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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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Propor Joaquim Cardozo ou a verdade em vez da vanguarda Ruy Vasconcelos
Drummond, Cabral,
Bandeira – e, mais recentemente, Murilo Mendes – têm sido as pedras
da vez. E se tem tocado muito nelas. E elas se têm prestado a vários
jogos – e umas poucas partidas de horas extraordinárias. Mas também a
algum desgaste por recorrente repetição de jogadas. Aquele desgaste que
o excessivo toque da mão provoca nas pedras de damas. O certo é que houve um
envolvimento fatal com esse núcleo mínimo, até o ponto em que nos
desacostumamos a olhar para outros lances em curiosidade. E, então,
algumas leituras caducaram por má repetição de comentário. Nesse
sentido, o caso de Cabral e sua poética da pedra é emblemático. Hoje em
dia, um gasto exemplo de vulgarização. Um clichê escolar. Quer dizer, não
a força da imagem em si, mas a maneira como foi relida à exaustão, até
ser acomodada ou amortecida. Atraída para uma inofensiva domesticidade. Mas fato é também
que, a partir dessa redução, desse olhar em linha reta, quase se
desconhece por completo a obra dos demais poetas modernistas. E, claro, em
algumas delas se pode surpreender um empenho formal tão lapidar quanto o
dos selecionados para essa espécie de excesso de jogo. Autores como Rui
Ribeiro Couto ou Dante Milano, por exemplo, têm sido votados a um
empedernido ostracismo. Ou, no mínimo, subinvestigados em prol dessa
visada linear. E, dentre esses, há Joaquim Cardozo, que é mais conhecido
como o amigo erudito de João Cabral. Ou então, como o engenheiro de cálculos,
que traduziu para o concreto, mediante justas equações, a sensual
sinuosidade dos palácios de Niemeyer. Em 1997, o centenário
de nascimento desse importante poeta, morto em 1978, passou praticamente
em brancas nuvens. Não houve qualquer gesto mais largo de aprofundamento,
pesquisa, divulgação. Ou mesmo de simples homenagem – à parte ser
lembrado, em avulso, por um ou outro suplemento literário país afora. Não
houve reedições críticas de suas obras. E hoje seus livros só são
encontráveis nas prateleiras dos sebos e disputados, com acrimônia, por
colecionadores bem informados.
O modernismo de Cardozo
é a verdade. Uma instância conseqüente por oposição a rótulos de
ocasião ou modas descartáveis. A verdade em vez da vanguarda. Uma busca
pela coerência que, inclusive, o fará publicar seu primeiro livro, Poemas (1947), tão-só aos cinqüenta anos. Ou no dizer de
Drummond, “um aparelho severo de pudor, timidez e autocrítica salvou-o
das demasias próprias de todo período de renovação literária”. Um
lirismo que se quer um tanto distanciado da concepção lírica
convencionalmente barroca da tradição brasileira. Mas que não a nega.
Senão a desloca. Numa primeira leitura, quase nada desse jogo é
aparente. Sua poesia soa mesmo bastante tradicional e até pré-moderna.
Simples não quer dizer fácil. Quase nunca quer. E, assim, seus olhos
cortam fundo, e bem mais esteados no pensamento do que se pode supor em
pressa. E convoca os olhos do leitor a fazer o mesmo: assumir esse olhar
solar – mas também elegíaco, que parece abraçar a paisagem da Zona da
Mata, onde Cardozo viveu quando jovem e se deslocou por, como engenheiro
de campo. Chuvas e ventos, estios
e luzes, sombras e árvores, praias e rios, Recife e pequenas vilas
pesqueiras, Mosteiros de Olinda e mocambos de Tramataia, velhas alvarengas
e mulheres com nomes simples e plásticos, gamboas e várzeas, corais e
correntezas – um inequívoco senso de veraneio, ar livre – repõem, no
entanto, um Nordeste impressivamente complexo, histórico, digno: relíquia
de velhas chuvas. Um Nordeste inventariado para a alma. Uma “terra
crescida, plantada/ de muita recordação”. Um sentimento apurado,
quase metereológico da paisagem é composto por uma límpida modelagem de
palavras, chegando – como quase tudo em Cardozo – a criar galerias ou
uma série de vãos subterrâneos. É por esses túneis que se pode
adivinhar uma sorte de passagem comum, através da qual se dá o enredo, a
correspondência de toda uma realidade mais estranha e extrema do que a
que estamos habituados a ver em superfície: "as coisas se estão
reunindo/ por detrás da realidade”. Uma mina em que se relacionam os
elementos mínimos desse lirismo da contenção. Um raro inventário de
dados concretos. E Cardozo sabe avalizar esse inventário como ninguém.
Em profundidade quase mística. Trata-o com intimidade e cromatismos.
“Visões de alto poder plástico” é como Drummond refere-se a essa
exuberância visual dos poemas cardozianos. E essa sorte de olhar
em história é filtrado por uma sensibilidade extremamente cultivada. Um
olhar que se cria também a partir de leituras diversas. Cardozo era um
leitor atento de Valéry. Mas especialmente de Vico – que talvez haja
sido seu herói por excelência, numa época em que ainda era praticamente
desconhecido no Brasil.
Mas para todos os
efeitos, esse Cardozo de que falamos é o de seus dois primeiros livros, Poemas
e Signo Estrelado bem como o d’O
Coronel de Macambira – que estranhamente não se faz presente na edição
de sua poesia completa. Propor Cardozo como
leitura é propor integridade e alternativa. Especialmente num momento em
que jovens poetas brasileiros escrevem excessivamente próximos uns dos
outros e de um certo registro de ocasião. Decalcando-se. Fundindo-se mais
do que diferençando-se. Reverenciando uma vanguarda suspeita. Algo que
assoma mesmo como uma modalidade de neo-parnasianismo. Há algum entusiasmo em
torno de um Paul Celan ou de um Francis Ponge recém-descobertos em
tardividade. Mas a bossa do momento são apressadas releituras de Creeley,
Palmer e de poetas experimentalistas americanos ligados ao grupo
L=A=N=G=U=A=G=E e depois, quase sempre coercivamente monitoradas. Uma
produção que escoa predominantemente por quatro editoras: Sette Letras
(Rio); Ateliê Editorial e, mais atenuadamente, Iluminuras e 34 Letras (São
Paulo). Além de pelas revistas Cult, Sibila (São Paulo)
e, em menor grau, Inimigo Rumor
(Rio). Editoras e periódicos que, de resto, têm exercido um papel
seminal na divulgação de novas tendências em poesia. Mas que, de outro
modo, também têm se prestado à divulgação dessa bossa em que há mais
diluição festiva relacionada a um fenômeno de moda – como à sua vez
a poesia marginal era a contraleitura nacional rala e tardia para os beats
– que pesquisa empenhada ou real entendimento das somas. E há uma
excessiva e condescendente necessidade de se dissociar do modernismo
brasileiro – à exceção de Cabral, Murilo e, menos estavelmente,
Drummond – quando a maioria sequer teve informação suficiente para
saber fazer diferente desse modernismo. De suas amplitudes, ressonâncias.
Das alternativas, para além desse excesso de jogo que fixou os nomes dos
que são lidos em recorrência. Eis um resumo do agora.
Dentro desse panorama,
autores como Couto, Milano e Cardozo, poderiam contribuir para diversidade
e enriquecimento de soluções. Especialmente no impulso de implodir com
essa uniformização de momento. Também marcado pelo excesso de
belo-marketing e auto-promoção. E tudo isso em prejuízo do que
realmente importa: pesquisa, expressão com real marca de dígitos. Vestígio
de mão humana pairando sobre objetos. Uma artesania ameaçada. A verdade em vez da vanguarda. |
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Ruy Vasconcelos. Poeta, ensaísta e tradutor. Autor de José Albano – Errante e Peregrino (2001). Contato: ruyvc@bol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Enrique Lechuga (México). |