revista de cultura # 30 - fortaleza, são paulo - novembro de 2002

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Milton Dias: memórias de um passeante

Floriano Martins

Milton DiasEm 1996, por ocasião de uma comemoração do centenário de nascimento de André Breton, à qual compareci como convidado, ali encontrei-me com o poeta e ensaísta francês André Coyné, que também daria uma conferência, e ele, ao saber que eu era de Fortaleza, indagou-me se havia conhecido Milton Dias. A pergunta tomou-me de espanto, e lamentei não ter sido possível lhe contar muito a respeito de Milton, com quem estive apenas por duas rápidas vezes. Segundo Coyné, a Aliança Francesa instalou-se em Fortaleza em 1957, tendo sido este o motivo de sua primeira viagem ao Brasil, aqui residindo por dois anos, quando então vivera um pequeno affaire com o cronista de Cartas sem resposta (1974), então o principal responsável por essa ponte jamais de todo estimada entre Fortaleza e Paris.

Ao contrário, foi Coyné quem me ensinou algo a respeito de Milton, a íntima riqueza dessa condição de passeante que, se é comum a todos os cronistas, nele possuía um sabor especial, justamente pela maneira como conseguia aproximar da cultura francesa uma Fortaleza bastante arraigada a seu provincianismo. Era freqüente em seus textos referências a poetas como Villon, Vlliers de l'Isle-Adam, Baudelaire, Apollinaire e Jacques Prévert, por exemplo, referências que não apresentavam traços de pedanteria ou subserviência. Milton sentia-se bastante ambientado nessa cultura outra, e a relação com Coyné e mesmo suas viagens a Paris foram tecendo uma intimidade que tratava de enriquecer-lhe o próprio ambiente das crônicas, em geral memórias com um enganoso tom nostálgico.

Essa nostalgia algo ardilosa é bastante comum encontrá-la em cronistas, em geral passeantes que procuram restabelecer certo vínculo perdido entre filosofia e cotidiano. Milton passeava muito bem pelas ruas da memória, a elas mesclando alguns toques de idealização de uma realidade nunca encontrada em sua terra, mas que de alguma maneira freqüentava em Paris e sobretudo na leitura dos autores mencionados. Ao escrever sobre um outro cronista, João do Rio (1881-1921), destacou Raúl Antelo que ali se retratava a cidade mais no âmbito de uma «representação babélica e monumental da ideologia republicana no auge de seu poder» do que apenas um «simples espaço ou cenário de transformações». Me parece haver certo exagero ou confusão entre intencionalidade e representatividade de uma obra literária. No entanto, mesmo havendo coincidências nos dois autores, no que se refere a este sentimento de nostalgia aludido, cabe perguntar até que ponto a pena de Milton tocava as feridas de uma oligarquia muito bem sedimentada em Fortaleza.

Patricio PonceNas crônicas de Severo Sarduy (1937-1993) também se poderia observar - lembrando aqui um mesmo diálogo fascinante estabelecido pelo cubano com a cultura francesa, que se dissocia do cearense pelo fato de que Milton residiu a vida inteira em Fortaleza, dela ausentando-se apenas como um flaneur - , pois bem, se poderia observar uma mescla de observações ou percepções da realidade em que está metido com as lembranças pessoais. Tanto em Sarduy quanto em Milton Dias não encontramos, por exemplo, a verticalidade do olhar de um João do Rio. Teríamos aí caracterizados dois tipos de passeantes. Um estaria empenhado em identificar e preservar os sentidos da natureza, enquanto que um outro se interessaria apenas por modificá-la, influir de forma a romper com certas estruturas sociais.

Ora, já não cabe discutir engavetamentos estruturais ou estilísticos, compartimentar a produção artística como se estivesse à disposição de colecionadores de traços comuns, obviamente expurgando tudo o que se mostre como incomum. É praticamente inexpressiva a fortuna crítica com que podemos contar a respeito da obra de Milton Dias, e percebo hoje que a mesma encontra-se toda como que limitada a uma discussão em torno de gêneros literários. Milton era bastante consciente de certa rejeição, por parte da crítica brasileira, em aceitar a crônica como tal. Contudo, era igualmente ciente das inúmeras possibilidades que esses gêneros de exceção poderiam alcançar justamente tomando em conta as múltiplas perspectivas de fusão com outros já estabelecidos. Assim é que soube admiravelmente mesclar memorialismo, epistolário, conto e poema, tudo isto sob a intencional defesa de uma crônica que se renovava e que não podia mais ser entendida como subgênero literário.

Este ímpeto generalizado de renovação identifica-se com toda uma geração, cabendo aqui aludir ao grupo CLÃ, que sempre me pareceu o momento mais substancioso, no quadro nacional, dentro daquilo que se conhece como Geração de 45, um espectro tão vasto quando inconciliável entre si. A este grupo cearense, cujo rol de valiosas particularidades jamais estimadas por nossos críticos inclui uma estratégica ligação com o âmbito das artes plásticas, configurando uma ação comum bastante fecunda, pertenceu o cronista de Fortaleza e eu (1976).

Patricio PonceMesmo sendo, como já disse, quase inexpressivo o material crítico com que se pode contar a respeito da obra de Milton Dias, me parece ainda mais criminosa a dispersão - sim, a considero sob um prisma intencional - no que diz respeito à geração do autor de Entre a boca da noite e a madrugada (1971) como um todo. Milton inscreve-se em um momento fundamental de nossas letras, que particulariza não uma condição local mas sim nacional. Tenho naturalmente restrições a certo alheamento estratégico no enfoque de suas crônicas, mas não posso deixar de considerar a maestria com que soube entornar o caldo de certos vícios de linguagem. Se não frutificou entre nós ainda me parece que em grande parte o motivo seja essa dispersão congênita - aqui no sentido de acomodada - da cultura cearense como um todo.

Hoje a crônica que assim se apresenta em nossa imprensa é um retrato falido de um gênero que já soube ir além do saudosismo tacanho, da visão apequenada de mundo de quem quer impor a parte ao todo. Milton soube beneficiar-se de suas influências. A exemplo de Antonio Bandeira, era um homem banhado pela cultura francesa que em momento algum perdeu o espírito moleque que nos caracteriza. Não tornou-se vassalo da cultura alheia nem vozeiro do provincianismo local.

Patricio PonceA edição de uma seleta de suas crônicas, Relembranças (1985), levada a termo por José Hélder de Sousa, possivelmente hoje se mostra como insuficiente, ainda que siga como receita para vestibulares. Hélder é um saudosista nato e acabou relendo a obra do autor de As cunhãs (1966) apenas sob essa perspectiva. Caberia um volume mais generoso e compreensivo dos meandros intimistas com que Milton Dias buscava se relacionar com o mundo. Como disse ao princípio, acabei aprendendo muito a respeito deste nosso admirável passeante graças ao que me contou André Coyné. A condição homoerótica de Milton Dias, que o aproxima de João do Rio e Severo Sarduy, o mesmo em relação a Antonio Bandeira, naturalmente realça o reprovável de uma sociedade, ao mesmo tempo em que salienta certa sensibilidade para a percepção do outro. Isto não quer restringir uma perspectiva ou ângulo de visão, mas antes lembrar a condição múltipla do mesmo jeito de ser. Milton Dias é um valioso cronista de uma época, vivida por ele, não na verve de um crítico de seu tempo, mas como observador, algo saudosista, de um mundo idealizado. Nisto estaria mais como um poeta do que como um cronista. Mas a quem interessa dissociar esses fragmentos de lucidez?

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta e crítico, pertence à UBE - União Brasileira de Escritores e à ABCA - Associação Brasileira de Críticos de Arte. Um dos editores da Agulha. Contato: floriano@secrel.com.br. Página ilustrada com obras do artista Patricio Ponce (Equador).

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