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revista de cultura # 31 - fortaleza, são paulo - dezembro de 2002 |
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Lances da pós-modernidade Foed Castro Chamma
As teorias da relatividade e a ótica quântica predispõem a um comportamento crítico de iluminação individual que se supõe de exclusão da Identidade no espelho da Semelhança. O nº 31 da revista Rio Arte, publicação de Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro dedicado ao Pós-modernismo, traz um ensaio onde se lê a expressão em francês de Ben Vautier, citada pelo crítico e professor português Bernardo Pinto de Almeida, "A Arte é inútil - Recolhe-te a ti mesmo." (L'art est inutile - Rentrez chez vous). O que se supõe na sugestão da frase um anti-humanismo em relação à obra de arte, delimitada no pós-modernismo, está implícito, a meu ver, na Dúvida metódica cartesiana. A sujeição do pensamento moderno às coordenadas de Descartes é um bloqueio intencional à individuação e, quiçá, ao saber/fazer instaurado na Renascença
A suposição de que a Arte é inútil envolve um acirrado embate entre Essência e Aparência, entre sincronia e diacronia. A mecânica da Natureza, vista por Hegel como matéria inerte, é corpo em repouso. Neste sentido, os diagramas descobertos por Saussure recobrem a mecanicidade da composição lingüística subordinada a um esquema logocêntrico vigorando na estrutura do poema de maneira a determinar em sua semântica um conteúdo pré-radical. Neste sentido a Arqué implica interação originária da sensibilidade e do entendimento, de maneira a transformar-se a obra de arte em objeto da vontade de saber, um saber/poder, como pretendia Nietzsche, da tehkné como predica natural do ser. A posição em que se configura a Semelhança sob a jurisdição do logos é estremecida dialeticamente pela diferença. O físico observa o fenômeno, visando a uma ordem cosmológica que tem como Unidade a cons-ciência. Tal implicação imposta na Modernidade é questionada pelo pós-modernismo ao retomar o pressuposto da diferença em razão das teorias da relatividade, cuja mecânica a luz percorre na extensão negra de retorno do pensamento iluminado que se emparelha ao imaginário.
Tal périplo, descoberto por Allan Põe e exposto em seu último livro Eureka, traduzido por Júlio Cortazar, livro que tanto é uma síntese da pragmática oracular do poeta norte-americano como da física einsteniana ulterior e da teoria do Quanta, perfaz o percurso negro da luz no inconsciente, atinge o ápice do ser e retorna à claridade da consciência numa analogia a que se pode atribuir os ingredientes etiológicos da memória em um estágio tecno-lógico digamos do Acaso, do Acontecimento como Registro e realidade virtual. Órgão sem paisagem a que alude Julles Deleuze em A lógica do sentido. O encontro de ciência e consciência, thekné e arqué, se consuma com a Ciber-Informática, de maneira a colocar-se o indivíduo como um deus diante da engrenagem mecânica e da simultaneidade dos fatos. Certas expressões do filósofo brasileiro Márcio Tavares d'Amaral, em artigo intitulado Experiência e dispositivo no nº 14 de Veredas, revista do Centro Cultural do Banco do Brasil, dizem bem do Corpo-imagem emergente do contemporâneo, genealogia do imprevisível, da invenção, da Diferença e queda da Semelhança com o advento do Insólito sob o poder do Homem. A Renascença consuma-se nesta cláusula superadora da Dúvida, transformando a Modernidade em pós-modernismo e campo do Acontecimento totalizador da eficácia, "instituindo diferenças onde vigorava a identidade clássica." A Modernidade impõe uma delimitação que se pode vasculhar no pós-modernismo. O excluído é o tempo como errância do pensamento e sua temporalização. O caráter fundador do Acontecimento que o diferencia da ocorrência e começa na forma da simultaneidade como contemporâneo é o evento, que faz da diferença o jogo do futuro, não da identidade, do que advirá do dispositivo da imagem como mediação do ser.
O que se supõe uma paródia, é um aparato inovador da alegoria em curso desde a superação do "clássico". Exposto à réplica da diferença o espelho reflete a deformação provocada pela repetitividade. A suposta "não-necessidade em face da existência" faz da Arte objeto de equívoco nos museus. Seu campo é o da afirmação individual na intimidade do discurso, desde a negação originária. O avanço se dá ao nível da transformação da cultura como a que se oferece agora com a Informática e a globalização. |
Foed Castro Chamma (Paraná, 1927). Poeta, tradutor e ensaísta. Autor de livros como Iniciação as Sonho (1959), Pedra da Transmutação (1984) e Filosofia da Arte (2000). Contato: foed@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista João Câmara (Brasil). |