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revista de cultura # 30 - fortaleza, são paulo - novembro de 2002 |
Rascunho & Agulha: diálogo entre editores Rogério Pereira & Claudio Willer Jornalismo literário pode ser apaixonante? Não, responderão os leitores de suplementos de nossos grandes jornais, frios, burocráticos, universitários em excesso. Sim, responderão os leitores de Rascunho, publicado em Curitiba, Paraná, a julgar pela seção de cartas desses leitores, estuante, prolífica, com adesões entusiásticas e protestos indignados referentes aos ensaios e resenhas nele publicadas. Rascunho já ultrapassa trinta edições em três anos de existência. Lembra bastante o que se publicava há vinte anos no Brasil, no tempo da imprensa alternativa e da assimilação da sua contribuição pela grande imprensa. Isto, lembrar o que outrora já foi feito, é uma qualidade, e não um defeito desse periódico; é um dos motivos para muita gente o considerar o melhor jornal literário brasileiro, neste momento. E, conforme pode ser entrevisto na conversa com ele, preparada para esta Agulha, o que seu editor, Rogério Pereira, tem de combativo, idiossincrático, voluntarista, está diretamente relacionado a esse bom resultado. [C. W.] CLAUDIO WILLER - Você não veio do nada, ou de algum vazio interplanterário. Já fazia jornalismo antes, não é? Conte algo sobre suas origens e procedência. Apresente-se. ROGÉRIO
PEREIRA - Tenho 29 anos (beirando os 30), os
pés rumam para o altar, com a bela Cristiane. Cheguei em Curitiba, aos 6 anos, vindo do
sudoeste de Santa Catarina (meus pais eram pequenos agricultores). Dedico-me ao jornalismo
há muito tempo. Aos 13 anos, já era office-boy da Gazeta Mercantil, em Curitiba.
Antes disso, fui vendedor de flores em frente a um cemitério (muito poético, por sinal),
fabriquei móveis e matei muito passarinho nos matagais de Curitiba. Trabalhei durante
oito anos na Gazeta Mercantil. Cursei Filosofia e Jornalismo. Comecei a trabalhar
como repórter em 1996. A partir daí, embrenhei-me por várias redações. Fiz campanhas
políticas (Lerner, Taniguchi e, recentemente, Beto Richa). Ganhei algum dinheiro, fiz as
malas em 1999 e fui fazer pós-graduação em jornalismo político em Madrid. Voltei a
Curitiba. Dirigi um jornal popular (o Primeira Hora). E cá estou agora a matar
sabiás.
CLAUDIO WILLER - E como é que surgiu essa idéia de fazer Rascunho? Você
já tinha essa intenção, de fazer um suplemento literário, faz tempo, ou foi algo que
aconteceu assim, de repente, num estalo, em um ímpeto de inspiração, em uma mesa de
bar?
ROGÉRIO PEREIRA - Quando voltei da Espanha, no começo de 2000, fui trabalhar como
assessor de imprensa na Prefeitura de Curitiba, um mausoléu repleto de teias de aranha.
Lá, ficava a tecer matérias sobre ruas asfaltadas, praças inauguradas etc. Então,
resolvi escrever uma coluna de resenhas/críticas literárias no Jornal do Estado,
em Curitiba, todas as segundas-feiras. Ah! Esqueci de dizer que além dos sabiás, sempre
me dediquei à leitura e à escrita (na escola, vendia resenhas dos livros e redações
para os alunos mais vagabundos; às vezes, o pagamento era em dinheiro, outras, em
lanche). Depois de algum tempo com a coluna semanal, na "tranqüilidade" do
serviço público, resolvi juntar um bando de malucos e criar o Rascunho, pois
nunca gostei muito dos suplementos existentes. Juntamo-nos na mesa de um bar: apresentei a
idéia, fiz o projeto gráfico (em parceria com o jornalista Fabrício Binder), e
apresentei ao Jornal do Estado. Depois, muitas noites de insônia e café a cada
edição mensal.
CLAUDIO WILLER - Você partiu de alguma reflexão crítica sobre o jornalismo
literário atual, uma intenção de preencher um espaço vazio, cobrir uma lacuna, algo
assim?
ROGÉRIO PEREIRA - Isso pesou muito, mas a vontade de fazer um bom jornal literário
pesou mais. Nunca concordei muito com o tom conciliatório dos suplementos literários,
sempre jogando a sujeira para baixo do tapete. Considero os suplementos um grande salão
de baile de confraternização, um passa a mão na cabeça do outro. Pura bajulação.
Falta a discussão, o apego à polêmica. As idéias opostas são sempre bem-vindas. É
claro que a responsabilidade deve estar implícita. O que se vê por aí é um bando de
compadres a tomar chá no fim da tarde. Os suplementos literários dos grandes jornais
são o quintal para um churrasco literário, com carne de segunda e muita lengalenga.
CLAUDIO WILLER - E esses colaboradores, esse grupo tão diversificado, como você
os achou? Você procurou ou escolheu a dedo gente disposta a escrever de modo passional,
veementemente contra ou a favor algum texto ou autor?
CLAUDIO
WILLER - Suplementos culturais e jornalismo
literário têm história, grandes antecedentes - Suplemento do Estadão, o do JB, etc. É
possível especificar relações de Rascunho com esses antecedentes, comentar algum
que tenha influenciado ou servido como referência?
ROGÉRIO PEREIRA - Acho que não sofremos influência de nenhum suplemento das
"antigas". Até mesmo porque não conheci nenhum deles no dia-a-dia. É claro
que conheço a história dos grandes suplementos culturais, mas a minha idéia era fazer
um jornal que valorizasse o texto, em contraponto à frugalidade, rapidez e concisão do
jornalismo em geral. Adoro ver uma página do Rascunho cheia de letras, de idéias,
de discussão. Meu lema: entre o texto e a ilustração, mate a ilustração. Questão de
gosto. É claro que às vezes exagero na dose, mas a overdose rascunheira é benéfica à
saúde.
CLAUDIO WILLER - E de lá de fora, publicações de outros países, mencionaria
alguma?
ROGÉRIO PEREIRA - Morei na Espanha e conheço muito bem a imprensa espanhola, em
especial o El País, que mantém o excelente suplemento literário Babelia.
Lá, o texto é valorizado e as idéias são amplamente discutidas. Até acho que tenha me
influenciado de alguma maneira. Mas não sou um grande conhecedor do jornalismo feito em
outros países. Conheço-o como qualquer navegador de Internet. Clico aqui e ali e vou
descobrindo coisas.
CLAUDIO WILLER - Com relação ao presente, ao momento atual: você faria
comentários sobre os suplementos, periódicos literários e revistas atuais?
ROGÉRIO PEREIRA - Como te disse, não acompanho os suplementos e revistas de outros
países, a não ser o El País, uma paixão irresponsável.
CLAUDIO WILLER - Que tal lhe parece o atual crescimento, quando não
proliferação de revistas de poesia e periódicos literários? Teria destaques,
comentário sobre algum deles?
ROGÉRIO PEREIRA - Recebo uma grande quantidade de jornais e revistas
literárias/poesia. Há coisa muito boa, como o Suplemento de Minas Gerais e a
revista Continente, de Pernambuco. Também gosto muito da Bravo!, apesar de
seu pedantismo almofadinha. A Cult não está entre as minhas preferências, mas
às vezes acerta a mão. De um modo geral, acho que há um grave problema nos projetos
considerados "independentes", principalmente em relação às revistas de
poesia. Aqui em Curitiba, existia uma revista, que era um emaranhado de coisas, muitas
vezes sem pé nem cabeça, para agradar a certos grupinhos de amiguinhos (assim no
diminutivo). Há várias publicações editadas por grupinhos. Esse tipo de iniciativa me
parece a masturbação do elefante com o avestruz (Que fique bem claro, nada contra os
poetas fundadores; alguns muito bons, por sinal). Mas algumas revistas servem de muralha
para atacar outros grupos ou preservar "idéias" consideradas indissolúveis.
São, na verdade, frágeis fortalezas. E isso acontece em São Paulo, no Rio de Janeiro
(com o grupinho dos cariocas da gema), em Brasília, em Garanhuns, em Jaboatão dos
Guararapes, no fim do mundo. O problema é a falta de abertura: a quem pertence ao
grupinho, loas; aos demais, pedras no sapato molhado. Assim não há discussão, não há
avanço, não se dilata a consciência (como diz Fernando Monteiro). Revistas e jornais
precisam ter abertura, uma janela para se respirar. Caso contrário, todos morrem
asfixiados no ocre cheiro dos corpos putrefatos.
CLAUDIO WILLER - Já estava em seu projeto originário ser tão polêmico assim,
ter uma seção com tantas cartas de leitor pró ou contra alguma matéria? Você tem uma
vocação de incendiário, iconoclasta ou polemista? Enfurecer gaúchos, isso o agrada
especialmente?
ROGÉRIO PEREIRA - Meu esporte preferido é enfurecer o vizinho, jogando pedras no
telhado em dia de chuva. A polêmica é necessária. A polenta sem molho é massa sem
graça. Os leitores participam porque sentem a necessidade da discussão, de expor
idéias, de criticar, de reclamar. Tudo isso faz muito bem à cultura. É triste quando se
vai fechar a edição e há poucas cartas nos ofendendo, falando que somos imbecis,
terroristas etc. Somos terroristas para o bem de alguns e desgraça de outros. Se pudesse,
faria um incêndio a cada dia. Ainda mais aqui em Curitiba que é frio à beça. Temo uma
invasão gaúcha, mas os arames de Curitiba hão de agüentar.
CLAUDIO WILLER - Como é viver, trabalhar e publicar algo em Curitiba? Como você
se relaciona com o ambiente literário local? É verdade que Curitiba é uma cidade
provinciana? O mito e a realidade têm correspondência?
ROGÉRIO PEREIRA - Curitiba é a sonolência do morto. Viver em Curitiba é uma
maravilha. Não acontece nada, não ocorre nada, a não ser as mortes nos botecos da
periferia. Curitiba é a capital da arrogância, da classe média alta de parca visão,
das meninas encostadas no muro à espera do marido, do vampiro solitário sem um pescoço
para desfrutar. Não há discussão literária nessa terra. O Rascunho não é
conhecido e, tampouco, reconhecido. Somos um holograma. Mesmo assim, Curitiba tem vários
bons escritores: Jamil Snege, Cristovão Tezza, Roberto Gomes, Miguel Sanches Neto, Manoel
Carlos Karam, José Castello, Dalton Trevisan, e mais uma meia dúzia. Mas não há vida
literária, discussão etc. Cada um em sua toca. É o jeito curitibano. Eu mesmo sou
assim, mas da minha toca mando alguns mísseis.
CLAUDIO WILLER - O que você
gostou mais de publicar em Rascunho, qual matéria ou quais lhe proporcionaram
especial prazer por ter podido fazê-las saírem?
ROGÉRIO PEREIRA - Há várias. Sou suspeito em falar, pois vivo a lamber a cria.
Mas acho que as matérias polêmicas (em relação a Décio Pignatari, Valêncio Xavier,
Scliar, Mirisola, Augusto de Campos, entre outras) foram as mais prazerosas, pelo
liberdade com que foram escritas. É claro que grandes entrevistas também prazerosas,
como a com José Saramago. Também é sempre uma alegria muito grande publicar inéditos
de grandes escritores, como aconteceu com Dalton Trevisan e Lygia Fagundes Telles. O bom
desse Rascunho é que sou eu quem decide o que será publicado. Até hoje, não
censurei nenhuma matéria. Minha vocação para censor do DOPS está adormecida.
CLAUDIO WILLER - E o futuro? Quais serão os próximos passos? Há planos de
expansão, haverá crescimento de Rascunho? Quantitativo, qualitativo ou ambos?
Algo deverá ou deveria mudar?
ROGÉRIO PEREIRA - Acho que o próximo ano será decisivo para o Rascunho.
Hoje, o Rascunho é enviado para 3 mil pessoas em todo o Brasil, por meio de uma
parceria com a Imprensa Oficial do Paraná. Com o novo governo de Roberto Requião, não
sei se tal parceria será renovada. Hoje, o jornal não tem condições de arcar com
despesas de correio. Será a morte do Rascunho, caso ele circule apenas em Curitiba
e região. Mas por outro lado, vamos entrar com um projeto de apoio da lei de incentivo à
cultura. Aí, a sobrevida será maior. A intenção é ampliar o número de páginas de 16
para 24. E também aumentar o número de "assinantes" do jornal. Uma alternativa
para capitalizar o Rascunho é criar uma carteira de assinantes pagantes. Hoje,
todos recebem gratuitamente o jornal. Talvez seja a hora de pedir uma contrapartida dos
leitores. De resto, é continuar ateando fogo e chateando alguns gaúchos.
CLAUDIO WILLER - Para terminar, faça alguns comentários interessantes e
simpáticos sobre periodismo eletrônico em geral e Agulha em especial. Aliás, a
propósito, conexão ibero-americana nunca o interessou especialmente? E conexão
lusófona?
ROGÉRIO PEREIRA - O jornalismo eletrônico é importante para facilitar as
discussões. Ainda não sei de sua capacidade para discussões de grande fôlego. Mas não
há dúvida da importância que tem. Agulha é uma prova disso. Sempre com temas
interessantes e textos com qualidade, longe da superficialidade tão característica à
Internet. Nunca me interessou a conexão ibero-americana e lusófona, pois acho que o Rascunho
tem muito chão a percorrer no Brasil. Ainda vamos quebrar muitas vidraças e matar muitos
sabiás. |
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Diálogo realizado em outubro de 2002. Rogério Pereira é jornalista. Rascunho é publicação mensal da Editora Letras & Livros. Rua Filastro Nunes Pires 175 Curitiba PR 82010-300 Brasil. É encartado no Jornal do Estado do Paraná, mas tem distribuição complementar e pode ser solicitado envio gratuito diretamente ao editor. Contato: rascunho@onda.com.br. |