revista de cultura # 30 - fortaleza, são paulo - novembro de 2002

Livros da Agulha

A espiral vertiginosa. Ensaios sobre a cultura contemporânea. João Barrento. Edições Cotovia. Lisboa. 2001. 144 pgs. Contato: jfsb@pol.pt.

A espiral vertiginosa de João Barrento (por Maria João Cantinho)

A espiral vertiginosa, de João BarrentoO título do livro é particularmente feliz. O autor soube encontrar uma metáfora irradiante que inflecte em duas direcções, imediatamente suscitadas desde o início da leitura. A imagem da espiral vertiginosa remete o leitor para o seu carácter autofágico, evocando o desassossego que nela existe. E é de desassossego que este livro nos fala, de uma inquietude macerada pela literatura. Esta obra é, antes de mais, um corpo de ensaios sobre a cultura contemporânea, em que o autor procura, partindo do esclarecimento de conceitos como cultura, contra-cultura e anti-cultura, definir as fronteiras entre modernidade e pós-modernidade. A par de outras questões, directa ou indirectamente relacionadas.

Em Portugal, a questão tem sido exemplarmente abordada. Recorde-se o magnífico estudo de Bragança de Miranda, Analítica da Actualidade, ou os ensaios do poeta e ensaísta Fernando Guimarães, insistindo em estabelecer uma continuidade entre o simbolismo e o modernismo. Nem sempre foi possível afirmar essa continuidade, na análise da literatura dos séculos XIX e XX. Porém, autores como Walter Benjamin, Georges Steiner, Hermann Broch, entre outros, revelaram-se importantes para compreender a questão, à luz de novas problemáticas e temas a ela associadas. Sobretudo o da experiência e da alienação da mesma, acrescentando, aqui, para focar a obra de Barrento, a questão da dor, o mal-estar existencial por excelência. A temática, igualmente tratada, e tão cara a Broch, da negação do tempo pela criação estética, a do desassossego, tão presente na literatura portuguesa, desde Pessoa, confirmando a sua eterna presença nos autores dos nossos dias. E, ainda, como não podia deixar de ser, a da linguagem e da tradução, no âmbito da globalização da literatura, tomada como fenómeno emergente.

Estabelecer os contornos de uma situação já diagnosticada desde Nietszche, de Baudelaire e Rimbaud, não é fácil. É uma tarefa de colosso que exige uma atenção imensa, já que ela adquiriu matizes diversificados por toda a Europa e no mundo ocidentalizado. Tal implica a reavaliação da forma como a tradição mais ancestral se instalou na visão do homem moderno e pós-moderno. Classicismo, tradição e inovação constituem-se como pedras basilares de um novo conceito que resiste, ainda, a todas as classificações.

No primeiro ensaio coloca-nos o autor a questão: "O que é ser moderno?", de forma nenhuma nova, mas sempre surpreendente, conduzindo-nos a novas consequências e confrontos insuspeitados, sobretudo, com o seu carácter paradoxal, já brilhantemente reconhecido em Baudelaire. O desejo delirante para encontrar o novo, e nele mergulhar, esgota-se em si mesmo. Tudo aquilo em que ele toca transforma-se imediatamente em tradição.

Todavia, evitando o incómodo da questão, e a encontrar uma definição para "O que é ser moderno?", talvez a melhor resposta seja o encontrar-se à la page, ser-se anti-classicista, romper com a tradição. A resposta converte-se, imediatamente numa nova pergunta e que é a seguinte: "E ser pós-moderno?". Esta questão faz todo o sentido, se pensarmos que a modernidade (tomada como modernismo, movimento cultural que envolveu as artes e a literatura do início do século e que se prolongou para além dos meados do século XX) se esgotou, exigindo a sua superação. Ele é visto de forma obsoleta, encarado ironicamente, quer quando nos referimos às manifestações da arte, quer no que respeita às grandes ideologias, ou seja, as grandes causas políticas e éticas. Se o modernismo é entendido como "uma cultura da rotura em profundidade" (p. 41), dando morte aos grandes paradigmas racionalistas e positivistas, o pós-modernismo pode ser definido como "cultura do radical em extensão" (idem). Aquilo que, antes, possuía contornos bem definidos, no seu rigorismo radical, transformou-se, no pós-modernismo, em "culto do radical pelo radical" (idem). É a época dos reality-shows, da fragmentação assistemática, da arte do superficial e do acidental, dos revivalismos, do humor e da paródia, do vazio ético, da estetização do político e da ética, etc..

No ensaio "Cultura, contra-cultura, anti-cultura", o autor estabelece a definição de parâmetros entre as categorias de moderno e pós-moderno, o que envolve a distinção entre padrões culturais, que tendem a medir forças no território do pensamento e da acção possíveis. Cultura, contra-cultura e anti-cultura são três variantes que incorporam as definições de cultura viáveis, num contexto de uma teoria evolutiva e dinâmica da cultura.

Questionemo-nos sobre a diferença entre anti-cultura e contra-cultura, essencialmente, já que as diferenças entre cultura e contra-cultura são fluídas e, frequentemente, existe uma flutuação e uma permissividade entre os dois conceitos, aproximando-as. Quase sempre a contra-cultura opera no horizonte da cultura estabelecida (e por isso, já a necessitar de revisão), reflectindo um saudável cepticismo, o qual permite o esbatimento de padrões culturais e a sua substituição, sem que o facto se torne alarmante.

Talvez a preocupação se acentue quando falamos de anti-cultura. O mais dramático exemplo de anti-cultura tem, sobretudo, a ver com o que Georges Steiner terá designado por "pós-cultura", isto é, as formas de barbárie que ocorreram no seio da nossa cultura, consolidada pelos valores burgueses. Seja o caso de Auchwitz, que, de acordo com Adorno, inviabiliza qualquer discurso cultural, tornando-o absurdo. Mas, a pensar assim, todos os discursos que se sucedem aos fenómenos de barbárie, tornariam impossível a constituição do discurso cultural, pressuposto que, obviamente se torna, por si mesmo, ilógico.

O que acontece, efectivamente, é que esses movimentos, designados por anti-cultura, exercem um movimento de revisão dos paradigmas, fomentando o aparecimento do desassossego, para encontrar um conceito suficientemente vago que permita integrar nele os possíveis desassossegos. E é de um desassossego, de uma inquietude permanente que falamos, quando referimos a possibilidade do estabelecimento de parâmetros para a cultura. A arte e a literatura surgem como formas de os exorcizar, enquanto os nomeia e lhes dá corpo.

Todavia, o fenómeno da globalização, no seu tecido complexo e abrangente de todas as formas de manifestação cultural (e essa parece ser a consequência mais séria e que deve ser pensada), tende a operar a viragem de uma cultura da palavra para uma cultura do espectáculo. Essa tendência democratizadora acarreta determinados riscos, como, por exemplo, a radicalização da sua prática poder levar, como já acontece efectivamente no nosso ensino, a transformar clássicos como Camões e Shakespeare em meras obras de consulta, pondo-os ao mesmo nível da literatura de cordel. A tendência performativa da cultura espelha a sua debilidade actual, sem frentes significativas e que, longe de fomentar a atitude crítica e consciente, sobrevive, precisamente à custa do seu cadáver exangue.

No ensaio "Receituário da dor para uso pós-moderno", o autor interpela-nos: fará sentido, ainda, falar de dor, nos dias que correm? Quando a preocupação essencial do colectivo consiste na expurgação da dor, algo com o qual as civilizações desde sempre conviveram, integrando esse elemento matricial na cultura, transfigurando-o, dando-lhe corpo?

Fantasmática, a presença da dor foi condenada a um exílio, banida do reino da cultura, fechada a sete chaves nos quartos dos fundos. Toda a nossa cultura actual, desde a literária até às manifestações de contra-cultura, assenta num ideal de anestesia da dor, sentimento que tem no spleen do dandy o seu directo antecessor. A ideia de uma catarse ou de uma sublimação da dor, raíz da tragédia grega e do drama de todas as épocas, onde a morte e o sofrimento conviviam de perto com a alegria, tornou-se absurda, estranha e inquietante.

Uma cultura que exorciza desta forma a dor e a autenticidade da experiência revela a sua desumanidade. Torna a dor virtual, ao adoptar como regra de base a ideia de um bem-estar colectivo. Tal ideia transparece claramente na forma como ignoramos, no nosso quotidiano, os milhões de seres que sucumbem à fome, à guerra, etc., preferindo os reality-shows e os programas de entretenimento que se estendem até aos blocos de noticiários. A dor só é suportada enquanto matéria vitual, performativa, e não real. Veja-se o ênfase dado a certas catástrofes que encerram em si essa espectacularidade, face à ignorância de catástrofes semelhantes (em número de vítimas e horror), que não contêm potencial performativo. Na cultura mediática dos nossos dias é operada uma exclusão ou travestização do espaço privado em espectáculo e "a dor, tal como o corpo, transformaram-se em objectos de um voyeurismo obsceno, insensível e sem ética." (p. 78).

Em alguns casos da nossa literatura, resiste ainda a perda, como tema matricial da obra, nos exemplos citados por João Barrento e que revelam uma dor ainda não travestizada nem expurgada, transformando a estética e a produção artística numa convocação serena dessa dor. Tomada como inalienável e incontornável condição humana, ela aparece, ainda e em alguns casos, não na nossa literatura, como "metaforização da doença" (em Susan Sontag, entre outros autores), ocorrendo-me ainda outros mais recentes, como o poeta e escritor Ernesto Sampaio, Ana Marques Gastão, José Luís Peixoto, para além dos citados pelo autor.

Dediquemos a nossa vertiginosa atenção ao ensaio "Ler os Clássicos com os Clássicos". Como se sabe, mais do que um escolho ou obstáculo que se instala permanentemente no horizonte de qualquer escritor, crítico ou, simplesmente, leitor, a questão da utilidade e funcionalidade da leitura dos clássicos gera controvérsia. Porque, em primeiro lugar, obriga-nos a questionarmo-nos sobre o que transforma uma obra num clássico (questão que nunca se esgota na sua explanação), apontando-nos o autor a sobrevivência da obra como critério fundamental. Sobrevivência esta que é garantida pela tradução e estabelece imediatamente uma plataforma, remetendo-nos para uma multiplicidade de pistas que se reenviam e comunicam entre si, criando passagens (num ensaio anterior, pertencente ao mesmo livro, a ideia de porta e de ponte é outra das metáforas abordadas pelo autor, onde se justifica a passagem do original às suas traduções).

O autor não ignora as várias aproximações que foram feitas ao tema da "leitura do clássico". Refere a responsabilidade de homens como Montaigne, Jorge Luís Borges, Calvino, T.S. Eliot e autores menos paradigmáticos, mas igualmente importantes como sejam Harold Bloom, Martin Walser.

Oscilando entre as perspectivas utilitarista e não-utilitarista, o critério da "necessidade" da sua leitura passa pelo reconhecimento de uma formação de gosto, que permite compreender, não tanto a qualidade da escrita, como essencialmente a eternidade das questões, o que automaticamente subtrai o original/clássico às regras e contexto social. Pode ser lido, eventualmente, em qualquer época, afirmando-se pela sua actualidade instrínseca, o que lhe confere o direito de cidadania em qualquer língua ou pátria. Se é ou foi o efémero que se constituiu como matriz originária da sua criação (cite-se o caso de Shakespeare, Kafka ou Proust), no entanto, isso parece diluir-se no tempo, para instaurar um universo de permanência. Retoma-se aqui a ideia, defendida por Hermann Broch, de que toda a arte é e constitui-se como uma barreira ou uma negação do tempo, um gesto salvífico e que adia a morte.

Para finalizar, é preciso atentar nas palavras de Eduardo Lourenço, nesse admirável livro de ensaios que é O canto do Signo: por literatura entende-se "a agonia permanente da realidade humana e da palavra que a configura." (p.117).

Contra todas as formas de esperança frívola, resta-nos, ainda, o uso da dor. Para nos devolver a humanidade, essa parte de nós que nos foi definitivamente amputada.

El milagro de Medellín y otros poemas. Ron Riddell. Todográficas. Medellín, Colombia. 2002. 82 pgs. Contato: ron_riddell@hotmail.com.

Medellín, la ciudad mítica de Ron Riddell, poeta neozelandés (por Raúl Henao)

El milagro de Medellín y otros poemas, de Ron Riddell¿Es Medellín una ciudad mítica a la par -pero a diferente escala- que París? Roger Caillois, ese autor inquietante y siempre indefinible (André Breton lo calificaría sucesivamente de "literato de viejo cuño", "brújula mental", "espíritu lúcido y audaz") al que los latinoamericanos debemos la traducción francesa de Jorge Luis Borges y una espléndida Antología del Cuento Fantástico (Editorial Suramericana. Buenos Aires, 1969). Nos señala al respecto que un espacio urbano reviste dicha connotación sólo si consigue conjurar los poderes de la memoria y la imaginación a su favor, configurándose como resistente o irreductible al paso inexorable del tiempo. En lo que a "París, Mito Moderno" se refiere, Caillois enumera los valiosos aportes que en tal sentido le hicieron algunos de los grandes poetas y novelistas del siglo XIX, como Lautréamont, Baudelaire, Hugo o Balzac, al igual que los autores más notorios del folletín y la novela negra y policíaca.

¿Puede decirse otro tanto de Medellín, ciudad del interior de Colombia, fundada el 2 de noviembre de 1675 en dos poblados diferentes al sur y al norte de un valle interandino, que desde sus orígenes mismos ha sido tema o motivo de evocación e inspiración - y simultáneamente, de desaire y desamor - para muchos escritores colombianos entre los que se encuentran los más grandes como Tomás Carrasquilla, Fernando González, Porfirio Barba Jacob o León de Greiff?

Ya en otra parte he aventurado una respuesta afirmativa a este interrogante tomando como referencia la medular Improvisación Etimológica en torno a Medellín (El Espectador, Bogotá, 1995) del poeta y sociólogo persa Djahanguir Mazhari, que parece despejar todas las dudas o incógnitas suscitadas alrededor del significado del nombre de la ciudad -un topónimo procedente de la extremadura española- al relacionarlo con la antigua Medina, la ciudad santa de Arabia Saudita, donde hace ya dos milenios confluyeron la cultura islámica y la mazdeísta de los medas y persas: "El término Medaen (ciudades) es el plural de Medina, pero en árabe además del plural múltiple existe el dual. Ciudades gemelas o duales se dice Medellín (Medinein). Los musulmanes al atravesar el continente africano hasta llegar a España fueron regando por el camino por lo menos una Medina en cada país en memoria de la ciudad santa de Arabia Saudita. Hay Medina en Malí. Medina el Fayoun en Egipto, Medina del Campo en España, y además otra ciudad dual llamada Medellín; al parecer esta ciudad hospitalaria y hermosa (…) es también una ciudad dual o gemela constituida originalmente por las poblaciones de Bello e Itagüí: de modo que no es tan descabellado pensar que el topónimo Medellín provenga del plural de "Medina" (Medineh en persa) que a su vez arraiga en sonoridades surgidas de lo más profundo de la historia humana".

A este propósito, resulta pertinente remarcar la importancia que los pueblos de la antigüedad -incluyendo la antigüedad clásica- concedían al nombre de fundación de las ciudades en general, al que revestían de un prestigio mágico o mítico (más que religioso) por creerse era revelador de una idiosincrasia particular, de un destino prefigurado que afectaba de modo irrecusable las vidas de quienes las habitan temporal o permanentemente.

En el caso específico de Medellín, es obvio que el nombre de la ciudad alude de modo latente o manifiesto a un mito dual, de oposición de los contrarios por el nexo aparentemente gratuito -pero en realidad modélico o paradigmático- con aquella ciudad del Asia menor, donde inicialmente se profesaba (o profesó) la religión mazdeísta: un culto y doctrina esencialmente dualista, de oposición frontal de bien y el mal, la luz y la oscuridad, Dios y el diablo (al Mazdeísmo se atribuye la invención del diablo) que de modo hegemónico, en un momento determinado de la historia, se impone en toda Mesopotamia, incidiendo significativamente en religiones posteriores como el Judaísmo o el Islamismo. A los medas -nos dice Mazhari- fundadores de Eckbatana, una de las primeras metrópolis de la humanidad, se debe también el concepto de civilizado (ciudadano) por oposición a bárbaro (nómada, no-meda) concepto retomado por los griegos y los romanos, que posteriormente adquiere una importancia relevante en todo el mundo occidental.

Para quienes hemos nacido o vivido desde siempre en Medellín, resulta evidente el carácter antagónico, dualista, conflictivo, maniqueo de la ciudad, al enfrentar a cada paso situaciones extremas de la condición humana que rara vez se reconcilian en una síntesis esclarecedora o por lo menos creativa. "Ciudad plutónica" como la denomina uno de sus escritores actuales, donde los aspectos oscuros, tenebrosos de la realidad se vuelven asunto cotidiano ("hombre vea yo le digo, vivir en Medellín es ir uno rebotando por esta vida muerto. Yo no inventé esta realidad, ella me inventó a mí" -Fernando Vallejo, La Virgen de los Sicarios, página 89) también en ella- y más que en otras ciudades iberoamericanas - se vuelve posible, por pura antítesis, tener la vivencia de la luz y la claridad paradisíacas. Eso parece haberle sucedido al poeta neozelandés Ron Riddell (Auckland, Nueva Zelandia. 1949) autor del libro El Milagro de Medellín y Otros Poemas (Todográficas Medellín, 2002) que reúne poemas escritos en Nueva Zelanda y en Colombia respectivamente. El poeta quien fuera invitado a participar en el XI Festival Internacional de Poesía, el año 2001. Ha regresado ya dos veces a esta ciudad que, confiesa, lo ha hechizado o encantado (lo que ocurre por lo general cuando el "encanto" se personifica en la figura de una mujer amada) y de la que contrariamente a los poetas locales que sólo perciben su lado oscurantista e inquisitorial, él ha captado su aspecto luminoso o paradisíaco, corroborando quizás a Barbey de Aurevilly en eso de afirmar que "el infierno es el cielo en hueco".

Al lado de hermosos poemas escritos en un lenguaje transparente, con una penetración cuasi-mística del paisaje andino y neozelandés, El Milagro de Medellín es un poema relativamente extenso, donde nos paseamos por calles laberínticas, plazoletas desiertas o abarrotadas de gente, templos e iglesias (Medellín tiene 150 iglesias "mal contadas" nos dice Fernando Vallejo) paraderos de buses, bares y cafés ruidosos. Todo ello a lado y lado de un río olvidado, que por mucho tiempo sirviera de alcantarilla a la ciudad, pero que el poeta visionario entrevé como "Un río de fiesta y fábula".

Y ahí reside -repito- el mérito de Ron Riddell, en señalarnos en su poema que podemos, sobreponer la admiración a la decepción. La devoción a la injuria, la esperanza a la desesperación, y elevar los corazones con el vuelo de las palomas de los parques y las plazas públicas, en prosecución de la "montaña mística" o de "la pálida luz azul del nuevo día". Pero previamente nos pone como condición que aceptemos mirarnos en la ciudad como en un espejo, porque tal como ella es, somos nosotros mismos. Debemos, en consecuencia, superar el fardo de violencia maniquea y desarraigo ancestral, legados de la conquista y la colonia española, y aprender a habitar la ciudad como prójimo, amándonos a nosotros mismos en ella.

"Medellín, mi esperado sueño de novia
Medellín mi amante largo tiempo perdida"

Poetas portugueses y brasileños. De los simbolistas a los modernistas. Organización y estudio introductorio de José Augusto Seabra. Edición bilingüe. Thesaurus Editora. Brasília. 2002. 472 pgs. Contato: www.thesaurus.com.br.

Diálogo sobre el océano: Poetas portugueses y brasileños - De los simbolistas a los modernistas (por Jorge Ariel Madrazo)

Poetas portugueses y brasileños. De los simbolistas a los modernistasEste volumen cumple un doble y muy importante cometido. Ante todo: trae, por vez primera en edición bilingüe y en un mismo tomo, nombres señeros de las poéticas portuguesa y brasileña. Es una fascinante selección paralela que incluye a los responsables de las transformaciones engarzadas en el proceso que tuvo lugar "de los simbolismos a los modernismos". Tal, el título del estudio introductorio a cargo de José Augusto Seabra, ex embajador en la Argentina y en la Unesco y, entre otras funciones, profesor invitado en la Sorbona.

Atenta a las etapas claves de las líricas portuguesa y brasileña, dicha introducción analiza sobre todo aquellas dos grandes corrientes estéticas. Y también --otro de sus cometidos de gran interés-- el volumen muestra la múltiple interconexión creadora entre ambos países y la habida también con otras vertientes; por ejemplo, con el modernismo en lengua española liderado por Rubén Darío.

Es éste un enfoque altamente esclarecedor y un atractivo adicional de la presente antología, que incluye a veintidos poetas por país, y que llega en cuidada edición bilingüe respaldada por el Instituto Camoens de Portugal y la embajada de dicha nación en la Argentina.

Se consideran, de tal modo, tanto los canjes enriquecedores entre el simbolismo portugués (que absorbió lo mejor del francés, a veces a la par de éste) y el modernismo rubendariano, cuanto la interacción con el simbolismo brasileño que saltó a la palestra en 1893 con los poemas del admirable hijo de esclavos libertos Joao Cruz e Sousa. La introducción ilustra, por varias vías, el riquísimo diálogo poético entre Brasil y la nación europea, primero colonizadora y después -a partir de 1930- receptora de voces brasileñas decisivas como Cecilia Meireles, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto o Drummond de Andrade. Y, si bien el llamado modernismo brasileño tuvo rasgos diferenciales desde la "Semana de Arte Moderno" de 1922, hubo puentes fructíferos entre uno y otro lado del Atlántico.

Aparte del profesor Seabra, que ideó y supervisó la obra a más de seleccionar a los poetas portugueses y redactar sus notas bio-bibliográficas, intervinieron también el poeta argentino Rodolfo Alonso -primer traductor de Fernando Pessoa en América latina-, que tradujo el ensayo de apertura así como los textos de los poetas lusitanos y sus respectivas notas, y diversos autores brasileños que vertieron al castellano a sus compatriotas.

Baste citar algunos de los nombres seleccionados, todos ellos hitos cruciales. En lo que hace a Portugal, el friso parte de los pioneros del Decandentismo-Simbolismo: Eugénio de Castro (1869-1944), António Nobre (1867-1900) y Alberto Osório de Castro (1868-1946). Una corriente que privilegió el ritmo y la música a través de las publicaciones «Bohemia Nova» y «Os Insubmissos». También Camilo Pessanha y Alberto de Oliveira enarbolaron, por cierto, la lírica simbolista Son, con Adolfo Casais Monteiro, algunas de las voces mayores incluídas en este libro que se enriquece asimismo con Teixeira de Pascoaes, fundador del neo-romántico saudosismo.

La recorrida concluye en el caso de Portugal con Vitorino Nemésio (1901-1978), quien colaboró con la revista «presença» fundada en 1927 por José Régio y órgano del llamado Segundo Modernismo portugués, en el que además participó Irene Lisboa. Recuérdese que el Primer Modernismo había despuntado hacia 1915 con «Orpheu», lanzada al ruedo por el formidable Pessoa y por Mário de Sá-Carneiro, muerto por propia mano en 1916.

En cuanto a la segunda sección, consagrada a Brasil, brinda una galería no menos fulgurante iniciada con el citado Cruz e Sousa y el aura dramática de Augusto dos Anjos (1884-1914). Se suceden, entre otros, Manuel Bandeira ("el San Juan Bautista del Modernismo"), Oswald y Mario de Andrade y nombres fundamentales del nativismo-nacionalismo, como Jorge de Lima y Cassiano Ricardo. O como Raul Bopp, agudo intérprete de la realidad indígena amazónica. Y deslumbran Murilo Mendes, Henriqueta Lisboa, Meireles, Drummond, A.F. Schmidt, Vinicius, cerrando con el gran renovador del '45 Joao Cabral de Melo Neto.

En otra época, revistas argentinas y selecciones como las del Centro Editor de América Latina, con sede en Buenos Aires, más los trabajos precursores y enjundiosos del propio Rodolfo Alonso y posteriormente los de Santiago Kovadloff, habían abierto las puertas a distintos autores de Portugal y del Brasil. Este libro reúne a muchos de ellos a la luz de "los simbolismos" y "los modernismos" en lo que constituye, sin duda, todo un acontecimiento literario y editorial luso-hispanoamericano.

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