Editorial
Barris de pólvora
Nos
habituamos a lidar com o visível como recurso único para entender a
realidade. Na política há um personagem – o porta-voz – que
funciona como arauto da visibilidade. Seu anúncio consiste em padrões
de conveniência, tornando cada vez mais confuso o próprio
entendimento daquilo que se anuncia. A realidade deixa de ser intrínseca
e passa à condição de objeto promovido a tal entendimento. A
realidade como um ready made. O estado de vigília das massas,
sendo induzido, processa apenas parcialmente o que de fato acontece.
Já
se disse que o grande dilema de toda esperança é justamente o
cadinho de realidade à sua volta. Ao que parece, Salvador Dalí
atirou no que viu e acertou o que não viu. Sua idéia de sistematização
do caos através de um “processo de caráter paranóico e ativo do
pensamento” tornou-se uma arma nas mãos do inimigo – até onde
nossa esquizofrenia consegue separar, no homem, o que é amigo do que
é inimigo. A arte não
se afirmou ante a realidade. Ao contrário, rendeu-se a seus caprichos
– embora reste a dúvida a quem pertençam os caprichos. Acabou
limitando-se ao palco, ao território do visível.
Porta-voz de si
mesmo, disse Dalí em 1930 que tudo levava a crer que a realidade
acabaria sendo “considerada unicamente como um simples estado de
depressão e de inatividade do pensamento e, por conseqüência, como
uma sucessão de momentos de ausência do estado de vigília”.
Haveria acaso um modelo puramente interior de realidade? Talvez o que
devamos nos perguntar infinitas vezes ao dia é por qual razão
concebemos o visível e o invisível como joio e trigo. A vida é o
que está ao alcance de nossas mãos ou de nosso desejo? E separar
assim, uma dimensão da outra, atende a qual motivo?
Nossos dias hoje
estão impregnados do que se pode chamar de metáfora das duas torres
(Tolkien & Bush). Não há dúvida quanto ao fato de que os
Estados Unidos tenham se constituído, ao longo dos tempos, na mais
notável nação forjadora da realidade. A curiosidade vem do fato de
que essa fábrica de sonhos seja aceita por seus partícipes quando se
trata de arte mas não quando a realidade queima a carne. Uma
contribuição decisiva ao descrédito da realidade é afastá-la do
mundo da criação artística, tática que não se concretizaria sem a
conivência dos artistas.
O que nos parece claro defender aqui é que
não se pode escolher assento em um barril de pólvora crendo que
haverá menos dor em uma fileira do que em outra. Não há a dor da
arte distinta da realidade. não se promove a intensidade da dor por
ser visível ou invisível. Um porta-voz qualquer vem nos dizer que a
dignidade humana está a salvo graças aos últimos ataques militares
contra o inimigo. Esta é a tônica da humanidade, este é o porta-voz
que escolhemos para todos nós: sempre avançar contra o inimigo.
Receita bélica seguida a risco pela arte: nenhuma coerência, descrédito
total na estética ou na existência humana.
Mesmo
que as guerras se mostrem
como infortúnio essencial, o dilema central estará em como encará-las.
A metáfora das duas torres refere-se a supurações que deveriam ser
superações: visível e invisível, arte e realidade. O homem não
está cuidando de si nem sofrendo novos ataques. Apenas rebentam
feridas mal curadas.
Os editores |