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Patti Smith e Lou Reed: mais ecos do coração do que batidas
da rua
Luis
Bravo
O regresso de Patti Smith, com Gone again
(1996), após anos de ausência em público, mostrou uma série de
lineamentos em comum com Lou Reed em Set the twilight reeling, do
mesmo ano. similares estéticas e amizades atravessaram estes poetas órficos
ou jugulares de fim de século, ao longo de suas trajetórias: de Rimbaud
ao Punk, de Andy Warhol a Robert Papplethorpe.
Suas obras mais atuais aparecem marcadas por uma luz
titilante com tonalidades menos sombrias e mais acústicas, como ecos
intimistas de vozes que, sendo derivativas, não aspiram a congelar-se em
um niilismo paradigmático mas sim a seguir dando testemunho de suas mudanças,
de seu mundo interior e de suas óticas.
Na noite de 26 de janeiro de 1977, em Tampa Florida,
a compositora, performer e guitarrista Patti Smith caiu vários
metros do cenário, rompendo duas vértebras do pescoço. O fato marcou o
inicio de seu retiro de cena, até 1980, para dedicar-se exclusivamente a
escrever: "estava fazendo meu número mais intenso, Ain't it
strange, uma canção na qual desafio Deus a me falar de alguma
maneira. É uma parte em que giro como um dervixe e digo: Mão de Deus
sinto o dedo, mão de Deus começo a girar, mão de Deus não fico tonta,
mão de Deus não caiu agora, mas caí…" Smith pode
caracterizar-se como uma xamã, ou uma sacerdotisa punk de teatro místico,
porém o som de sua banda original (1973/79), integrada por Lanny Kaye
(guitarrista e co-produtor em Gone again), Richard Sohl, o baixista
checo Iván Kral e o baterista Dee Daugherty, foi definido por ela mesma
como "rock de três cordas fundido ao poder das palavras".
Efetivamente essa áspera textura de voz urgente vinha inspirada por duas
poderosas bandas dos anos 60 (New York Dolls e Van Der Graaf) e
principalmente por Velvet Underground (1965/69), que haviam adiantado
quase dez anos um som cru e com ênfase em letras arrasadoras, como Heroin,
escrita a sangue por Lou Reed.
Os Velvet, que tomaram ao acaso seu nome de um
manual de sado-masoquismo apanhado na rua, haviam debutado em 1965 em New
Jersey, onde vivia a adolescente Smith. Ouvidos no Café Bizarre
pelo santo patrono da vanguarda-pop, Andy Warhol, este financiou seu
primeiro álbum integrando-os de imediato ao Exploding Plastic
Inevitable, um descacharrante happening sobre rodas. Com
atitude de homem viril, lentes e roupa escura, Lou Reed incorporava
naquela época o rock que logo seria o realismo sujo no mundo literário.
Histórias de rua de violentados e traficantes, onde a magia da loucura
redime imaginariamente os adictos de Segunda geração, alucinados
vagabundos, prostitutas adolescentes, policiais corruptos, no sórdido
marco do sujo Boulevard. Esta olhadela niilista - e por momentos piedosa
-, realista porém provocativa, alarmou os observadores morais garantindo
a resistência do produto no mercado realizado do beat, e o
folk-protesto que faziam ebulição e dólares aos montes naqueles anos. A
banda foi motivo de culto (situação que Iggy Pop descrevera como
"os executivos de tua companhia não te atendem por telefone, mas
chamam por ti, muito loucos, à meia-noite"), crescendo a admiração
e a lenda Velvet entre os mais jovens artistas durante as duas décadas
seguintes. Não por casualidade, no filme Tão perto, tão longe
(1994), Win Wenders, continuando com o tema dos anjos caídos, de regresso
à terra mão, mostra Reed dando uma suculenta senha a um anjo bêbado em
uma rua de Berlim, enquanto o apalpa e diz: "tu podes", e soa em
off a linha hipnótica, monocorde, de sua guitarra. Formado em
piano clássico, discípulo juvenil do poeta Delmore Schwartz na
Universidade de Syracusa, Reed foi mito reverencial da vanguarda
sessentista, até que reapareceu como fênix após três anos de
ostracismo com o álbum New York (1988). Hoje é referência
insuspeitável dessa difícil amálgama de literatura e rock, que Smith
recolhera como um guante, para seu contundente discurso poético, prévio
ao estalido punk londrino. O caso é que esses artistas haviam
irrompido no cruzamento de épocas do princípio dos anos 70, entre o
encerramento definitivo de The Factory, base de operações que
Warhol teve que desmontar, e o traslado da cena under para o Club
CBGB, onde o rock marginal crescia, violento e expressivo, deslocando
o circuito mais Hip ou Chic da primeira onda da Pop Art.
Em paralelo, surgiam o Conceptualismo, o Minimalismo, a Arte
Povera, e um estalido de -ismos que se tinha visto desde o
princípio do século.
DEUS, OS SUBÚRBIOS, A GRANDE
CIDADE
"Realmente
não fui criada tanto nos subúrbios como em uma comunidade rural de
classe baixa. Ainda que ali me sentisse muito alienada, realmente não
sinto que as pessoas que têm certa vocação sintam-se menos estrangeira
em outro lugar. Nascemos com certo fogo e devemos viver com ele, alimentá-lo,
produzir e estar agradecidos." Eis o que diz Patti Smith,
desmistificando que o entorno seja algo mais do que um campo de trânsito
para o espírito rebelde do criador: "Penso que o que produzem os
poetas, essa coisa interna que plasmaram Genet ou Artaud, tem mais a ver
com Deus e menos com os subúrbios". Sua mãe era Testemunha de Jeová,
e o pai um não crente, de maneira que esse ^território expansivo"
entre a fé e o questionamento de um poder superior lhe resultou, desde
criança, uma obsessão estimulante. Acaso por isso sua poesia, e suas
performances, têm sido vistas como uma luta permanente com o fantasma da
fé: "Minha mãe me ensinou a rezar quando tinha dois anos e meio, e
expandiu meu mundo totalmente. Era a idéia de que, não importa o quando
aborrecidas esteja, podes ir para a cama mais cedo e rezar, o que
significa que podes falar com o Lugar Absoluto tudo o que queiras, contar
teus problemas, pedir coisas e recebê-las." Aos dezesseis anos
descobriu as Illuminations de Rimbaud e, alguns anos depois, quando
fugira da provinciana Woodbury para Nova York, a convivência com uma
"alma gêmea", o jovem aspirante a fotógrafo Robert
Mapplethorpe, lhe devolveria a mesma inspiração. De sua fuga para a
grande cidade trata o legendário tema Piss Factory (1974), no lado
B de seu primeiro single, encabeçado por Hey Joe, onde
reconta a história do seqüestro de Patty Hearst. Seus temas tomavam força
a partir de um realismo social distante do alucinatório, potencializado
pelo uso do slang local: "Piss Factory foi escrito onde
cresci, Jersey do Sul, onde não havia muito trabalho. Preferi viver nos
subterrâneos, dormir nas ruas de Nova York e buscar algo melhor para
fazer de minha vida, do que viver tratando de dividir meus centavos entre
um pouco de comida e de roupa, trabalhando nessa fábrica calorenta, suada
e de merda. Era como se uma quantidade de pessoas fosse feliz de ser gado
e nunca se rebelasse contra fazer 110º (Farhenheit) e não
houvesse sequer janelas." Assim recorda a cantora, acrescentando que
"Piss Factory nada tem a ver com o punk rock; o que é
o punk mesmo? É como se eu estivesse escrevendo algo para tornar
feliz uma quantidade de pessoas com aparência insólita? Eu escrevi isso
porque me importava com as pessoas comuns e correntes, e estava tratando
de lhes recordar que tinham uma escolha a fazer."
Mapplethorpe
e Smith apoiaram-se um no outro com uma intensa e boêmia amizade que os
levou, através da miséria, a forjar suas carreiras em uma cidade
sobrecarregada de aspirantes a artistas. Na Serpentine Gallery de
Londres - espaço do lançamento de Gone again, onde Michael
Bracewell realizou a reportagem publicada em The Guardian
(22/06/96) de onde foram extraídos os comentários de Patti Smith aqui
reproduzidos -, Smith anunciou a publicação de seu quinto poemário: O
mar de coral, uma seqüência de textos em prosa que registram seu
amor e dor pelo amigo fotógrafo, que morrera de AIDS em 1989, e após o
que sua obra se transformou em centro de polêmicas censuras e siderais
cotizações em dólares. Em 1975, a saída do primeiro LP de Patti Smith
Group (Horses, financiado por John Cale, ex-guitarrista do Velvet),
revolucionou a imagem da mulher no rock por seu lirismo de voz áspera,
sem facilismos nas letras e também pela foto da capa. A imagem captada
pela lente de Mapplethorpe inaugurava o punk-andrógino, cool e
desafiante, um glamour de confrontação que aumentou quando os
executivos de Arista (o marketing apontava: jovem soft e sexy)
viram uma fina linha de véus sobre seu lábio e ela não permitiu que
retocassem a foto. Na realidade, havia se inspirado no retrato que
realizara o fotógrafo Nadar de outro grande poetas francês… "eu
pensava em mim como uma poeta e uma performer. Não tinha dinheiro
e gostava de me vestir como Baudelaire. Vi sua foto com esse penteado e
gravata e uma camisa branca. Robert gostava de tirar fotos com luz natural
e estava tratando de captar um triângulo de luz, que se pende na imagem.
Sei que as pessoas gostariam de pensar que nos juntamos para romper limitações
de gênero e política, mas realmente estávamos demasiado ocupados
tratando de juntar suficiente dinheiro para comprar o almoço desse
dia."
DA GRANDE CIDADE AOS SUBÚRBIOS
DE SI MESMO
Em
Gone again, Smith utiliza imagens místicas que confirmam suas
declarações sobre uma maior aproximação de uma fé transcendente que a
anima a viver: "a fama é vaidade, Deus é a proximidade / erguemos
nossos braços para o alto / disparamos o chifre sagrado contra o sol /
benzemos nossos desperdícios e então já fomos...". Gone again,
que por seu ritmo percussivo gruda-se ao ouvido como uma dança indígena
com toada de cântico, significa "novamente ido", não para
outro espaço, mas sim um vôo até a interioridade, uma espécie de graça
ou celebração por reunir-se com sua própria tribo, com os seus. A referência
musical aos índios parece, com já o fora em Jim Morrison, um paralelismo
da devastação que sofre toda cultura espiritual, pessoal e coletiva,
neste processo civilizatório. O tom sossegado (salvo o excepcional Summer
Cannibals) parece responder em grande medida a essa homenagem, que
atravessa todo o disco, a seu companheiro dos últimos quinze anos recém-falecido,
o músico Fred Sonic Smith, pai de seus dois filhos e junto a quem
compôs a maior parte das novas canções. A respeito, finaliza
declarando: "Definitivamente, estou em outro plano, mas não estou
segura de que possa ser atribuído a misticismo mas sim que tem a ver com
a dor. Assim é que parte de minha elevação, se se trata de uma elevação,
tem a ver com isso. Penso em minhas novas canções como presentes de Fred
para mim. Quando morreu minhas habilidades se magnificaram através dele.
Por causa de sua morte, neste ponto de minha vida estou tratando de
redescobrir quem sou." No "Ao leitor" do livro Early
works 1970/79, Smith olhava para o passado e dizia: "Quando penso
nos anos setenta, vejo um grande filme em que atuei em uma pequena parte,
onde certamente jamais voltarei a atuar".
A partir do tema, quase intraduzível, que dá título
ao CD, Set the twilight reeling, Reed aponta também seu
renascimento para uma nova vida: "sou… uma estrela novíssima
emergindo / na algibeira do coração / na velocidade do sangue /no músculo
de meu sexo / no pleno amor despreocupado / aceito o novo homem
encontrado". A canção Negociar (que na arte da capa aparece
inscrita em seu próprio rosto) é ainda mais clara na busca de outra
lente para ver o mundo: "leva-me à janela / disse meu coração à
minha cabeça / por favor, prende-me logo / assim poderei começar de novo
/ estava tão equivocado que me parece cômico…".
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