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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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Francis Bacon: o grito da besta Helena Vasconcelos
A
afluência do público tem sido muito grande e a cobertura mediática
suficientemente marcante para quebrar a passividade dos portugueses que
discutem abertamente as perturbadoras imagens criadas pelo homem que
passou a vida a distorcer, de forma violenta e por vezes grotesca, a
pretensa beleza harmónica do corpo humano. Assim, quem visitar Serralves irá confrontar-se irremediavelmente com a singularidade de um pintor que é considerado por muitos como um dos expoentes máximos da arte do século XX. Bacon tratou com extraordinário vigor e um mínimo de complacência temas que continuam a chocar mas que fazem parte, cada vez mais, do quotidiano colectivo. As fantasias masoquistas, a pedofilia, o desmembramento de corpos, a violência masculina ligada à tensão homoerótica, as práticas de dissecação forense, a atracção pela representação do corpo - e um especial fascínio pelos fluídos naturais, sangue, bílis, urina, esperma, etc. - e, no geral, com tudo o que está directamente ligado à transgressão seja relacionada com o sexo, a religião ( são paradigmáticos os seus retratos do Papa Inocêncio X que efectuou a partir da obra de Velasquez) ou qualquer tabu, foram as peças com as quais Bacon construiu a sua visão “modernista” do mundo. Francis
nasceu em Dublin a 28 de Outubro de 1909. Sofria de asma e foi educado em
casa por professores particulares. A sua debilidade enraivecia o pai, um
homem intolerante, violento e irascível que criava cavalos e costumava
chicoteá-lo para “fazer dele um homem”. Para se vingar, Francis
gostava de exibir a sua homossexualidade, alardeando aventuras com os
rapazes das cavalariças. Tinha cerca de dezasseis anos quando foi
apanhado pelo pai a dançar diante de um espelho, vestido com a roupa
interior da mãe. A cena culminou na sua expulsão de casa, um facto que não
parece ter sido motivo de grande desgosto. Tal como Oscar Wilde e James
Joyce, a Irlanda da sua infância inspirava-lhe um certo desdém e embora
reconhecesse a sua identificação com o espírito irlandês, no que dizia
respeito à predilecção pela bebida em grandes quantidades e pelo
divertimento imoderado, a recordação de uma certa “estreiteza” que
ele sempre associou à brutalidade do pai, não lhe deixou saudades. Bacon
costumava afirmar que a violência o acompanhou sempre, primeiro quando
entrou em contacto com o Sinn Fein, depois quanto viveu em Londres durante
a primeira Grande Guerra e ainda ao partir para Berlim no final dos anos
vinte - uma cidade que ele caracterizou como sendo muito aberta, livre e
agressiva. O pai tinha-o enviado a Berlim na companhia de um tio
considerado extremamente viril e que tinha como missão mudar a orientação
sexual do sobrinho. Francis rapidamente descobriu que o tio era realmente
uma pessoa sexualmente muito activa mas que não fazia qualquer distinção
entre homens e mulheres. Acabaram alegremente juntos, na cama.
Desde
então, Londres tornou-se o quartel-general de Francis, particularmente o
bairro de Soho, onde se situava o Wheeler´s o seu restaurante favorito e
o The Colony Room, local que frequentou assiduamente nos quarenta anos que
se seguiram. Aí juntava amigos, gente do mundo artístico, vagabundos e bêbados
do East End. Em 1950 iniciou a série de retratos do Papa Inocente X, cujo
grito espasmódico e convulso pintou de variadas formas e, em 1954,
representou a Grã-Bretanha na Bienal de Veneza, com Lucian Freud e Ben
Nicholson. A partir de 1951 começou a visitar regularmente Tânger, (
onde viveu paredes meias com William Burroughs e conviveu com o grupo de
Paul Bowles), uma cidade que atraía a comunidade homossexual pela sua
liberdade de costumes. Foi em Tânger que Bacon conheceu Peter Lacy, por
quem desenvolveu um amor violento e destruidor: " estar apaixonado
dessa forma extrema - total e fisicamente obcecado por alguém -é como
contrair uma doença aterradora. Não o desejo nem ao meu maior inimigo”
disse Bacon. Os
anos sessenta foram o tempo da sua consagração. Participou em inúmeras
exposições e tornou-se conhecido mas o sucesso não impediu uma
tentativa de suicídio em Nova Iorque, em 1968. Mas foi George Dyer, com
quem vivia desde 1964, quem acabou por se matar num quarto de hotel em
Paris, nas vésperas da inauguração de uma grande retrospectiva de Bacon
no Grand Palais, no início dos anos setenta. Só em 1974 é que Francis
encontrou John Edwards com quem manteve uma relação estável e paternal
e que herdou o seu espólio, depois da sua morte, de ataque cardíaco, aos
82 anos.
Nas
muitas entrevistas que deu ao longo da vida, quando já era famoso e até
venerado, Bacon sempre enfatizou o seu lado anárquico e irreverente. Mais
do que uma vez contou como costumava roubar dinheiro aos pais,
aproveitar-se de quem gostava dele e fugir sem pagar a renda dos lugares
onde vivia. Depois da sua morte, e até hoje, a sua obra e personalidade têm
sido objecto de especulações e escândalos. O seu lado “negro”,
obscuro e violento e as suas imagens distorcidas continuam a deixar marcas
em artistas como Damien Hirst, por exemplo, que o considera como “o último
dos grandes pintores” e afirma ter seguido Bacon passo a passo na criação
da sua própria obra. A
obra de Francis Bacon não deixa ninguém indiferente e as opiniões
tendem a extremar-se. Os críticos tentaram relacioná-la sucessivamente
com o Cubismo, o Surrealismo, a Pop britânica. Mas o interesse de Bacon
por Picasso foi aquele que caracterizava qualquer jovem aspirante a
artista, do seu tempo. Quanto aos surrealistas, repudiaram-no e embora
seja possível encontrar, na sua obra, certos resquícios de “espírito
Pop” , principalmente nos anos sessenta, ele destaca-se em toda a sua
singularidade, distante e desdenhoso de correntes, movimentos e modas.
Pintou retratos de amigos e amantes tal como o fez David Hockney mas sem o
elegante hedonismo deste último; torceu e distorceu os seus modelos em
esgares de agonia enquanto Kitaj e David Hamilton se limitavam a desfocar
o que viam. Dos seus contemporâneos, só com Lucian Freud - de quem foi
amigo, embora tivessem cortado relações sem qualquer explicação lógica
ou ilógica, em 1965 - é possível estabelecer um certo paralelo em
termos de singularidade e originalidade, no tratamento do retrato e do
auto-retrato. Talvez alguém se lembre, ao observar os corpos desfigurados
de Bacon, de outro grande perturbador dos cânones clássicos de
representação da figura humana, o pintor El Greco. Mas enquanto que,
neste último, os corpos se “transfiguram”, se elevam em direcção ao
céu, para mais perto da divindade, os de Bacon “desfiguram-se” na
assunção da sua monstruosa e vil humanidade. Como homem do seu tempo,
Bacon transmitiu a ideia de que o ser humano, ao conquistar e fazer uso da
sua própria liberdade, também liberta a besta que existe dentro de si.
Pouca diferença faz dos animais irracionais, tanto na vida - ao levar a
cabo as funções essenciais da existência como o sexo ou a defecação -
como na solidão da morte. Em lugar de enaltecer o homem como um produto
maravilhoso, fruto de uma criação divina, Bacon mostrou-o retalhado como
uma peça de carne em exposição num talho - os seus detractores gostavam
de dizer, com ar de repulsa, perante os seus “écorchées” que eram
mais uma “fatia de bacon”. A utilização que fez da cor nas suas
pinturas, desde os tons mais sombrios, verde musgo, negro veneziano,
vermelho sangue de boi, até à explosão de rosas shocking, verdes limão,
laranjas e púrpuras, etc. Francis Bacon descobriu e explorou até ao limite do suportável o pior de todos nós. E viveu para o contar. |
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Helena Vasconcelos (Portugal, 1949). Jornalista e crítica de arte, dirige Storm Magazine (http://storm-magazine.com), onde o texto foi publicado originalmente. Contato: hvasconcelos@storm-magazine.com. Página ilustrada com obras de Francis Bacon (Inglaterra). |