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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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Elisa Biagini: a poesia italiana do corpo e dos objetos vivos (entrevista) Prisca Agustoni
PA
- Elisa, a poesia do seu primeiro livro, Questi nodi, publicado no
1993, foi definida pela crítica como “forte, dura, decidida, quase
impiedosa”. Crítica e leitores ficaram encantados, prisioneiros entre
as tramas do “mais negro desencanto”. Desde qual particular leitura da
realidade e do mundo contemporâneo nasce essa poética que prende os
leitores entre as transparências duma teia? EB
- O primeiro livro reunia textos muito diferentes: agora vejo aquela minha
voz como já portadora das sementes que logo desabrocharam, mas ainda
insegura em qual terra plantá-las. O negro desencanto do qual fala
Mariella Bettarini já estava presente (Questi nodi reúne poemas
escritos entre 18 e 23 anos): é uma leitura do mundo de alguém que
observa em silêncio há anos, que desenvolveu um estranho sentido do
humor, retorcido mas denso, que ainda tem paixões e obsessões da infância
mas que ao mesmo tempo é ativo numa realidade na qual não se reconhece
muito, mas que faz com que se apaixone e se enraiveça. PA
- Se poderia dizer - lendo o comentário publicado na revista Atelier
(1999) que o “realismo interior” o “total” da sua poesia percorre
o caminho contrário da ascese fenomenológica, ou seja, a sua poesia, ao
invés de elevar-se a partir das coisas até chegar à esfera das idéias
e das profundezas da alma humana, “desce” do abstrato (emoções,
lembranças, sensações, movimentos da consciência) para se incarnar nas
coisas e formar assim um concentrado de objetos, “coisas” que acumulam
espaço e poeria em casa. O que provoca esse caminho poético igualmente
chamado de “expressionista”? EB
- Só posso falar daquilo que conheço: os objetos que me cercam (e que me
atormentam com a sua presença), o meu corpo, a minha família. Todos
elementos que amo e odeio mas que são tão parte de mim e imprescindível
tramite para a relação com o outro. A comida, por exemplo, é a língua
entre mim e a minha avó, a protagonista do L’ospite, o
reconhecer (ou não) a mim mesma no corpo dela, a sua obsessão pelos
objetos que se tornam densos dela, e por isso, ameaçadores. Os objetos
chegam a conter partes do corpo humano, as pessoas a viverem dentro do
objeto: o que me sobrará dela depois da sua morte. Objetos vivos, pois,
que produzem poeira, líquidos, que te observam. E partes do corpo que
quase têm vida própria, histórias individuais que querem ser contadas,
como na nova série, La sorpresa nell’uovo, que tem como
protagonista o fazer-se de Elisa no ventre materno. PA
- Está de acordo com a afirmação de que a sua poesia representa um
“retorno expressionista”? EB
- Não acho que a minha poesia seja expressionista, pois essa palavra tem
uma conotação histórica bem específica. Agora a condição é bem
diferente : com certeza gosto muito do Benn, mas li a sua Morgue (bem
superior!) depois de ter escrito a minha, na qual a luz é muito mais fria
e metálica.
EB
- Ó, sim, o sujeito-Elisa está sempre muito presente, talvez até
demais, com suas histórias e obsessões… Uma grande influência sobre a
minha poesia vem das artes visuais e da antropologia. As primeiras são
entre os meios mais eficazes de análise de um momento histórico, as mais
diretas. É a elas que devo o meu proceder por imagens, mas também a
forte presença dos objetos-sujeitos, muitas vezes impiedosos. Andando
pelas galerias encontro o meu mal-estar expresso com outra linguagem, e o
encontro é sempre muito proveitoso. PA
- Neste sentido, o quê representa para você o ato da criação? É um
pretexto para não se afogar, como diz esse verso seu: “o escrever outro
/me salvou até agora,/não revelou/ a aspereza dessa linguagem/ a conta
das melhores folhas”? De acordo com esse poema, a poesia é uma imperfeição
“que segue o anjo”, que se encontra entre a natureza e o espírito. EB
- Escrever é conhecer-me e conhecer o mundo. Não sei se a poesia salva a
vida… sei que quando escrevo um bom poema, experimento um prazer físico,
intenso, único: consegui ver o fundo do meu estômago e contá-lo. Não
acredito na ascese… claro, quando você consegue descrever
verdadeiramente alguma coisa, você pode ver o verdadeiro rosto, o véu
levantado… e é um instante cuja luz é muito intensa. Me interessam as
revelações do cotidiano, a face ainda não vista de um objeto
familiar… PA
- Você se sente perseguida por algum tema específico? Você tem
perguntas obsessivas? EB
- Pode-se perceber, ordenando cronologicamente os meus livros, como o
corpo se distingue como obsessão, mas também a relação com o outro,
que é um familiar próximo, alguém com quem tenho uma relação complexa
e opressora. A poesia e-mother já citata talvez não pareça, mas
eu a considero cheia de gratidão, assim como os poemas para meu
ex-namorado ou para meu marido que, aos meus olhos (e ainda bem que aos
dele também!), são poemas de amor, de abertura para eles de uma porta no
meu mundo onde eles têm um papel tão importante, mas que aos olhos dos
outros pareceram estranhos e frios! Não me obsessiona a métrica mas sim
a língua: usar um italiano direto e cotidiano, sem afetações ou citações
que muitos dos meus colegas italianos gostam demais. Uma língua e uma
poesia que falem do mundo e não de si mesmas. PA
- Você poderia nos falar da leitura de livros que a marcaram de alguma
maneira? Você sentiu (ou sente) ecoar na sua voz poética outras vozes poéticas?
Se isso é o caso, você as sentiu (ou as sente) como influências literárias
ou como intrusões não previstas? EB
- Pergunta difícil! Falava anteriormente da arte e então cito os inumeráveis
catálogos das obras de Goya, Lorenzetti, Kiki Smith, Klee, Richard Long e
muitos outros artistas. E também as novelas desde Jane Austen até
Murakami, muitos americanos e ensaios de política e sociologia. As quatro
pedras angulares da minha casa poética foram Montale, Rilke, Dickinson e
Plath. Depois acrescentei outros, desde Celan até Sexton passando pelas
poetas americanas contemporâneas e Dante… Mas se de repente tivesse que
dizer o nome de dois autores com os quais melhor dialogo, que sinto irmãos,
diria Dickinson e Kafka.
EB
- Pelo
que diz respeito à tradição italiana, além dos clássicos como
Guittoni e depois Dante e Leopardi, sinto uma grande dívida com os versos
de Montale, que li e amei aos 16 anos. Depois dele vieram Sereni e
Caproni, e logo Porta e mais recentemente Cattafi, poetas afastados do meu
modo de escrever mas que têm uma grande intensidade. Com respeito aos
vivos, apenas posso citar um nome: o Magrelli de Ora serrata retina.
Em realidade, não me sinto parte da tradição do meu país seja pelos
temas que trato seja pela língua que escolho. PA
- Você
concorda com o que foi escrito pela crítica italiana a respeito de sua
poesia, ou seja, que ela se encaixa na tradição poética da Itália como
um canto negado, cujo ritmo lembra o soluço ou o sobressalto, mas que
tende sempre ao canto como seu limite inatingível? EB
- A palavra “canto negado” me faz sentir morta, silenciada… vejo
meus textos como ferozes, lúcidos, nunca “bonitinhos”, mas nem por
isso silenciosos, resignados… do contrário, acho que pararia de
escrever… essa dureza é linda, é brilhante na sua verdade. PA
- Elisa,
você poderia falar um pouco a respeito da sua experiência nos Estados
Unidos… em que medida a sua poesia mudou (se é que mudou) ao se
relacionar com a língua inglesa? Como você lida com a duplicidade do
processo criativo, ou seja, em italiano e em inglês? Existem razões
especiais para você escolher escrever também em inglês? E essa
possibilidade de escrever em dois idiomas lhe permitiu manobrar uma
diversidade de vozes ou marcar um aprofundamento da mesma voz, da mesma
sensibilidade? EB
- Vivi 5 anos nos Estados Unidos e acredito que aprendi muito dessa experiência
do ponto de vista profissional e humano: cresci muito como poeta e
encontrei livros e pessoas muito importantes. Comecei a escrever em inglês
apenas depois do primeiro ano: me sentia muito tímida e eu mesma não
podia acreditar que estava criando em outro idioma! Mas foi bastante
natural: vivia com americanos e dava aulas para americanos, era a língua
que usava primeiro de manhã, com a qual comunicava meus sentimentos, a língua
com a qual muitas vezes sonhava, como não podia se tornar também a língua
da minha poesia? Durante a minha permanência nos Estados Unidos tive a
sorte de freqüentar aulas de escritura criativa na universidade onde
trabalhava, que muito me enriqueceram porque eu já vinha com uma
linguagem pessoal, um discurso meu. Os temas a mim caros tomaram outra
voz, um novo estilo mais narrativo… Foi uma aventura muito emocionante
(até escrevi uma sextina!). Os poemas escolheram sozinhos nascer em inglês
ou em italiano, sem nenhum constrangimento: a voz é a mesma pois segui de
qualquer forma o meu discurso já iniciado em italiano. Depois de ter
reunido alguns textos, os enviei para diferentes revistas literárias e
assim comecei a publicar, de modo também muito natural. O escrever em
inglês me vem muito mais naturalmente se vivo e respiro o inglês
cotidianamente. Este ano, por exemplo, que vivo e dou aulas de novo na Itália,
parece pouco natural, forçado. PA
- Existe
uma referência implícita à poeta italiana Amelia Rosselli (que também
escreveu em italiano e em inglês) no seu livro SONNO/SLEEP (título de um
livro bilingue da Rosselli e também título de um livro seu)?
PA
- Pode-se
individuar uma voz feminina na sua poesia? E de que tipo de mulher? EB
- Gosto dessa pergunta: deveria ter me perguntado isso faz tempo! Sempre
existem duas mulheres: um você que representa uma mulher de uma
outra geração e cultura mas que, ao mesmo tempo, apresenta os aspectos
mais obsessivos e inquietantes do eu, e uma eu-mulher cheia
de curiosidade, brincalhona e agitada, irônica mas realista, sempre em
contato com o seu lado infantil. PA
- Elisa, você também é
tradutora, tendo traduzido em italiano o livro Satã diz da
americana Sharon Olds. O que representa para você a tradução: um diálogo,
uma recriação ou uma “falsificação”? EB
- A
tradução é um ato de humildade e de carinho: escolhem-se autores que se
amam e também por isso é preciso respeitar a sua voz, e não querer
impor a nossa. Trata-se de um trabalho cansativo mas útil para aprender
essa humildade, para extrair-nos do nosso egocentrismo de poetas. Gosto de
traduzir poetas desconhecidas na Itália com as quais nascem também boas
amizades e colaborações (como no caso da Ostriker). Gostaria de
encontrar um editor para os poemas da Clifton mas não é coisa fácil…
publiquei uma seleção de textos dela na revista italiana Poesia
mas a coisa morreu lá… Gostaria também de juntar (e acho que vou fazê-lo
de qualquer maneira) uma antologia de poemas que tratam da doença do câncer,
principalmente de mulheres poetas… poesia e doença, isso não é
considerado um tema muito atrativo! PA
- Lendo
uma página de Clarice Lispector, encontro essa frase que me faz pensar na
importância da materialidade expressa pela sua poesia: “Nunca
nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne e
osso”. Você se encontra na contradição manifestada por Clarice
Lispector? EB
- Como é grande a Lispector… gosto muito… e essa frase é
maravilhosa… esse sentir-se espectador, sempre dentro e fora ao mesmo
tempo… se adapta bem ao meu livro L’ospite, a história da
minha avó e da sua vida, avó que está em mim com as suas lembranças. PA
- Quais
são os seus projetos literários para o futuro? EB - Com certeza terminar a série sobre Elisa-feto… e depois trabalhar, após a linda experiência sobre Chapeuzinho Vermelho, sobre Gretel. E depois acho que será a vez de Lilith… quem sabe… |
Prisca Agustoni (Suíça, 1975). Poeta e tradutora. Publicou Sorelle di fieno (2002). Contato: bilbeli@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Enrique Lechuga (México). |