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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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Adolfo Casais Monteiro: o estrangeiro definitivo Maria João Cantinho
Uns
dizem que os meus versos são tristes,/ outros que são abstractos./ Mas eu
não tenho culpa que a carne da inteligência/ seja triste, e inteligente. Adolfo
Casais Monteiro, O Estrangeiro Definitivo Toda
a poesia é impura e se torna pura. Tem
barro humano e é barro humano. Adolfo
Casais Monteiro, A Palavra
Essencial
Nascido
a 4 de Julho de 1908, na cidade do Porto, Adolfo Casais Monteiro forma-se em
história, filosofia e pedagogia e passa a ocupar o cargo de professor.
Inicia a sua colaboração literária na “folha de arte e crítica” de
Coimbra, nos finais de 1928, com um artigo sobre Eça de Queirós, no número
17, e a sua estreia poética em volume far-se-ia no ano seguinte, com a obra
Confusão, sob a chancela das Edições Presença, as quais lhe
patrocinariam, ainda, a publicação de outras duas colectâneas poéticas, Poemas
do tempo incerto (1934) e Sempre e sem fim (1937) e de um ensaio A
Poesia de Ribeiro Couto (1935). A partir do número 33 da folha o seu
nome consta entre os de José Régio e de João Gaspar Simões, no seu
quadro definitivo. Mais novo que os outros directores da Presença e
com um percurso diferente, colaborador da Águia, juntamente com
Leonardo Coimbra e Sant’Anna Dionísio, Casais Monteiro irá contribuir
para o aprofundamento do vector polémico da Presença e alargamento
do seu âmbito, que se transformaria posteriormente em órgão de vanguarda
das artes e das letras portuguesas. O “arejamento” cultural de Casais
Monteiro, contrariando o “espírito historicista” e isolacionista que
passou a dominar na cultura portuguesa vigente, resulta também e em grande
parte, do contacto com a literatura brasileira, que se intensifica na
segunda fase da revista, na década de 30, devido à colaboração de
autores como Ribeiro Couto, Cecília Meireles e Jorge de Lima,
acrescentando-se, ainda, Vinícius de Moraes e Manuel Bandeira. O espírito
da Presença pretende-se aberto, contestatário da falta de
autenticidade que contamina a “literatura livresca” de alguns escritores
portugueses. Em
1937, por razões políticas e ideias adversas ao salazarismo vigente,
Casais Monteiro é demitido do cargo de professor e, dois anos mais tarde,
muda-se para Lisboa, tentando manter-se como escritor. É preso várias
vezes e indigna-se contra a ditadura, exprimindo a sua revolta em Agonia (1942)
e Europa (1946). Em 1947 torna-se director da revista Mundo Literário,
após a publicação de vários ensaios sobre poesia brasileira,
nomeadamente sobre Manuel Bandeira. Parte, então, definitivamente para o
Brasil, onde passará a leccionar Literatura Portuguesa nas universidades do
Rio de Janeiro e de São Paulo. A partir de 1962, na cidade de Araraquara,
passará a ocupar o cargo de professor titular de Literatura e, durante esse
período, além de colaborar com vários jornais do país, desenvolve ainda
intensa actividade literária até ao final da sua vida. Toda
a produção de Casais Monteiro se circunscreve num jogo constante do
questionamento entre a linguagem crítica e linguagem poética, num vaivém
em que, ora se aceitam, ora se excluem, mas que jamais se ignoram. A sua
poesia, numa obediência aos princípios humanistas que desde sempre o
guiaram, constrói-se como prática de um certo “intimismo psicológico”
que é peculiar à Presença, mas vigiada de perto pela visão da
linguagem crítica, privilegiando a economia da linguagem e suspendendo-se,
frequentemente, nesse “encontro”. Ela é surpreendente, pois contraria a
lógica da expectativa e o elo de ligação, que lhe garante a organicidade,
reside sobretudo no confronto entre as diversas direcções que, nela,
coexistem. Talvez por isso o poeta João Rui de Sousa, numa selecção antológica
realizada para a Assírio & Alvim, Poesias Completas, tenha
designado o seu universo poético de labiríntico, feito de inúmeras
entradas e saídas, de embates dialécticos que se cravam na experiência da
solidão e exílio do poeta, sempre à procura de uma saída para a condição
mesma de que emerge. Poeta
lúcido, rejeitando a ideia mítica da procura de uma unidade final e simbólica,
reconciliadora, Casais Monteiro defende a convicção de que o homem é um
“adversário de si próprio, é um conflito - a sua parte viva é
precisamente ser um conflito. Quando
o conflito acaba, o homem também, mesmo que ainda tenha muitos anos para
viver. Sem
afirmação e negação não há vida, e a conciliação dos contrários não
é deste mundo”. Diga-se
da justeza do enunciado que, por certo, terá bebido da fonte nietszchiana,
sobretudo desse criador que assume a vida em toda a sua contradição,
reafirmando o vitalismo enquanto condição de criação estética por excelência.
Deste
modo, a poesia aparece como o ‘mistério’ - mas também como
‘clareza’, tomando-a enquanto pólo antitético - que esplende na
linguagem como “força não codificável, flutuante e aparentemente
caprichosa” , exaltando o poeta a voz humana e afirmando-se criticamente
face ao concretismo, que se norteava pela importância da “construção poética”.
As acusações de Casais Monteiro ao concretismo assentam essencialmente no
critério da “impessoalidade”, anterior à efectuação do poema e que
condena a prática poética a análises e experimentalismos que, de acordo
com a sua perspectiva, subtraem a voz e o tempo: “A sua linguagem concreta
é afinal a mais pura das abstracções” e auto-remete-se para os aspectos
inconsequentes do mesmo: “Enquanto que a poesia de «outrora» (antes do
concretismo), aceitando ou não, usando ou não a sintaxe tradicional, era
uma comunicação de homem para homem, de voz a ouvido...a poesia
concretista pretende ser… uma linguagem nova ao serviço de nada, uma pura
linguagem, uma invenção de objectos - em resumo: um lindo brinquedo”. Em
boa verdade, a crítica a Mallarmé e ao seu ideal de poesia pura decorre já
da adesão de Casais Monteiro a uma prática poética que, em tudo, se
opõe ao concretismo. A
lucidez intrínseca do seu pensamento denuncia a aspiração do concretismo
à “nudez da poesia” como um desejo vão: “A opinião que lhe oponho
é de que não há poesia só.” A análise crítica utilizada por
Casais Monteiro assenta na ideia da incompatibilidade entre o ‘ideal de
poesia’ e de ‘invenção’ enquanto elementos que constituem o poema, o
que nos conduz naturalmente ao elemento que é constante na sua
metalinguagem: a consideração deste ‘ideal puro’ da poesia como a mais
inconcretizável das realizações e, por consequência, a inflexão para um
campo, que é o da prática da poesia apenas disponível. Ao
redigir A Palavra Essencial, pela crítica feroz ao concretismo, o crítico
definia já os preceitos essenciais da sua poética e da crítica, colocando
a sua poesia sob a alçada de uma meta-poética nunca abandonada. Numa direcção
inversa ao concretismo, ele apela a que o poeta esqueça o experimentalismo
e se deixe penetrar pela sua voz, sinal de autenticidade e também da precária
fragilidade do humano.
A
consciência acutilante do poeta, relativamente ao modernismo, tendo sido
ele um dos primeiros críticos a compreendê-lo (não esquecer a importância
dos seus estudos sobre a poesia modernista portuguesa), permitiu-lhe
diagnosticar claramente o ‘mal’ de que padecia a poesia, o estranhamento
do homem perante a palavra, fenómeno incontornável que marca a
‘modernidade’, assumindo ele próprio a condição de ‘estrangeiro’:
“é da modernidade o homem e as palavras não se entenderem. A
modernidade começou aí mesmo, precisamente”. Toda a poesia da
modernidade se encontra alicerçada na insegurança e na estranheza do mundo
e da palavra, dominada pelo vazio e pela ausência e essa situação acaba
por desqualificar a própria poesia, por ela renunciar à esperança: “a
modernidade é a desqualificação de si própria, só existe na medida em
que prova a sua ineficiência para salvar o homem sob a forma de uma
verdade, uma concepção do mundo, uma crença, uma SOLIDEZ”. Em
boa verdade, ele identifica a modernidade como o ponto zero ou encruzilhada
de onde o poeta deve partir para ‘começar’ algo, rompendo o círculo da
sua insuficiência e abrindo novos caminhos. Ainda que o modernismo, fazendo
do vazio e da orfandade de Deus a matriz da sua criação poética, tenha
logrado romper e transgredir as regras vigentes da literatura, no entanto,
ele permanece “livre e cativo”, em simultâneo. Libertou-se das ilusões
e do ideal romântico da literatura, mas permaneceu cativo da incapacidade
de transformar o mundo. Já
não existe nenhum lugar para a inocência e para a fé - já Baudelaire o
denunciara - mas também não se vislumbra no seu horizonte a possibilidade
de (re)criar nada. Daí
que o humanismo de Casais Monteiro, força intrínseca e vital da sua obra,
se recuse a prolongar essa agonia, reclamando para a palavra e para o seu
“uso” poético uma nova consciência. A esta inflexão da poética de
Casais Monteiro não são alheias as relações com o surrealismo e autores
que se lhe encontram vinculados, com destaque para Supervielle (Casais foi
dos poucos críticos a perceber a importância deste autor, num livro que
lhe consagra), Michaux e Artaud. Aquilo
que lhe agrada particularmente nos autores surrealistas é a indistinção
entre literatura e vida, descortinando em Artaud - a quem ele designa de
“presença insustentável” - o seu exemplo máximo. A
expansão dos limites de cada uma delas (obra e vida) parece compatível com
a sua própria vivência, dolorosamente marcada pela perseguição política,
e o autor considera-se no dever de fazer corpo com a obra. A
influência surrealista seria constante nele, sobretudo como atitude
existencial, no sentido em que, pela prática da poesia, era possível
distendê-la aos seus limites e subvertê-los, “revelando” as vozes mais
íntimas do homem, antes e para lá da consciência, e recorrendo aos
continentes ocultos da criação poética, numa busca de inocência,
libertando a poesia das conveniências que lhe eram impostas. Tratava-se,
ainda, de ‘destruir a literatura’, destruindo-a enquanto ideal absoluto,
isto é, na verdade libertando-a do peso e estatismo desse conceito. Tal
como Blanchot o disse, de um modo diferente em L’Espace littéraire, procurando
o “outro lado”, o da profundidade da intimidade, a liberdade e o silêncio
do invisível. Nesse espaço da obra, lugar de mistério, só ela importa e
toma para si mesma a busca enquanto matriz. O repúdio das regras, trilhando
o caminho da permanente inquietude, parece ter-se convertido na principal
norma que guiou a sua poética. Só desse modo poderia surgir, como ele o
afirma, o fluxo capaz de manifestar o homem no “puro fluir do eu” e de
ser a voz das próprias raízes do humano, anterior à “razão”. A injunção
de Blanchot, dizendo que o surrealismo permitia ao homem descobrir-se como
totalidade inacabada, reencontrando a imanência como a sua esperança,
ajusta-se ao seu humanismo. O homem moderno tem de “refazer” o mundo a
partir de si mesmo, explorando a sua própria voz e empreendendo uma viagem
interior, pois já não acredita poder ser e existir de outro modo.
Pela
ambiguidade e tensão entre o ‘mistério’ e a ‘claridade’ do fazer
poético, a obra crítica, como o defende Casais Monteiro, não é um acto
‘artificial’ e exterior à poesia, mas nasce dessa espessura, é
solicitada por ela e pela necessidade de clarificar e encontrar os nós
explicativos da ‘realidade invisível’ do poema, em que “as palavras não
funcionam como sinais, ou como rótulos, mas como substitutos de alguma
coisa que permanece por detrás delas”. Ela
configura-se como instrumento de efectivação da obra, de actualização e
a sua função é “ser espelho em que cada ‘maré literária’ a ela própria
e ao mesmo tempo se reflecte e se desdobra”, selando assim o acordo para
uma colaboração mútua e necessária. Medir
forças com o mistério da poesia parece ter sido a linha mestra da sua obra
e a ideia de uma persistência na caça da palavra é o fio mais ou menos
explícito que se encontra em toda a sua poesia, mas esse desafio adquire um
significado particular em Noite Aberta aos Quatro Ventos, cujo título
é, em si, uma metáfora dessa procura, do ‘rasgão’ na opacidade da
linguagem. Noite densa e que se adensa cada vez mais, à medida que a
insatisfação da busca se torna, ela própria, mais dolorosa. Poética de
libertação, sem dúvida, mas de uma abertura que não se faz
pacificamente, pois é necessário violentar a ‘noite’ das palavras. A
contradição faz-se evidente pelo uso simultâneo de noite e de aberta.
Noite opaca, embora projectando-se para um futuro que lhe é imanente e
lhe garante a esperança da procura, intensificando o vaivém que se
adivinha simbolicamente. É, sem dúvida, a ponderação crítica que lhe
permite escapar com agilidade do envolvimento encantatório existente entre
o sonho e a realidade, pela criação de um instrumento que recorta e torna
precisos os contornos desta obscura viagem entre as palavras. Mas é também
a entrega à desmesura que possibilita à linguagem a sua renovação e carácter
inaugural, suspensa no fio invisível que lhe guia a procura. A dicotomia
prende-se com a arte do jogo, tão habilmente manobrada pelo poeta, numa
oscilação entre a ‘arte da fragmentação’, o isolamento da palavra-átomo
e a composição regrada da linguagem, de acordo com instâncias que se vão
criando, a cada ‘lance’.
No
seu último livro, O Estrangeiro Definitivo, publicado no ano de
1969, o tom é já o de quem se despede, rememorando o que lhe foi tão
caro: o amor. O
acento particularmente melancólico revela, mais do que qualquer outra obra,
a condição triste do exílio, mas de um exílio que já não é só da pátria
e sim da própria vida: Os continentes invisíveis presidem nosso destino// Estarei acordado? Porque chamar/ sonho à realidade sem memória?/ Há sempre outros abismos até onde/ o fio invisível nos conduz.// Ariadna, serás tu? |
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Maria João Cantinho (Portugal, 1963). Filósofa e ficcionista. Autora de livros como A garça (2001) e O anjo melancólico (2002). Contato: mjcantinho@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Enrique Lechuga (México). |