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revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
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Um ensaio em tom de manifesto: crítica e criação, ensino e literatura Claudio Willer
Mesma coisa com relação à crítica. A seguir,
reproduzo trechos da diatribe de José Paulo Paes sobre o estado atual da
crítica literária. Cito o que Leila Perrone-Moisés escreveu em um livro
recente. Também recentemente, Roberto Schwarz deu declarações sobre crítica,
na mesma linha. Ao que parece, dez em cada dez intelectuais de renome estão
de acordo a respeito disso, de que houve uma grave queda de qualidade nas
mediações entre a literatura e seus possíveis leitores. Mas há um
detalhe, que ninguém, ao que parece, quer comentar ou discutir: A CRÍTICA SÃO ELES! Se fossem às redações,
sugerir ou explicar o que deve ser feito, acredito que seriam ouvidos.
Ainda pretendo reapresentar este texto, em separata ou capítulo de livro,
precedido por uma abertura como esta, em tom de chamamento dos
intelectuais a suas responsabilidades. 1. A DÉCADA DE 80 E O
FORMALISMO Reproduzi, em minha coletânea de poemas de Allen
Ginsberg (Uivo, Kaddish e outros poemas, L&PM,
na edição ampliada de 1999), declarações do poeta Philip Lamantia
sobre as razões da resistência à poesia Beat nos Estados Unidos: uma
escrita de natureza analógica, metafórica, não-realista, foi
praticamente interditada nesses cinqüenta últimos anos, mesmo sendo uma
prática corrente, quase um hábito na França. E, ainda: mesmo
tolerando uma vanguarda à margem - Joyce, Faulkner, talvez Burroughs hoje
- a consciência literária americana se fixou no realismo e no
positivismo. Nunca duvidei de que essa denúncia do positivismo,
realismo e cientificismo pudesse ser projetada no panorama brasileiro.
Sabia disso em 1983, quando um amigo, recém-matriculado em Letras na PUC
(Universidade Católica de São Paulo), mostrou-me o que estavam a
ensinar-lhe, uns exercícios parecidos com álgebra e lógica simbólica.
Ao bater os olhos naquelas fórmulas e diagramas, lembrei-me de quando, décadas
atrás, havia estudado e lecionado Psicologia. No fundo, a mesma coisa,
sessões de aplicação e legitimação científica dessa ou daquela
ramificação do positivismo, na versão empirista em Psicologia, nas
modalidades formalistas em Letras. Essas, reflexo do que Octavio Paz, em
1970, denominou de imperialismo da lingüística (em Teoría y
Práctica de la Traducción). E do que Alfredo Bosi, em 1978, chamou
de ostentação eufórica do código (em O Ser o Tempo da Poesia).
Surpresa: os presentes, professores da PUC,
concordavam comigo! Partilhamos críticas à instrumentalização do
ensino e pesquisa a serviço desse ou daquele modelo, apresentado como
monopólio da verdade científica. Repudiamos, todos, a troca de lugar
entre metalinguagem e linguagem, método e objeto, carro e os bois. A
questão era o que fazer, como ensinar literatura após a vigência do que
eles mesmos denominavam de cientificismo. Adiantaram, aquelas abjurações da ortodoxia? Às
vezes acho que não. Outro dia, um estudante de Letras, desta vez da USP,
ao ver algo que havia preparado sobre biografias de escritores, comentou
que, em seu curso, ao examinarem Camilo, a orientação era ater-se
exclusivamente ao texto. Não podiam associar o descabelamento de suas
narrativas, o pathos, a exasperação, a seu comportamento e dramas
pessoais. É redutor explicar a obra de Camilo por neuroses e tragédias,
mas é igualmente empobrecedor fazer de conta que não existiram. Antes
que alguém venha lembrar que tragédias pessoais aconteceram depois,
são posteriores a obras dele, direi que um tema ao qual tenho me dedicado
é o do autor como personagem de si mesmo. Os modos como realiza sua
"persona" e encarna o que leu e escreveu. Ninguém melhor do que
Baudelaire para ilustrá-lo, com sua coerência entre o escândalo de As
Flores do Mal e os cabelos pintados de verde, insultos a burgueses
etc.
A vida, lugar de encontro entre texto e contexto,
interessa ao ascender à literariedade, traduzida ou antecipada pela criação.
García Lorca haver sido mártir, poeta assassinado, está dentro
da sua poesia. Ao ler Artaud, lemos o internado em manicômios, inclusive
por ele fazer questão de nos lembrar disso. Da aura de Abissínias míticas
até os gabinetes de trabalho, passando por inumeráveis bares e casas
noturnas, permanece algo, a iluminar o que seus freqüentadores
escreveram. por isso, descartar biografias torna a leitura menos
empolgante. James Joyce por Richard Ellman ou García Lorca por Ian Gibson
são necessários para a melhor compreensão desses autores. Bons estudos
biográficos não conflitam com a idéia de autonomia do texto literário
e da linguagem. 2. A DÉCADA DE 90 E A CRÍTICA
DA CRÍTICA Tentativas de sistematização da literatura e artes
são inevitáveis e necessárias. Não é possível a criação ingênua,
a partir do nada. Na modernidade, a metalinguagem impulsiona a linguagem,
reflexão produz criação. Isso foi dito com clareza por Octavio Paz, em
seu livro de entrevistas Solo a dos voces, ao apontar a relação
Eliot-Pound como caso exemplar de diálogo entre crítico e criador: Na
época moderna, a crítica funda a literatura. Na Idade Média, a religião
funda a sociedade. Porém, desde que a burguesia fez a crítica do mundo
sagrado, o fundamento da sociedade é a crítica. O mundo do passado
estava assentado em verdades imutáveis, invulneráveis à crítica.
Agora, o fundamento do mundo é a crítica. No entanto, ao se fazer a
criação servir a um corpus teórico, de modo igual à experimentação
em relação à teoria científica, temos, não o conhecimento que produz,
mas que obscurece. Diante da insuficiência, por arcaísmo, do ensino e crítica
do tipo canônico, a solução não é injetar-lhe doses cavalares de
positivismo. Não endosso, de modo algum, críticas generalizadas
à universidade. Quem quiser abrir fogo contra estruturalismos e
formalismos, ou dirigir a mira a esse ou aquele expoente acadêmico, tem
que de apresentar propostas alternativas. Em caso contrário, o que disser
não passará de mais um chamado ao obscurantismo, à supressão do que as
universidades têm de produtivo. A propósito, vêm da área acadêmica,
feitas por scholars, algumas contribuições recentes à crítica
da crítica. Uma delas, o livro de Leila Perrone-Moisés, Altas
Literaturas (Companhia das Letras, 1998), trata da simbiose moderna
entre crítico e criador. Reexamina tendências da crítica no século XX,
esse corpus fragmentado desde os confrontos, há duzentos anos,
entre românticos e clássicos, e, há cem anos, entre
simbolistas-esteticistas-decadentistas e realistas-naturalistas.
Contudo, nesse livro há diagnósticos de crise, não
só da crítica, mas da literatura toda, que me parecem um tanto apocalípticos.
A autora chega a indagar: a literatura fundamentada em valores, tal
como concebida pelos modernos, ainda existe? Vê queda de prestígio
da criação de qualidade, da invenção: A literatura, que durante séculos
ocupara um papel relevante na vida social, tornou-se cada vez menos
importante. E, ainda: O desafeto progressivo pela literatura é um
fenômeno internacionalmente reconhecido. (...) A literatura não
desapareceu, mas recolheu-se a um canto. Haveria, portanto, crise do valor literário,
determinado com muita facilidade, e uma quantidade equivalente de equívocos,
pelo academicismo classicista, e com dificuldade pelos novos paradigmas.
No meu entender, isso não acontece em um vazio, em uma pos-modernidade
que se segue à vigência do que, acima, denominei de cientificismo. Já
estava embutida naquele momento da história dos estudos literários. Há
décadas, Gore Vidal acusava a estruturalistas, então em fase de implantação
no ambiente acadêmico americano, de jogarem no mesmo saco Sidney Sheldon
e Joyce, banalidades e grandes obras.
3. MAS, AFINAL, DO QUE É MESMO
QUE ESTAMOS FALANDO? O termo "crítica" serve para designar
desde estudos especializados até resenhas jornalísticas. Haveria,
contudo, relação entre o que se passa em salas de aula e instituições
acadêmicas, e o que sai sobre literatura em jornais e revistas? O que é
publicado nos respectivos cadernos da Folha de São Paulo, Jornal
da Tarde, O Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do
Brasil, revista Veja, isso tem algo a ver com crítica,
entendida como estudos literários, ou com o tipo de parceria na criação
comentada acima, quando citei Octavio Paz?
Outrora, jornalismo e literatura não eram
dissociados. Há pouco mais de um século, Zola e Machado de Assis
ganhavam a vida colaborando em jornais que, por sua vez, iam publicando
capítulos de suas obras. O trânsito entre ambos ainda era tranqüilo nos
anos 50-60, tempo de Sérgio Milliet e suas colaborações em rodapé.
Hoje, a área acadêmica, envolta em seus impasses, tem pouco a oferecer
ao jornalismo cultural. Este, por sua vez, merece o diagnóstico sintético
feito por José Paulo Paes, em um artigo sobre o centenário de Milliet
(no Jornal da Tarde): nas poucas resenhas de livros que a grande
imprensa brasileira condescende ainda em publicar, a auto-suficiência do magister
dixit costuma alternar com a anodinia do press release disfarçado. Imprensa, mercado editorial e universidade se
tornaram mais complexos; por isso, burocráticos. Na imprensa há de tudo:
aquilo que José Paulo Paes denunciou, ao lado de bons artigos (inclusive
os dele); pautas requentadas e outras de interesse. Seu decréscimo de
qualidade, de 1980 para cá, não deve ser imputado só a editores,
colaboradores e donos-diretores de jornais. Havia acontecimentos extra-mídia,
na sociedade, que eram estimulantes, desde resistência anti-autoritária
até a movimentação em poesia a apresentar-se como inovadora, cujos
autores, naquele momento, tinham algo a dizer. Além disso, há diferenças de escala. O mercado
editorial era menor. Lançava uma quantidade de títulos mais fácil de
assimilar em umas poucas páginas semanais. A mediocridade das listas de
mais vendidos de hoje, comparadas às de vinte anos atrás: até que ponto
isso é resultado do declínio do jornalismo cultural? Ou, inversamente, não
será o presente jornalismo cultural o reflexo de uma configuração do
mercado? Provavelmente, as duas alternativas são corretas. Mídia e
mercado se alimentam. A extensão e duração desse círculo vicioso é
indeterminável, a julgar pela promoção sistemática, na imprensa, de
vozes divergentes que não passam de perseguidores do sucesso de escândalo
obtido pelas provocações de Paulo Francis. Folheando-os, vejo, aqui, o
defensor do obscurantismo a pretexto de criticar a universidade; ali, a
legítima expressão de coisa alguma além do ressentimento; adiante, o
precioso afetado incapaz de ocultar a ausência de propostas. Devo citar
nomes? Não, apenas daria publicidade ao efêmero. Agora são estes;
antes, havia outros; e logo terão sido substituídos. Hoje, jornalismo é profissão. Jornal é parte de
corporação. A imprensa, por isso, tornou-se regrada, ordenada. Medo e
insegurança permeiam qualquer burocracia. Daí o periodismo literário
buscar legitimação em instâncias extra-jornalísticas. Uma delas, a
universidade. Outra, o mercado. Apoia-se na instituição acadêmica, pois
currículos são um aval de qualquer coisa, assim esvaziando o fértil
meio de campo que devia ser ocupado pelo franco-atirador, o intelectual não-acadêmico,
substituído por gente escrevendo para os colegas e o orientador,
mostrando que estudou a lição de casa. Apoia-se no mercado, e exibe a
onipresente propensão à banalidade, à promoção do sucesso de ocasião,
proporcional ao tratamento que a editoria de música, ao lado, dará a seu
último hit. Imprensa e universidade refletem um fenômeno
moderno, a especialização e conseqüente curricularização da vida, do
mundo. Quem pretender alguma chance profissional tem que apresentar
certificados e títulos, comprovando informação sistematizada e
institucionalizada. Cursos estão aí para ordenar o conhecimento. A
ordenação acarreta a equivalente burocratização. Diante disso,
precisamos, dramaticamente, dos personagens e instâncias da desordem, dos
desarrumadores do saber. A crítica, no sentido amplo da palavra, da qual
todos os demais deveriam ser extensões, se exerce negativamente.
Esquecendo isso, naufragaremos em uma estéril enxurrada de positividade,
normatizada por manuais de boa conduta literária. O escândalo, aí está
algo que não pode ser considerado datado, circunscrito no tempo. Ao
fazer, em palestras, o elogio da rebelião e provocação em Baudelaire,
Rimbaud, Jarry, surrealistas, Artaud, a Beat, às vezes alguém, na hora
do debate, argumenta que tais exemplos pertencem a um passado de
sociedades repressivas (seja qual for o passado, do final do século XVIII
do Marquês de Sade à década de 60 da contracultura). Penso o contrário:
esse padrão de artista radical e independente é atual e necessário. 4. NO ENTANTO, NEM TUDO É ASSIM Não acho graça em pintar quadros sombrios. Nem
chegam a sê-lo. Em primeiro lugar, a crise de paradigmas, já comentada
por vozes qualificadas, é positiva. Melhor que qualquer grade pétrea. Há
suficientes pessoas declarando-se em favor da heterodoxia e pluralismo
para que isso venha, não apenas a ser proclamado, porém praticado. Cada
modelo, formalismo, new criticism, psicanálise, o que for, pode
dar sua contribuição, se aplicado com inteligência. Nunca tive
dificuldades com o pluralismo. Ao trabalhar com Ginsberg, falei dele como
revolucionário, expoente da contracultura, e como leitor da prosódia e
poética de Pound. Idem com o Lautréamont dos surrealistas e dos
estruturalistas. Por isso, choca-me a ortodoxia.
Reconheço um parti pris, por minha principal
referência ser o excitante panorama cultural dos anos 60, marcado pela
expectativa apocalíptica de mudanças na forma de catástrofe, utopia, ou
ambos. No entanto, a contrapartida disso era o provincianismo. Nem
incomodava a imprensa mostrar maior ou menor simpatia ao que fazíamos,
pois podíamos nos dirigir diretamente ao público: estavam todos lá,
gravitando na mesma órbita. Desde então, mudou a escala de certos fenômenos.
Da crítica em jornais com dez a cem mil exemplares, passamos às tiragens
nipônicas, cem mil a um milhão de exemplares. Portanto, a outra coisa. A
diferença quantitativa, obviamente, acarreta diferenças qualitativas,
para melhor e para pior.
Algo da dispersão na quantidade pode ser enfrentado
pela administração cultural. O exemplo são experiências de ensino
extracurricular, arejando a transmissão do conhecimento em ciclos de
palestras e oficinas literárias. Promovem a formação de grupos, a troca
de figurinhas, algo que, naquela outra década, acontecia naturalmente,
sem mediação institucional. Consciente de, por enquanto, retirar baldes
d’água de um oceano de carências, acho viável um sistema dinâmico,
heterodoxo, incluindo cursos, ciclos de palestras, debates, depoimentos de
autores e oficinas. Da minha perspectiva, como administrador cultural, não
vejo essa ameaça toda ao valor e à própria literatura. Há crise, ou
crises, porém localizadas nas instâncias mediadoras: ensino e produção
teórica, mercado editorial, jornalismo. A resposta a ela está na
quantidade e interesse do público presente a palestras, leituras,
oficinas. Crise cultural, e, por extensão, da crítica, não
acontece por falta de neurônios e informação, mas, principalmente, por
falta de recursos. Para ser claro: quando preparei uma coletânea de obras
de Artaud, em 1983, examinei uma edição norte-americana, aquela
preparada por Susan Sontag, dez vezes maior. Na abertura da edição,
agradecimentos às instituições que a haviam patrocinado. É óbvio que,
dadas as mesmas condições para sobreviver enquanto produzia, faria algo
dessa dimensão. Em resumo, muito do que falta, e do que faz falta, em matéria
de alternativas ao marasmo e falta de perspectivas, apareceria se houvesse
mais recursos, sob forma de bolsas não-acadêmicas e subvenções, através
de instituições mais ágeis e modernas, em favor da cultura. Haveria incompatibilidade entre o chamado que fiz à
rebelião radical, e o apelo ao patrocínio, público ou privado? De modo
algum. Basta ler a biografia de Baudelaire. Mesmo condenado e censurado,
acabou recebendo subvenções governamentais, adiantamentos de editores e
pagamentos por artigos na imprensa, que minoraram sua miséria e lhe
permitiram avançar na criação. Houvessem-lhe dado mais, e teríamos
mais textos explicando, profeticamente, o que é modernidade, como o
maravilhoso se realiza nas cidades, porque a obra de arte é um sistema de
relações e não uma representação, e a criação é um produto da
imaginação ativa e não a cópia da realidade.
Temos mecanismos de subvenção para teatro e
cinema, e entendo que poderia haver mais ainda. Porém, considerando que
palavra é mediação fundamental, constitutiva da cultura, deveria haver
mecanismos equivalentes em favor do livro, da literatura, de idéias.
Fala-se, com razão, da importância da educação. Pois bem: favorecer a
palavra escrita faria, rapidamente, subir o nível educacional. A
quantidade e qualidade do investimento em livro e literatura podem definir
o futuro deste país. A inteligência não pode continuar entregue ao
miserabilismo oficial e à burocracia das corporações. Essa é uma
grande questão política, da qual a sociedade deve ser sensibilizada. Se insisti na carga de negatividade inerente à boa
crítica, insisto, com igual ênfase, na positividade do trabalho em favor
da cultura. Problemas de crítica e administração cultural são aspectos
da mesma configuração. Mudaram, nas últimas décadas. Contudo, as soluções,
ou, ao menos, as propostas a apresentar, são quase as mesmas. NOTA |
Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm). Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |