri Petitfils deixam dúvidas, e
alguns poucos pensam o contrário. Não nos cabe aqui provar estes
posicionamentos, uma vez que a própria Enid Starkie, mesmo reconhecendo
terem os poemas das Illuminations sido compostos em períodos
diferentes (podendo incluir o antes, o durante e o depois de Une Saison),
chega a utilizar várias páginas de seu estudo para a discussão do
problema, sem deixar, no entanto, de se antepor aos argumentos
deterministas de Bouillane de Lacoste, que em sua tese de doutorado à
Sorbonne tenta provar a antecedência de Une Saison en Enfer.
Prosseguindo nas relações entre a vida e a obra de
Rimbaud, chegamos então à "segunda etapa" de que fala Ivo
Barroso: a do poeta-empreendedor (ou, como muitos preferem, do explorador
aventureiro). Também nos poemas de Une Saison en Enfer, trechos
que coincidem com fatos ocorridos posteriormente, são vistos por alguns
de seus analistas – não sem razão – como especulações de um visionário
(ou de um Vidente), como por exemplo: "Minha jornada chega ao fim:
deixarei a Europa". Preferimos, no entanto, sublinhar essas previsões
dando-lhes um caráter mais realista, pois como ressalta Ivo Barroso,
"a partir daqui, as palavras de Rimbaud, analisadas desde nossa
perspectiva temporal, de conhecedores de seu futuro, soam verdadeiramente
proféticas. Contudo, é preciso lembrar que ele se refere aos de raça
inferior, aos proletários e camponeses cuja única via de escapar à
‘escravidão’ e à miséria era a partida para terras
estrangeiras". Esta observação é feita a partir de um fragmento do
poema Mauvais Sang (Sangue Mau), em que o poeta, num misto de projeto
e premonição, conjuga com demasiada justeza de detalhes os
tempos de um futuro breve. Vejamos o trecho, que analisado à luz de nosso
conhecimento da época em que foi escrito – época de angústias,
desilusões e incertezas – nos permite a compreensão desta
"fuga" de uma realidade que já era "espinhosa demais"
para o seu "grande caráter": "Minha jornada
chega ao fim: deixarei a Europa. A brisa marinha há-de crestar os meus
pulmões; climas perdidos curtirão a minha pele. Nadar, macerar ervas, caçar,
fumar principalmente; beber licores fortes como metal fervente. (…)
Retornarei, membros de ferro, pele queimada, olhar em fúria: a julgar
pela máscara, dirão que sou de alguma raça forte. Terei ouro: serei
indolente e brutal. As mulheres assistem esses ferozes inválidos em seu
regresso dos países quentes. (…) Por ora sou maldito, tenho horror à pátria.
O melhor será dormir, embriagado sobre a areia". Ou, mais à
frente, num pequeno fragmento de um quase desangustiar-se: "O mais
sagaz será deixar tal continente, onde a loucura ronda a prover reféns
para estes miseráveis".
Num breve resumo das viagens que empreende de 1874 -
ano em que decide abandonar a poesia – até 1880, quando parte para a África,
teríamos o seguinte roteiro: em 1874, em companhia do poeta e novo amigo
Germain Nouveau – outro andarilho, decide ir de novo para Londres, onde
aprofundaria seus conhecimentos de inglês, tendo em vista o início de
grandes viagens. Durante um ano, os dois amigos lecionam francês em
cidades da Inglaterra e da Escócia. Em 1875 Rimbaud volta sozinho para
Charleville antes de seguir para a Alemanha, onde pretende aprender o
idioma em Stuttgart, enquanto trabalhará como preceptor. Ainda este ano,
deixa Stuttgart a pé e desce até a Itália, adoecendo em Milão. Uma vez
curado, segue para Brindisi, mas de novo doente, é repatriado pelo cônsul
francês de Livorno. De volta a Charleville, recomeça a estudar línguas,
principalmente o espanhol. Em abril de 1876 está em Viena, é roubado por
um cocheiro e sem dinheiro é expulso do país. Em maio vai para a
Holanda, onde se engaja no exército com o intuito de viagens. Em julho
chega com a tropa à Batávia, mas deserta dias depois e foge a pé por
quase 200 km de florestas para o porto de Samara, de onde retorna à
Europa em um veleiro inglês. Em 1877, consegue dinheiro com sua mãe e
visita Bremem e Hamburgo, onde se emprega como intérprete de um circo,
com o qual percorre a Dinamarca e a Suécia, sendo repatriado pelo cônsul
francês de Estocolmo. Em setembro embarca em Marselha em direção a
Alexandria, mas adoecendo no navio, é desembarcado em Civita-Vecchia:
visita Roma e regressa a Charleville. Na primavera de 1878, volta a
Hamburgo para tentar emprego numa firma de importação visando ir para o
oriente, mas sem sucesso, volta a Charleville, via Paris. Em outubro segue
a pé para a Suíça; dali, vai para São Gotardo, seguindo de trem para Gênova,
na Itália. Em 19 de novembro embarca para Alexandria. Em dezembro
trabalha como capataz numa pedreira, em Chipre. Contrai tifo e volta para
curar-se em Charleville. Na primavera de 1880 retorna a Chipre, de onde
segue para o Egito. De lá, vai para Aden, partindo em seguida para Harar,
na antiga Abissínia, hoje Etiópia, "depois de vinte dias a cavalo
através do deserto da Somália". Daí em diante, são mais de dez
anos em atividades mercantilistas pelos desertos da África, onde exerce o
tráfico de armas e negocia toda sorte de materiais, dirigindo escritórios
de exportação. Enfim, em fevereiro de 1891 é detectado um tumor em seu
joelho direito, e em março ele já não consegue mais andar. Em maio, é
levado para a França, chegando muito mal ao Hospital de La Conception, em
Marselha, onde lhe é amputada a perna. É diagnosticado câncer, que já
se espalhou pelos ossos. Após a operação, Rimbaud é levado pela irmã
para Roche – a fazenda da família. As dores continuam, mas em outubro,
em companhia dessa irmã, ainda retorna a Marselha com pretensões de
alcançar a África. Seu estado piora, e aos 10 dias do mês de novembro
morre o poeta e explorador Arthur Rimbaud, aos 37 anos.
Para um melhor entendimento do espírito
rimbaldiano, não deveríamos separar o menino genial do adolescente
revolucionário, o poeta maldito do comerciante africano. Em Rimbaud, cada
um é outro, e todos são um só. Para compreendê-lo, é preciso
aceitar o poeta no Rimbaud menino, no Rimbaud jovem-desregrado e também
no Rimbaud aventureiro e mercador, que viveu sua epopéia moderna. Em
todos há, plenamente, a poesia que por algum foi escrita. Se quisermos
encontrar na poesia de Rimbaud dados puramente biográficos, podemos
retroceder até os seus poemas de infância e adolescência, que retratam
o período de fugas da casa materna, como em Ma Bohème ou Sensation;
das visitas à Biblioteca de Charleville, como em Les Assis; ou
ainda sobre fatos da vida cotidiana, como em Les Premières Communions,
A la Musique ou Les Pauvres a l’église. Todos intimamente
relacionados com a vida do poeta.
A obra de Rimbaud, em todo seu percurso, alimenta-se das cidades, dos desertos, dos venenos e do fogo que ele mesmo sonhou ou roubou de sua própria vida. É impossível enxergá-la de outra maneira sem perder o que de mais forte e latente a sustenta verso a verso. Em Rimbaud, até a forma é biográfica: o rigor métrico de seus primeiros versos identifica-se com a disciplina a que foi submetido em sua infância; a liberdade e a ousadia dos poemas em prosa, refletem as transgressões dos períodos em que os escreveu na juventude; e o silêncio ou a frieza contida em sua correspondência africana, contabilizam a matemática do explorador. Portanto, para Rimbaud, o que sempre contou foi a vida. |
Weydson Barros Leal. Poeta e ensaísta. Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |