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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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A palavra ousada de Altino Caixeta de Castro Maria Esther Maciel
É
que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a
tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas Fernando
Pessoa
Quando
insisti em estender esse “não tinha idade” para além do espaço temporal
delimitado pela infância do poeta, através da afirmação de que ele
continuava sem idade, por trazer todos os tempos possíveis e impossíveis em
sua poesia, Altino riu e lançou uma de suas pérolas poéticas: “meus
destempos, meus dez tempos são minha eternidade provisória”. Movido
pelo impulso lúdico que sempre o definiu, Altino concentrava nesse jogo
paradoxal de palavras toda a sua trajetória de poeta. Trajetória marcada por
trânsitos em diferentes tempos e tradições poéticas e pelo desejo de
construir nos limites de cada um desses tempos uma eternidade possível, ainda
que momentânea. Isso, porque para Altino a fixidez - fosse do tempo ou do espaço
- nunca existiu. Sua voracidade criativa e sua irrequieta curiosidade o levavam
sempre a buscar novos passados ou múltiplos agoras para a sua poesia,
instaurando nessa pluralidade um traço radicalmente singular. E é nesse
sentido que poderíamos - sob um prisma mais espacial que temporal - buscar na
palavra “atopia” a melhor definição de sua obra e de sua própria condição
de poeta. “Atópico” vem do grego “atopos”, que significa - numa
primeira instância - aquilo ou aquele que não tem um lugar fixo, o que resiste
à classificação. E se digo “em primeira instância”, é porque o vocábulo
desdobra-se em outros sentidos, conforme o contexto em que se insere. Essa variação
advém não apenas da carga semântica que sua base topos contém (topos
significa tanto lugar quanto discurso), mas também e sobretudo dos usos
culturais que se fizeram do termo. Nos
dicionários de grego, a palavra atopia articula-se semanticamente a
“coisa extraordinária”, “raridade”, “novidade”, “estranheza”,
“combinação inusual de sons e palavras” (na retórica), ou seja, termos
que apontam para um desvio e uma diferença em relação ao mesmo, uma
singularidade que se furta à classificação ou à categorização. Já Roland
Barthes, um dos poucos filósofos/escritores a usar a palavra atopos em
seus escritos, o fez para qualificar não apenas o que escapa à descrição e
à definição, mas aquilo ou aquele que tem uma “originalidade sempre
imprevista”. Um de seus propósitos ao se valer do termo foi caracterizar um
tipo de texto que estaria “fora de qualquer finalidade imaginável”,
desviando-se dos paradigmas discursivos e afirmando-se como exceção. Pode-se
dizer que na poética altiniana a atopia se dá a ver em todas as possibilidades
de sentido que esta deflagra enquanto palavra. E a mais óbvia manifestação
disso pode ser verificada na dificuldade que qualquer crítico literário tem em
definir um lugar para o conjunto da obra do poeta, seja em um movimento poético
específico, seja na própria historiografia literária brasileira. A
já reconhecida versatilidade de Altino em dialogar com várias tradições e
percorrer várias correntes é, sem dúvida, um dos índices mais explícitos de
seu caráter atópico (ele está em todos os tempos/lugares e em nenhum
simultaneamente), embora não o principal, como veremos mais adiante. E tal
versatilidade poderia facilmente ser tomada como um índice também das
afinidades do poeta com nomes medulares da poesia moderna brasileira, como
Bandeira, Drummond e Murilo Mendes, por exemplo, que igualmente aproveitaram em
suas obras formas e tendências literárias diversas para construir uma
modernidade, eu diria, mais matizada e pluralizada. No entanto, é plausível dizer que a modernidade altiniana
tem um caráter bem mais paradoxal, visto que o poeta - mesmo estando em
sintonia com as exigências do novo - não sustentou nenhum pacto mais
consciente com as demandas de seu tempo e tampouco se furtou a adotar, em pleno
triunfo da tradição da ruptura, formas, dicções e temáticas já há muito
proscritas do repertório literário do século XX. Além disso, o fato de estar
fora do circuito cultural dos grandes centros urbanos e culturais foi
determinante para que, à margem de todo o fervilhar literário do tempo, não
assumisse propriamente um papel ativo e militante no cenário literário
nacional. Ao que pode se somar ainda a sua tácita opção pelo ineditismo,
responsável pelo pouco ou nenhum reconhecimento de sua presença enquanto poeta
nesse mesmo cenário. E creio que todos esses fatores fizeram com que sua própria
modernidade também se colocasse sob o signo da atopia. Como parece sugerir o
poeta neste fragmento do texto “Topos exordial do inédito”, que abre seu
livro Cidadela da rosa - com fissão da flor: “Quando
os poetas passadistas morrerem de peste ou de senectude,
Ao
contrário de muitos poetas modernos que, na linha de Ezra Pound, estabeleceram
de forma programática uma lista seleta e coerente de autores que pudesse servir
de referência para sua própria produção e para as novas gerações, Altino
criou uma lista de feição enciclopédica, na qual buscou colocar todos os
escritores e poetas possíveis, sem discriminação de tendências,
nacionalidades, estilos, filiações, projetos e campos de atividade.
Acrescentou ainda a esse rol um catálogo infindável de filósofos, lingüistas,
semiólogos, cientistas, antropólogos, artistas, etc, convertendo sua obra em
uma espécie de “Biblioteca de Babel”. E
já que evoquei aqui o título de um dos contos de Borges, talvez valesse a pena
mencionar também um outro que trata de um personagem insólito: um rapaz de
nome Funes, que após sofrer um acidente, perde não a memória, mas o dom de
esquecer. Com isso, passa a vida construindo um catálogo mental de todas as
lembranças de tudo o que viveu, leu, viu, ouviu, sonhou e imaginou durante a
vida - um verdadeiro “museu de tudo”, onde as coisas se acumulam na mesma
proporção em que anulam qualquer esforço de organização. Obviamente, o espaço enciclopédico que a poética altiniana
instaura não tem a função acumulativa da memória de Funes, pois ao contrário
deste, Altino sabia combinar, através dos artifícios da linguagem, os
registros, as referências, os textos, as imagens, os sons, os sonhos que
conseguiu coletar e reunir ao longo da vida. Por ser um poeta, ele tinha o
necessário dom da desmemória (e evoco aqui os dizeres de José Paulo Paes,
para quem “o esquecimento é o que conduz a memória a transfigurar o fato que
recupera”.) Assim, creio que é precisamente nesse trabalho de combinação
criativa - que envolve o uso de analogias, paradoxos, trocadilhos, paráfrases
insólitas, silogismos intertextuais - que Altino vai imprimir o seu toque de
singularidade enquanto poeta. As
referências, autores e citações da enciclopédia altiniana, mesmo que se
prestem, aqui e ali, a indicar leituras, afinidades literárias e influências
do poeta - como é o caso de Heidegger, filósofo recorrentemente citado na Cidadela
da Rosa e que teve realmente um grande impacto sobre Altino, ou a própria Bíblia,
também fonte inesgotável para a imaginação do poeta - na maioria das vezes
assumem funções inusitadas, pela forma lúdica como são usadas e combinadas
nos poemas. Os poetas russos Maiakovski e Iessiênin, por exemplo, entram em um
dos poemas de Cidadela como nomes ou referências capazes de gerar
sobretudo onomatopéias, ecos, aliterações, como se vê no poema “Repuxos
diversos”, em que o primeiro aparece como “O poeta maior Maiakovski /
cheio de ks. E de uísques e de vodkas”, ou seja, tomado a partir das
sugestões sonoras de seu nome; e o segundo é evocado como autor do verso “alto
e bom tom retumbe na tua / tumba o sino azul”, que passa a servir de mote
também sonoro para uma brincadeira que Altino faz com o próprio nome: “mas
eu, Altino,/ digo no mesmo alto tino e tom:/ como dói, como sói, na minha/
tumba a sombra do bumba-meu-boi.” Esse jogo se repete, de alguma forma, em
Contozinho contumaz”, onde uma onomatopéia de James Joyce também serve como
base para a construção não só dos jogos de linguagem como também dos
sentidos - quase sempre à beira do nonsense - do texto. Já no poema “Soneto
do Estranho”, que foi curiosamente dedicado a “Borges, Foucault, Drummond e
outro”, são evocadas as geometrias de Euclides e de Einstein, para que, ao
final do poema, as razões para essa evocação sejam colocadas em xeque, quando
o poeta diz: “A minha rosa é côncava-convexa,/ agora o que não sei nesta
conversa / é o que Einstein e Euclides têm com isso.” Um
outro dado interessante a ser observado na forma como Altino se vale das
“vozes” dos autores que compõem sua enciclopédia particular, diz respeito
ao uso poético de expressões, conceitos e jargões extraídos de livros de
outros campos disciplinares do conhecimento. Altino tinha hábito de fazer
poemas nos espaços em branco de todos os livros que lia. E o que motivava o
exercício desse “canto paralelo” era menos o interesse intelectual pelo
conteúdo dessas obras do que o fascínio experimentado diante da sonoridade, da
visualidade ou das várias possibilidades semânticas de certas frases, palavras
e conceitos .
Júlio
Machado Pinto, em estudo sobre o Diário da rosa errância, chama a atenção
para essa peculiaridade da escrita altiniana, pontuando que, para os leitores
desavisados, essas recorrências poderiam ser vistas como “índices líquidos
e certos de um cientificismo oposto à poesia”. De fato, a primeira impressão
que se tem é esta. Mas para o leitor mais atento, não é difícil constatar
que os termos técnicos na poesia de Altino têm uma função eminentemente poética,
não apenas por um certo efeito encantatório que provocam, como também pela
potencialidade que têm de causar estranhamento. E
creio que é neste ponto que a poesia de Altino encontra um ponto de interseção
com a obra de Augusto dos Anjos, um poeta que, sob o signo da excentricidade e
da estranheza, não encontrou até hoje um lugar definido na história da poesia
brasileira. Ao incorporar em sua poesia um vocabulário técnico oriundo das ciências
naturais, ele também promoveu uma espécie de deslocamento da linguagem para
fora do espaço lírico que à poesia do tempo estava reservado. Mesmo que
cultivasse uma certa afinidade intelectual com as correntes cientificistas do
final do século XIX/início do século XX - tal como se deu também, até certo
ponto, o interesse de Altino por certos preceitos teóricos do estruturalismo -
o poeta paraibano, como este, valia-se dos termos científicos com propósitos
predominantemente poéticos, colocando-os em relação dissonante com um vocabulário
variado que incluía palavras consideradas poéticas, prosaísmos e até mesmo
vocábulos de feição escatológica. Fazia jus, dessa forma, a um dos
significados etimológicos da palavra atopia, que como vimos, é “combinação
inusitada de sons e palavras”. O
crítico Anatol Rosenfeld nomeou esse procedimento usado por Augusto dos Anjos
como “exogamia lingüística”, que, em outras palavras, significa a interrupção
do fluxo histórico da língua por um elemento alienígena, estranho. Ou, como
explica o mesmo autor, valendo-se de uma citação de Adorno, “um elemento
anorgânico que interrompe o contínuo da língua, arrebentando-lhe o turvo
conformismo”. Esvaziados de sua carga conceitual e ideológica, tais termos
acabam por desencadear sonoridades insólitas no poema, sobretudo ao serem
rimados, combinados com palavras consideradas comuns dentro de um poema. É
exatamente isso que se evidencia, não obstante as óbvias diferenças entre os
dois poetas, na poesia altiniana. Como no fragmento “mesmo se não
existisses, te inventaria (para a glória de minha cavalaria) na cápsula de um
lexema”, extraído de Diário da rosa errância”. Ou nesta
estrofe de um poema de Cidadela Rosa: “O Poeta ser em sintagmas/ ora
ou perora o poema/ sangra em sememas/ ou se sagra”. Todos eles, se por um
lado trazem à tona o humor lúdico do poeta, por outro explicitam o lado
inusitado e por vezes estranho dessa poesia. O que reforça, mais uma vez, o caráter
atópico do poeta, visto que “atopia” também significa estranheza e
excentricidade. No
caso do livro Diário da rosa errância e Prosoemas, a irrupção
de referências teóricas no corpo poético da escrita ainda atende a outros
propósitos de ordem textual. Por se tratar de um misto de prosa, poesia, ensaio
e diário, os termos técnicos advindos sobretudo da Semiologia podem ser vistos
como elementos necessários para o processo de hibridização da linguagem. E
nesse sentido, apontariam para um certo esforço teórico do poeta que, dessa
forma, passa a exercitar também o seu papel de crítico e pensador. Soma-se a
isso a forte presença de Roland Barthes nos textos que compõem a obra. E este,
como se sabe, foi um escritor que soube amalgamar, como poucos, o teórico, o poético
e o narrativo, criando um texto híbrido e sedutor. Entretanto, mesmo nos
“prosoemas” mais teóricos de Altino a “fulguração” poética acaba por
neutralizar o peso dos conceitos, e o esforço racional de se criar uma teoria
da linguagem é atravessado pela desmesura de uma imaginação que se entrega ao
império de seu próprio dinamismo.
E aqui chegamos a um dos mais interessantes sentidos que a
palavra atopia carrega: a condição daquele ou daquilo que lança em um estado
de perplexidade. E
o que é a perplexidade senão o estado de quem se emaranha em vários caminhos,
se espanta e se assusta diante do que não se pode explicar ou entender? Jorge
Luis Borges já sugeriu que a história de um poeta é também o das suas
perplexidades. E Altino, que nunca deixou de se reconhecer enquanto um poeta
perplexo diante de tudo, chegou mesmo a fazer da perplexidade uma das linhas de
força de sua poética, através da palavra espanto. Não por acaso
designou o poeta de “pastor do espanto” e forjou a partir dessa imagem uma persona
ficcional para si mesmo. Mas longe de se ater apenas à dimensão filosófica,
existencial, da idéia de espanto, à qual associou todo um referencial
ontológico de feição heideggeriana, redimensionou-a pela força da imaginação
e nela imprimiu um traço lúdico, advindo do sentido de “maravilhamento”
que a própria palavra espanto contém. Espantar-se é também
maravilhar-se diante de algo. E esse algo para o “pastor” Altino Caixeta é
a linguagem e todas as suas potencialidades de jogo. E o que é o maravilhar-se senão o deixar-se seduzir,
desviar-se do caminho? Altino é um seduzido pela linguagem. Uma espécie de libido
scribendi perpassa o ato de criação do poeta, encantado que sempre esteve
pela força corporal, tátil, sonora, visual da linguagem. O que se dá a ver de
maneira explícita no poema “A palavra ousada”, do livro Cidadela da rosa
- com fissão da flor, onde se lê: Que
coisa mais misteriosa é a palavra, Altino
sabe que as palavras podem deflagrar realidades imprevistas, fingir um mundo que
não existe senão apenas dentro delas ou partir delas. Como em Fernando Pessoa,
outro poeta da ousadia, sua perplexidade se “irresolve” na consciência de
que é possível tanto sentir com a imaginação quanto escrever pelos sentidos
o que a razão não entende. E seu pastoreio é tanto o ato de conduzir e/ou
vigiar a linguagem - como fazem os pastores de cabras e ovelhas - quanto o ato
de pastorejá-la, visto que o verbo “pastorejar”, relacionado ao pastorear,
aponta também para a ação de fazer a corte, cortejar. E nesse
sentido, Altino pode também ser visto como um verdadeiro cortejador das
palavras, um deslumbrado pela poesia. E é nessa ousadia de se deixar deslumbrar e de traçar à medida que escreve os seus próprios desvios, que a poesia perplexa (e complexa) de Altino também causa perplexidade naqueles que tentam defini-la ou classificá-la. |
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Maria Esther Maciel (Minas Gerais, 1963). Poeta e ensaísta, publicou livros como As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz (1995), Borges em 10 textos (org., 1998) e Triz (poemas, 1998). Ensaio originalmente publicado em Poéticas da diversidade (org. Marli Scarpelli e Eduardo Assis Duarte, 2002). Contato: esthermc@letras.ufmg. Página ilustrada com obras do artista Enrique Lechuga (México). |