revista de cultura # 32 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2003

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Reflexos expressionistas na poesia italiana

Tiziano Salari

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Tiziano SalariNo conceito abrangente de Expressionismo literário fazem parte, para Gianfranco Contini (em Ultimi esercizi ed elzeviri), poetas e escritores italianos do período vociano (Rebora, Pea, Onofri, Boine), além do posterior Expressionismo de Gadda (gaddiano). Numa acepção ao mesmo tempo mais larga (centrada mais que sobre os aspectos lingüísticos, sobre o drama da relação entre o Eu e o Mundo) e mais restritiva, ou seja limitada aos anos ao redor do 1910 (ano da emancipação da dissonância e do nascimento de obras fundamentais do expressionismo histórico), a meu ver, a Boine e a Rebora têm que ser acrescentados Campana, Sbarbaro e, sobretudo, Michelstaedter.

O DESPERTAR OU DO TRÁGICO

A cidade futurista e a cidade expressionista se sobrepõem uma à outra, mas se a primeira é evocada ao provocar uma intensa e prazerosa excitação dos sentidos, a segunda altera e deforma a mesma realidade até transformá-la numa fonte de horror. A origem poética comum fica nos Tableaux parisiens de Baudelaire. Neles, a sugestão da vida da metrópole e a angústia se misturavam numa dosagem perfeita. Paris se tornou o mito do século XIX. Toda a província poética italiana roda ao redor deste mito, da scapigliatura até o futurismo. Viajar para Paris – fantasiar sobre os prazeres de Paris, se misturar culturalmente e sensualmente com o turvo do Sena – se torna uma sorte de batismo artístico. Unicamente através de Paris e de seu mito podemos ser desmamados das tetas dos bons sentimentos, se abrem novos horizontes de poesia e de vida. Mas é um mito crepuscular. Enquanto isso, emergiram no imaginário literário outras gigantescas metrópoles espectrais como Berlim e São Petersburgo, e Londres, do L’uomo della folla de Poe aos romances de Dickens, é desde sempre, junto com Paris, uma têmpera de peripécias romanescas. Na Itália não aparece uma cidade símbolo da vida noturna, de casualidade, na qual todas as ligações tradicionais se dissolvem numa crise de identidade e de certezas. Longe a Berlim de Heym e a Viena de Trakl, a Petersburgo de Blok e de Mandelstam. No entanto, atrás da esbórnia futurista, se percebe – nos espíritos mais pensativos – a mesma angústia do estranhamento com respeito a uma realidade que de repente se contrapõe ao sujeito como monstruosa e incompreensível. Os pequenos refúgios, nichos do crepuscolarismo, a apologia futurista do modernismo, se revelam na sua superficialidade "naturalista" com respeito a um sentimento poético e filosófico que desnuda a essência íntima da Realidade (Michelstaedter, Campana, Rebora, Boine, Slapater, Sbarbaro).

Nada poderia nos fazer compreender o cataclisma acontecido nas consciências mais atentas, no primeiro decênio do Século XX, de um confronto entre os poucos poemas que nos deixou Michelstaedter e a poesia crepuscular. Entre o sujeito poético e a Realidade se abriu um abismo, ou melhor, o sujeito poético fica agarrado nas margens da Realidade como nas orlas de um abismo. Não tem realmente nada para lamentar ou para salvar. Michelstaedter participa do novo espírito expressionista que sopra sobre a Europa, nutrido pelas filosofias de Schopenhauer e de Nietzsche, e, na arte, pela superação do naturalismo. O mesmo estranhamento no que diz respeito ao Real, que induz a um contragolpe interiorizante no qual o Real se quebra ou se regenera em novas formas, é a mesma atitude, levada à exasperação, à base da lírica de Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé. Mas o que aconteceu, nestes primeiros anos do Século XX, é uma revolta ainda mais totalizante, que definiria como a da insatisfação da poesia pura, do esteticismo, na qual se consumiram as experiências poéticas e literárias do final do século. Já não a pacificação e a ascese kantiana e schopenhaueriana da contemplação estética como purificação das paixões, teorizada na Itália por Angelo Conti em La beata riva – Trattato dell’obblio. Já não a arte ou a poesia como pura intuição sensível, incapaz de atingir o universal do conceito, da Estetica come scienza dell’espressione e linguistica generale de Benedetto Croce. Michelstaedter ironizará os "lindos versos" de Petrarca e Leopardi aceitos por todos, enquanto a amarga filosofia deles é recusada por todos. Também a poesia, assim como a filosofia, precisa se direcionar para a revelação da essência profunda da vida. Risveglio representa um dos momentos mais altos da filosofia trágica de Michelstaedter. O espaço no qual se manifesta o evento é aquele mais usual, familiar e querido ao sujeito poético. Como a colina do Infinito leopardiano, o São Valentim é uma colina, nas proximidades de Gorizia, de muitas excursões da juventude do jovem filósofo em companhia dos amigos. No entanto, é ali, naquela realidade familiar e amada, que acontece uma explosão inaudita na interioridade do sujeito poético e aquele mundo cai em pedaços.

Essa é a situação: uma idílica pausa após um passeio, as costas no gramado, o corpo jovem que sente os seus sentidos se abrirem à plenitude da vida da natureza do verão. O olhar está dirigido para o céu, lá no alto, além do círculo do vôo das andorinhas, em direção às regiões mais amplas onde se movem os falcões. O corpo é atravessado ao mesmo tempo por uma onda de bem-estar (beijado pelo sol, acariciado pelo vento, a cabeça em contato com o áspero perfume das flores e da erva) e por uma sensação de esmagamento, causada pelo abismar-se do olhar nas regiões mais azuis e mais insondáveis do céu, o reino dos pássaros de rapina.

É essa a vida, este enredo entre as pulsões subjetivas e a vida da natureza, ou melhor, essa íntima fusão de ervas, terra, insetos, pássaros, sol e vento e eu? E ao redor deste eu se insinua a dúvida, a incerteza, se poderia dizer, sobre sua consistência empírica e sensorial, com respeito a um eu (transcendental? Ideal? Outro?), tanto quanto inalcançável, não possuído.

O sujeito corpo/eu, levado ao alto pelo vôo dos falcões, mas prostrado no chão pela força de gravidade, vive uma dissociação entre aquela languidez dos sentidos ao qual se abandonou e o impulso ideal, místico para um mundo superior, de pura liberdade e beleza inteligível. Mas é um impulso quebrado, uma espera de vida de um sujeito despido da sua consistência de sujeito e suspenso na espera de um acontecimento que não acontece, como se tivesse sido preparado um cenário para um drama e a cena ficasse desoladamente vazia.

E tudo se apaga. De repente o véu de Maya (o enredo de pesadelos) se quebra e o sujeito inteligível se descobre refém na natureza inimiga, os aspectos comuns das coisas se lhe revelam sinistros. O afastamento é total, a cisão irreparável. Qual vida desejava? De qual acontecimento ficou à espera? De qual plenitude foi furtado? Um arrepio crepuscular dissolve o encantamento da hora passando da natureza para o sujeito corpo/eu, que adverte mais fundamente a ligação da necessidade nas próprias carnes, e se sacode. O que é que faço eu aqui, inerte, estendido na erva, de qual milagre estou à espera?

E é esse o despertar, a volta do inteligível para o sensível, da transcendência vazia à dor da existência, ao látego da necessidade (frio e fome) que mantém vivo o sujeito – na medida que seja removido o triste saber do horrível vazio atrás da superfície das coisas.

Carlo Michelstaedter de Poesie:

Estou deitado na relva
no dorso do monte, e bebe o sol
o meu corpo que o vento acaricia
e roçam a minha cabeça e flores e as ervas
que o vento agita
e o zumbido do enxame dos insetos.
Das andorinhas o vôo azafamado
marca de curvas rotas o céu azul
e traz no alto vastos círculos o largo
vôo dos falcões...
Vida?! Vida?! Aqui a relva, aqui a terra,
aqui o vento, aqui os insetos, aqui os pássaros,
e mesmo assim entre eles sente vê goza
fica debaixo do vento fazendo-se beliscar
fica debaixo do sol para sugar o calor
fica debaixo do céu sobre a boa terra
esse que eu chamo "eu", mas que não sou eu.
Não, não sou esse corpo, esses membros
prostrados aqui na relva sobre a terra,
mais do que eu possa ser os insetos ou a relva ou as flores
ou os falcões lá no ar ou o vento ou o sol.
Eu apenas sou, distante, eu sou diferente –
outro sol, outro vento e mais soberbo
vôo para outros céus é a minha vida...
Mas agora aqui o que espero, e a minha vida
por que não vive, por que não acontece?
O que é essa luz, o que é esse calor,
esse zumbir confuso, essa terra,
esse céu que ameaça? Me é estrangeiro
o aspecto de cada coisa, me é inimiga
essa natureza! Chega! Quero sair
desta trama de pesadelos! A vida!
A minha vida! O meu sol!
Mas pelo céu
sobem as nuvens desde o horizonte,
já roçam o sol, já à terra
invejam a luz e o calor.
Um arrepio percorre a natureza
e rígido me corre pelos membros
ao soprar o vento. Mas o que faço
comprimido sobre a terra aqui na relva?
Agora me levanto, agora tenho fome, agora me apresso,
agora sei a minha vida,
já que conheço a mesma ignorância –
a natureza inimiga agora me é querida
que me dará abrigo e nutrição
agora vou zumbir como os insetos.

 

A NOITE OU DA ALEGRIA TRÁGICA

Dino Campana é o único poeta italiano que diz sim à vida seguindo os passos de Nietzsche. É isso, a livro fechado, o sabor dos Canti orfici (1913). Campana é o único poeta do século XX ao qual pode ser aplicado o conceito de "alegria trágica". O mundo como fenômeno trágico, alegre, afirmativo. É essa a música secreta que percorre o livro. Não o prelúdio de Tristão e Isolda, com suas ondas de morte. Naquela música se inspira D’Annunzio no Triunfo da morte, que mistura Schopenhauer e Zaratustra, Wagner e Nietzsche. Música funérea e negadora. Nunca sendo possessivo, o Eros de Campana não conhece o seu lado escuro, Thanatos. E no entanto a alegria é trágica. Por quê?

Paula RegoOs Canti orfici desenham a trajetória de uma subjetividade alheia à férrea necessidade à qual é sujeitada à vida individual (Michelstaedter a chamou de "retórica" e a negou através do suicídio). Campana tenta a evasão da "retórica" mantendo-se à margem das leis da "monstruosa absurda razão" (L’incontro di Regolo). A poesia para ele não nasce no interior do círculo protetor duma profissão reconhecida ou de uma segurança social que a garanta e que a delimite como um suspiro da alma ou um acompanhamento em surdina do acontecer cotidiano e tranqüilo da existência. Isso é Saba, com o Canzoniere composto por vários livros que marcam as diferentes idades da vida, o romance das relações com a cidade e os amores, a juventude, a maturidade, a velhice. Em Campana é a existência mesma que vive poeticamente a própria exclusão. Não há desenvolvimento psicológico, escansão temporal, luta, projeção afetiva. É uma poesia sem rede, uma poesia à qual faz falta o "eu".

É difícil pensar que Campana pudera escrever outros livros, delinear uma careira poética, um roteiro em diferentes fases de concepção e de etapas subjetivas (como Ungaretti, Montale, Luzi ou Zanzotto). O tempo dos Canti orfici é absoluto, único, estático.

Uma vez que o curso do tempo é suspenso, e na memória se desprende a visão, ocorre uma dissociação entre a subjetividade empírica e a subjetividade poética, portanto, a esta última é impedido o retorno. A subjetividade poética infunde no real (até o mais sórdido) uma profundidade mítica, que realiza uma fusão entre inconsciente histórico, coletivo, e interioridade do poeta, que morre no puro desdobrar-se da visão. O eu desaparece: no seu lugar se superpõe a onda emocional que investe a memória e para a qual o poeta tenta encontrar um equivalente na linguagem.

"Inconscientemente". Todos os Canti orfici acontecem sob o sinal da memória involuntária, pois foi a vida mesma do poeta a se transcender, no ato mesmo de ser vivida, como uma indenização pela infinita perda de si, a continua deriva do Dino Campana anagráfico perseguido pelas pastas clínicas e fugindo de si mesmo, da família, do seu tempo, da literatura e da química. A poesia de Campana nasce deste sentido de existir ao fundo, além de qualquer "retórica" existencial, na qual de golpe o mundo se ilumina como um espaço cavo e femíneo que se abre à pura sensualidade da visão.

A paisagem com a qual se abre La notte é impressionante. A lembrança evoca e de golpe transfigura as imagens da visão. Como num quadro. Ler essa abertura é como se nos colocássemos frente à pintura dum grande artista e tentássemos descobrir o seu enigma. O tempo é abolido, aquela hora, aquele momento, aquela cor, aquele "refrigério de colinas verdes e brandas no fundo" da "velha cidade, vermelha de muros e turrígera, ardida sobre a planície interminável no Agosto tórrido" estão fixados uma vez para sempre, pela eternidade. Agora a relação entre tempo e eternidade, onde a eternidade tem que ser pensada como tempo imóvel, sem transformação, assume em Campana um valor bastante complexo. Note-se o cruzamento entre o final do primeiro parágrafo ("e do tempo o curso foi suspendido") e o começo do segundo ("Inconscientemente levantei os olhos para torre bárbara que dominava a avenida longuíssima dos plátanos"). O inconsciente, como já teorizou Freud, está por definição afora do tempo, ou sem tempo, ou sem desenvolvimento temporal, como a "vontade" de Schopenhauer ou a "substância" de Spinoza. A visão de Campana (ou o estupor, como se escreveu, que acompanha as suas visões) acontece então sub specie aeternitatis e o poeta é plenamente (filosoficamente) consciente disso. Somente sub specie aeternitatis a realidade miserável se exalta na sua unicidade, se impõe como presença que não pode ser transcendida e também afundada no mito, como A tempestade de Giorgione ou a Veduta di Delft de Vermeer ou a Noite estrelada de Van Gogh.

A iniciação à sexualidade e à poesia é devolvida pela memória como um evento, onde o eu se desdobra, por um lado em um eu que contempla, por outro, em um eu que se move "sem consciência" no interior da visão. Percepções e imagens se juntam num evento puro, absoluto, afirmativo, ao qual foi negada a raiz psicológica e com ela a imersão no tempo. Não existe um antes e um depois na presença das coisas, um sujeito que as ordene no interior duma experiência pessoal de mundo e procure atribuir-lhes um sentido. A procura dum sentido nas coisas pertence "à monstruosa absurda razão" (L’incontro di Regolo), à qual Campana sempre se recusou de se dobrar e de se "sacrificar". Também não estamos na reviravolta nietzschiana dos valores, numa contraposição (como alguns críticos leram a aventura campaniana) ao filiteismo da normalidade e da saúde mental. Campana não é um "poeta maldito" no sentido francês da categoria (Baudelaire, Rimbaud, Verlaine) e por conseqüência também não é vidente (como, de resto, havia decretado Contini). A escuta pedida pelo seu poema é mais aquela que é preciso reservar ao místico. "Realmente há do inefável. Ele mostra a si mesmo, é o místico" (Wittgenstein).

Realmente há do inefável nos Canti orfici. As palavras abrem ao redor de si um halo de silêncio. A adjetivação indeterminada – "planície interminável", "distante refrigério de colinas verdes e brandas .....", "arcos enormemente vazios de pontes" – faz nascer o poético desde a maravilha da visão que "revela a si mesma". O sujeito poético é incorporado inconscientemente à visão. A paisagem é como se fosse cava, uma imensa cavidade feminina, como se a vulva de Furibondo tivesse se transformado no mundo inteiro e cegamente envolvesse o poeta num abraço de amor e de morte.

Mas esse abraço está cheio de alegria e de gratidão. Não há uma única invectiva nos Canti orfici, nem contra o seu tempo nem contra a sua sorte, da qual os poetas não são poupados (desde Dante até Rimbaud). O olhar de Campana é duma virgindade absoluta. Não é uma desordem programática dos sentidos que alimenta a sua poética. Existe, porém, um estranhamento do ato de perambular e o abandonar-se totalmente a este estranhamento. Campana é um artista trágico, no sentido esboçado por Niezsche na Visão dionisíaca do mundo. "Devoção, extraordinária máscara do impulso vital! Abandono a um mundo feito de sonho, que dará a mais elevada sabedoria ética!".

Dino Campana, dos "Canti Órfici"

De La notte:

Lembro uma velha cidade, vermelha de muros e turrígera, queimada sobre a planície interminável no agosto tórrido, com o afastado refrigério das colinas verdes e brandas no fundo. Arcos enormemente vazios de pontes sobre o rio pantanoso em magras estagnações plúmbeas: perfis negros de ciganos móveis e silenciosos sobre a margem: entre o deslumbramento afastado dum canavial afastadas formas nuas de adolescentes e o perfil e a barba judia dum velho: e de repente no meio da água morta as ciganas e um canto, do pântano áfono uma nênia primordial monótona e irritante: e do tempo o curso foi suspendido.

*

Inconscientemente levantei os olhos para a torre bárbara que dominava a alameda longuíssima dos plátanos. Sobre o silêncio feito intenso ele vivia outra vez o mito antigo e selvagem: enquanto por visões afastadas, por sensações obscuras e violentas, outro mito, também místico e selvagem, me voltava às vezes à memória. Ali embaixo tinham retirado as largas vestes brandamente em direção ao vago esplendor da porta as passeantes, as antigas: o campo entorpecia então na rede dos canais: moças com ágeis penteados, com perfis de medalha, desapareciam às vezes sobre as carroças atrás as colinas verdes. Um toque de sino argênteo e doce na distância: a Noite: na igrejinha solitária, na sombra das discretas naves, eu a apertava, ela, das carnes cor-de-rosa e dos olhos incendiados e fugitivos: anos e anos e anos fundiam na doçura triunfal da lembrança.

Inconscientemente aquele que eu fui se encontrava encaminhado em direção à torre bárbara, a mística guarda dos sonhos da adolescência...

 

De L’incontro di Regolo:

Queria partir. Nunca tínhamos nos sacrificado frente à monstruosa absurda razão e nos deixamos apertando-nos simplesmente a mão: naquele breve gesto nos deixamos, sem perceber, nos deixamos: tão puros como dois deuses nós livres livremente nos abandonamos ao irreparável.

FRAGMENTO LÍRICO XLV OU DA CIDADE EXPRESSIONISTA

Paula RegoApenas refugiando-se na marginalização, logo na loucura, então se subtraindo ao ímpeto da Necessidade, numa espécie de amoral impulso poético além do bem e do mal, foi possível para Campana achar no canto a alegria trágica dum abandono místico-sensual à vida. É uma solução, essa, impossível para Clemente Rebora. A crise de identidade que ele vive, e que se transforma nos Frammenti lirici, é a crise da época, que já levou ao suicídio Michelstaedter, da impotência e fragmentação do sujeito com relação à objetividade perigosa de um Real ameaçador, que se revela acima de tudo no estranhamento da vida metropolitana. "De todos os objetos que Baudelaire primeiro abriu à expressão lírica, um prevalece: o mau tempo"(Walter Benjamin). E o "mau tempo" na sujeira de uma Milão metropolitana, é uma das contribuições poéticas do jovem Rebora, numa poesia de tremebundo caráter expressionista, o fragmento XLV.

O sujeito poético está voltando para casa, no tardio crepúsculo de um dia cinzento, sob uma chuva cortante. O ar está atravessado por presságios desconhecidos, enquanto a noite cai sobre a cidade, abrindo-se como uma tampa sobre uma tumba. Atrás do véu da chuva, ao final de um dia cego, sem impulsos espirituais além do horizonte fechado, poeta, chuva e cidade se fundem num imobilismo alegórico de sepultura.

Mas essa escuridão da hora, esse esvaziamento de sentido, percebidos com angústia pelo sujeito poético, não parecem tocar a vida frenética da multidão que invade as ruas da cidade, junto com as luzes dos faróis que se acendem. A multidão anônima da metrópole faz a sua entrada oficial na poesia italiana. E é tudo um espumejar de sopros, de olhares, de desejos que se cruzam, um fluir de vida ignara e de sensualidade incendiada e gasta em ligeiros olhares, entre os barulhos atroadores do trânsito.

Todo o desejo de amor criado na espera de uma execução, de repente, se queima em olhares sem futuro, como no encontro de Baudelaire com a passante, e mais a fundo o sujeito poético percebe a solidão e a separação e o extravio e o abismo que o separa dos seus semelhantes. Um relâmpago – e depois, a noite, escreveu Baudelaire. Enorme ânsia/e brevidade do resultado, escreve Rebora. Por um instante, no cruzamento dos olhares, brilhou o relâmpago de uma reciprocidade do desejo, que logo se apagou pela impossibilidade de ser comunicado. Mas a distinção entre o poeta e a multidão é só aparente, ele mesmo é multidão, pois nada distingue ou privilegia o seu estar-no-mundo daquele dos outros. A apinhada solidão avizinha o destino de todos na cidade moderna, num magma escuro e indiferente de comportamentos. Enquanto a primeira, longuíssima estrofe, termina com um pedido para cessar, em alguma certeza, o fluido decorrer da vida e do desejo (Vida miserável e grande/dá enfim um lugar onde ficar;/quando ser nossa não pode,/porque você nos obriga a te amar), a segunda e mais breve estrofe leva ao extremo a crise de identidade, unificando o aspecto ontológico àquele psicológico da desorientação do sujeito poético que se descobre a explorar as milhares de sombras vagantes e incertas sob a chuva.

Como Baudelaire se move entre a multidão crispé comme un extravagant, assim Rebora hesita delirando entre a multidão como um bêbado, e vendo correr a sua sombra através das vitrines, a sente desprendida de si e estranha e assimilada às muitas outras sombras, naquela febre de vida e de flutuantes desejos inconclusos. Mas ele, o sujeito poético, teve a revelação do Vazio – ou melhor, do afanar-se cego do Mundo – aberto atrás do cenário usual dos corredores, das casas, das ruas e dos afetos mais caros. E o terror é que chegue o amanhã, sem levar algum esclarecimento de Verdade – dum lugar onde ficar, dum bem estável.

 

Clemente Rebora, de Frammenti lirici (XLV)

Comigo em perdidos indizíveis motos
é a chuva que pinga oblíqua,
enquanto sem eco de cor ignotos
presságios o ar noturno distende
e a tarde cega
imóvel desce,
quase eterna tampa sobre uma alma.
Mas a hora que admoestadora
a ansiosa cidade não adverte:
vai emperlando de faróis os seus sulcos
entre silvos ruídos estrondos, e parda
se tece em um vaporar de alentos
às lojas luminosas,
onde furtivas nos olhos
esbeltezas de mulheres
e homens desejosos
acendem o sangue.

***

Choco-me nos breves desvios, e pelas entradas
hesito delirando;
às vitrines pergunto o que sou eu,
até que de rua em rua
onde há menos luz dobrando
entre negras formas forma negra tenho espaço;
e tudo é usual
pelos recônditos e as casas,
e afora sou um que anda
com a sombrinha ao passante
com o pé atento aos vaus,
e o uso igual à modelo;
a ansiedade dentro emaranha
o que mais se parece comigo,
e onde bem tentei
é um nada e os caros afetos me são vãos.
Ressoa em mim: como virá amanhã?
E enquanto isso vem.

 

COMO UM SONÂMBULO OU DA STIMMUNG MINIMALISTA

Baudelairiana é também a cidade de Camillo Sbarbaro. Uma cidade mais apagada, descuidada, para um sujeito poético frustrado e quase esvaziado da vontade de viver (Pianissimo, 1914).

Paula RegoBaudelaire se movia entre a multidão crispé comme un extravagant, Rebora delirante, Sbarbaro como um sonâmbulo. É a mesma situação, o mesmo afastamento do sujeito poético do quotidiano da vida. A cidade na qual caminha Sbarbaro não é Paris, a fourmillante cité de Baudelaire, em cujas ruas acontece o choque do encontro inesperado. As ruas da cidade de Sbarbaro são moídas, atravessadas cada dia pelo enjôo e pela pobreza da própria vida, o tédio, a dor, o desespero de quem sabe que eventos memoráveis nunca se abrirão entre aquelas fachadas de casas. No entanto, aqui também se verifica um encontro com uma passante, mas não é frontal, não é através do encontro de olhares, mas detrás, o passo duma mulher visto por trás. A passante de Baudelaire também havia impresso no rosto une douleur majestueuse e levantava a orla da saia d’une main fastueuse, todos comportamentos reais, que Sbarbaro resume diretamente atribuindo à desconhecida o título de rainha. Mas, logo, repare-se numa diferença essencial.

Baudelaire é fulminado pelo olhar da passante (moi, je buvais, crispé comme un extravagant/dans son oeil) e vacila entontecido, como se o encontro não tivesse acontecido com um corpo, mas com um espírito fraterno. Sbarbaro, ao contrário, naquele mesmo momento acorda da sua vida de sonâmbulo e segue a desconhecida. O seu torpor cotidiano é sacudido pelo acordar repentino da sensualidade, da sábia música sensual que se desprende do passo da desconhecida. É um despertar de sensualidade que o poeta quer manter vivo quanto mais tempo possível.

A relação instituída entre amor e glória – um amor puramente sensual, uma glória relacionada ao próprio reconhecimento como poeta – é, no mínimo, singular e relacionado apenas casualmente com aquele corpo feminino que balanceia frente a ele, mesmo que a mulher seja chamada com o "você" familiar duma familiaridade toda interiorizada, quase onanista. E sobretudo não é única, mas intercambiável com outros corpos de mulher encontrados casualmente pela rua e fixados na memória por algum detalhe fetichista. (A satisfação da sensualidade acontece, para Sbarbaro, no lupanar, que ele chama de luxuria, onde, de acordo com os dados de Pianissimo, ele vai procurar uma saída para os seus engarrafamentos de tristeza, saindo de lá ainda mais desesperado).

Un éclair... puis la nuit! Esse é Baudelaire, o relâmpago de um encontro absoluto que, sumindo, deixa o poeta na nostalgia do milagre de uma execução absoluta do amor. Para Sbarbaro também se acendeu uma luz na sonolenta existência cotidiana, um éclair que, harmonizando o seu passo com aquele da desconhecida, se transforma numa espera de amor para ser carregada, dia após dia, atrás de corpos anônimos, cabelos encaracolados, asas de chapéu, lampejo de nucas em meio à multidão, uma espécie de stimmung minimalista da insatisfação e do reenvio. Mas é o que basta ao poeta para estar contente e sobreviver.

Camillo Sbarbaro, de Pianíssimo

(Eu que como um sonâmbulo caminho)

Eu que como um sonâmbulo caminho
pelas minhas ruas cotidianas, moídas,
vendo-te frente a mim estremeço.
Você caminha à minha frente lenta como
uma rainha.
Regulo o meu passo
eu pronto acordado do meu sono
sobre o teu que é como uma sábia música.
E possibilidade de amor e glória
debruçam-se ao meu coração e o enchem.
Pelos caracoizinhos loucos duma nuca
pela asa de um chapéu eu ainda posso
aliviar-me da minha tristeza.
Eu ainda sou jovem, inocente
com o coração pronto para todas as loucuras.
Uma luz se faz na sonolência.
Tudo está suspenso como numa espera.
Já não penso. Estou feliz e mudo.
Bate o meu coração ao ritmo do teu passo.

 

FRAGMENTOS OU DA CRISE DA IDENTIDADE

Giovanni Boine, de Frantumi. Frammenti. Cidade provincial. Entre gente e prédios conhecidos. Mas o extravio é da época. O poeta-filósofo sai para passear cansado, na Avenida onde não há ninguém – o vazio é sublinhado duas vezes -, num vazio que aqui tem o sentido de poucos e afastados passantes. Um conhecido de repente o surpreende e o chama a si com uma saudação. É uma espécie de choque. A realidade exterior é aquela de ontem, e também o sujeito poético se exterioriza aos olhos alheios, se tornando uma coisa com nome. Coisa entre coisas.

Existe um "afora" e um "adentro", uma exterioridade e uma interioridade. O nome é a casca exterior da alma. Na alma se abriu um desmoronamento que arrasta o sujeito para dentro de um abismo, do fundo do qual a Realidade se dissocia em partes não comunicantes entre elas. O ontem e o hoje – o tempo dos relógios, da linearidade, da lógica – permanecem afastados e estranhos um ao outro. Ao conhecido que o reunifica, retomando o discurso no ponto no qual fora interrompido no dia anterior, só pode ser dada a simulação (a convenção) da continuidade. Se chocam então uma subjetividade empírica, fenomênica, social, anagráfica e uma subjetividade transcendental, inteligível, afundada em si mesma, num conflito doloroso entre o finito da individualidade exposta e certificada pelo olhar dos outros e uma consciência que tende a se abrir ao infinito como uma ferida que já não pode fechar-se. No terceiro e quarto fragmento a interrogação se concentra sobre o nome, que antes é definido como um espectro através do qual são costurados juntos, numa "imóvel tumba", vários pedaços separados do tempo, e logo depois: "Morna cama do nome!", "Navio sobre o mar. Jangada de náufragos". Então o nome, a aparência, a certificação de si mesmo através "do Cartório de Anágrafe" (13) é também salvação pelo mergulho na indeterminação, no nada, na duração bergsoniana, aceitação e resignação e sujeição ao tempo do calendário.

O próprio nome, pronunciado pela mãe, é quase o anúncio de um novo nascimento quotidiano. O nome tem que ser usado como um escudo contra o medo e a desorientação. É a "mais certa riqueza" que ele tem (13). Isso lhe confirma que sempre cumpriu o seu dever, do ponto de vista da moralidade e do respeito das leis (8,11,15). Ele se protege com o dever e o Universal, mas a dissociação permanece aberta. A inquietude da alma não se acalma (25). "Meu nome é hoje, e a minha rua se chama perdida". O cenário poético-filosófico que Boine apresenta nesses Frantumi é o mesmo que se reproduz na obra narrativa do autor (O pecado) e nos ensaios. Em A ferida não fechada, título emblemático para toda sua obra, ocupando-se do Monólogo de Santo Anselmo, escreve:" O homem comum é pressionado, forçado pela cega passividade do mundo; o homem religioso pela atividade extra-vencedora de Deus. O Determinismo e a Graça. Que não são os dois pólos opostos da alegria perfeita e do terror brutal; que são um e o outro a servidão. A vida humana é um lutar, uma fuga afanosa entre dois infinitos redemoinhos obscuros". Essa "fuga entre dois infinitos vórtices escuros", entre esses "dois pólos opostos", nos quais se guarda o eterno contraste Ser e vir-a-ser, Dever e Prazer, Passado e Presente, funda uma subjetividade instável, mas servil ao jogo de dois patrões (38). "Sou desesperadamente alegre e estou sem esperança triste, Acredito com violência no Inferno e estou de fato seguro de um Paraíso". O Amor da mulher, com a sua promessa de felicidade, o leva para a concentração em um ponto de todo o ser. Desse abalo entre imperativo categórico (qualquer que seja a forma que assuma a moralidade que o fetichismo crítico sucessivo definiu como vociana) e o abandono, que foi o símbolo da geração do anteguerra, se subtraíram apenas Michelstaedter com o suicídio e Campana com uma vida de marginal, terminada na loucura.

Giovanni Boine, de Frantumi

Fragmentos

Às vezes quando ao anoitecer passeio cansado pelo Avenida (que está vazia), um que cruzo diz, alto, o meu nome e diz:"boa noite!"

Então de repente, ali na Avenida que está vazia, me dou assombrado com as coisas de ontem e sou eu também uma coisa com nome...

4) Morna cama do nome, segura casa do ontem! Macia lã das sofridas dores, parada umbrosa das distantes alegrias. Navio no mar. Jangada de náufragos. Mas o hoje é, longe, como uma catarata aberta. Nuvens cambiantes no abismal cavo do céu.

Meu nome é Giovanni e se você me chamar logo respondo. Agora e na hora da minha morte. Apenas, de manhã, me levanto da vária nuvem do sonho, minha mãe diz em voz baixa "Giovanni" pela porta entreaberta, e, quase, eu sou de novo.

17) Estudei as múltiplas ligações do meu ontem com o ontem de todos e reconheci a necessária Sociedade. Tracei nitidamente o mapa da sociedade, sobre o mapa-múndi do Universal o qual é o ontem de Deus. Agora eu consulto a cada respiro o astrolábio do universal, navegante que pega a altura do sol.

25) Meu nome é hoje, e a minha vida se chama perdida. Não tem emblemas na encruzilhada do andar e não sei se eu emboquei à direita

39) Porque minha vida não se fabrica sob projeto, pedaço por pedaço, como os prédios de pedra e não corro para um alvo cavalo em direção à meta. Não tenho futuro porque não tenho passado. Não tendo lembrança, nem esperança.

40) Chama de fornalha o meu desejo; e como o abismo da noite o meu aniquilamento. Eu não sei o que gozar, eu não sei o que sofrer. Não tenho abrigo para a dor, nem fortaleço, com reflexões, a alegria.

42) E como poderei renunciar à mulher que amo se eu não sou a não ser amor da mulher que amo! Como você quer que eu não arda para o corpo da mulher que amo se eu não tenho outro corpo a não ser o dela?

50) Ó doçura do ser a braços, lentos pela rua! Ó no sono deleite do teu corpo brando-enlaçado ao meu! Mas ai que bastou o virar de um dia.

53) E não fomos a feliz corrente de duas águas confluídas?- Mas o eterno foi um instante – E bastou o breve giro de um dia. Cada um foi no seu hoje como em fechada prisão

[Novembro de 1914]

Tiziano Salari (Itália, 1938). Filósofo e poeta. Autor de Grosseteste e altro (1984), Stazione (1988) e Strategie Mobili (2000). Contato: tsalari@libero.it. Ensaio traduzido por Prisca Agustoni. Página ilustrada com obras da artista Paula Rego (Portugal).

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