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o escritor (brasil)
FM
- Desde quando se publica O Escritor? ES
- O Escritor foi criado em janeiro de 1980, quando o número zero foi lançado
junto com a candidatura do poeta Péricles Prade à presidência da UBE. A
pauta consistiu em um debate com escritores, do qual participou Jamil
Almansur Haddad. FM
- O que tens acrescentado à pauta essencial do jornal desde que assumiste
a direção? ES
- Assumi a edição do jornal a partir do número 81, lançado em julho de
1997, após a morte de Henrique L. Alves, que o editava, com a percepção
adequada de tratar-se de um jornal realizado por uma agremiação de
escritores e que, portanto, mais que estender-se ao que é universal
deveria espelhar o que era doméstico, minha preucupação inicial foi
melhorar a projeto gráfico da publicação, cuja precariedade era
evidente. Num segundo momento, procurei ampliar o corpo de colaboradores
voluntários, à duras penas, pois a escassez de articulistas
qualificados, que se proponham a trabalhar graciosamente, é o principal
problema a ser resolvido para que existam publicações literárias no país,
pois é sabido que os cofres estão fechados para o financiamento do
jornalismo cultural. Em data mais recente, em ação conjunta com o
diretor da publicação e presidente da UBE, o poeta Claudio Willer,
logramos a formação de um Conselho Editorial ativo e a participação da
escritora Ieda Estergilda de Abreu na co-edição. A ampliação do leque
de pessoas envolvidas na discussão e produção do jornal (ainda que não
possamos fazer isso em tempo integral, pois precisamos lidar com outros ofícios
para sobreviver) viabilizará uma pauta mais consistente. FM
- Há um abismo intrigante entre os associados da UBE e os colaboradores
do jornal. A que atribuis isto? ES
- Reflitamos sobre o gosto amargo de nossa condição. O exercício da
literatura no Brasil é árduo, sem o mínimo incentivo ou apoio. Quantos
escritores potenciais não se diluem nessa sociedade tecnocrática e retrógada?
A maioria dos escritores (assim chamados porque comprovaram essa condição
com a mínima escrita) associados à UBE são latentes, embrionários.
Ingressam na entidade em busca de apoio logístico e social. Querem alguém
que leia e comente seus rudimentos literários, diga-lhes que estão em
bom caminho e que não estão sozinhos nessa tresloucada aventura. Há
os bons escritores nas fileiras da UBE, sim, veteranos e assentados, gente
que poderia, se tivesse boa vontade, agregar-se à essa plataforma de
manobras coletivas em torno do fenômeno literário, serem transformados
em agentes da difusão e da discussão dessa produção. Mas escritores,
mercê de juízos de valor agregados ao seu ofício e à sua personalidade
é um ser pouco inclinado a expandir-se à esfera coletiva, romper seu
casulo. Viciam-se em demarcar posição destacada e individual. Escritores
fingem ouvir escritores, com freqüência fingem a condição de
aprendizes quando são orgulhosos e arrogantes. De modo que a existência
de agremiações de escritores fundadas na suposta necessidade da defesa
de interesses comuns chega a ser uma traição de intenções individuais.
O escritor vive o dilema entre o individual e o coletivo, na incerteza que
se faz entre a pujança do ser e a eventual necessidade de alinhamento
para sobreviver. Associa-se às UBEs e dá o assunto por resolvido. São
poucos os que se lançam ao trabalho abnegado pela classe. Mas a dimensão
da luta do escritor no mundo hoje é pra não morrer à míngua, é a da
própria sobrevivência do prestígio da ficção, garantir o leitor do
futuro num sistema que parece apostar impiedosamente na imbecilização da
espécie. Respondendo
à pergunta, colaboradores graciosos têm mesmo que ser capturados à laço. FM
- Qual recepção crítica o jornal tem encontrado, dentro e fora dos
muros da entidade? ES
- Melhorou bastante. Os leitores têm elogiado o conteúdo e a apresentação.
E precisamos acreditar e trabalhar pensando na progressão qualitativa,
fugir sempre do engessamento diversificando os temas e os membros do corpo
de colaboradores. FM
- Considerando a existência de uma grande limitação de espaço para a
manifestação de obra e pensamento do escritor brasileiro em nossa
imprensa, não interessaria a O
Escritor buscar um projeto editorial mais ousado, através de uma lei
de incentivo, algo assim? ES
- Interessa, sim, e é da ordem do dia esse pensamento. Precisamos
trabalhar para que isso aconteça. Mas um grande jornal de debate da causa
do escritor e da literatura, plural e aberto, deveria vir na esteira do
fortalecimento da representação política da classe, com a criação de
uma federação de escritores, ampliação de seu poder de intervenção
na distribuição dos recursos, na implantação de projetos nacionais de
incentivo à produção literária e de edição de obras dos autores
brasileiros, de barateamento da produção e distribuição do livro, de
projetos de sedução e formação de leitores. Lembra-me que a UBE
recebeu do INSS um casarão em comodato na Rua Marquës de Paranaguá,
124, em São Paulo e até agora não conseguiu os recursos financeiros
necessários para promover o restauro. A maior agremiação de escritores
do país sequer têm uma sede social e isso é no mínimo deplorável. Jornal O Escritor. Órgão da UBE - União Brasileira de Escritores. Editores: Erorci Santana e Ieda Estergilda de Abreu. Rua Barão de Itapetininga 262 Sala 326 São Paulo SP 01042-447. Acesso eletrônico: www.ube.org.br. Contato: ubebr@uol.com.br. |
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