revista de cultura # 30 - fortaleza, são paulo - novembro de 2002

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Allen Ginsberg: três poemas curtos

Claudio Willer

Allen GinsbergGinsberg tende a ser lembrado como autor dos poemas longos que o celebrizaram, Uivo, Kaddish (cuja leitura em voz alta demanda mais de uma hora), The Change, Angkor Wat, Kraj Mahales, Whales Vistation... Para alguns, Uivo, cujo ritmo veloz pode ser associado à prosódia bop de Kerouac, seria vigoroso, mas prolixo. É um erro de avaliação, pois, sendo extenso, também é sintético. Suas frases longas são séries de versos curtos, encadeados; algumas, com a estrutura semelhante ao hai-kai, três enunciados onde cada um modifica o anterior. Conforme a edição comentada de Uivo (Howl, Harper & Row, 1986: editada por Barry Miles), com o fac-símile de rascunhos e suas primeiras versões, originariamente esses versos estavam em linhas separadas, e foram reunidos nas frases longas apenas na última versão.

Em toda a sua poesia, Ginsberg valeu-se da condensação, promovendo uma espécie de encontro entre Walt Withman, de um lado, e Ezra Pound e William Carlos Williams de outro. Poemas mais breves e sintéticos confirmam isso. Em um recorte da minha coletânea de Ginsberg, Uivo, Kaddish e outros poemas, L&PM. Escolhi três deles, aqui acompanhados pelo texto original. Têm em comum, não apenas a brevidade, mas o tema, literatura e escritores.

Patricio PonceSobre a obra de Burroughs, On Burroughs work, faz parte de Reality Sandwiches, Sanduíches de Realidade, seu quarto livro, de 1963. Mas é anterior a Uivo, de 1956. Foi escrito em San Jose, Califórnia, em 1954, enquanto Ginsberg, hospedado em casa de Neal Cassady, ia recebendo pelo correio, de Tanger, textos que William Burroughs denominava de routines. Remontados, viriam a compor Naked Lunch, terminado em Paris quatro anos depois. O sanduíche da última estrofe leva a concluir que a tradução adequada de Naked Lunch seria Lanche Nu, e não Almoço Nu, título da edição brasileira. É um poema que contém uma poética, idéias sobre criação literária. Afirma o vínculo de Ginsberg ao objetivismo de Williams. Traduz sua crítica, feita tantas vezes, ao excesso de abstração do formalismo e a associações demasiado subjetivas (como me escreveu em uma de suas cartas), assim concordando com Pound, Charles Olson e o próprio Williams, autor do enunciado no ideas but in things, nada de idéias fora das coisas.

O then and now do final da primeira estrofe como vez por outra foi, evidentemente, por causa da prosódia. Uma das dúvidas que apresentei a Ginsberg, enquanto o traduzia, referia-se à frase with rare descriptions: a expressão rare corresponde a raro, diferente, especial, mas também pode significar cru, malpassado, como em rare done meat, bife malpassado. Ginsberg respondeu que, para ele, os dois sentidos cabiam, e a escolha ficava por conta da minha sensibilidade (your delicay of feelings, escreveu). Então, fiz a dupla tradução, obtendo como resultado com raros relatos crus. Acabei utilizando o mesmo procedimento, dupla tradução de palavras com duplo sentido, em outros trechos, especialmente em estrofes de Uivo.

Garatuja, Scribble, também de Reality Sandwiches, foi escrito em Berkeley, em 1956. É sobre Kenneth Rexroth (1905-1983), poeta e anarquista, figura central do movimento de renovação literária na Costa Oeste americana que viria a resultar na San Francisco Renaissance e na Beat. Foi o apresentador da histórica leitura de poesia da Galeria Six, a 13 de outubro de 1955, quando Ginsberg leu Uivo pela primeira vez em público, em companhia de Michael MacClure, Philip Lamantia, Gary Snyder e Philip Whalen. Para minha surpresa, Ginsberg observou que achava este poema menor, minor. Talvez isso refletisse sua relação ambivalente com Rexroth, que reconheceu a genialidade de Uivo, mas detestou as routines, os trechos de Naked Lunch que chegou a ver. O bigode tagarela do poema, gassy mustache, onde gassy pode ser falante tagarela, segundo o que Ginsberg me informou, estaria associado a sua visão de Rexroth, vinte anos mais velho que ele, parado debaixo de um antigo lampião de rua de gás.

Patricio PoncePara Lindsay, To Lindsay, foi musicado e gravado em CD pelo artista gaúcho Vitor Ramil. Publicado inicialmente em Kaddish, de 1961, foi escrito em Paris em 1958, durante a famosa estada de Ginsberg, Peter Orlovsky e Gregory Corso no Beat Hotel. É um dos inumeráveis poemas sobre suicidas e escritores prematuramente mortos. Sob esse aspecto, relaciona-se a outros da mesma época, como No túmulo de Apollinaire e Morte à orelha de van Gogh! Vachel Lindsay (1879-1931), autor de Congo Bongo, viajava pelo país declamando seus poemas e suicidou-se com veneno. O verso a mão de sombra encosta uma pistola em sua cabeça, the shadow hand lifts up a pistol to your head, é licença poética. Na edição definitiva de seus poemas (Collected Poems, 1947-1980, Harper & Row, 1984), Ginsberg corrigiu-o para the shadow hand lifts a Lisol bottle to your head, a mão de sombra ergue uma garrafa de Lisol até sua cabeça. Deve ter feito isso de última hora, pois não constava da lista de atualizações e mudanças de textos que me havia enviado. Fiquei com a primeira versão, factualmente incorreta, mas literariamente melhor.

 

Sobre a obra de Burroughs

O método deve ser a mais pura carne
          e nada de molho simbólico,
verdadeiras visões & verdadeiras prisões
          assim como vistas vez por outra.

Prisões e visões mostradas
          com raros relatos crus
correspondendo exatamente àqueles
          de Alcatraz e Rose.

Um lanche nu nos é natural,
          comemos sanduíches de realidade.
Porém alegorias não passam de alface.
          Não escondam a loucura.

 

On Burroughs’ Work

The method must be purest meat / and no symbolic dressing, / actual visions and actual prisons / as seen then and now. // Prisons and visions presented / with rare descriptions / corresponding exactly to those / of Alcatraz and Rose. // A naked lunch is natural to us, / we eat reality sandwiches. / But allegories are so much lettuce. / Don’t hide the madness. [San Jose, 1954]

Patricio Ponce

Garatuja

Rexroth, seu rosto refletindo a cansada
          bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
          bigode tagarela
                    flores jorrando
                              da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
          enquanto ela passeia com o universo
                    e toda a sua vida que passou
                    e as cidades que desapareceram
                              só ficou o Deus do amor
                                                            sorrindo

 

Scribble

Rexroth’s face reflecting human / tired bliss / White haired, wing browed / gas mustache, / flowers jet out of / his sad head, / listening to Edith Piaf street song / as she walks the universe / with all life gone / and cities disappeared / only the God of Love / left smiling [Berkeley, March 1956]

 

Para Lindsay

Vachel, as estrelas se apagaram
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel rasteja lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende mais um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola em sua cabeça
seu vulto cai no assoalho

To Lindsay

Vachel, the stars are out / dusk has fallen on the Colorado road / a car crawls slowly across the plain / in the dim light the radio blares its jazz / the heartbroken salesman lights another cigarette / In another city 27 years ago / I see your shadow on the wall / you’re sitting in your suspenders on the bed / the shadow hand lifts up a Lysol bottle to your head / your shade falls over on the floor [Paris, May 1958]

Claudio Willer (São Paulo, 1940). Publicou Anotações para um Apocalipse, Dias Circulares e Jardins da Provocação, poesia, todos por Massao Ohno, e a narrativa em prosa Volta, Iluminuras, 1996. Preparou Escritos de Antonin Artaud, L&PM, 1983 e reedições; Uivo, Kaddish e outros poemas de Allen Ginsberg, L&PM, 1984, agora reeditada, revista e ampliada; e Lautréamont - Obra Completa, Iluminuras, 1997. É um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Patricio Ponce (Equador).

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