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revista de cultura # 32 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2003 |
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Lars von Trier: a estética pós-Dogma Antonio Júnior
Não
é fácil entrevistar o dinamarquês Lars von Trier (Copenhague, 1956), considerado por
muitos como o mais importante diretor europeu atual. Ele não gosta de entrevistas
enquanto filma e, quando as concede, brinca com as palavras. É um criador que não perde
a originalidade, adotou o vídeo digital e está entre os poucos cineastas vivos que podem
ser definidos como autor. Pouco atraente, alto, afobado, inteligente e excêntrico, tem um
rosto tipicamente nórdico, grande, com um nariz proeminente e olhos azuis vivíssimos que
brilham ironicamente quando sorri. É também cortês e divertido. Uma barba rala dá o
toque rebelde.
Desde seu debut no cinema, em 1976, com o curta Orchidégartneren, rodou mais quatro curtas, duas minisséries e um filme para a tevê, e seis longas. Chamou a atenção com Europa (1991), uma obra difícil e bela, protagonizada por Barbara Sukowa e Jean-Marc Barr, que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes. O sucesso definitivo chegou com o sensível Ondas do Destino (Breaking the Waves, 1996), com Emily Watson rompendo corações como uma ingênua garota enamorada. Ganhou o Félix da Academia Européia de melhor direção e atriz. Seu filme seguinte, Os Idiotas (Idioterne, 1998) é de um cinismo exagerado, nada mais. Lançou o movimento Dogma 95, inventando uma série de mandamentos para resgatar "a verdade, espontaneidade e invenção do meio cinematográfico": ausência de luz artificial e de cenários, inexistência de trilha sonora, negação dos filmes do gênero etc. Foi mais um truque publicitário que um movimento inovador como a Nouvelle Vague francesa ou o Cinema Novo brasileiro, e dos diretores que aderiram ao Dogma, apenas Thomas Vinterberg destacou-se com Festa de Família (Festen, 1998). Em 2000, o próprio von Trier quebraria as regras do Dogma 95, com Dançando no Escuro (Dancer in the Dark), uma criação comovente, luxuosa, cheia de recursos (trabalhou com 100 câmaras fixas nas cenas de canto e dança), onde a música é fundamental. A cantora pop islandesa Bjork faz uma imigrante checa, mãe solteira, que trabalha numa fábrica em uma cidadezinha nos Estados Unidos. Quase cega, procura economizar para a operação do filho que sofre do mesmo mal. Suas únicas alegrias são os musicais clássicos de Hollywood. Roubada, mata o ladrão e é condenada a cadeira elétrica. O elenco conta também com a presença ilustre de Catherine Deneuve. As filmagens foram conturbadas, diretor e atriz central se desentenderam furiosamente, e a roupa suja lavou-se na mídia. Mesmo assim, resultou em um filme bacana, com uma conexão entre melodrama e comédia musical de uma sutileza sábia. A traição aos mandamentos do Dogma foi válida, e von Trier levou a Palma de Ouro em Cannes.
AJ - Eu não vejo clara a definição de gênio empregada em muitos criadores. Seria capaz de contar nos dedos os cineastas verdadeiramente aptos a receber tal honraria. Dreyer, por exemplo, que influi muito no seu cinema. O que pensa quando alguns críticos dizem que é um gênio? LvT - Penso que sou um diretor que acrescenta alguma coisa para o cinema. Sou autêntico. Eu procuro fazer um cinema com novidades, não como reprodução do que já está aí. Sou discípulo de Carl T. Dreyer, ele era um diretor fantástico, mas não o copio. O importante é buscar algo diferente, fugir do cinema certinho que muitos diretores fazem. Eu faço um cinema com personalidade. AJ - O movimento Dogma 95 seria essa marca de "personalidade"? LvT - O Dogma é cheio de bons propósitos. Nasceu para provar que qualquer pessoa pode pegar uma câmara e fazer um filme. Não é preciso tanto dinheiro como se pensa. A idéia do cinema como superprodução é para ser superada, é uma bobagem, é antiquada. É preciso acabar com essa idéia. É uma mentira dizer que é necessário um mundo de dinheiro para fazer um filme. AJ - Dançando no Escuro é um filme caro. Recorde de orçamento para a Escandinávia...
AJ - A idéia original era fazer Bjork cantar ao vivo? LvT - Sim. Queria cada número musical completamente natural, como uma performance ao vivo. Infelizmente não podíamos resolver isto tecnicamente. AJ - Catherine Deneuve foi convidada para o papel da generosa Kathy, a amiga de Selma, devido aos musicais que fez com Jacques Demy nos anos 60? LvT - Não. Ela mesma convidou-se. Escreveu-me uma carta perguntando se podia tomar parte no filme e eu respondi, "Claro que sim!". Gostei da idéia de vê-la ao lado de Bjork. Agora é evidente que eu conhecia os musicais em que Catherine havia participado. AJ - Tudo o que disseram publicamente sobre o seu relacionamento tempestuoso com Bjork durante as filmagens foi sincero? LvT - Evidentemente que não, mas muita coisa sim. Bjork se identificou de tal maneira com a personagem Selma que teve problemas ao assumi-la com tanta intensidade. Ela sofria. Ela não interpretava, ela era a própria Selma. Eu não concordei. Os nossos egos se chocaram. Ela é tão perfeccionista, e talvez esse seja o seu problema. Mas sou fã de Bjork, gosto de sua música e ela foi fundamental para o bom resultado do filme. AJ - Por que um musical? LvT - Parecia fácil fazer um musical. Era uma idéia que sempre tive. Desde menino, na beira da televisão, ficava encantado com os filmes de Gene Kelly ou o fantástico West Side Story Amor, Sublime Amor, de Robert Wise. Se fosse no início de minha carreira, teria feito uma coisa tradicional, com gruas e travellings, mas agora procuro desafiar as regras e fazer tudo de maneira completamente diferente.
LvT - Estamos filmando em Trolhaettan, ao sudoeste da Suécia. Será falado em inglês e a história se passa numa pequena vila dos Estados Unidos, nos anos 30. Usarei um mínimo de cenários. Os protagonistas são Nicole Kidman, Stellan Skarsgard, que já trabalhou comigo em Ondas do Destino, Chloé Sevigny e Lauren Bacall. AJ - Divulgou-se que o filme teve dificuldades de financiamento e por pouco Nicole Kidman não foi contratada... LvT - Tudo foi resolvido. Mas não gostaria de continuar falando sobre Dogville. AJ - Poderia dizer porque não está sendo filmado nos EUA, já que será falado em inglês e a história se passa nesse país? LvT - Não gosto de viajar de avião, e na Suécia pode-se facilmente encontrar lugares parecidos com a América do Norte. Dançando no Escuro foi filmado lá. Também não tenho interesse em visitar os Estados Unidos de hoje, me parece uma espécie de país mitológico. |
Antonio Júnior (1970). Escritor. Autor de livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos (1998) e Artepalavra - Conversas no velho mundo (2003). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras da artista Paula Rego (Portugal). |