Enrique Lechuga Agulha - Revista de Cultura Enrique Lechuga

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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003

Enrique Lechuga

Editorial
Barris de pólvora

Nos habituamos a lidar com o visível como recurso único para entender a realidade. Na política há um personagem – o porta-voz – que funciona como arauto da visibilidade. Seu anúncio consiste em padrões de conveniência, tornando cada vez mais confuso o próprio entendimento daquilo que se anuncia. A realidade deixa de ser intrínseca e passa à condição de objeto promovido a tal entendimento. A realidade como um ready made. O estado de vigília das massas, sendo induzido, processa apenas parcialmente o que de fato acontece.

Já se disse que o grande dilema de toda esperança é justamente o cadinho de realidade à sua volta. Ao que parece, Salvador Dalí atirou no que viu e acertou o que não viu. Sua idéia de sistematização do caos através de um “processo de caráter paranóico e ativo do pensamento” tornou-se uma arma nas mãos do inimigo – até onde nossa esquizofrenia consegue separar, no homem, o que é amigo do que é inimigo.  A arte não se afirmou ante a realidade. Ao contrário, rendeu-se a seus caprichos – embora reste a dúvida a quem pertençam os caprichos. Acabou limitando-se ao palco, ao território do visível.

Porta-voz de si mesmo, disse Dalí em 1930 que tudo levava a crer que a realidade acabaria sendo “considerada unicamente como um simples estado de depressão e de inatividade do pensamento e, por conseqüência, como uma sucessão de momentos de ausência do estado de vigília”. Haveria acaso um modelo puramente interior de realidade? Talvez o que devamos nos perguntar infinitas vezes ao dia é por qual razão concebemos o visível e o invisível como joio e trigo. A vida é o que está ao alcance de nossas mãos ou de nosso desejo? E separar assim, uma dimensão da outra, atende a qual motivo?

Nossos dias hoje estão impregnados do que se pode chamar de metáfora das duas torres (Tolkien & Bush). Não há dúvida quanto ao fato de que os Estados Unidos tenham se constituído, ao longo dos tempos, na mais notável nação forjadora da realidade. A curiosidade vem do fato de que essa fábrica de sonhos seja aceita por seus partícipes quando se trata de arte mas não quando a realidade queima a carne. Uma contribuição decisiva ao descrédito da realidade é afastá-la do mundo da criação artística, tática que não se concretizaria sem a conivência dos artistas.

O que nos parece claro defender aqui é que não se pode escolher assento em um barril de pólvora crendo que haverá menos dor em uma fileira do que em outra. Não há a dor da arte distinta da realidade. não se promove a intensidade da dor por ser visível ou invisível. Um porta-voz qualquer vem nos dizer que a dignidade humana está a salvo graças aos últimos ataques militares contra o inimigo. Esta é a tônica da humanidade, este é o porta-voz que escolhemos para todos nós: sempre avançar contra o inimigo. Receita bélica seguida a risco pela arte: nenhuma coerência, descrédito total na estética ou na existência humana.

Mesmo que as guerras se mostrem como infortúnio essencial, o dilema central estará em como encará-las. A metáfora das duas torres refere-se a supurações que deveriam ser superações: visível e invisível, arte e realidade. O homem não está cuidando de si nem sofrendo novos ataques. Apenas rebentam feridas mal curadas.

Os editores

Enrique Lechuga

Sumário

1 a obra plural de r. roldan-roldan. r. leontino filho
2 a palavra ousada de altino caixeta de castro. maria esther maciel
3
adolfo casais monteiro: o estrangeiro definitivo. maria joão cantinho
4 antonin artaud entre cacas y gritos. carlos m. luis
5 algumas notas e observações sobre lautréamont, os cantos de maldoror, psicanálise e sonho. claudio willer
6 eduardo langrouva - surrealismo: "em portugal não havia anarquistas" (entrevista). maria estela guedes
7 el teatro de enrique buenaventura y la afirmación popular. carlos vázquez-zawadzki
8 elisa biagini: a poesia italiana do corpo e dos objetos vivos (entrevista). prisca agustoni
9 escribir en haití. louis-philippe dalembert
10
escritos sobre rainer maria rilke. joão barrento
11 francesc torres: la metamorfosis del arte. miguel ángel muñoz
12 francis bacon: o grito da besta. helena vasconcelos
13 la estación del poeta: entrevista con josé ángel leyva. ricardo venegas
14 propor joaquim cardozo ou a verdade em vez da vanguarda. ruy vasconcelos
15 o tempo emblemático na pintura de césar romero. mirian de carvalho

artista convidado enrique lechuga (collage) texto de enrico franceschi nardi
rev
istas em destaque o escritor (diálogo com erorci santana)
livros da agulha josé ángel leyva (por óscar de la borbolla) - alberto beutenmüller - osvaldo silvestre e pedro serra (por maria joão cantinho) - tomás de mattos (por federico rivero scarani) - filomena carreira
galeria de revistas (artigos & entrevistas)

Enrique Lechuga

Expediente

editores
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jornalista responsável
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jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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contador borges (brasil)
helena vasconcelos (portugal)
maria esther maciel (brasil)
maria joão cantinho (portugal)

mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
bernardo reyes
(chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
prisca agustoni (brasil)
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artista plástico convidado (collage)
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