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revista de cultura # 32 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2003 |
Livros da Agulha
Américo Ferrari (Lima, 1929) es autor de un buen número de poemarios y de estudios sobre poesía e poética. En 1998, apareció en esta misma colección su obra poética completa hasta la fecha, Para esto hay que desnudar a la doncella. En 2000, publicó su último libro en Lima, Casa de nadies. En Noticias del deslugar, según decir de Edgar O'Hara: "El lugar al que se refiere [ ] transmite su apetencia de sonidos, como una esquela que el lector recibiera sin adivinar las razones del remitente. Las nuevas, sin embargo, casi no son buenas ni mucho menos; síntomas, tal vez, de un estado de ánimo en el mundo y una manera de sobrevivir."
Organizado por Gustavo de Castro e Alex Galeno, trata-se de uma coletânea de ensaios sobre a relação entre o jornalismo e a literatura. Os textos explicitam alianças, simbioses, diferenças, insídias, limites e propósitos possíveis relativamente aos dois tipos de narrativa. Autores como Moacyr Scliar, Deonísio Silva, Daniel Piza, Marcelo Coelho, José Marques Melo, entre outros, exploram as fronteiras entre os dois temas de modo instigante para leitores de todos os matizes. Além da diversidade interpretativa, o estilo, a objetividade, a metáfora, a crônica, o embate com a realidade e os diferentes papéis do jornalista e do escritor são alguns dos temas tratados neste livro. Segundo um dos organizadores, Alex Galeno: "A literatura como um meio de evitar que a imaginação jornalística se transforme em mero exercício retórico e enfadonho no cotidiano. Eis um dos objetivos deste livro. A literatura germina o imaginário e faz com que seus percursos se prolonguem pelos passos vagabundos da escrita. Como disse Georges Bataille, literatura é comunicação. E nos oferece antenas para o mundo e vestimentas para a vida, diz Edgar Morin. A literatura e o jornalismo, portanto, devem ser textos pacientemente confeccionados. Neste livro transdisciplinar, encontraremos textos tecidos que, pela mobilidade criativa de escritores e jornalistas, podem se transformar em fantasias, vestimentas ou numa sensação tátil aos leitores." Gustavo de Castro, Jornalista, Mestre em Educação e Comunicação e Doutor em Antropologia pela PUC/SP, com uma tese sobre o escritor Italo Calvino. Professor de Comunicação Social do UniCeub e IESB, em Brasília-DF, membro do Grupo de Estudos da Complexidade (Grecom/UFRN) onde organizou, junto com Maria da Conceição de Almeida e Edgard de Assis Carvalho, o livro Ensaios de Complexidade (Sulinas, 1997). Alex Galeno, Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo- PUC/SP, com tese sobre o tema da revolta em Antonin Artaud. Professor de Jornalismo. Membro do Núcleo de Estudos da Complexidade - Complexus-PUC/SP e do Grupo de Estudos da Complexidade-GRECOM-UFRN. Tem publicado ensaios em periódicos científicos e em jornais. Participou da coletânea Ensaios de Complexidade, publicada pela Editora Sulina.
Em meados de Abril de 1999, em visita ao local da batalha de Culloden (travada na Escócia, em 1746, entre as tropas de Willliam Augustus, irmão do rei da Inglaterra, e as de Charles Stuart, que jurara ao pai trazer-lhe "as três coroas, da Escócia, de Inglaterra e da Irlanda"), a narradora de Lillias Fraser (Lisboa: Relógio dÁgua, 2002) viu e ouviu o que os turistas americanos, à procura de "marcas do clã de onde pensavam descender", não conseguiram apreender. Falta-lhes História, conclui a narradora, fazendo-nos lembrar uma afirmação de Godart, em Elogio do amor. Revelando ser capaz de súbitas e especiais visões, viu um bando de jovens montanheses, os "highlanders", a marchar para o campo de batalha, trajados com o "kilt" que após o massacre seria proibido pelos ingleses: "eu bem os vi, no dia em que lá fui. Senti-me exausta por andar de pedra em pedra sem partilhar a alegria americana. Acho que o alarme que corria o campo era audível a gente como eu, puros visitantes que não iam à espera de o ouvir" (p. 17- 19). O enfoque de um acontecimento histórico ocorrido no século XVIII suscita inevitáveis comparações com o Memorial do Convento, de José Saramago. O romance de Hélia Correia oferece ao leitor um provocador encontro entre a sua personagem principal e Blimunda Sete-Luas, uma das personagens centrais do Memorial e talvez a mais admirável criação saramaguiana. Esse inesperado encontro, levando adiante o jogo da ficção das ficções do próprio Saramago (O ano do morte de Ricardo Reis e as "ficções do interlúdio" pessoanas), ocorre no capítulo XVIII da terceira e última parte do livro, e que, como a segunda, passa-se em Portugal, mas após o terremoto de Lisboa. Apesar das semelhanças entre Lillias e Blimunda ambas mulheres assinaladas, dotadas de olhos excessivos -, são diferentes as formas de construção das referidas personagens, as posturas do olhar dos narradores, os modos de conceber o século XVIII, e, por conseguinte, a situação das duas obras em relação ao chamado romance histórico. Como afirmou Hélia Correia numa sessão sobre o romance, "tentei olhar o século XVIII com o olhar da época, ao contrário do José Saramago que julga as situações do século XVIII com os olhos da actualidade". Lillias parece estar ligada à linhagem de videntes celtas ou germânicas, inclusive pela ascendência escocesa (a mesma da autora). Os olhos dourados denunciam a sua origem, "sinal de que houve bruxas na família" (p. 43), provocando desconfianças. A rejeição ao que de Lillias emana como não semelhante - aspecto ao mesmo tempo fascinante e perturbador -, assim como a sugestiva sonoridade do nome, nos remetem à figura de Lilith, de cuja lenda encontram-se vestígios na versão bíblica canônica (Is 34,14: "Os gatos selvagens conviverão aí com as hienas,/os sátiros chamarão os seus companheiros./Ali descansará Lilit,/ e achará um pouso para si"). Apesar de esquecida, rejeitada e muitas vezes expulsa de casa, Lillias não alimenta nenhum ressentimento ou desejo de vingança, como os atribuídos à mítica Lilith. Por outro lado, tendo em vista que só aos poucos, à medida que cresce, toma conhecimento do seu poder, o estado informe em que Lillias se encontra no romance não resulta de punição divina, mas da vontade narrativa que não a faz surgir pronta, como Palas Atena a saltar vestida e armada da cabeça de Zeus. Sem perder de vista os limites estreitos da época e da condição da personagem, a narradora não lhe tira o mínimo de liberdade possível para se constituir a si mesma. No âmbito da literatura portuguesa, por seu dom de prever o futuro, profundamente ligado à morte, e pela capacidade de sobrevivência, Lillias aproxima-se de Quina, protagonista de A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, autora da preferência de Hélia, assim como Maria Gabriela Llansol. A mudez é o recurso de Lillias para preservar o segredo do nome e da língua de origem, enquanto Quina, cheia de verbosidade, encontra condições para manifestar seus saberes e poderes - o dom oracular, a recitação de rezas e a arte de contar histórias. Mais longinquamente, o exílio de Lillias, desde pequena levada para longes terras, distantes da casa familiar, desperta-nos reminiscências da Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro. Por outro lado, talvez não seja despropositado aproximar Blimunda, personagem de Hélia, de Ana de Peñalosa, tal como se nos apresenta no Lugar 1 de O Livro das comunidades, de Llansol. Ana, figuração do lugar materno que remete à Grande Mãe da cultura celta, integra uma genealogia de mulheres capazes de atravessar o tempo. Em períodos de ódios acirrados e perseguições inquisitoriais, como o de Lillias, forçoso é que o silêncio da sua voz encubra a sua ascendência e seu dom. Dotada de dom oracular, mas, paradoxalmente, silenciada pela força do destino, é exilada e emudecida, como a profetisa Sibila, sua ancestral mítica. A princípio chora de noite, aterrorizada pelas visões premonitórias, pois "ainda não compreendia que aquilo não estava realmente a acontecer" (p. 48). Percebendo a inutilidade do aviso, aprende a sufocar o pavoroso grito que irrompe de súbito ante a visão compadecida dos que estão a se desfazer e sorriem, sem saber da forma pela qual vão morrer. Assim atravessa parte da infância a esgueirar-se silenciosa, com o fulgor encoberto por sujidade, confundindo-se com um animal, a dormir perto da lareira (p. 46), qual Gata Borralheira sem ambição de transformar-se em Cinderela. Desprotegida, salva a si mesma, graças ao dom de vidente: em menina, ao fugir da pavorosa visão, escapa do massacre de Culloden, e mais tarde, avisada pelo dom que já domina, evade-se da zona atingida pelo terremoto de Lisboa. Em duas situações em que corre perigo de vida, encontra na figura de uma velha a proteção inesperada. Ambas ocorrem no inverno, no início e no fim do romance, indiciando, através da circularidade, a continuidade da sua errância. Na primeira, ainda menina, quando atravessa o chão nevado da Escócia, encontra acolhimento numa velha cuja aparência associa ao estereótipo da bruxa. No final, já adulta, enfraquecida pela fuga à perseguição que julga que o Coronel Maclean lhe move e pelo "escorrimento" da gravidez que ainda desconhece, deixa-se cuidar pela mulher que a olha "com firmeza, como quem dá o ultimo retoque numa obra que honrou a expectativa": "Lillias viu o sinal manchar-lhe a face, que era a face direita, a do poder" (p. 279). Se "o poder acha-se em toda parte", como afirma Blimunda, só "num espaço entre fronteiras", "um espaço fora dos reinos, sem governação", o filho que Lillias espera poderá nascer (p. 281-282). Um filho de pai incerto, gerado na solidão e no silêncio, quase por partenogênese, como o alegre Robin Hood das feiticeiras medievais. Para esse lugar sonhado e ainda inominado, encaminha-se Blimunda com serena determinação e também com raiva, puxando, "como a velha na montanha no dia da batalha de Culloden, pelo pulso arroxeado de Lillias", outra vez moça e menina, guiada por mão firme e deixando-se embalar, sob a chuva (a chuva que tanto inspira a criação textual de Hélia Correia), pelo cheiro dos cabelos de figuras maternas. Para compensar a seqüência de equívocos derivados sobretudo da repulsa que Lillias provoca, e que vão sucessivamente exilando a menina das inúmeras casas a que é entregue, uma sucessão de acasos e inesperadas proteções conspira a seu favor, como se diversas forças humanas e da natureza, assumindo o lugar da mãe ausente, se conjugassem para dar um mínimo de vida e acolhimento a essa menina "tão abandonada de colo humano" (p. 51), e que só encontrará um possível lar o desejado pouso de Lilith e sua estirpe -, no sonho de Blimunda. (Maria de Lourdes Soares)
José Luis Vega nació en Santurce, Puerto Rico en 1948. Adolescente aún, publicó su primer poemario titulado Comienzo del canto (1965). Sin embargo, su irrupción plena en la poesía puertorriqueña está vinculada a su labor como cofundador de Ventana (1972), revista que marcó un alejamiento deliberado de la poesía social entonces en boga en su país a favor de una escritura más atenta a sí misma y a la inmediatez de la persona. Signos vitales, su segundo poemario publicado en 1974 y eu cuadernillo Las natas de los párpados/Suite erótica, del mismo año, recogen el tono y las inquietudes del poeta en el primer lustro de la década de 1970. A estos le siguen otros libros de modulaciones varias. Letra viva, primera antología de sus versos, reúne lo fundamental de sus libros publicados hasta la fecha y da cuenta, además, de la obra en marcha del poeta hacia el logos de la convergencia, según decir de Julio Ortega.
A leitura de novos textos entrelaça-se com a leitura de textos já lidos, sempre confirmando vereditos, influindo na gestação de sombras e de novas formas. A perspectiva do prazer é gerada por uma descarga de endorfina que suaviza a própria existência, por mais cruel que ela seja. Os contos reunidos em primeira publicação do carioca Leonardo Vieira de Almeida (1971), sob o título Os que estão aí (Ibis Libris, 2002), podem possibilitar a recordação dos Contos cruéis (Iluminuras, 1987), de Philippe Auguste Mathias, o conde de Villiers de lIsle-Adam, uma das figuras mais emblemáticas na Paris do século XIX. Não pela correlação de idéias, mas, talvez, pela maneira de se porem afastados da extrema racionalidade, pela apresentação de atmosferas oníricas e alucinatórias, como também pelo jogo simbólico com que foram tecidos. De Villiers, um fragmento do conto "O intersigno", um trecho de diálogo entre o senhor Xavier e o abade Maucombe: "- Vá em paz, disse o abade Maucombe. / - Eh! É que se trata de quase toda a minha fortuna! murmurei. / - A fortuna é Deus! disse Maucombe simplesmente. / - E amanhã, como viverei se... / - Amanhã, não se vive mais, respondeu ele." A partir desse extrato, a própria sentença condenatória da vida. Sentença essa que o contista já faz emergir, ritualisticamente, quando afirma que "A infelicidade tem início quande arde o crepúsculo." (In: "Canaã") Com certeza, o autor é leitor de Clarice Lispector e tem no conto "Amor", uma confirmação. Vejam as re-escrituras: a partir da citação anterior, no texto da autora lê-se, "Certa hora da tarde era mais perigosa"; ou, a partir de "O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.", em que o motivo se repete no trecho do conto "Canção de ninar": "A capa de umidade que os cobria esvanecera-se junto com o vulto na janela, mas o mal estava feito e pairava no ar a vibração de um acorde sombrio." Não pela modelagem de um jogo verbal repleto de intertextualidade ou mesmo pelo pastiche, mas muito mais pela forma de seduzir o leitor com os artifícios da prosa poética; ou pela construção de torneios metonímicos, em que pequenos indícios revelam atitudes plenas, ou vice-versa; ou, ainda, pela maneira opressora de realçar comparações e validar metáforas, Leonardo Vieira de Almeida surpreende. Sua escrita é forte, massacrante, cruel, e ao mesmo tempo fluida e sensível. O conto "As mãos do açougueiro" é de uma crueldade dilacerante. Fugindo dos modelos em prosa poética dos três primeiros textos, fazem o leitor hesitar, mas por pouco tempo. Na falta daquela tessitura metafórica, o conto se delineia mais objetivamente, até provocar a vertigem, na cena em que o açougueiro se masturba ao contato físico da carne congelada do frigorífico. Entre víboras, serpentes, escorpiões, medusas e crucifixos símbolos reincidentes nos contos o leitor pode ainda se deparar com insólitas comparações. Em "A gárgula", espécie de apólogo, a personagem principal parece se confundir com as instituições, em cuja edificação serve de ornamento e escoamento de águas. Diz ter já sido homem de negócios e se traduz "O homem de negócios ainda continua no seu recanto de janela. Acho que congelei sua imagem, para examinar, profundamente, sua aparência de estátua esfíngica. Eu, que há alguns anos, tinha por objetivo o mesmo sangue que percorre seus caminhos." "Ratos" paira entre a alucinação e a loucura. É um conto que pode se alinhar entre a hesitação do fantástico e alguns indícios do surrealismo. Mas, ainda, como reflexão e consciência. Uma mixórdia de sentidos. Eis um trecho: "Acreditem. Ela existe. Os ratos existem. No dia em que vi a enorme ratazana, consegui vencer o medo; e abandonei a casa cinco." Casa, diga-se de passagem que (in)existia do lado par, entre os números quatro e seis, e onde vivia Lígia, "uma mulher muito caseira". Alguns clichês não desautorizam a leitura de Os que estão aí, pois as metáforas surpreendentes atenuam o provável deslize. Quando se lê "Gaspar", a verossimilhança se dá de forma sutil: um homem mata mulheres e as preserva flutuantes em aquários. A única fratura deste conto ocorre no momento em que o narrador se desvenda como serial killer, o que, no entanto, não compromete os meios da efabulação. Enfim, Leonardo Vieira de Almeida, também arquiteto e urbanista, vem unir-se aos arautos da narrativa curta que fazem sobreviver o gênero, desta feita, concentrando gotas de crueldade, fiel, talvez, aos espetáculos da própria vida. (Jorge Pieiro)
Lucila Nogueira é poeta, crítica e tradutora. Escritora-residente na Casa do Escritor Estrangeiro de Saint-Nazaire, na França, em dezembro de 1999, onde escreveu A Quarta forma do delírio, em trabalhos de tradução. Diretora Cultural do Gabinete Português de Leitura, onde edita há três anos a Revista Encontro de cultura lusófona. Coordena no Brasil o Seminário Internacional de Lusografias. Autora de livros como A dama de Alicante (1990), Zinganares (1998) e esta dupla aventura de resgate de sua obra que constitui Bastidores & Refletores. A respeito da edição, cuidadosamente preparada pela poeta, ela mesma adverte: "Acredito que não só para o especialista resulta significativo observar o caminho da instauração e seqüência tanto de um código particular de expressão lírica como dos núcleos de temas e interesses que se reiteram no conjunto que se foi construindo ao logo de doze livros. Além disso, proporciona-se aqui um comparativismo a tornar possível a revelação aproximada de uma identidade no campo da poesia a partir da contextualização de uma proposta estéticas desde a sua origem, como a recordar de modo perplexo e compulsivo as palavras de Eliot constantas na epígrafe: em meu princípio está o meu fim / em meu fim está o meu princípio".
Partindo de uma contextualização e análise dos principais aspectos e categorias do pensamento de Walter Benjamin, que influenciou decisivamente as correntes estéticas e filosóficas da Segunda metade do século XX, pretende-se neste livro levar a cabo, uma compreensão do seu conceito de alegoria. Tal inquérito conduz-nos à descoberta da existência de uma plataforma essencial onde se encontram e convergem linguagem, história e messianismo, vistos à luz de um "olhar alegórico". Na sua análise do drama barroco alemão, Benjamin descobriu na alegoria o modo de fixação da história, uma vez que é na escrita alegórica que se condensam os signos do passado enquanto escrita imagética, podendo-se decifrar os sinais da história nela inscritos. Essa descoberta crucial permitiu-lhe aprofundar a sua teoria da linguagem e encontrar um eixo arquimediano a partir do qual desenvolveu a sua concepção histórica, que se apresentaria de forma mais acabada e precisas nas obras Paris, Capital do Século XIX e Sobre o Conceito de História. Veja entrevista com a autora nesta edição da Agulha.
"A memória de uma pequena nação não é mais curta que a de uma grande; ela, portanto, trabalha com maior profundidade o material existente", observou Kafka em seu Diário. O que vale para a literatura de um judeu vivendo em Praga no final do século XIX, serve, paradoxalmente, para se entender a poesia de uma jovem poeta suíça no início do século XXI: em Irmãs de Feno, Prisca Agustoni capta a voz de suas conterrâneas que, há quase cem anos, deixaram para trás a região de Ticino, ao norte da Itália, para um exílio involuntário em terras mais prósperas, do outro lado do vale. Ressoa nos poemas a fala dessa "pequena nação", ilha de língua e cultura italiana em uma Suíça em que os grupos hegemônicos se comunicam em alemão ou francês. Na verdade, é essa situação de inferioridade econômica que levava as "irmãs do feno" desta poeta a cruzar o Passo de São Gotardo em direção aos conventos do outro lado dos Alpes - uma travessia que significava abandonar não só a família e o local de origem, mas também o dialeto natal, logo substituído pela língua alemã. Nesses poemas em forma de memória alheia, Prisca Agustoni ternamente escuta e recria as vozes de mulheres que já cruzaram as várias margens desta vida e que, no limiar da terceira margem do rio, costuram as lembranças vividas na juventude às lembranças sonhadas ou imaginadas. Assim, as três partes em que se divide o livro se interligam, impedindo que as memórias se organizem de modo cronológico e mesclando os vales da infância aos muros do convento, as limitações impostas pela educação rígida numa cultura estranha às dificuldades ao longo da existência, a prisão do corpo aos desejos sonhados, mas nem sempre vividos. Essas vozes anônimas trazem de volta retratos de momentos esparsos do passado, reconstituídos apesar das traições da memória. "O vapor ocultou a miragem" e tudo o que temos são "rumores de outrora", como adverte a voz poética no texto que abre a primeira parte do livro. Entretanto, como na técnica de montagem cinematográfica, cada momento captado por esses retratos adquire novo sentido quando colocado ao lado de outro, iluminando-se reciprocamente. Esse processo faz com que as pequenas epifanias esboçadas pelos poemas se somem, apresentando-se ao leitor como um mosaico de vidas femininas, ao mesmo tempo passadas e presentes, pois organizadas pelo olhar solidário de Prisca Agustoni. "Porque é mais fácil / atravessar o Atlântico/ do que passar o vau/ do São Gotardo", observa o poema "Álibi", portal que introduz o leitor no universo dessas adolescentes suíças que, empurradas pela pobreza, precisam abandonar a segurança (ainda que precária) do ambiente familiar e cruzar os Alpes numa viagem espacial e simbólica: do outro lado da montanha não há mais as agruras da pobreza, porém essa travessia marca a entrada na vida adulta, o aprendizado das artes femininas, o paciente e infindável trabalho nos bordados e nos teares, assim como a frieza de um mundo estrangeiro. Da vida no cantão natal ficam apenas "os cantos do repasto" e "o odor dos corpos"; até mesmo o duro trabalho no campo, as mãos calejadas, a rigidez da educação, os esparsos contatos com o mundo exterior, tudo aparece colorido pela nostalgia: "O mistério do pão/ faz pensar na gratuidade/ da mênsula./ Até nossa respiração é comunitária". Divididas entre a vida na família e no campo, a "primeira margem" dessas jovens é evocada pela poeta por meio de imagens relacionadas à natureza: a passagem das estações, as neves e as chuvas, as plantas e animais. Também como os elementos da natureza de que falam os poemas, as jovens oscilam entre sua alegria de flores exuberantes, diante da beleza da natureza, e o peso das incertezas sobre o futuro. Assim, em "As premonições", "As aquilégias/ parecem absorvidas/ pelos defuntos", fazendo com que um signo de vida se associe à destruição e à morte, que espreitam a cada canto da natureza, ainda que na forma do belo. Em contraste, no poema que se segue, "Visão", a natureza se relaciona ao divino e à alegria que cura qualquer dor de viver: "Gosto de subir aos lagos/ A fixidez do declive/ é hóstia que glorifica/ qualquer bagagem". A mesma ambivalência marca a percepção do vale natal, cujo isolamento do mundo externo se apresenta como prisão num poema que, sintomaticamente, se intitula "Fósseis molhados" -"Somos predadores em cativeiro/ Ao final invejamos/ a solução dos gamos- ou sob o olhar nostálgico de quem se prepara para partir, levando consigo "o silvo das lançadeiras". Mas o futuro, este se apresenta como o desenvolvimento de sementes provisoriamente congeladas, de desejos hibernados, prontos para irromper, como adverte a voz que se ouve em "A balança cariada": "Estas mãos de bétula/ cultivam o pudor./ Mas um dia a árvore/ abrirá a sua sombra,/ alcova onde deserta/ a culpa./ Antigas sementes se quebrarão/ sobre lençóis de strass." Nos poemas que compõem "Intermezzo", não se percebe mais o ritmo alegre, irregular, dos textos da primeira parte do livro, marcado pelas linhas de comprimentos irregulares e pela diversidade da própria organização visual das páginas. Do outro lado do Passo de São Gotardo, impõe-se o uso de outra língua, o alemão, que irrompe ao final de "Retrato" ("Deutschsprechen, bitte"), em toda sua estranheza, na boca das freiras, "sentinelas" investidas do poder conferido pelos "crucifixos e as chagas de Cristo" e pela mesa farta que oferecem: "O ás na manga é o estufado de feijões,/ o branco de Gênova/ no domingo". Transformadas em "jovens Penélopes/ com velhas heranças", as jovens apenas se movem "no vai e vem das agulhas" e dos "pedais Singer", em rotinas que se repetem como "novenas", nos lábios que reprimem queixas, "as palavras amputadas /como feridas crescendo/ na boca". Mas há aquelas que não se conformam às exigências da nova vida e tentam um "vôo", escapando pelo rio, "os braços como asas" (uma rebeldia que todos se esforçam por apagar). Ao contrário do respeito religioso inspirado pelo espaço natural nos poemas da primeira parte ("Por isso descemos/ com religioso decoro/ o penhasco/ ao encontro dos trevos", como em "Radiografia"), mesmo em peregrinações religiosas ou nas orações, não se alcança o sagrado: "então pungiremos / os ossos com a ausência de Deus,/ desarmando/ o arsenal dos pai-nossos." O sentimento nostálgico de solidariedade e comunhão também está perdido: "Na escassez irrompe o excesso,/e no claustro/ nos sabemos ilhas/ entre irmãs do feno." Resta, então, "contar os dias/ que faltam/ para sair daqui." O tempo que deveria ser apenas um intervalo entre duas etapas da vida ("Intermezzo") acaba por marcar de tal modo a vida dessas mulheres que "A segunda margem" salta diretamente para a velhice, o momento da rememoração. Mais uma vez, modificam-se o ritmo e a distribuição dos versos na página: estes surgem em blocos quase sempre regulares, numa linguagem que se distancia dos ecos do imagismo que se percebem nos poemas sobre a juventude. "É preciso acreditar nas chaves. A sua forma /Ensina novas portas, ângulos onde ainda/ chove", afirma "Dogma", texto que abre essa parte final. Isto porque é nessa "chuva supérflua" que "o arenito cresce e se transforma em palavra" -"Fios de amianto que nos ligam com Deus", como sugere o poema "Conspiração". Nessa segunda margem, resta esperar pela próxima travessia, não mais dos Alpes, pois "o São Gotardo não é o mesmo". Resta também preparar um "Testamento" para as irmãs do feno que se seguirão: "Deposito flores na tramontana./ Assim o exílio se incendiará em/ nós, predadoras do trigo e/ dos celeiros." Herdeira dessas irmãs do feno, Prisca Agustoni recolhe essas flores, junto com o trigo dos celeiros, transformando-os em palavra, em chave que abre novas portas. Dentro da pequena nação de língua italiana encravada no território suíço, essa pequena nação feminina ressurge das sombras por meio da mesma língua materna, porém na linguagem poética sensível e elaborada, na técnica refinada de Prisca Agustoni. (Eliana Lourenço Lima Reis)
Toda ciudad tiene aspectos más o menos ocultos, pero convengamos en que San José (Costa Rica) tiene sus propios méritos Los temas de esta obra aluden, en general, a sectas o prácticas rituales (que sería una de las acepciones de "oculto"), sino a asuntos, si bien sorprendentes en algunos casos, habituales en nuestros días. El volumen pasa revista desde sus primeiras páginas, casi sin proponérselo, a una serie de acontecimientos, costumbres, prácticas que permiten interpretar mejor los últimos años del siglo XX y estos primeros balbuceos del XXI. El gran artista chileno Juan Bernal Ponce, radicado en Costa Rica desde los años setenta, conocido internacionalmente, ha aceptado la invitación para participar en esta obra com ocho grabados sobre metal, en relación com cada uno de los cuentos. Ediciones Andrómeda trata de hacer honor, así, a su larga e intensa tarea en el campo de los libros de arte. En la presente edición de Agulha se encuentra una buena
charla entre Tomás Saraví y Alfonso Peña.
En esse libro, Veronica d'Auria y Silvia Guerra se plantean la interpretación de las relaciones entre la cultura y el poder, a través de entrevistas realizadas a diez intelectuales uruguayos. Y es muy posible que el lector termine por preguntarse en profundidad, al finalizar el serpenteante y espejeante recorrido de este libro: ¿de qué hablamos cuando hablamos de cultura? "Es frecuente que en el Uruguay de estas últimas décadas se hable de un estancamiento del debate cultural", puntualiza introductoriamente Veronica d'Auria, agregando que "es innegable que periódicamente se producen alejamientos de untelectuales que excluen voces de un diálogo íntimo, determinante y necesario." La gracia indagatoria irradiada por este libro colectivo nos aproxima un poco más, sin duda, a la posesión de las llaves de un tesoro que aquí jamás reinó. |
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