revista de cultura # 32 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2003

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Surrealismo & poéticas do apocalipse

Contador Borges

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Contador BorgesDe todas as utopias modernas, o surrealismo talvez empreendeu a mais radical em nome de uma exigência considerável: estabelecer conexão a todo custo com aquilo que de alguma forma permanece ao mesmo tempo no homem, mas inacessível a ele, esse substrato do real que a realidade esconde e que só o inconsciente, seu depositário, poderia revelar. Na esteira da revolução operada pelo pensamento psicanalítico e sua clínica, o surrealismo creditou-se a incumbência de realizar o salto seguinte, ao julgar que a razão imperiosa esconde o homem do homem e o impede de realizar-se potencialmente, urgindo, pois, recuperá-lo para si mesmo e para o mundo. Freud nos fez ver que o homem é dividido. E se a civilização ergueu tal fronteira faz-se necessário derrubá-la, o que não se faz sem o sentimento de revolta já introduzido pelas poéticas que o antecederam. Eis uma das motivações de Breton proposta no Segundo manifesto de 29: "a idéia do surrealismo tende, simplesmente, à recuperação total de nossa força psíquica por um meio que não é outro senão a descida vertiginosa em nós mesmos". Tal atitude é soberana na medida em que lança o artista numa cruzada contra tudo e contra todos pelas vias do desejo em direção ao desconhecido, de onde supostamente a "verdadeira realidade" o aguarda, tal Eurídice no pélago o canto libertador do amado. Com a diferença de que, ao contrário do mito, e contra a advertência dos deuses, a realidade aqui, apelidada Eurídice, só se cumpre de fato ao olhar para trás (vale dizer: o outro lado da fronteira).

Libertar o homem, transformar a realidade, reinventar o mundo, ideais de uma época em consonância com as descobertas da psicanálise e o alento reiterado pelas conquistas e esperanças do marxismo. Foi o suficiente para fazer transbordar as margens com seus escritores e artistas. E o ideal, por vezes cristalizado em mito (um de seus possíveis destinos) é o primeiro prenúncio da arte, para tornar-se em seguida seu emblema, sua bandeira de guerra. É com essa atitude que Breton e seu grupo se investem dessa missão nada modesta: tornar o artista porta-voz da humanidade; o artista, libertador das amarras racionais, o primeiro artífice de uma nova era, seu principal interlocutor, aquele que, dentre todos os obstáculos, estaria apto a abrir as comportas da mente, captar e distribuir seu manancial revelado em palavras e imagens. Isto antes que se pudesse, conforme a palavra de ordem de Lautréamont, nos tornar a todos poetas: "a poesia deve ser feita por todos". Essa posição, revista mais tarde por Benjamin Péret, anuncia: "a prática da poesia coletiva só é concebível em um mundo liberto de toda opressão, em que o pensamento poético volte a ser para o homem tão natural quanto a água e o sonho", suscitando o reparo de Octavio Paz em seu célebre ensaio "Signos em rotação", ao comentar o retorno e a importância da inspiração no século que acabamos de deixar. A pensar como Péret, a poesia correria o risco de se tornar supérflua, pois num mundo em que os homens se relacionem em total liberdade, sem sofrer nenhum tipo de coerção, a poesia, provavelmente, seria desnecessária. Ou melhor, a poesia seria prática, sem necessidade de ser escrita, pois confundir-se-ia com a própria vida. Paz ainda salienta, a propósito, que no fundo todo poema é coletivo, já que nele intervém a linguagem da época como um querer da própria linguagem. A dificuldade é então deslocada para o espaço da própria linguagem. É aí que a batalha se trava. E este campo é extenso e complexo. Encontra-se no mundo, mediando as relações entre os homens, habitando seus pensamentos e sonhos, servindo a todos, seja em suas criações, seja no uso dos poderes sobre seus semelhantes e as coisas. A linguagem permeia tudo. Eis o problema. Ela também pode manter o mundo como está. A aposta da arte que o surrealismo tornou capital é que a linguagem tem que ser transformada para que o mundo (e o homem) também o possam. Os homens se servem da palavra e ela pode favorecer a exploração de uns contra os outros. Com os poetas é diferente. Eles são servidores, mas da poesia, um tipo especial de linguagem que com seu poder de beleza difunde ideais libertários e de felicidade entre os homens, além de deleitar seu espírito. É a moralidade da arte.

Na modernidade, a criação resulta de uma revolta contra o mundo que acaba atingindo a si mesma. O poema se converte em sua própria negação e nasce do parto de seu sacrifício. O poema é sua negação porque talvez contenha em si mesmo o sintoma da linguagem servil. Foi preciso então, como antevira Mallarmé, "dar um sentido mais puro às palavras da tribo". O poeta se rebela contra a poesia para assim se afirmar no seu tempo e relevar seu sentido essencial, tempo sem rosto, destituído de imagem, como escreve Paz, em que o poeta precisa criar um elo com o desconhecido, e "no fundo do desconhecido, encontrar o novo", conforme o verso de Baudelaire. Esse novo, que ele busca incessantemente e que se constitui num dos maiores valores da modernidade, pode se tornar seu espelho. O risco, como se poderia supor, é esse espelho, como acontece em "Um lance de dados...", de Mallarmé, lhe devolver um rosto estilhaçado ou disforme. E essa é uma das maiores percepções da modernidade que o surrealismo ajuda a consolidar: ao buscar o homem ao fundo de si mesmo e fazê-lo refluir sobre o mundo naquilo que ele talvez possua de mais seu, ele subtrai ao indivíduo sua máscara narcísica, que revelou-se estéril num mundo massacrante e desigual.

Paula RegoNuma bela seqüência de Orfeu, filme de Jean Cocteau, a princesa está diante do espelho; ao mirá-lo este se quebra e a personagem atravessa-o caindo nas águas que instantaneamente brotam dos estilhaços e a levam para outra parte. O sujeito já não pode se ver sem no ato dissipar sua imagem. O espelho se torna a linguagem que o aniquila tragando sua carne. O eu se dilui na linguagem. Morte para o sujeito e vida para o ser. O ser que, de acordo com Heidegger, mora na linguagem, e só a linguagem pode exprimi-lo.

Assim, o eu pode ser considerado uma marca nostálgica do indivíduo na literatura ocidental. A marca de um fracasso. A prepotência do sujeito, consolidada pelo romantismo, revelou-se para as gerações seguintes mais do que suspeita: indigna da poesia. A estética da dissolução do sujeito na linguagem tornou-se assim uma etapa necessária na produção poética moderna até os nossos dias. Não é preciso lembrar Rimbaud e sua fórmula influente e poderosa: "eu é um outro".

Subvertido o sujeito, a poesia defronta-se com o outro. O Outro, que na psicanálise é precisamente o lugar do inconsciente, da linguagem. As obras do surrealismo procedem no sentido de dar visibilidade a esse outro e seu mundo. São obras no mínimo reveladoras daquilo que, segundo Georges Bataille, tem "o poder de colocar a vida na perspectiva de uma explosão luminosa".

O surrealismo não é propriamente um estilo e não se restringe aos limites de uma escola. Congrega uma pluralidade de vozes que encontrou ressonância em vários países do mundo na poesia moderna do pós-guerra até hoje. Com ele, a poesia, que já vinha alimentando o sentimento da negação, ganha mais consistência na forma de uma "moral da revolta" (termo de Bataille). E talvez seja esse um de seus maiores méritos: a idéia de que a literatura e a arte podem conservar em si mesmas um permanente desejo de revolução.

O método da escrita automática, mais empregado no período heróico do movimento, sem dúvida mostrou-se mais complexo do que sugeria sua aparente simplicidade, revelando-se problemático e ineficiente. Em si mesma, a escrita automática, como aponta Roland Barthes, implica uma visão idealista do homem. Eis um dos mitos do surrealismo. No entanto, não se pode negar que partia de uma hipótese tentadora: eliminar a fronteira que nos separa dos recônditos da mente. Seus efeitos na poesia universal posterior também não devem ser negligenciados, ao menos seu desejo implícito. A prática decorrente disso de uma forma ou de outra evidenciou a possibilidade de levar a poesia em direção ao desconhecido. Blanchot também acolhe sensivelmente o problema. A escrita da poesia automática nos coloca diante do imediato. Mas o imediato não é próximo. Ele "não é próximo daquilo que nos é próximo". Mas ele nos faz estremecer. O imediato é a presença de uma estranheza que em poesia pode se tornar uma forma de deriva. Eis, talvez, uma conseqüência positiva dos efeitos da aplicação deste método: a idéia de que a poesia é matriz de uma deriva e que explorar esta margem fortalece o sonho de um mundo diferente do que existe. Dito de outro modo: alimenta o sonho de utopia da linguagem, vital para se preservar a literatura como espaço de liberdade e criação visionária. Aliás, mesmo que um dia nos inibam a capacidade de sonhar, mesmo que para o bem e para o mal sejam abolidas todas as fronteiras, a subjetividade humana não cessará de produzir singularidades. Deste modo haverá sempre uma margem, pois ela é necessária à criação. É daí que o poeta projeta sua voz e entreabre ao leitor possibilidades múltiplas de ver o mundo (e até sonhar com um melhor). Se a poesia perder esta margem de exceção, provavelmente inventará Paula Regooutra. Quanto ao mundo, a realidade que dele se diz "concreta" pode se esvanecer em segundos. Não é o que a mídia faz com os acontecimentos? É preciso então ler a realidade nas entrelinhas do mundo. É o que faz o poeta revelando as operações complexas da margem, do silêncio e das sombras. "Todo rio é um convite ao sobressalto", lê-se em Anotações para um apocalipse de Claudio Willer. Os rios que ele vê nesse rito alucinatório transportam a própria substância do poema, que é a da revolta que substitui o mundo possível da ordem e da racionalidade instituídas por um universo paralelo constituído das potencialidades da palavra. Isso porque os rios (seu tempo) são vistos dessa margem que o poema exalta para a reconfiguração do mundo. O espetáculo do apocalipse que o poeta assiste e revela é o do mundo transfigurado pela palavra. O narrador se coloca num ângulo extremo da sensibilidade de onde contempla sua efervescência. Mas ele também (seu sujeito) é tragado pelo movimento. Ele tem "o cérebro cortado em duas metades", e "fixa o olhar para além dos contornos". Tudo o que vê nessa divisão imposta pela vida, mas condensada no ato da criação poética, é a revelação desse instante supremo em que a realidade do mundo se transforma em outra coisa cuja materialidade tenta dar conta o poema. O resto, "são conspirações de silêncios lacrados".

Se a poesia de Willer (onde as margens se pensam) revela paisagens alegóricas com certo distanciamento onde o poema é povoado não por homens e suas ações, mas pela transubstanciação de seus efeitos: "o crime é a mais bela carícia junto ao meu ouvido humano", as paisagens de Roberto Piva emergem de um cosmo mais definido, ao menos em Paranóia. O narrador é um dos elementos da urbe delirante descrita pela poesia que jorra de suas entranhas. Ele enuncia um delírio proclamado universal, sem salvação para o leitor indiferente: "eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos". Nele falam uma cidade doente e seus habitantes que assistem a sua própria devoração pela linguagem. O poeta então indaga em coro com os anjos de sua imaginação: "cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar asilo na tua face?" Mas terá ela ainda um rosto? Esta cidade vive o tempo de sua própria ruína, que, paradoxalmente também é o de sua glória. E o momento fisgado e registrado pelo poeta é como se fosse o último vivido pela cidade em vias de desaparecimento. Por isso tudo o que vive (revivido pelas imagens) é levado ao extremo. Momento em que só nos resta viver com urgência toda a glória da beleza, pois o ponto de intensidade máxima dessa poesia exasperada coincide com o momento de redenção e êxtase do poeta com sua linguagem.

Tanto a poesia de Piva quanto a de Willer são poéticas do apocalipse, testemunhas desse momento universal da poesia revolta vivido pela modernidade. Poder-se-ia citar outros poetas brasileiros que também criaram suas obras sob este impacto como Sergio Lima, que faz do poema uma topografia panteísta do corpo erotizado, e Rodrigo de Haro, de fatura mais lírica e contida, em que os versos parecem escandidos por uma navalha oculta, que repentinamente surge nas mãos do poeta. Assim são as surpresas que afloram de seus poemas, que "bem escondidas traziam/ a mão seca do enforcado". Eis em todo caso sua fórmula: "sem terror, nenhuma beleza".

Paula RegoSe o surrealismo consagrou na literatura e nas artes a idéia da fronteira, parece também ter contribuído para preservar certa margem criadora, pois, é a partir das margens que a arte transpõe fronteiras. No entanto, caberia perguntar: Haveria hoje algo ainda intransponível que se possa chamar de fronteira? O Outro, instância do inconsciente e da linguagem na psicanálise, não se mostra cada vez "menos oculto" em nossos atos e representações, ainda que ele talvez não esteja em parte alguma, ou, quando muito, entre nós e os seres, entre nós e a linguagem? E essa questão leva a outra: ao expor-se nesse mundo fragmentário de hoje onde nem nossos sonhos estão a salvo, o Outro, reserva do inconsciente e da linguagem, não estaria também em perigo? De qualquer forma, a pensar com Foucault, num mundo sem exterioridade como o nosso, não seria toda margem um mito? Afinal, o que somos neste mundo fragmentário em que vivemos? Mundo sem exterior, onde o sonho inclusive, expropriado pela "realidade virtual" parece estar perdendo seu poder transformador, onde giramos sem sair do lugar, repetindo esquemas, padrões despejados pela mídia. Como recobrar quotidianamente a lucidez perdida? Como ainda praticar a "vidência" incensada por Rimbaud e mobilizar os fluxos insurgentes do espírito? Em outros termos, como ainda conservar para a literatura uma margem de "revolução permanente" tão cara ao surrealismo e às estéticas revolucionárias da modernidade? Em não havendo mais sujeito centrado e absoluto como acreditava o romantismo, resta em sua lacuna o processo imanente de nossa subjetividade, aberto à fragmentação do eu e às injunções do outro, assim como às diversidades do mundo contemporâneo. Processo vigoroso em curso nas subjetividades contemporâneas e nas produções artísticas. Caberá então nos perguntar de que modo "extrair da mera existência a vida?", o que mostra o quanto esta frase de Artaud soa ainda tão forte.

Vivemos a diversidade e a diversidade nos ameaça (quando não esmaga). Se a fronteira a ser transposta pela arte já o foi de fato, vivemos em meio à fragmentação do mundo contemporâneo a qual, como analisa Peter Pál Pelbart em A vertigem por um fio, também se manifesta nas artes e na literatura (que herdamos da modernidade). Os poetas de hoje talvez se encontrem num mundo "sem fronteiras", algumas transpostas pela literatura e pela arte, outras inapelavelmente abolidas no processo de desterritorialização violenta imposto pelo capitalismo à subjetividade, onde noções tradicionais como "dentro" e o "fora" parecem perder o sentido. Se assim é, qual o futuro da arte e da poesia num mundo sem fronteiras e sem futuro, onde parecemos girar em falso no tempo nebuloso e turbulento do presente contínuo? Haverá ainda margem para a criação?

Sim, provavelmente, enquanto houver homens insatisfeitos num mundo em que indignar-se é o mínimo que se possa fazer. É também provável que continuemos a ouvir o "caráter inesgotável do murmúrio", como exprimiu Breton no Primeiro manifesto surrealista. Eis justamente, segundo Blanchot, a riqueza infinita da inspiração poética: o caráter inesgotável da inspiração é ela ser a aproximação daquilo que em hipótese alguma se pode interromper. A sensação de que, a despeito da dura realidade da vida, de seus muros e fronteiras, haverá vozes (haverá poesia) que falarão para sempre.

Contador Borges (São Paulo, 1954). Poeta, ensaísta e tradutor. Autor de Angelolatria (1997). Traduziu Char, Nerval, Sade. Contato: contador@unisys.com.br. Página ilustrada com obras da artista Paula Rego (Portugal).

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