revista de cultura # 31 - fortaleza, são paulo - dezembro de 2002

artista convidado: joão câmara

aglogo (tarja).jpg (41350 bytes)






 

O trans-realismo de João Câmara em Duas Cidades

Mirian de Carvalho

João CâmaraA obra de João Câmara se caracteriza por extensos e complexos núcleos temáticos definidos por imagética de cunho trans-realista com relação ao mundo percebido, como ocorre em Cenas da Vida Brasileira e em Dez Casos de Amor e uma Pintura de Câmara. Nesse acervo, se insere agora mais um núcleo temático: Duas Cidades, reunindo pinturas e objetos realizados de 1987 a 2001, expostos recentemente na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Recife e Olinda, cidades tematizadas por João Câmara em memória de seu pai, nos conduzem aos motivos captados pelo afeto. Em Duas Cidades, o termo "topofilia", ou seja, apreensão afetiva do espaço, se torna plenamente adequado para expressar acolhimento amoroso do lugar. Acolhimento e doação de sentido aos lugares vividos em obras figurativas, porém numa figuração que se assume trans-realista, por atingir o simbólico, o alegórico e o encantatório. Assim, o figurativismo de João Câmara cria espaços "densificados": espaços onde o mundo percebido ganha nova ordem concebida no plano imaginário.

Mas, se o pintor elegeu Recife e Olinda como núcleo temático, são tantos os ângulos de enfoque dessas duas cidades que, mesmo numa primeira apreensão, identificamos múltiplos veios temáticos subsidiários, interpenetrando-se no conjunto de trabalhos. Através de tais veios, descobrimos espaços e tempos intrínsecos a cada obra e ao conjunto delas, acompanhando jogo formal que transpõe a representação, para recriar seus motivos na espacialidade não-representativa das coisas, pessoas e instâncias urbanas inscritas numa temporalidade imaginária. O espaço se desdobra em paisagens, personagens, objetos, que nos posicionam diante de um tempo não-referencial, quanto ao passado, quanto ao que "foi" ou "aconteceu". Não se trata de tempo histórico, e, sim, de um tempo aglutinador de fragmentos do mundo, tempo atual e atuante, expondo momentos simultâneos de duas cidades desconstruídas e reconstruídas pela fabulação imagística, lembrando-nos plasticamente as cidades literárias de Ítalo Calvino.

João CâmaraAo primeiro impacto visual, podemos já localizar certos veios temáticos, que merecem estudo posterior, assim resumidos: a- símbolos do espaço vivido: iconografia alusiva aos marcos da cidade, trazendo imagens como o farol, o rio, o mar, ou os reflexos movendo-se na água, tal como aparecem em Cidade Verde e em Leis Escritas na Água; b- paisagens oníricas: imagística surgida do desmonte e montagem oníricos da paisagem local, cujo exemplo pode ser reconhecido em Runas; c- arquiteturas revisitadas: imagens que nos remetem a construções locais, surgindo em obras como Cúpulas e Zimbórios, Observatório, Estação, incluindo outros referenciais arquitetônicos; d- alegorias: caracterizando imagens que transformam o histórico em lendário, traduzindo-o plasticamente, como pode ser observado em Travessia do Atlântico, Retábulo, Cahetés, Praia de Holanda; e- flagrantes do cotidiano: imagens relacionadas a prédios, letreiros e personagens, remetendo-nos às atividades de comércio e outras facetas do dia-a-dia, inserindo-se neste item Demerara/Aurora, por seus letreiros e marcas compondo a visualidade da obra; f- topografias aéreas: imagística de fragmentos do mundo visto do alto, como os mosaicos paisagísticos tecidos em Labirintos e Quintais e A Olho de Pássaro, ou na paisagem de O Dia; g- personagens pictóricos: "retratos" de cunho mais imaginativo do que documental, como o de Mister Smollet, o do marinheiro do Patna-Medusa e os de Adolpho e Ifigênia; h- poética dos elementos: imagética inscrita em vários espaços em que a terra é apreendida como solo, tal como em Labirintos do Carmo ou, em outras paisagens, quando a água se faz elemento significativo e recorrente na espacialidade urbana, pela mobilidade do mar, do rio e do oceano, i- encantatório: nas situações imageantes em que a obra tangencia o fantástico, surpreendido, por exemplo, nas transparências de Juno e a Garoupa.

Numa leitura intimista, múltiplos veios temáticos me convidam a entrar nas Duas Cidades de João Câmara. O farol é um deles: pintura e objeto, foco e símbolo da luz que podemos "ver", mesmo quando não está presente, como no Farol: objeto de laca sobre madeira. Seguindo dois faróis, atravessamos a Passagem Malakoff: caminhos d'água entre luzes de colorido noturno, espaços de paisagem e noite. Inscrição do imemorial, o farol, imagem recorrente nessa mostra, se configura símbolo, lugar e lume norteador do viajante em direção às cidades. Tocados pelo farol de luz pálida, os espaços movem a imaginação, que gira, vai e volta, que se perde e se encontra, sinalizando rumos d'água.

João CâmaraImpossível entrar nessas Duas Cidades sem o batismo d'água. Impossível percorrer seus meandros sem aderir à trilha simbólica de onde emerge a água elementar. Mar. Rio. Água. Águas de Olinda e de Recife. Elemento móvel desaguando em O Rio: deslizante caminho de peixes, plantas, aves, e detritos tridimensionais, pontuando seu curso. Nos movimentos do rio, dormem trêmulos reflexos da arquitetura. O rio vertendo imagens, verte no azul da tela as tintas naturais que um dia teve, nos sugere o pintor: "um quase emplumado Capibaribe".

Banhados pelas águas, destroços da cidade olham e memorizam o que se gravou em pedra na paisagem de Runas: PATRI, MONIA, MAXI, MATER e outras inscrições guardadas nas pedras imemoriais, em fundo azul. Nos lugares do afeto, não faltou O Filho de São Martinho: menino-homem-objeto, em meio à perplexidade de duas cidades recortando-se, juntas e separadas, nas imagens de mundo e fábula, onde o antigo chapéu em gestual de cumprimento e memória segue a mão que acena em Saudações de Brunetto.

Andando pelos meandros de Duas Cidades, percebemos a pintura como acervo de imagens a dar significados e sentidos à água, à pedra, ao tecido do chapéu e a tantas outros materiais que se integram a essa ambiência, adquirindo vida como matérias pictóricas: a cor e a luz. Cor e luz compondo volumetrias, transparências, texturas. Cor e luz partejando seres de imagem: criando personagens e paisagens, cuja existência se realiza no plano estético-visual. Então, nos percebemos parte de familiar e estranha ambiência. Nessas andanças, personagens, coisas e objetos assumem seus lugares com referenciais pictóricos, observando-se que os objetos de João Câmara são também pictóricos: integram-se às pinturas, ou do ponto de vista técnico, ou do ponto de vista da paisagem e da própria montagem da mostra, delimitando e ampliando o entorno dessas cidades, no percurso do viajante e / ou do habitante.

Nesse movimento, vêmo-nos dentro de espaços que nos permitem apreender o mundo urbano, numa primeira imagem, ainda que tenhamos conhecido in loco essas cidades. Eis a magia da arte, costumo pensar: trazer-nos a dádiva da imagem primeva, que nos recebe como parte de si em nós. Oceano, pedra, praia, ruas e igrejas sinalizam espaços poéticos. Nas Duas Cidades de João Câmara, o trans-realismo do mundo nos conduz à obra sem medição da linguagem e da geografia local, concebido que é o espaço de modo poético: a captar o transiente, o fugidio, o instante e o ilimitado da imaginação acompanhando corpo e passos.

João CâmaraSem roteiro prévio, podemos iniciar visita às Duas Cidades a partir de qualquer obra da mostra. Sua topografia amorosa se constrói, qualquer que seja a imagem visualizada. Pedra, praia, rua, igreja, oceano e outros ícones sinalizam espaços poéticos. Revisitada, a imagem recorrente, assim como a do farol, é sempre outra, sendo a mesma nos meandros da paisagem, assim como a poética da água, também recorrente, se recria desdobrando-se em rio, mar e oceano, e conduzindo-nos aos motivos que se avizinham das águas: A Ponte (Nova), A Ponte (Velha), ladeiras e vegetação assinalando cenários e perfis de Recife e Olinda. Nesse percurso, reencontramos fachadas, telhados, cúpulas, chapéus e outras imagens. Passamos pelo Observatório e pelo Campo das Princesas. Revemos marcos e símbolos. E, igualmente, simbólicos e / ou alegóricos, revemos espada, pedra e peixe referendando a paisagem urbana.

Dinâmico, o simbolismo não é anterioridade que se faz representar nesse conjunto pictórico, o simbolismo emerge da inventividade imagística, e flui operante na criação de símbolos estéticos para suas cidades. Aqui, a cidade das cores constrói o símbolo. O mesmo ocorre com relação às alegorias, como A Conciliação, OlindaAdnilo, A Noite, e outras. De modo análogo à força simbólica, o valor alegórico de certas imagens lhes é intrínseco, inventando visualmente história e lendas do lugar, criando locais transientes entre memória e imaginação, seguindo o encantatório do pincel a rastrear suas tintas entre lugares e personagens.

O Major Cadmo, Pedro, calceteiro, e a moça do Açúçar de Pernambuco se apresentam, mas, assim como outros "retratados", eles são personagens legendários. Entram em cena com os zepelins, com os marcos e eventos de um mundo que nos remete à Travessia do Atlântico, quando o encantatório contempla a queda do ser alado ou enquanto, no cenário das duas cidades, o cotidiano ganha lugar de efabulação nos nomes Recife e Olinda, coroando espaços nas obras denominadas Silos. E nesse conjunto de lugares preenchidos pela afetividade, o encantatório sempre passeia conosco pela paisagem.

João Câmara

No trans-realismo de João Câmara, vemos Duas Cidades construindo-se em múltiplos espaços e tempos. Lugares e momentos alusivos ao que se foi, ao que não-chegou a ser, preparando o que um dia poderá vir a ser: fundo de mar e memória na espuma / seixo a desaguar em leito de rio.

Viajantes nessas Duas Cidades, descobrimos que o devir se torna atualidade que permeia imaginário e chão. Nesse passeio, espaço e tempo tingem a poesia do lugar. Então, percebemos que uma das funções da arte consiste em sugerir outra ordem, uma trans-realidade, abrangente das diferenças que tonalizam a poética do mundo, e das coisas que convivem conosco. E através de um trans-realismo simbólico, alegórico e encantatório, a pintura de João Câmara se faz definitiva, inserindo na paisagem universal o leito do Capibaribe e as verdes águas de Olinda. 

Mirian de Carvalho. Crítica e poeta. Vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Publicou, em parceria com Angela Martins, Novas Visões: Fundamentando e Espaço Arquitetônico e Urbano (2000). Texto originalmente publicado na revista Dialoghi (Rio de Janeiro, 2001). Contato: mir3@zaz.com.br. Página ilustrada com obras do artista João Câmara (Brasil).

retorno à capa desta edição

índice geral

triplov.agulha

triplov.com.agulha.editores

jornal de poesia

Banda Hispânica (Jornal de Poesia)