revista de cultura # 32 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2003

aglogo (tarja).jpg (41350 bytes)






 

Annibal Augusto Gama: páginas que se abrem em silêncio

Leontino Filho

.

Annibal Augusto GamaA literatura mais do que qualquer outra atividade não admite meio termo, para ser grande e necessária, ela precisa ser inteira. Exercício pleno do embate do homem com os seus múltiplos fantasmas, com as suas angústias, com as suas solidões, com os seus medos e com as suas andanças no reino da palavra imaginada e sentida com toda a força do pensamento. A literatura, como vasta vereda do existir, requer sempre uma devoção total, a despeito de se tornar frágil e mero cosmético, reles penduricalho para enfeitar os salões nobres e vazios dos poderes mercenários da sociedade. A literatura é, pois, a arte que nasce do estrondoso silêncio da criação, no instante mesmo em que o poeta, diante da página em branco, visita o universo do desejo e refaz outros mundos a partir do seu próprio território. Ou quando o escritor, no afã de dizer o que o inquieta, constrói os mais variados lugares do ser habitado pelas mais díspares personagens - o mundo se agiganta com o vôo do fazer literário.

Do silêncio falante da literatura, surge a voz marcante e singular do poeta e escritor mineiro Annibal Augusto Gama (Guaxupé, 1924), que no auge de sua vitalidade artística, vem produzindo, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde está radicado há mais de 30 anos, uma obra densa, vigorosa, importante e, sobretudo, em permanente diálogo com a fina flor das literaturas brasileira e universal. O primeiro livro publicado por Annibal Augusto Gama, foi o Manual para aprendiz de fantasmas (FUNPEC, 2001), uma verdadeira arte de encantar seres, sejam eles imaginários ou não. O encantamento literário desconhece portas, já que está sempre com as janelas abertas para novas intromissões. Manual para aprendiz de fantasmas possui a rara qualidade de embaralhar com sabedoria e engenho os gêneros. Visita com desenvoltura e gênio o romance, o conto, a crônica, a poesia e o ensaio. Catalogar uma obra como esta é pura distração, melhor dizer que é um livro onde a ficção entrelaça-se com a vida de tal maneira que ambas passam a ter qualidades recíprocas nessa parceria. O segundo trabalho publicado pelo Annibal Augusto Gama intitula-se A volta de Simão Bacamarte (FUNPEC, 2001), uma deliciosa e instigante recriação do universo machadiano. A narrativa de Simão Bacamarte propicia a descoberta de outros intentos imaginários do genial Machado de Assis, agora, também, travestido em personagem, a partir da criativa busca do narrador que alimenta a esperança, quase sempre cética, de ver brotar uma nova disposição para o convívio em sociedade. Um dado que merece ser ressaltado na ficção de Annibal Augusto Gama é o viés irônico, a dose de humor presente em seu texto. Por vezes, a sátira dá o tom na prosa do escritor mineiro.

Livre do ineditismo que ele mesmo lhe impôs - a já consagrada desconfiança mineira -, Annibal Augusto Gama reuniu oito de seus títulos poéticos: Os óculos corrosivos; As ranhuras do tempo; O edifício oco; O pássaro empalmado; Albergaria e outras pousadas; Becos, ruas e sacadas; O Bacharel de Cananéia e O poeta frugal, num só volume (618 p.) intitulado 50 anos falando sozinho (FUNPEC, 2002). Um múltiplo livro de poemas, onde as diversas temáticas convergem para o mesmo plano: a arte de ser poeta afinando o verso nas veias da vida. 50 anos falando sozinho é um livro de aprendizagens como deve ser toda boa poesia, mas é, também, por isso mesmo, uma grande indagação sobre o ser e o estar aqui e agora, ciente de que o porvir resulta dessa pergunta que nunca se cala. A poesia de Annibal Augusto Gama é inteira, e por ser inteira, é necessária, sempre. A gaveta do escritor mineiro guarda vários inéditos, entre livros de contos, como O doutor da mula ruça; A gaveta de Belzebu e O tiro pela culatra; um romance, Os sobrados destelhados; uma obra ensaística, As cinzas do charuto (Ensaios da lua nova) e um Diário já com mais de duas mil páginas, entre tantos outros escritos. Por isso mesmo, torçamos para que essa bagagem seja aos poucos aberta aos que amam a literatura.

Acompanhe a entrevista (em tom de conversa) concedida por Annibal Augusto Gama e perceba alguns meandros desse fantástico universo literário.

Paula RegoLF - Em que medida o trabalho intelectual esbarra na inspiração para fazer brotar o verso pleno ou perfeito, se existe verso pleno e perfeito?

AAG - Você, meu amigo, parece que descrê da inspiração. Faz companhia a Poe, e a outros. Ou então acredita que ela, existindo, pode ser uma barreira que nos separa do verso "pleno e perfeito". Inspirar é respirar para dentro. Fazer que o ar entre em nossos pulmões. Podemos explicar o mecanismo da inspiração como tal, mas não da outra inspiração. Atribuímo-la aos deuses, às musas, ou ao Demônio, já que não há obra literária sem a colaboração deste cavalheiro, segundo André Gide. A inspiração sopra onde quer, diz Gilberto de Mello Kujawski. Será uma fulguração, como o raio que cai. Pode ser excessiva ou avara. Se excessiva, devemos aparar-lhe as asas. Mas não a prender numa gaiola. É ajustando-a à nossa experiência, às regras aceitas e catalogadas, à métrica, à rima, aos fonemas, às dissonâncias, ao ritmo, que se pode chegar ao verso perfeito e pleno, decerto uma raridade. Mas que existe, aqui e ali. Existe em Virgilio, em Horácio, em Mallarmé, em Valéry, em Apollinaire, em Bilac, em Raimundo Correia, em Drummond, em Manuel Bandeira. Existe em Racine e Corneille. Existe no abundante Victor Hugo. Em Baudelaire. É aquele que é intocável. Mudada nele uma só palavra, ele desaba. Não é que o procuremos laboriosamente. Só às vezes. Mas ele, não raro inesperadamente, brota como uma rosa. É claro que atrás dele está tudo o que experimentamos e vivemos durante muitos anos. Todas as manhãs parecem iguais. Todavia, sempre nos lembramos de uma manhã perfeita, em que tudo se harmonizava em nós e fora de nós.

LF - O hedonismo poético nasce com a melancolia da solidão ou é um mero artifício para vencer as necessidades de uma vida que congrega sempre dores e alegrias?

AAG - Se você considera o hedonismo não apenas como prazer, mas também como dor, aceito-o. A vida é feita de doce e amargo, de úmido e seco. E o "hedonismo poético" tanto pode nascer da melancolia, como da solidão. Poe achava que todo poema se faz com a melancolia e a tristeza. Mas a alegria também é um pássaro. E arte é igualmente artifício. O bom artista é um bom artesão. Não congrego dores e alegrias, para viver ou fazer os meus poeminhas. Elas vêm a mim.

LF - A poesia é o concerto ou o "desconcerto do mundo"?

AAG - A poesia tanto é o concerto como o desconcerto do mundo. Concertamo-lo, através dela, para o desconcertar. O poeta monta a máquina do mundo para a desmontar. O poeta é um inconformado, um rebelde. Não quer as coisas apenas como elas são, ou como deviam ser. Quer a plenitude do ser. Por isso está sempre desavindo e desavindo-se. Mas não é somente um justiceiro que repara os danos da desordem da vida. Porque uma desordem pode ser outra forma de ordem, a nossa. O poeta é um reivindicador, que não reivindica. Ele deformar, para dar outra forma.

LF - Em que pele fantasmática está tatuada a inscrição de "deus" na literatura.

AAG - Na pele da Esfinge. Deus e o Demônio são personagens inarredáveis da literatura. Quando os afastamos, eles se infiltram subrepticiamente. Uma personagem de Dostoievski dizia que, se não existisse Deus, tudo seria possível e permitido. Ao contrário, se não existisse Deus, nada seria possível. E a permissão ou não permissão não teria sentido.

LF - O que pressupõe uma boa história? (Uma boa narrativa?)

AAG - Antes de mais nada, o estilo. Sem o estilo, compreendido também como o modo próprio de ver a vida, não há salvação. Depois a atmosfera. Há narrativas que são apenas atmosfera. O diálogo. O diálogo que deve ser incisivo, coloquial e preciso. As personagens devem estar geralmente numa encruzilhada, perplexas. Não se deve concluir com uma explicação. Deve-se sugerir muitas explicações.

LF - Toda história é fruto de um fantasma ou um delírio de Simão Bacamarte?

Paula RegoAAG - Os fantasmas não dão fruto. Comem-no. Nós somos os fantasmas dos fantasmas. E enquanto eles não são para mim aterrorizantes, muitos de nós são aterrorizantes para eles. A lucidez era o delírio de Simão Bacamarte. Nossos delírios é que nem sempre são lúcidos, mas convém combinar uma coisa com outra.

LF - A ironia fantasmática é que move a sua literatura? (Os aspectos satíricos de seus fantasmas são personas que direta ou indiretamente conduzem o leitor à grande vereda textual que é a sua literatura).

AAG - Obrigado, Leontino, pela última parte da sua pergunta. A ironia é uma defesa e também um ataque. Os meus fantasmas são irônicos sem o saber. Têm uma ironia sem maldade, que é antes humor. A vida sem o humor seria impossível. A minha literatura, de fato, se move através do humor. Vê as coisas ao contrário, para vê-las certas. Você quer coisa mais humorística do que atravessar uma parede, quando a porta está aberta para se entrar? Mas os meus fantasmas tanto atravessam as paredes como entram pela porta aberta. Não observam regras, nem admitem convenções. Representam a liberdade.

LF - A poesia é um sacerdócio? Fale um pouco a respeito de 50 Anos Falando Sozinho.

AAG - Só se for um sacerdócio heterodoxo. O poeta é um herege que obedece todos os mandamentos de Deus. E que indaga se a primeira edição das Tábuas da Lei, quebradas por Moisés, corresponde exatamente à segunda edição que lhe foi entregue no Monte Sinai. Entre uma edição e outra, lavé não teria feito acréscimos, ou suprimido algumas normas? Quais? Seria a segunda edição revista, aumentada e corrigida?

50 Anos Falando Sozinho de um monólogo comigo mesmo e de um diálogo com o outro. Um homem que fala sozinho é muito ouvido. Discrepa dos que falam para todos. Quem fala para todos não fala para ninguém, nem para si mesmo. É o que costumam fazer os nossos políticos. Reuni esses poeminhas em vários livros, cada um com a sua temática, mas ligados por um fio. A insistência de meu filho mais velho, Antônio-Carlos, e de meu amigo Gilberto de Mello Kujawski, me levou a publicá-los. Fiz bem ou fiz mal? Gilberto, ultimamente, diz que descobriu a chave da minha poesia: é chapliniana. Do Carlito das Luzes da Cidade, de Em Busca do Ouro. Porque Carlito, depois, engordou, tornou-se pesado e virou Sir Charlie Chaplin. Não pretendo ser armado cavalheiro do Império Britânico. Continuo a preferir as botinas e a bengalinha. A bengalinha de Carlito é a vara de Moisés diante do faraó do Egito. Gosto do pássaro voando, mas também o empalmo. Toda poesia é um alvo escamoteado. Miramos o alvo e arremessamos a flecha na mosca. Mas um demiurgo o escamoteia, antes que a flecha o atinja. Por isso continuamos a atirar as flechas. A poesia é também um alçapão engatilhado. Mas não para pegar o pássaro, mas para o soltar. Sou sagitariano, nasci no mês de dezembro. Minha poesia é também circunstancialidade e o fruir da vida. Sou abstrato, sendo concreto.

Paula RegoLF - O poeta cria suas próprias angústias para depois resolvê-las. Essa experiência de percorrer a dor almejando uma nesga de felicidade é, em verdade, a rota elementar de toda criação artística?

AAG - O poeta não cria a dor, a vida é que a cria, e ele é um filho bastardo da vida. Se a cria, cria-a em fingimento e realidade. Mas todos os versos são escritos no dia seguinte, para repetir ainda uma vez Fernando Pessoa. Isto significaria que ele recria a dor que já não sente, para a sentir novamente. E dor, prazer, e felicidade, são um dos lados da existência, para que haja o outro lado. Se não houvesse a esquerda, o torto, não haveria a direita e o reto. Na rota da criação artística os caminhos se bifurcam.

LF - Afinal, para que serve a poesia (Mário Faustino)?

AAG - A poesia não serve, não é uma criada de quarto. Nós é que somos o seu valet de chambre. E às vezes o seu mordomo. Servir é ser útil. Somos úteis à poesia para que ela nos ensine que a utilidade que transforma as coisas nos enriquece mas também nos perde. Ela quer que a procuremos não para a achar, mas para achar a vida.

A sua última pergunta refere-se a Américo de Oliveira Costa. Sim, conheço-o e gosto dele. Tenho o seu livro A Biblioteca e seus Habitantes, em segunda edição, comprado em 14 de dezembro de 1984, lá vão dezoito anos De vez em quando volto a ler-lhe uma página ou outra. Não creio que ele me tenha influenciado, a não ser subterraneamente, quando escrevi o Manual para Aprendiz de Fantasma. Todo escritor é o fantasma de si mesmo, e não precisa ser ghost-writer para isso. Planejei e já escrevi umas cinqüenta páginas de um livro com o título O Sono na Biblioteca. Não sei se o concluirei. O meu Manual é diferente do livro excelente de Américo de Oliveira Costa porque participa da ficção, dos pequenos ensaios e da crítica. É uma convivência com a literatura, através dos fantasmas que representam a liberdade. Américo de Oliveira Costa, com sabor e argúcia, respiga frases e pensamentos de milhares de autores, com ligeiros comentários. Eu, às vezes, no meu livrinho, invento autores que não existem. Porque também há autores anônimos e não publicados, ou cujos livros se perderam definitivamente, que são verdadeiros fantasmas. Borges ideou, mas não escreveu, um livro que me fascina: um livro de prefácios para escritores inexistentes, em que citaria deles trechos de prosa que não escreveram. A vida está dentro dos livros (existentes ou não existentes), tanto quanto dentro de nós. E permito-me citar-lhe o meu último poeminha de O Poeta Frugal:

"A vida, minha querida,
a vida
não é portas a fora,
a vida é portas a dentro".

Com esta última resposta, fecho a porta.

Leontino Filho. Poeta. Autor de Cidade íntima e Sagrações ao meio. Entrevista realizada em agosto de 2002. Foi parcialmente publicada no Rascunho # 31 (novembro de 2002). Contato: r.leontino@ig.com.br. Página ilustrada com obras da artista Paula Rego (Portugal).

retorno à capa desta edição

índice geral

triplov.agulha

triplov.com.agulha.editores

jornal de poesia

Banda Hispânica (Jornal de Poesia)