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revista de cultura # 30 - fortaleza, são paulo - novembro de 2002 |
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A língua portuguesa na poesia portuguesa de hoje João Barrento não és mais do que as outras, mas és
nossa, O meu título vem de um poema recente de Vasco Graça Moura,
"Lamento para a língua portuguesa", que tomarei como texto de referência a que
sistematicamente regressarei, e que me serve desde já para perspectivar o tema e o ponto
de vista que me orienta. Nesse longo poema, incluído no livro uma carta no inverno,
Graça Moura assume o duplo papel de observador e utente da língua (um utente muito
especial, como veremos), para constatar, primeiro, o estado "destroçado" a que
chegou a língua portuguesa, e depois afirmar a vontade de, apesar de tudo, se servir
dela, do que dela resta e do muito que nela existe soterrado, em latência, como fonte que
alimenta um outro uso possível, factor permanente de renovação e de conservação da
memória da língua, e que é o seu uso poético.
É este duplo movimento que a mim me move também aqui: um movimento pendular que nos pode levar, através da poesia contemporânea, do "estado real" da língua em vários momentos da sua história recente para aqueles outros espaços de uma utopia concreta da língua - do poder de linguagem que em cada língua, neste caso a portuguesa, permanente e diversamente se actualiza. Um desses espaços - que, num mundo avesso à palavra como o de hoje, vem minguando a olhos vistos, tornando-se, na sua eficácia, aparentemente mais ideal do que real - é o da poesia. Em muitos dos seus melhores representantes, desde Nemésio, O'Neill ou Sena, e até Graça Moura, Armando Silva Carvalho ou Luís Filipe Castro Mendes, a questão da língua e a consciência dela ganham contornos palpáveis, tornam-se objecto de reflexão em muitos poemas, espelho de um estado de coisas mais vasto, muitas vezes visto como deplorável, mas também motivo de um orgulho ou de um entusiasmo que o meu título, só por si, já evidencia. A língua surge, assim, quer como suporte específico de uma obsessão com a palavra (poética) e a responsabilidade do poeta, quer naquela dupla valência que antes sugeri, e que tanto pode fazer da língua casa e pátria, como estigma e lamaçal. Em Graça Moura, esta dicotomia está expressa nos dois versos que dizem: "ruiu a casa que és do nosso ser / e este anda por isso desavindo". O grande polemista e crítico da linguagem austríaco Karl Kraus cos-tumava dizer: se a língua está em ordem, o mundo está em ordem. Diz-me como falas/escreves/lês, e dir-te-ei quem és/como és/se és (ou se já estás morto). Este genial autor vienense conta, a este propósito, uma pequena história exemplar: "O censor cortou-me uma passagem que tinha por título: Assim vamos vivendo. Eu perguntei se - sem prejuízo da verdade - a autorização de publicação seria eventualmente mais fácil se o título fosse: Assim vamos lendo. Mas ele achou, e com razão, que era a mesma coisa." A língua é, de facto, um espelho, e não apenas daquele que a usa - ou julga que a usa: na verdade, como Kraus dizia da linguagem do jornalismo, objecto privilegiado da sua crítica, não temos a língua, é ela que nos tem, sem ela esboroamo-nos, porque a língua, escreve também Graça Moura, é "memória, música e matriz". Mas a língua é também espelho do mundo e da visão que dele se tem. Isto é coisa sabida, pelo menos desde que Wilhelm von Humboldt proclamou a relação indissolúvel entre linguagem e imagem do mundo, se não mesmo desde o Crátilo de Platão. Não é, no entanto, pelos caminhos da filosofia da linguagem que quero seguir: o que nos ocupa - e preocupa - é a língua portuguesa, o seu "estado real" ("refugo e cicatriz", nas palavras do meu poema de referência) e, por contraste, as reais potencialidades de criatividade e regeneração de que dispõe, nomeadamente nas mãos dos poetas, que da poesia fazem casa, ser e pátria. Eugénio de Andrade dizia há algum tempo, ao receber o Prémio Vida Literária, que o lugar por excelência do "génio da língua" é a poesia, esse "pequeno artesanato" que é um "trabalho no escuro" (porque desce ao inconsciente da língua), mas cujo prazer é de ordem física. Eugénio está a falar de qualquer coisa a que eu próprio, numa crónica intitulada "As palavras sem corpo" (de que me permito citar uma passagem do início), chamava o "corpo das palavras": "quase ninguém repara nesse corpo, à maior parte das pessoas nem lhes passa pela cabeça que tal coisa existe. Cada vez mais as palavras se vêem esmagadas ou abastardadas, no seu lado corpóreo e sonoro, numa certa nobreza de porte que lhes é própria, pela penetrante violência das imagens que nos submergem e transformam o verbo em verborreia sem contornos, o perfil preciso do adjectivo em mero adorno, o sopro subtil da frase num urro sem rosto [berra-se muito hoje, nomeadamente na televisão e nalgum cinema americano, e o berro é a desfiguração animal da palavra]. Ninguém tem pachorra para atentar bem num texto dito, para o seguir de perto, e muito menos para, ao lê-lo, tentar sentir nele o peso, os cheiros, a aura de uma palavra ou de uma imagem verbal (...) E no entanto, se há meio em que o corpo das palavras poderia respirar, ganhar forma plástica e sonora, a televisão é certamente um deles, talvez mesmo o melhor". Ora, na poesia a palavra apresenta-se, naturalmente, como coisa com corpo, a língua tem aí um dos terrenos em que melhor se manifesta como coisa sensível, aí, ela pode respirar e viver, fisicamente. É por isso que - e não há nisto paradoxo - nenhuma das palavras do poema é palavra de dicionário, precisamente por ter de ser palavra com corpo e com vida. O dicionário regista, fixa e amarra a linguagem. O poema leva-a para outras margens, tradu-la para um sujeito, liberta-a. Os poetas sabem desse outro rosto da língua. Usando, num poema em prosa de 1972, a metáfora da língua-como-ilha, Natália Correia escreve sobre este quase choque entre dicionário e poema: "...Não vos digo nada de novo dizendo que o dicionarista é o homem graduado pelo terror da língua absoluta, esse silêncio que o poeta ouve por um prodígio de acústica vascular...". Já David Mourão-Ferreira, poeta como poucos impregnado deste sentido corpóreo da língua, nos deu, numa das estrofes de um célebre poema, essa intuição (ou certeza) da força de regeneração da língua no poema, fénix sempre renascida das cinzas do dicionário - terrível imagem, reconheço-o, para alguns utentes especiais da língua, como os tradutores. Mas David sabia do que falava nesse poema ("Interior") de Do Tempo ao Coração, quando escreve: "É bom lançar ao fogo um velho dicionário / É bom o crepitar das palavras antigas / Adivinhar quais são as que por fim renascem / e que sabem voar ao sairem das cinzas (...)". De forma ainda mais lapidar dizem esta consciência do corpo da língua, por exemplo, os versos do poeta brasileiro Manoel de Barros, versos que são, aliás, fruto do "delírio frásico" encontrado no caderno de um canoeiro do Pantanal, e que o poeta ordenou num ciclo de poemas a que chamou "Os deslimites da palavra": "Eu escrevo o rumor das palavras. / Não sou sandeu de gramáticas". Outro exemplo poderia ser o do poeta do discurso crítico que foi Roland Barthes, ao reconhecer que no poema, e particularmente no poema de amor, a palavra quer ser irrepetível, não manipulável, inútil, plena e unicamente performativa: "Ainda que se diga milhares de vezes, eu amo-te não entra no dicionário". Ou seja: há língua e língua, várias línguas na língua. Quando Vergílio Ferreira escreve, em Espaço do Invisível (V), "Da minha língua vê-se o mar", pode estar a falar da língua portuguesa como varanda para um modo de estar na História e, depois, de ser no mundo, que foi o nosso como povo e cultura cujo devir se revelou indissociável de uma língua, ou vice-versa. Mas poderia também, como poeta na língua que é, estar a falar de si próprio, da língua dos seus próprios textos, ou de todos nós, os que a usamos. Aliás, o contexto em que surge aquela frase cobre um espectro amplo de possibilidades, desde logo dado pela sequência determinativa dos pronomes ("Uma" - "minha" - "nossa"): parte do universal, encaminha-se para o particular e conclui num registo colectivo: "Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação" (Espaço do Invisível, V). Ruy Belo acrescentará a essa palavrinha "mar" uma outra, igualmente palavra com corpo, para dizer que de mais não precisa: "Ora eu que no fundo / apesar das muitas palavras vindas nas muitas páginas dos dicionários / bem vistas as coisas disponho somente de duas palavras (...) // Não sei se gosto mais do mar / se gosto mais da mulher. / Sei que gosto do mar sei que gosto da mulher / e quando digo o mar a mulher / não digo mar ou mulher só por dizer (...)".
Poderá a voz do mar ter sido a da nossa inquietação, como quer Vergílio Ferreira. Mas não foi certamente a da nossa tragédia, pese embora a Torga, que gostava de ver no mar, "enganosa sereia rouca e triste", a fonte de um nosso destino, para ele louco e trágico: "Terra-tumor-de-angústia de saber / Se o mar é fundo e ao fim deixa passar / (...) (A fome e a sede só virão depois, / Quando a espuma salgada for caminho / Onde um caminha desdobrado em dois)". A nossa condição nunca foi trágica. Os poetas portugueses, mesmo quando mergulham no fel da sátira ou no pântano do desencanto em relação ao estado da língua - que é sempre metonímia deste nosso "país relativo" (O' Neill) - esses poetas, de Alexandre O'Neill a Jorge de Sena e de Armando Silva Carvalho a Vasco Graça Moura, têm com ela, apesar de tudo, uma relação feliz ou, pelo menos, conciliadora, e não trágica. Porque é nos poetas que a língua está "a salvo", como não pode estar por exemplo num poeta apátrida e judeu como Paul Celan, por melhor que ele a conheça e por mais que a ame. Quando Graça Moura escreve "mas apesar de tudo ainda és nossa, / e crescemos em ti (...)", está, com isso, a transformar a língua, não apenas em casa ou varanda para o mundo, mas numa espécie de útero, no que de mais íntimo e próprio existe em cada um de nós: uma raiz, um fundo identitário que, no caso português, é estável e inequívoco. O mesmo não podem dizer outros. Citei o caso, esse sim trágico, de Paul Celan, judeu romeno, escrevendo em alemão, exilado em Paris e do mundo, do qual se despede cedo. Não pode imaginar-se maior contraste com os nossos poetas, cujos "lamentos" pela língua portuguesa não vão além da elegia mais ou menos conformada, jocosa e sem consequências - mesmo quando se reconhece que a língua pouco mais é que "a miséria das palavras" (Jorge de Sena), "spray linguístico" (Armando Silva Carvalho), "mater dolorosa" (Natália Correia), "refugo e cicatriz" (Vasco Graça Moura), "impostura" (Maria Gabriela Llansol), "vocábulos de sílica, aspereza" (Carlos de Oliveira) ou "animais doentes, as palavras" (A. O'Neill). No caso referido, o de Paul Celan, poeta apátrida entre línguas e culturas, a relação com a língua, que é a "língua dos assassinos", mas também a da mãe, é, pelo contrário, sempre dilacerada, tragicamente tensa. Apesar disso, também aqui é na poesia que ela se salva, e só aí. Mas também aí ela lhe não pertence, ao poeta judeu, "porque o judeu, tu bem o sabes, que tem ele que verdadeiramente lhe pertença...?". Se Vergílio Ferreira podia falar da língua como "minha" e "nossa", para dizer que dela se vê o mar - metáfora, também para um poeta como Sophia de Mello Breyner, de um esplendor e de um destino -, já Celan escreverá até ao fim (sem nunca o escrever exactamente assim): "Da minha língua vê-se a Morte". Entre os nossos poetas contemporâneos, talvez só em David Mourão-Ferreira (mas de forma transfigurada pela (in)suportável beleza da forma), e sobretudo em Carlos de Oliveira, a língua, a língua do poema se aproxima desta imagem do poeta alemão, através de uma outra, a da petrificação: da petrificação da flor numa "caligrafia / de pétalas / e letras", com o seu "micro-rigor", "num grau de pureza // extrema, / insuportável, / quando / o poema / atinge / tal concentração / que transforma / a própria / lucidez / em energia / e explode / para sair / de si...". Apesar de tudo, floresce também, na poesia trágica de Paul Celan, na sua língua de morte e da Morte, uma flor de esperança, quando a mãe, na língua dos assassinos, diz "grão-de-lobo" e não "lupino", ou quando o próprio poeta usa essa língua para propor uma aprendizagem da vida: "Não te escrevas / entre os mundos, / ergue-te contra / a variedade de sentidos, / confia no rasto das lágrimas / e aprende a viver". Alexandre O'Neill terá porventura sido, no seu tempo e até hoje, o poeta em cuja obra a língua mais se vê apanhada naquela mansa "tragédia" colectiva a que os portugueses do seu tempo, e ele próprio, não podem escapar. Mas é tragédia sem hybris e sem réstia de grandeza ou de horror, porque "se a vida é vidinha, já não há poesia / que resista". Toda a poesia de O'Neill é uma grande elegia, espevitada aqui e ali por um sarcasmo mordiscante e certeiro, expressão do "grande Só que somos nós". No meio da cinzentez generalizada dos nossos anos cinquenta e sessenta, a língua afunda-se, prostitui-se no "paralapié" reinante, num país a rever-se na cedilha, enquanto, para alguns, "a palavra urge": "Cedilhando o cê, país, não te revejas / na cedilha, que a palavra urge". Mas esse é aquele mesmo país "pobrete e nada alegrete" em que, ao mesmo tempo, a língua pujante e acutilante entra em cumplicidade com o olhar crítico do poeta satírico: "País purista a prosear bonito, / a versejar tão chique e tão pudico, / enquanto a língua portuguesa se vai rindo, / galhofeira, comigo". Então, nesta "patriazinha iletrada", a palavra podia ser arma, a única viável, como o foi para Manuel Alegre ou para os poetas das "Notícias do Bloqueio", nesses mesmos anos. A série de "Sentenças delirantes de um poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes", inserida por O'Neil em 1979 no livro A Saca de Orelhas, culmina com o seguinte aforismo lapidar: "Resume todas as sentenças delirantes numa única sentença: / Um escritor português deve poder mostrar sempre a língua portuguesa". Deve mostrar-se a língua, porque ela é a imagem do mundo, o retrato do país: para O'Neill como para Graça Moura ("Matam-te a casa, a escola, a profissão, / a técnica, a ciência, a propaganda, / o discurso político, a paixão / de estranhas novidades..."), e também, numa visão desencantada que denuncia a situação da língua, não a salvo, mas a saque - o saque dos tiques, do desleixo, da ignorância e da verborreia -, num humorado poema-balanço de Fernando Pinto do Amaral, com o título "Zeitgeist". Nesta nossa "era do vazio" (como lhe chamou Lipovetsky), também a língua vem sendo esvaziada, entalada entre o palrar televisivo e "telemóbil" sem finalidade "[d]as conversas trendy e [d]os lugares da moda" e as renúncias a que nos obriga esta "era do Sem" que constantemente nos quer fazer crer que não nos obriga a nada. A poesia - o poeta - responde, também aqui, propondo uma relação-outra com o mundo e com a língua: uma relação de vagar, de atenção, de amor, que contrapõe à perda progressiva da língua um perder-se na língua (Sophia sabia igualmente disso, quando falava do "amor das palavras demoradas", onde mora "o nosso breve encontro com a vida"). E também Luís Filipe Castro Mendes, outro poeta da geração de Pinto do Amaral, vê a poesia como uma forma de sonambulismo activo, "para melhor nas palavras se perder", e escreve, em flagrante contraste com a língua apressada e despachada que hoje se fala: "Recolhem-se as palavras no vagar". Volto ainda a "Zeitgeist", de Fernando Pinto do Amaral, para deixar ouvir aí o diagnóstico de uma perda de consistência e de substância da língua num tempo de expressão fácil, pronta e oca: "Os meus contemporâneos falam muito / e dizem: "Então é assim", / com o ar desenvolto de quem se alimenta / do som da própria voz (...) / falam de tudo com o entusiasmo / de quem lança "propostas" decisivas / (...) enquanto saboreiam / a cerveja sem álcool, o café / sem cafeína e sobretudo / o amor sem amor, pra conservarem / o equilíbrio físico e mental. / (...) Quando contemplo os meus contemporâneos / entre as conversas trendy e os lugares da moda, / "tropeço de ternura", queria ser / pelo menos tão ingénuo como eles (...) / No entanto, / assedia-me a acédia de ficar / assim, mais preguiçoso do que um Oblomov / à escala portuguesa - ó doce anestesia / a invadir-me o corpo, a libertar-me / desse feitiço a que se chama o "espírito / do tempo" em que vivemos (...)" Estes exemplos inserem-se numa visão da língua que corresponde a um dos dois filões maiores em que, na poesia portuguesa contemporânea, a língua é um veio importante, por vezes aparente, por vezes mais escondido: chamo-lhes o filão disfórico (ou crítico: em Jorge de Sena ou Armando Silva Carvalho), um ponto de vista que tem quase sempre mais a ver com o "estado real" da língua"; e o filão eufórico (com laivos de idealismo utópico, em Sophia, ou quase teológico, em Nemésio), que se reporta quase sempre à utopia concreta da língua-outra da poesia. Os dois pontos de vista convergem, uma vez mais, no final do poema que tomei como referência, o "Lamento..." de Graça Moura, quando ele escreve: "no teu próprio país te contaminas / e é dele essa miséria que te roça. / Mas com o que te resta me iluminas." (sublinhados meus). Vejamos mais de perto alguns casos paradigmáticos: primeiro, os "miserabilistas", depois, alguns "iluminados".
Também "pátria" é um conceito problemático para um expatriado como Jorge de Sena. Num dos seus grandes poemas do desencanto da pátria, "Em Creta com o Minotauro", a amargura do desterro convive com o tom soberano do homem do mundo que, na sua deriva, encontra, ainda que "por acaso de gerações", uma pátria na língua - a língua de Camões, que - hélas! - o Minotauro não lê, "porque, / como toda a gente [incluindo os próprios portugueses?], não sabe português". Cito duas passagens deste grandioso testemunho do exílio e do desenraizamento: "Nascido em Portugal, de pais portugueses, / e pai de brasileiros no Brasil, / serei talvez norte-americano quando lá estiver. / Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem (...) / Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria / de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações nasci. / (...) É aí que quero reencontrar-me de ter deixado / a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia / aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque, / como toda a gente, não sabe português. / Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações. / Conversaremos em volapuque, já / que nenhum de nós o sabe / (...) Nem eu, nem o Minotauro, / teremos nenhuma pátria (...)." Armando Silva Carvalho, "primo" de Alexandre O'Neill e herdeiro confesso de Sena (a quem dedica um poema em 1969, onde se lê: "A tua língua / clara / de pedreiro cansado / unia / lentamente / os versos / que todos habitávamos."), vê na língua um animal sensível, corpo vivo, e transforma-a, como já O'Neill, em metonímia de um país. De um país em que tudo está a tornar-se "consumível" e se vai consumindo - a vida, a língua e a lírica (o primeiro livro do autor, de 1965, chamava-se Lírica Consumível). Na língua se escreve/se inscreve, para Armando Silva Carvalho, um país de três sílabas de plástico ("Por-tu-guex"), alegremente à venda, entre televisão e consumo, numa "fornicação colectiva" em que as multinacionais põem "toda a gente a emprenhar pelo ouvido" e até o bafo do poeta já é adocicado, uma orgia em que a língua pode descer à condição de mera serva da imagem, mas também exceder-se em imaginação criativa. Conhecemos hoje, ainda melhor, esta situação em que o próprio poema e a sua "nova língua" são vítimas da devastação consumista, "grotesca e gramatical / figura, / abarrotando em rima, / pronto a ser lido entre duas fatias / de desporto, aborto ou culinária". A língua é um "spray linguístico" (título de um dos poemas de Sentimento dum Acidental, 1981) e o poeta não tem outro remédio senão ceder - mas para tentar subverter por dentro os próprios lugares de corrupção da língua: "Eu vou canalizar / estes morfemas / para os mass média / entre ficções sonoras / enunciar / desgraça, / a solidão menor, / as más conotações / do sintagma saudade (...)". O país vai sendo escrito, entre sarcasmo e desencanto. Desencanto, também neste poeta, em relação à ideia da língua como pátria, sobretudo num irónico poema de O Livro de Alexandre Bissexto (1983), "Os óculos do sr. Pessoa", em que salva o autor do Livro do Desassossego daqueles que, passando por cima do seu cosmopolitismo, o querem recuperar para um patrioteirismo nacionalista: "Ouvi hoje dizer que o poeta sr. Fernando / Pessoa operou uma ruptura / com a lírica tradicional. / Diziam também que pensou em inglês nirvânico / e fez do vocabulário lusitano / a sua pátria. / Tudo isso me parece perfídia / de quem não soube olhar na rua a sua voz. / (...) Digam e propaguem isto em memória sua. / Que eu nunca fiz de coisa alguma / a minha pátria." Bem diferente é a visão eufórica, ou pelo menos idealistamente sonhada, da língua noutros poetas, como Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner ou Vitorino Nemésio. Neles, a língua é uma construção ideal do poeta, não o material de uso quotidiano, sujeito a toda a espécie de vicissitudes e desfigurações, nem tão pouco a abstracção, até hoje sem consequências reais para uma política da língua, de uma certa cegueira das estatísticas que apenas tem servido para enfeitar o discurso político da lusofonia. Algumas linhas do "Lamento..." de Graça Moura falam também disso: "(...) ficou-te o mito / de haver milhões que te uivam triunfantes / (...) mas foi noutro atrito / que tu partiste até as próprias jantes / nos estradões da história: estava escrito / que iam desconjuntar-te teus falantes / na terra em que nasceste. eu acredito / que te fizeram avaria grossa." Nas visões ideais de Sophia ou de Nemésio, a língua aparece como uma epifania ou um estado de graça. Alguns puristas sonham por vezes com uma língua intocada, uma língua que, se pudesse, se furtaria ao próprio uso para se encerrar numa redoma de cristal - talvez para aí morrer. Uma tal língua não existe, e ainda bem que assim é. Mas podemos bem imaginar, com Sophia de Mello Breyner, uma outra língua, límpida, inteira e sem "impostura", independente e senhora de si, uma língua que se elevaria, a partir do seu uso mais impoluto, como aquela "palavra alada impessoal" que a poeta ouviu um dia no teatro grego de Epidauro: "Um dia, em Epidauro - aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas -, coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim." É esta, não apenas a imagem da língua, mas a própria língua na poesia de Sophia: um eco vindo de cima, uma língua da aliança (entre os deuses, que ainda andam por aí, e os homens que os sabem ouvir), na qual "os poemas serão o próprio ar - / Canto do ser inteiro e reunido". A língua de Sophia é uma língua toda feita da luz do Ser, uma língua da duração, cristalina e eterna ("À sombra das palavras o teu rosto / Em mim se inscreve como se durasse"). É claro que esta língua é a língua de poucos, apenas daqueles, poetas ou não, "que percorrem o labirinto / Sem jamais perderem o fio de linho da palavra". Uma língua, em última análise, mítica, e da qual, para onde quer que se olhe, também se vai dar sempre ao mar - a um dos dois mares que balizam esta obra, o Mediterrâneo da luz, de onde nasce o divino ("Como o rumor do mar dentro de um búzio / O divino sussurra no universo / Algo emerge: primordial projecto.") e o Atlântico do sal que viu nascer as nossas duas revoluções maiores, distantes de cinco séculos: "Revolução, isto é: descobrimento / Mundo recomeçado a partir da praia pura / Como poema a partir da página em branco."; "Revolução / (...) Como a voz do mar / Interior de um povo." Voz interior, palavra-terra, verbo-vida, são imagens que atravessam a poesia de Vitorino Nemésio, um dos nossos poetas em quem a crença, metafísica e religiosa, na possibilidade de transmutação da palavra em Verbo está mais fortemente enraizada, em particular nesse livro abissal e denso de implicacões linguístico-teológicas que é O Verbo e a Morte (1959). Com um sentido agudamente moderno da palavra e da língua, Nemésio joga-se num xadrez sem xeque-mate, que é o da dialéctica entre palavra (humana) e Verbo (sagrado), permanentemente em tensão criativa no trabalho poético com a língua. Se, quase a abrir, escreve: "No lance do verbo jogo, / Mas, se vigio o meu lado, / A boca sabe-me a fogo / Do sentido inesperado.", logo a seguir uma segunda voz parece contradizê-lo: "Flato de voz é morte irreparável, / Só Verbo é vida: / Aquele que tenta o inefável / Fala de voz proibida."
A mesma dialéctica negativo-positiva no poema "A Casa do Ser", onde se arrisca a negação da ideia de abrigo na língua (do estar a salvo nela, da tradição judaica), à luz de uma teologia negativa da língua, muito moderna, e que deixa para trás, quer o idealismo de um Hölderlin (referido neste mesmo livro como o poeta que "tocou fímbrias de lume nas palavras",), quer a ontologia de Heidegger, o filósofo que, precisamente a exemplo de Hölderlin, viu a poesia e a sua língua como casa do Ser. Em Nemésio, a língua é casa - mas sem tecto, noite do nosso abandono existencial, abismo em que nos perdemos, interlocução permanente da Morte: "Língua, casa do Ser que lá não mora, / E, se chama, não está por morador, / Que só em nós o verbo se demora (...) // Abrigo sim, porém sem tecto, fora / De torre ou porta, os muros no interior: / (...) É a noite o seu rápido alicerce, / Enquanto Casa, que não Ser (...)". Em Nemésio a questão da língua é indissociável de um pensamento teológico sobre a palavra, que nele acontece no interior da própria poesia, e que nos levaria de volta aos domínios da filosofia da linguagem, com que iniciei este artigo, dizendo que não ia por aí. Também não concluirei nesse registo. Acrescentarei apenas que a língua da poesia, como Nemésio a entende, é a língua de uma comunicação que se quer "geral". Num texto que serviu de prefácio à edição da sua Poesia (1935-1940), é o próprio Nemésio quem estabelece essa ponte, ao escrever que "é a língua que lhe fixa [ao poema] irremediavelmente a órbita que lhe permite entrar na comunicação geral". Essa entrada, a dar-se, acontece porque a língua, para lá das distinções que vim fazendo, entre os muitos matizes do seu "estado real" e os voos da "utopia concreta" que é a sua configuração na poesia, é um bem comum, e uma realidade una na sua diversidade. Os aleijões que o uso insensato no quotidiano lhe provoca têm o seu contraponto na alquimia poética, o lado dinâmico, metamórfico, da língua. É por isso que Carlos de Oliveira tanto pode escrever um "Soneto" em que as palavras, "aço na forja dos dicionários", são dadas como bem comum ("Acusam-me de mágoa e desalento, / como se toda a pena dos meus versos / não fosse carne vossa, homens dispersos."), como sugerir que o poema e a sua língua são "coisas aéreas" em eterna transformação - embora reflectindo-se "aqui" em baixo: "... Vi / o poema organizado nas alturas / reflectir-se aqui, / em ritmos, desenhos, estruturas / duma sintaxe que produz / coisas aéreas como o vento e a luz.". E, noutro lugar: "Na poesia, / natureza viável / das palavras / nada se perde / ou cria, / tudo se transforma (...)". Uma e outra visão nos guiaram, a partir do poema-chave de Vasco Graça Moura "Lamento para a língua portuguesa". Poderia ter escolhido também um exemplo muito anterior, de Natália Correia, em que transparece a mesma dicotomia entre uma nostalgia pelo que foi a língua, e aquilo a que ela chegou no estado actual. O soneto de Natália, de 1976, tem por título "Língua mater dolorosa", e reporta-se a uma época de grande efervescência revolucionária, a que naturalmente a língua - e também, na sua truculência "tolentina", a própria linguagem deste soneto - não foi poupada, mas de cujos excessos, como quase sempre acontece, já se regenerou (para passar a ser vulnerável a outras febres e outros vírus). Eis o soneto de Natália: "Tu, que foste do Lácio a flor do pinho / dos trovadores a leda bem-talhada / de oito séculos a cal o pão e o vinho / de Luiz Vaz a chama joalhada // tu o casulo o vaso o ventre o ninho / e que sôbolos rios pendurada / foste a harpa lunar do peregrino / tu que depois de ti não há mais nada, // eis-te bobo da corja coribântica: / a canalha apedreja-te a semântica / e os teus verbos feridos vão de maca. // Já na glote és cascalho és malho és míngua, / de brisa barco e bronze foste a língua; / língua serás ainda... mas de vaca." A verve produz os seus efeitos. Mas não há razões para tanto pessimismo saudosista. Se a situação era (e é) má, para alguns mesmo deplorável - e eu não os desminto -, precisamos de uma boa dose de esperança e optimismo. Há dois anos, num Colóquio sobre "A língua portuguesa na viragem do milénio", José Eduardo Agualusa deixou a feliz ideia de que "o pessimismo é um luxo dos povos felizes". Nós somos hoje, ao que parece, um povo feliz, como nemk sempre fomos, ao menos na inocente inconsciência do nosso apocalipse alegre - um luxo que se vem pagando com a perda do sentido da História, da ética e... da língua. Mas o mal é geral. E a língua, na sua enorme capacidade de transformação e regeneração, surpreende-nos mais, e mais depressa, do que esperamos ou podemos imaginar. Por isso prefiro, até para fazer jus ao meu título, pedido de empréstimo a Graça Moura, ficar-me pelo optimismo moderado do desencanto esperançado que nele encontro, voltando aos primeiros e últimos versos de "Lamento para a língua portuguesa": "Não és mais do que as outras, mas és nossa (...) |
Filósofo, ensaísta e tradutor do alemão, o português João Barrento é um dos intelectuais mais relevantes de seu país. Tem publicado livros como A palavra transversal (1996), Uma seta no coração do dia (1998) e A espiral vertiginosa (2001). Contato: jfsb@pol.pt. página ilustrada com obras do artista Patricio Ponce (Equador). |