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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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Eduardo Langrouva - Surrealismo: "Em Portugal não havia anarquistas" (entrevista) Maria Estela Guedes
MEG
- Eduardo, a ideia que eu tenho do Surrealismo em Portugal é indissociável
dos cafés... EL
- Quando tinha 22 anos, não era um habitué
de nenhum café de Lisboa. Mas ia com certa frequência à Brasileira e ao
Montecarlo. MEG
- Eu só frequentei o Montecarlo para comer um bife com batatinhas-palha
muito saboroso que lá serviam, mas antes reuniam-se ali muitos
artistas... EL
- Havia o Montecarlo, havia a Leitaria Garrett. Mal se cabia na Leitaria
Garrett, porque estava sempre cheia. No Montecarlo e na Brasileira
encontrava poetas, pintores e dramaturgos surrealistas... MEG
- No meio deles vejo sobretudo Luiz Pacheco e Mário Cesariny. Como eram
as relações entre eles? EL
- Eu não era amigo deles. Só conheci de mais perto, ao nível do falar,
o Pedro Oom, que era poeta, escritor, escrevia para revistas ligadas ao
mundo surrealista. Lembro-me de uma revista que era o O GRIFO. Lembro-me
de ter nas minhas mãos o Grifo. Para o Grifo escrevia muita gente ligada
ao surrealismo português. Era uma revista muito bem feita, com um nível
gráfico excelente. Havia pintores, desenhadores, que ilustravam certas páginas
da revista. Conversei, mais no Montecarlo, com o Luiz Pacheco, que
frequentava o Montecarlo e também a Brasileira. Conversávamos e depois
saíamos a dar uma volta a pé. O Virgílio Martinho, que era dramaturgo e
com quem eu falei, frequentava também o Montecarlo. Eu era mais um
ouvinte que um interlocutor. Era muito jovem. Eles eram vinte anos mais
velhos e eu tinha naturalmente curiosidade pelo que se passava à minha
volta. As relações entre eles... Lembro-me de o Luiz Pacheco, numa
entrevista que li há tempos, numa revista relativamente recente, dizer
que eles eram “muito mauzinhos uns para os outros”. MEG
- A ideia que eu tenho desses grupos é que eram círculos fechados, tão
opressivos, nesse aspecto, como as academias.
EL
- Não sei. Como eu não fazia parte de nenhum grupo, lembro-me de sentir,
nesse meio, que eles cultivavam o sentido de humor, o sarcasmo. Lembro-me
de ouvir as gargalhadas do Luiz Pacheco. Lembro-me de estar sentado na
mesma mesa que o Pedro Oom no café Montecarlo. Saía da tropa e vinha
direito ao Montecarlo. Eu andava à procura sobretudo de anarquistas, mas
nunca os encontrei. Eu era anarquista, no sentido libertário. Mas só
encontrei grupos comprometidos de longe ou de perto com a extrema
esquerda. Cá não havia anarquistas. Se fosse em Espanha ou em França, o
Brassens, o Léo Ferré... MEG
- Eram muito arrogantes esses grupos surrealistas? Fazia-se sentir o peso
das lideranças? EL
- Se havia lideranças nesses grupos surrealistas, eu não dava por isso. MEG
- E não ficava muito artista à margem, com mérito, mas cuja timidez o
levava a auto-excluir-se? EL
- Não vi artistas à margem destes grupos nem a auto-excluírem-se. MEG
- Pelo menos um quadro surrealista pintaste, o que agora mostramos nesta página.
E porque não mais? EL
- Pintei um quadro e fiz alguns desenhos que estão nos meus arquivos (num
dos cadernos de capa preta). Acontece que nessa altura da minha vida eu não
desenhava nem pintava muito. Dedicava-me mais à literatura. Lia bastante,
sem ser dos livros que a classe dominante indicava. Não me lembro porque
não pintei mais. Podia ter feito uma carreira como pintor surrealista,
mas já não me lembro porque deixei de pintar. Mais tarde retomei a
pintura através da cópia de clássicos que vendia no metro, em 73-74,
depois da tropa. Vendia bem. Depois fui convidado para trabalhar num estúdio
de cerâmica e fiz cerâmica durante sete anos. Também vendia bem em
feiras de artesanato e para lojas urbanas. Entretanto decidi frequentar a
Escola de Belas Artes de Lisboa. MEG
- Os teus quadros de índios expostos no Triplov são muito belos, muito
dramáticos. Porquê guardar o talento só para ti? Não sentes impulso
para pintar mais?
MEG
- Aliás tens cultivado várias artes: além da pintura e da cerâmica,
ainda há a fotografia.... EL
- Já integrei uma exposição de fotografia colectiva na Galeria Arcada
do Estoril. Gosto muito de fazer fotografia. Desenvolvi a fotografia por
causa da pintura. É sempre útil quando se é pintor. Capta-se muita
coisa. A minha ideia era captar o que me interessasse para a pintura. Mas
o interesse que me despertou a fotografia ultrapassou as minhas
expectativas e passei a dedicar-me mais à fotografia. MEG
- Podíamos fazer aqui uma exposição de fotografia tua. EL
- Tenho muitas imagens, muitos slides que estão para aqui a
estragarem-se. Essa ideia não me desagrada. MEG
- Também fizeste muita arte gráfica. Não imaginas o que sofro a
aprender abcs do Photoshop, um programa de imagem... É muito difícil
para mim trabalhar este rectângulo, primeiro porque sou é de Letras,
segundo porque tudo está preso por umas molas ou suspensórios invisíveis
para os cibernautas, as tabelas, que são um inferno...Tens de dar uma
ajuda nisto, afinal és um bom gráfico, colaboraste na "Vogue",
noutras revistas... EL
- Trabalhei muito antes da era do computador. Já trabalhei com o
Phototoshop, brinquei e diverti-me também com ele, mas não sou um expert
em Photoshop. MEG
- Tu achas que o Surrealismo está ultrapassado, desapareceu sem deixar
marcas, ou pelo contrário? EL
- Acho que o Surrealismo não desapareceu. Ainda há pouco, em Junho de
2002, vi no Centro Pompidou, em Paris, uma grande Exposição sobre o
Surrealismo, com o título “La Révolution Surréaliste” que, nessa
altura, era considerada como o maior acontecimento cultural, em Paris.
Todos os grandes nomes do surrealismo internacional estavam representados,
em inúmeras salas. Daí acho que não desapareceu. No início dos anos
80, vi uma enorme exposição retrospectiva da obra de Dali, no mesmo
Centre Pompidou, em Paris. Aqui, em Portugal, não conheço nenhum grande
pintor surrealista. Infelizmente não temos nenhum Dali, nem nenhum Miró.
Por isso, às vezes, e até para me inspirar, tenho de ir a Madrid, ao
Museu Reyna Sofia. Estou a ver que tenho de lá voltar para alinhar as
ideias. Pintei os quadros dos índios, expostos no Triplov, logo a seguir
à minha última ida a Madrid, onde passei todo o tempo no Reyna Sofia, no
Museu Thyssen e no Prado. Tenho que voltar a nuestros
hermanos. Espanha puxa-me para a pintura e não só. Aliás faltam só
2kms para eu ser espanhol, pois nasci a 2 Kms de Espanha. Da minha terra
ouvia-se o sino de uma aldeia espanhola e eu ouvia falar espanhol em criança.
Muitas palavras espanholas ainda se mantêm no vocabulário da minha
terra, no norte de Potugal, no topo da Beira Alta, quase em Trás-os
Montes. Em Madrid há muito estrangeiro, mas há também uma energia própria
de Espanha, de que me sinto muito próximo.
EL - Achei divertido. O tema era o messianismo, que me interessa bastante. Gosto de aprofundar o que tenha a ver com teologia, num ambiente de descontracção e solidariedade de uma comunidade de religiosos, neste caso dominicanos, cujo trabalho tenho acompanhado desde há bastante tempo. São divertidos e profundos. |
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Maria
Estela Guedes é escritora e investigadora em História e Filosofia das Ciências.
Publicou, entre outros, Herberto Helder, Poeta Obscuro (1979) e Carbonários:
Operação Salamandra – Chioglossa lusitanica Bocage, 1865 (1997).
É co-organizadora do colóquio internacional “Discursos e Práticas
Alquímicas”, de que resulta a série de livros com título homônimo, e
editora e webmaster do portal TriploV: http://triplov.com.
Página ilustrada com obras de Eduardo Langrouva (Portugal). |