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revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003 |
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Escritos sobre Rainer Maria Rilke João Barrento
I
- A chave de Duíno
No
caso de Rilke, porém, a "mística dos castelos" domina de tal
modo o nosso imaginário de leitores seus que não é fácil esquecê-los.
Affonso Romano de Sant' Ana, "moderno poeta, e brasileiro" a
quem "aterram sempre os terreais problemas", viu assim em 1980 o
bardo das Elegias num poema intitulado "Rainer Maria Rilke e
eu"; "Rilke / quando queria fazer poemas / pedia emprestado um
castelo, / tomava da pena de prata ou de pavão, / chamava os anjos por
perto, / dedilhava a solidão / como um delfim / conversando coisas que
europeu conversa / entre esculpidos gamos e cisnes / - num geométrico
jardim" (Que País é Este? Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira 1980, p. 39). Não
foi pequeno o meu choque, e uma certa angústia, ao ver-me diante do
grande portão fechado e ao constatar que não podia ver
de terra o castelo das Elegias, e muito menos a célebre janela sobre
o Adriático, onde tudo terá começado naqueles dias terríveis e
grandiosos de Janeiro de 1912. Em baixo, das duas pequenas praias que
ladeiam a escarpa - Duino Mare e
Sistiana Mare -, a etérea
construção é ainda menos visível. Estava-me vedado o acesso à tão
esperada aparição reveladora. O Anjo voltava-me as costas. Mas, pensei,
também as Elegias nos não abrem as portas à primeira investida. E não
desisti de tentar a entrada no recesso do santuário. Para
isso era necessária a chave. Duíno - que, na verdade, tem dois castelos,
o "velho" e o "novo" - está fechado durante quase
todo o ano. O proprietário, o príncipe de Thurn und Taxis, abre-o
esporadicamente para uma ou outra recepção dominical, e para alguns
recitais (de poesia e música) no Verão. A chave de acesso ao castello
vecchio é relativamente fácil de conseguir: basta encontrar na
confusão da praia de Duino Mare os dois rapazes, escuteiros, que abrem o
portão ferrujento em frente do qual, às seis da tarde, já espera um
molho de turistas literários (literários? Acredito que sim, alguns
jovens ingleses têm todo o ar de últimos espécimes que ainda cumprem a
via sacra do grand tour
continental). Os mais impacientes já fazem planos para saltar o muro.
Resolvo aproveitar o atraso dos escuteiros para tentar a minha sorte com a
outra chave, a do castello nuovo, a
única que verdadeiramente me interessa. Quando o senhor do castelo não
está, o que acontece quase sempre, a chave fica à guarda da mulher do
chefe do turismo de Duino Mare. Descubro a casa, recebe-me uma criada
velha, de traços camponeses já polidos pelo convívio. Na verdade, la
Signora tem uma chave, para quando há visitas importantes ou recitais
(este ano foram canzoni), mas é
domingo, e não está. Nada feito. De qualquer modo, não me teria servido
de muito a presença da Signora, porque,
desilude-me a velha criada, il
padrone della chiave e il Principe, e sem autorização sua ninguém
entra em Duino. Entre príncipe e camponeses descobrira eu já uma pedra
simples de calcário do "Carso", num canteiro da pequena praça
mesmo em frente da entrada principal do castelo, sempre impenetravelmente
fechada. Assinala dois séculos e meio de resistência campesina, com uma
singela e nada rilkiana inscrição em claro italiano e já profanado
esloveno: La gente dei campi, e le
lotte di sempre. Do outro lado, vindo do mar,
sente-se o eco da voz seráfica do primeiro Rilke, o do Stundenbuch
(Livro de Horas): "A pobreza é um grande brilho que vem de
dentro..." Às
sete chegam finalmente os escuteiros, abrem o portão, entra-se por um
carreiro encostado a ruínas e, olhando pelas aberturas para o alto do
rochedo maior, confirma-se a sensação de que il
castello, kafkianamente inacessível, lá no topo, deve ser
verdadeiramente o lugar do Anjo. Nunca se lá chega, e muito menos com
esta chave prosaica que apenas abre caminho para o que resta de uma
fortaleza bárbara do século XI e - para que o nosso desconsolo não seja
total- nos leva até uma pedra anódina encostada a uma das muralhas, a
que os rapazes pomposamente chamam il
sasso di Dante, e que os bem intencionados olhos do turista acidental
envolvem em halos imaginários de Divina Comédia. Quanto ao santo dos
santos, a elegíaca stanza que dava sobre as escarpas e as águas esmeraldinas - o
melhor é esquecê-lo. Dos peregrinos rilkianos, que tiveram que se
contentar com um duvidoso miradouro dantesco, nenhum dera pela discreta
inscrição ao lado do portão ferrujento do castello
vecchio, onde mão piedosa em tempos tinha escrito (pelo menos assim
me pareceu): Lasciate
ogni speranza... Entendi
que o espaço do "Aberto" não se nos abre com qualquer chave.
Reclama persistência e esforço, ou então a intuição dessa "pura
relação" que prescinde das chaves do "mundo explicado".
Conformado, desci a rampa que leva à pequena praia do lado sul da
escarpa, Sistiana Mare. E se em cima, no pressentimento frustrado do
sublime, ainda acreditara que "estar aqui é admirável", agora
apercebime de que iniciara uma verdadeira descida aos infernos, que
entrara no mundo de Dante e que teria de viver para contar o que vi. Pois
"não estamos nós aqui para dizer: casa, / ponte, fonte, porta,
jarro, árvore de fruto, janela?" (Nona Elegia). Se "aqui é o
tempo do dizível" , digamos então que por
ali passou o moderno anjo da destruição e da desolação, armado de caterpillar, dinamite e camartelo. O mar, em baixo, era o mesmo, a rocha alta e branca, limite entre
os dois mundos, continuava lá, escondendo o castelo. A antevisão do
belo deu lugar, nesta peregrinação, ao começo do terrível. Do outro
lado de Rilke era só lixo, todo o lixo deste final de século e de milénio,
numa paisagem de pesadelo posta ali pelos novos deuses cuja mão de Midas
rege os nossos destinos mutáveis. Talvez que eles nunca possam chegar,
nem mesmo hoje, a algumas das nossas "vidas" (Rilke sabia disso,
ao demarcar este conceito do de destino, e ao dar-lhe o sentido de
eternidade e duração). Mas os sinais da "lei do mundo" estavam
ali à vista, ao lado do sublime que não se quis mostrar: casas destruídas,
queimadas, abandonadas, blocos de betão estalado, estrumeiras e lixeiras,
memória apocalíptica ainda viva, como me contaram, de pequenos paraísos
de férias programadas pelas FNATs ("Fundações Nacionais para a
Alegria no Trabalho") do fascismo italiano antes da guerra. Era
a outra facede Duíno, que eu também já sentira na esquizofrénica
Trieste, ao ser recebido dias antes pela mão de Stefano, playboy
vagamente aparentado com o escritor Umberto Saba, primo quase desconhecido
do Daniele del Giudice do pós-moderno II
Stadio di Wimbledon, na "vida real" próspero negociante de
cafés - velha vocação triestina. Vou
ter de procurar noutros lugares as chaves de Duíno. Pensei no texto da última
versão portuguesa da Elegia primeira, onde Rilke deixou já todas as
chaves que é possível experimentar. Esta versão, em certos momentos
mais livre e poética do que a clássica tradução de Paulo Quintela (que
data já de 1939, ano em que apareceu na Revista de Portugal, dirigida então por Vitorino Nemésio), vem
publicada no número 120 da revista Colóquio/Letras,
e é assinada por David Mourão-Ferreira. Respira-se nela certamente
o ar do mistério órfico original. Mas, talvez devido à vontade de se
libertar aqui e ali, ou porque dá continuidade a uma certa tradição da
tradução (que é nossa e, em parte, francesa, e que coloca problemas
hermenêuticos, como toda a tradução), ela oferece-nos algumas chaves
que se me afiguram falsas. Uma delas apresenta-se com o minúsculo e
aparentemente insignificante defeito que resulta da simples troca de género
de um artigo. A chave (que, aliás, está já em Paulo Quintela), talvez
entre nalgumas fechaduras, mas eu preferiria usar outra. Ensaiemos, então,
essa outra chave. (1992) II.
Amantes de Rilke
A
decisão não será pacífica, e caimos facilmente no "erro de
distinguir" (Primeira Elegia). Mas não será o humano distinguir e
decidir o que a cada momento se nos impõe na tradução do poema? E não é
a língua o instrumento pobre e analítico que só na divisão refaz o
mundo? Sabemos que sim, e que a "língua pura" de que fala Walter
Benjamin é apenas a utopia do tradutor, que lhe serve de horizonte, mas as
mais das vezes de pouco consolo na angústia do confronto com o Outro.
Apesar disso, sinto que neste caso a universalização (a in-distinção)
serve melhor que a particularização. Ao ler e reler o original ganho mesmo
cada vez mais a certeza de que é essa a chave para a interpretação global
de um texto que, ainda e sempre, nos inquieta, nos envolve... e nos divide. Estou
a falar do verso 36 da Primeira Elegia de Rilke, aquele em que se lê: Sehnt
es dich aber, so singe die Liebenden... Verso-chave, na Elegia que
fornece todos os indícios para uma leitura global, linha que contém todo
um programa rilkiano. Por isso se torna decisiva a forma como se traduz
aqui, neste verdadeiro ponto de viragem no tratamento da temática do Amor
na Primeira Elegia, o segmento die
Liebenden, forma activa e plural, masculina e feminina, do particípio
presente substantivado em alemão. "As" Amantes ou "os"
amantes? Com maiúscula ou com minúscula? Quintela traduz: "Se, porém,
a saudade te assalta, canta as Amantes". David Mourão-Ferreira, num
corte de verso que não é o do original (como acontece frequentemente nesta
sua versão mais livre) escreve: "...Mas se é a nostalgia que te
habita agora, / então canta as Amantes..." O verso situa-se - e é
importante chamar a atenção para isso - entre o momento da ilusão da
plenitude na "amada" (die
Geliebte, forma passiva do particípio passado) e a pregnante imagem
final da segunda estrofe, a da seta que se liberta da corda para o voo, mas
vibrando da sua tensão, e respectiva analogia na relação amorosa: dass
wir liebend / uns vom Geliebten
befrein. Em Quintela: "... Não é tempo que, amando, / nos
libertemos do amado...?" Em Mourão-Ferreira: "... E não será já
tempo de nos libertarmos / de quem amamos, nós os que amamos...?" A
conclusão paradoxal de Rilke é a de que só libertando-se da "cousa
amada" o "amador" entra na "pura relação" que é
amar sem objecto. Não
é este o lugar para um aprofundamento deste campo semântico e da
diversidade das formas linguísticas em que ele se manifesta nas Elegias.
A minha tese é essencialmente a de que a tradução com recurso à
forma - gramaticalmente legitimada, aliás - do feminino corresponde,
apesar da maiúscula, a uma leitura redutora, para além de introduzir, numa
linha decisiva, uma forma portuguesa mais "degradada" no uso, o
que pode ser fatal neste contexto, dada a ausência, na tradição poética
portuguesa, de um tipo de "potenciação" nada estranho na poesia
alemã desde Novalis. Um dos processos mais típicos de Rilke, e sinal da
grandeza da sua poesia, é precisamente o da elevação, mesmo canonização
ou mitificação, dos termos mais corriqueiros da linguagem corrente em
formas e contextos originais, e a sua transformação adentro de uma
mitologia pessoal cujo desconhecimento fecha completamente ao leitor
desprevenido o acesso às Elegias e
aos Sonetos. É isto o que
acontece, de forma altamente concentrada, com os três termos da linha em
questão: na expressão, gramaticalmente única e estranha, de uma nostalgia
sem objecto (sehnt es dich), no
verbo "cantar" e no "salto" da "amada" para os
"amantes", isto é todos os que amam. O
confronto de várias traduções para línguas românicas (cinco, além da
de David Mourão-Ferreira) permitiu-me constatar que existem (não só na
Primeira, mas também em várias das outras Elegias em que os mesmos termos
reaparecem) opções diferentes que necessariamente correspondem a leituras
diversas desta passagem e desta temática. Não sendo possível esmiuçar
aqui todas as variações em que o problema se apresenta, nem comentar
algumas incoerências na tradução dos mesmos termos ao longo das Elegias, saliento apenas que, das cinco versões que confrontei (
Paulo Quintela [de 1939 a 1983, com várias revisões], J.-F. AngeIloz
[1936], Gonzalo Torrente Ballester [1946], A. Guerne e L. Gaspar [1972, no
voI. II da edição das Obras de
Rilke organizada por Paul de Man para a Seuil] ), duas delas - a de Torrente
BaIlester e a de L. Gaspar - traduzem de forma sistemática e consequente die Liebenden por los amantes /
les amants (obviamente sem maiúscula,
que, quando muito, será necessário usar na forma do feminino). Em
toda a discussão da problemática do amor em Rilke há um aspecto essencial
que não se pode escamotear nem esquecer, mas que em nada altera a minha
opinião quanto à necessidade de usar nesta passagem a forma mais universal
- estou a pensar apenas em termos linguísticos - do masculino em português.
No prefácio às Elegias de Duíno e
Sonetos a Orfeu (Porto: Inova 1969), Paulo Quintela transcreve uma carta
(de Rilke a Ilse Blumenthal-Weiss) que considera conter "a chave das Elegias",
e na qual se aproxima a vivência religiosa da do Amor ("Não há
crença..." - escreve Rilke - "Há apenas o Amor"), para
concluir, com referência às Elegias,
que "só a mulher é que
é verdadeiramente 'amante'...". Seguem-se normalmente, neste contexto,
as habituais referências a Heloísa, Louise Labé, Gaspara Stampa ou
Mariana Alcoforado, grandes Amantes sem amado - e por isso as mais
obviamente "amantes" no sentido de Rilke. A
força dos testemunhos externos terá de ser sempre menor que a do próprio
texto (e este confirma-me, de cada vez que o releio no original, a minha
proposta interpretativa). Mas, testemunho por testemunho, poderíamos também
lembrar, para atenuar ou contrariar a tese de Quintela quando se trata do
texto de Rilke (mas que determinou a tradução por "as Amantes"),
quer a parábola do filho pródigo, que não queria "ser amado",
no final d' Os Cadernos de Malte
Laurids Brigge, quer uma outra grande carta de Rilke, da fase de espera
pela "disponibilidade" (Bereitschaft)
para concluir as Elegias, nos
castelos de Berg am Irchel e Muzot. Trata-se da carta de 22 de Fevereiro de
1921 a "Merline" (aliás Baladine) Klossowska, em que o próprio
Rilke - e não a pintora russa - assume o papel de verdadeiro"
amante". Essas Lettres Françaises
à Merline são um dos grandes testemunhos da concepção do "amor
sem posse" (besitzlose Liebe) que
informará as Elegias, e que a
mulher, neste caso precisamente porque "é demasiado mulher para não
sofrer infinitamente com aquilo que esta missão parece exigir de adiamento
do amor" (carta de 28 de Setembro de 1920), tem mais dificuldade em
entender e aceitar. Nos
três grandes temas que coloca - o Amor, Deus (e o Anjo) e a Morte -, a
Primeira Elegia desenvolve-se segundo um movimento que vai do particular
para o universal: do "eu" da célebre primeira linha (Wer,
wenn ich schriee..., cujos tempos verbais em alemão estão na forma
dubitativa do condicional, e não no futuro: esta é outra "licença poética",
não de somenos, na versão de David Mourão-Ferreira) para o "nós"
da nona linha e seguintes (na primeira estrofe); e do "tu" da
passagem que nos ocupa para o final da segunda estrofe, definitivamente
colocado sob o signo do "amar" e "dos que amam" (liebend
/ die Liebenden). Esta "transformação" textual (e sabemos
como em Rilke é importante o caminho dessa transformação - Verwandlung
- para a perfeição no "aqui") suporta a minha tese, e
corresponde à própria dialéctica do Amor nas Elegias,
entre dois pólos, de recusa e afirmação, de limitação e de
plenitude: o do amor objectivado, reduzido à perspectiva do "outro que
/ tapa a vista" (Oitava Elegia), experiência que significa fechamento
(embora, paradoxalmente, se oriente "para fora"); e o Amar como
experiência próxima do absoluto, do Anjo e dos estados da in-diferenciação,
sem "perspectivismo", dos mundos do "Aberto", do amor
sem objecto, do amor do Amor. Esta metafísica do amor é, em Rilke, não
tanto platónica como narcisista em alto grau, porque não se preocupa com o
amor enquanto reflectido no seu objecto, ou absorvido nele e no mundo à sua
volta (esse seria mais o amor romântico), mas antes como um
"amar" que se esgota totalmente, e plenamente se realiza, na sua
actividade (energeia) própria, na
esfera da total imanência da pura interioridade (Weltinnenraum). Por
isso se pode dizer que Deus (enquanto transcendência formalizada) está
morto também no universo de Rilke, um mundo em que - como ele próprio
escrevia na citada carta - "não há crença, só Amor", ou seja,
uma "tendência do coração", um devir para o Aberto. É
isto que se quer "cantar" também, quando se introduz a forma
"os amantes" (no sentido de: todos os que trazem em si a força
activa do Amor, porque a ela chegaram, para ela se
"transformaram") no verso 36 - ou já na canção de Abelone no
final do Malte Laurids Brigge (a
tradução é de Paulo Quintela): "Ora olha os amantes e o que eles
sentem: / mal vêm as confissões / quão breve mentem! (...) Por nunca te
abraçar é que te tenho agora". (1992) III.
A Prova do Anjo
Os
comentários que - como o faz também o Prefácio que acompanha esta nova
versão portuguesa - se limitam a situar a grande síntese de pensamento e
linguagem poética proposta nas Elegias
contra o pano de fundo externo das relações de Rilke com princesas e
castelos, de alguns textos epistolares auto-explicativos (a célebre carta
ao tradutor polaco Hulewicz, que aquele Prefácio transcreve na íntegra),
ou as tentativas, nem sempre convincentes, de recuperação do poeta para o
espaço de uma positividade (cristã) ou de uma tradição poética nacional
- tudo isso muito pouco contribui para a penetração e revelação da
verdadeira dimensão poética das Elegias
de Duíno. A força e a importância dos testemunhos externos ou dos
lugares terá de ser sempre menor que a dos grandes textos com que nos
confrontamos, e que - repito - nos inquietam, nos envolvem e nos dividem. Alguns
dos maiores intérpretes de Rilke e das Elegias
Heidegger e Blanchot, Paul de Man e Jacob Steiner -, partindo
obviamente daquele pressuposto poetológico e existencial, órfico e
totalizante, do Rilke tardio, que funde o "Ser" com o
"Canto" (Gesang ist Dasein) ,
acentuaram a indissociabilidade de significação e linguagem nas Elegias,
em vez de, como escreve Paul de Man em Allegories
of Reading (cap. "Tropos"),
sacrificarem a dimensão poética (que não é aqui mera forma) ao impacto
filosófico dos temas. Há, na verdade, em Rilke uma crença
("cega", segundo Heidegger) na linguagem e nas suas qualidades de
instrumento adequado da "transformação" existencial exigida pelo
poeta, que a torna uma categoria constitutiva do sentido nas Elegias
de Duíno (num sentido muito diferente, menos "moderno", do de
contemporâneos em permanente tensão com a palavra, sem apaziguamento possível,
como foi o caso de Georg Trakl). A linguagem é o momento de verdade que
permite que o exorcismo da alienação ontológica praticado por Rilke se
abra para uma possibilidade de "salvação" (com um cariz de
religiosidade estetizante) aqui e agora: porque "estar aqui é
muito", porque "estamos aqui para dizer...", porque
"aqui é o tempo do dizível" (Nona Elegia). Extraio
destes pressupostos uma conclusão: esgotados os caminhos da exegese crítica,
resta-nos sempre a via da reconstituição activa desse saber de linguagem
feito. Essa via é a da tradução, que no caso das Elegias
de Duíno repetidamente tem (re)actualizado este texto já mítico,
assumindo um lugar central na globalidade do trabalho hermenêutico que
sobre ele se vem realizando. Quero com isto dizer que, se é verdade que os
abismos do Ser, e a esperança do habitar com a linguagem este "mundo
explicado", que nas Elegias se nos abrem, nos remetem hoje para a nossa condição de
humildes devedores de uma tradição de exaustiva leitura filosófica, já a
necessidade de redizer noutras línguas textos como este nos pode
legitimamente desafiar a novas aproximações. A tradução de uma matéria
verbal densa e animada do sopro da necessidade e do génio, como são As Elegias de Duíno, é certamente o mais implacável, porque pode
também ser o mais falível, dos desafios hermenêuticos. Mas o que há a
dizer sobre este texto poderá ser dito no palimpsesto da tradução, se
rigorosa e poeticamente eficaz. O confronto aqui é corpo a corpo, numa fantasque
escrime (Baudelaire) em que certamente tropeçaremos muitas vezes, mas
em que cada palavra, cada conceito, cada cotovelo da sintaxe, tem de se ir
configurando materialmente no outro texto, inexorável espelho apontado ao
primeiro, de modo a que nenhum ângulo fique ausente. É uma prova terrível,
mas, como o próprio Anjo, incontornável e necessária para quem quer
aceder, sem mediação, ao Outro. Tínhamos,
em Portugal, uma primeira tentativa de descida aos infernos desse Anjo, dada
a lume por Paulo Quintela em 1969 (mas já ensaiada a partir de 1939, data
de publicação da sua tradução da Primeira Elegia). O trabalho de
Quintela pode ser visto como o perfeito palimpsesto, e exemplo acabado da
tradução linguisticamente correcta e de grande respeito pelo original,
embora numa ou noutra linha se sinta a ausência de verdadeira afinidade com
os universos existenciais e o tonus poético
de Rilke. Quintela apercebeu-se bem de que a pregnância da linguagem e
a especificidade inconfundível da conceptualidade que estrutura a isotopia
ontológica e existencial das Elegias
de Duíno não dão ao tradutor margem para devaneios ou inconsequências,
e deixou isso bem expresso no final da Introdução à edição de 1969:
"Em si uma luta viva com o instrumento de expressão, a sua [das Elegias] linguagem adquire tal densidade e concentração que ou se
tenta manter na tradução ou, uma vez que se ceda à tentação do circunlóquio,
se passa irremediavelmente à paráfrase e, com ela, à traição descaroável
da expressão do poeta" (As
Elegias de Duíno e os Sonetos a Orfeu. Porto: Inova, 1969, p. 29). Na
nova tradução respira-se, é certo, aqui e ali aquele sopro sublime da
linguagem de um Eu possuído do élan do Invisível, ou reconhecem-se os
contornos precisos da forma linguística desse impulso, manifestação da
sua própria materialidade ontológica. Mas há no conjunto desta nova versão
das dez Elegias duas tendências de fundo que perturbam a (minha) leitura em
português, às quais vêm juntar-se demasiados momentos de incompreensão
do original (e correspondentes falhas na tradução), e alguns
"ataques" de verso ou construções sintácticas mais infelizes.
Essas duas tendências são, por um lado, a da tradução demasiado
explicativa/interpretativa (poderia também dizer-se que é
"livre", se a liberdade não fosse por vezes até ao limite do
arbitrário, ou se não houvesse aí uma preocupação, contraproducente, de
dizer o não-dito); e, por outro lado, uma certa dificuldade em compreender
as pequenas coisas que, sempre no plano da linguagem, suportam aquilo que
George Steiner designou como "a estrutura ex-cêntrica da argumentação
nas Elegias de Duíno". Estas
tendências, que na tradução afectam alguns dos mais fortes traços de carácter
próprios da linguagem das Elegias, levam,
por exemplo, à frequente eliminação de palavras gramaticais da
temporalidade (denn, und, dann...), à
transformação da natureza dinâmica dos particípios presentes em formas
estáticas; ao apagamento da importante dialéctica particular-universal, de
figuras características ou da fundamental isotopia ontológica que
atravessa as Elegias (muitos dos termos-chave dessa linha isotópica - Sein,
Dasein, Dastehn, Bleiben, Haus, Alles, etc. -, ou são deixados cair, ou
deixam de ser reconhecíveis na tradução, perdendo a sua função
estruturante). Todos estes factores de perturbação da leitura e do sentido
estão presentes, de forma concentrada, logo na versão da Primeira Elegia,
que contém já todas as chaves da proposta rilkiana de "passagem do
real para o mais real". Pela
estratégia global seguida, talvez se possa entender esta nova tradução
das Elegias de Duíno como uma
resposta" geracional" a Paulo Quintela. A própria tradutora a
apresenta primeiro como "sincera homenagem", para logo de seguida
a propor como "uma nova maneira de ter presente Rilke na língua
portuguesa". Entre o reconhecimento e a distanciação que estas duas
atitudes implicam, abre-se para cada novo tradutor o mar de escolhos que é
o próprio texto das Elegias. A
nova timoneira conseguiu tornear bem muitas Cilas e Caríbdis. Mas, no
confronto com a anterior "passagem", penso que valeria a pena
ter-lhe-dado mais atenção. Não para lhe seguir a "maneira", mas
para lhe perceber o princípio orientador, que é o que o próprio Rilke nos
dá, pela boca de Malte Laurids Brigge: Er
war ein Dichter und hasste das Ungefähre (à letra: "Ele era um
poeta e detestava a imprecisão"). (1993) IV.
Como uma segunda pele
Ainda
há quem se escandalize com o óbvio, e com aquilo que é prática corrente
desde há séculos, e até Herberto Helder (O
Bebedor Nocturno, As Magias), Eugénio
de Andrade (Trocar de Rosa) - ou Vasco Graça Moura. Tudo depende,
naturalmente, da concepção que se tem do acto de escrita a que se chama
tradução, da noção de matéria poética a que se dá forma e dos
limites, sempre precários, entre criação e transformação. O século
XVII viu já consolidar-se um novo "género literário",
precisamente o "género da tradução", de que um brilhante
prosador francês como o scholar Nicolas
d'Ablancourt foi o último representante (depois, a febre pré-romântica da
"originalidade" abalou até aos alicerces o sólido edifício da
imitação e convenção). Das suas traduções, que deliberadamente
recusavam a carga erudita, a pesadez e uma certa pedanteria da tradução
literal, se disse então (e a fórmula ficou) que eram belles infidèles, epíteto que muito o honrava. Nos finais desse
mesmo século, em 1680, publica ainda John Dryden em Inglaterra um prefácio
à sua tradução das Epístolas de
Ovídio ("Ovid and the Art ofTranslation"), prefácio que ficaria
célebre pela proposta, aí apresentada, de uma tipologia tripartida da
tradução de poesia: a "meta-frase", para a tradução literal
(rejeitada, porque "fidelidade a mais é pedanteria"); a
"imitação" (conceito retomado neste século pelo americano
Robert Lowell) , vista como forma "libertina" e despudorada de o
tradutor se mostrar, só aceitável em casos extremos de poetas
"ingovernáveis" numa língua moderna, como Píndaro; e a
"para-frase", a estratégia preferida para a poesia, porque
permite uma "conformidade ao génio do autor", mas "variando
a roupagem" e "amplificando o sentido", e assim levando a uma
forma de "tradução com amplitude". A
fórmula aplica-se bem ao Rilke de Vasco Graça Moura. O próprio
tradutor-autor o explicita, numa nota sobre a génese, a motivação e os
procesos desta versão da integral dos Sonetos a Orfeu - a primeira em Portugal, já que Paulo Quintela,
inexplicavelmente, não traduziu todos os sonetos do ciclo. Aí se diz que
se procedeu "por aproximações" e se recorreu a uma estratégia
de "infidelidades interactivas". Excelente formulação para
designar aquilo que também entendo dever/poder ser a tradução do poema:
uma orquestração de soluções próprias e uma rede funcional de traições,
para que o resultado seja, como se costuma dizer, um poema em português.
Diz-se mais nessa nota: que a integral "saiu", tal como aí está,
em seis dias! Proeza notável, se pensarmos que o demiurgo original precisou
do dobro do tempo para a sua criação. É claro que agora a matriz, o
barro, estavam aí, já configurados e animados. E mais: tinham dado origem
a uma razoável série de versões, em várias línguas, desde os anos
trinta. Esta questão é essencial, porque traduzir Rilke hoje é construir
de novo sobre alicerces já existentes, que, podendo não se ajustar sempre
à nova traça, planta, volumetria, facilitam a construção. Pelo menos
porque eles já são formas de interpretação activa do edifício original,
ou porque funcionam, à semelhança do dicionário de sinónimos ou de
rimas, como um apoio para quem busca alternativas. Mas é curioso constatar
que, construindo Vasco Graça Moura os seus Sonetos também
"sobre" (o Francês diria aqui: d'après
e après) os de Quintela (e de tantos outros), quase não vemos
nestas versões uma linha que repita as da tradução anterior. O que era de
esperar, já que os processos construtivos são radicalmente opostos. A
"comparação" com a única tradução anterior em Portugal
revela-se incontornável. Não para aplicar rótulos valorativos, mas para
evidenciar propósitos e resultados muito diferentes. Ao fazer uma tradução
de sentido, muito fiel à letra do original - o que, enquanto "tradução
de serviço", é aceitável e útil -, Paulo Quintela tornou Rilke mais
prosaico: por isso me parece que nas suas traduções se salva o Rilke do pathos
religioso, neo-romântico, dos primeiros livros, ou o objectivismo
classicizante de alguns dos Novos
Poemas, mas se perde muito da sublimidade do Rilke tardio, o das Elegias
e dos Sonetos. Este tipo de
"perda" poderá ser entendido melhor em termos de eventual
desvantagem, se pensarmos que um dos grandes princípios da poética
rilkiana desses últimos anos era o da redução mútua de Ser e Canto, a
indissociabilidade de significação e linguagem (vd., atrás, "A Prova
do Anjo"). Ora
acontece que a estratégia desta nova versão (e isto apesar dos "terríveis
problemas técnicos que a tradução do original coloca" e que constituíram
"o verdadeiro desafio" (p.70) para o poeta V.G.M., que no momento
actual da sua própria escrita não sente quaisquer afinidades com o
universo rilkiano) é a de "salvar" também essa unidade na tradução.
Vasco Graça Moura consegue-o como talvez ninguém o conseguiria hoje em
Portugal. Em parte, porque está em condições de ler Rilke no original (e
o faz há muito tempo). Mas acima de tudo porque segue um caminho -
certamente de mais alto risco que o de Quintela - que é o de se libertar
desse original (libertação indispensável na relação com uma língua
hiper-estruturada, impositiva, como é o Alemão!), depois de ter
interiorizado temas, Leitmotive, o
ductus sintáctico, as inflexões
mínimas da voz que fala (n)os Sonetos.
Depois, e tendo presente o princípio (que foi o do próprio Rilke, ao
libertar-se da forma estática do soneto clássico, transformando assim os Sonette em poesia moderna) de que aqui a medida, a rima, a forma em
geral, deixou de ser um formalismo para ser ditada por uma necessidade
interior, um impulso para a contenção ou a expansão - depois disso, o
refazer de cada soneto como um todo com leis e ecos e ritmos próprios em
Português transforma cada um deles naquilo que noutro lugar já designei de
"holofrase", i. é um discurso poético global e coerente em si
mesmo. Estamos aqui num plano da (re)escrita em que os complexos problemas técnicos
se não colocam ao nível da palavra nem da expressão em si (o dicionário
há muito que está arrumado, nunca são essas as unidades operatórias
quando se traduz poesia), mas, pelo menos, ao nível de toda uma estrofe, de
uma sequência, e da sua inserção na globalidade de um ciclo. As soluções
que há que procurar quase nunca são de ordem pontual, mas sempre globais e
"interactivas", quando menos "pontuais alargadas" - a
todo um bloco de sentido vazado numa forma própria (e em Rilke eles são
muitas vezes versos, ou conjuntos de versos, "de uma enorme e
irradiante concentração semântica e expressiva"). São
muitos, nestes Sonetos de Vasco Graça Moura, os exemplos absolutamente
conseguidos desse espantoso equilíbrio entre a linguagem própria de uma
forma que, para lá de todas as variações, está em casa na língua
portuguesa (os reenvios à nossa
tradição são frequentes), e o mais devoto (mas não servil) respeito pelo
universo rilkiano. Excrescências, amputações, quando as há, quase nunca
são arbitrárias, mesmo quando se sente, por detrás do enorme virtuosismo
verbal do poeta que maneja soberanamente a língua, o leve forçar de uma
linha para conseguir uma rima, o contorcionismo da sintaxe, a perturbação
criada por algumas ambiguidades, os maneirismos de estilo - mas aqui, e sem
"trair" Rilke, o poeta Vasco Graça Moura reencontra a sua própria
obra! Não há, porém, verdadeiramente desvio ou violentação de sentido
do original: trata-se sempre, mesmo nos casos de liberdades mais ousadas, do
desenvolvimento, da acentuação ou da variação de um determinado núcleo
semântico que era já de Rilke. É
claro que há momentos em que um "rilkiano" atento sentirá a
perda - sem compensações - de um ou outro elemento de sentido ou figura
expressiva cuja manutenção seria importante (nisso, as versões de Paulo
Quintela não transigem). Não sendo eu propriamente um rilkiano (ainda os
haverá?), impuseram-se à minha atenção de leitor interessado algumas
dessas perdas, e destaco aqui os sonetos 3 e 5 da Primeira Parte. No
primeiro caso, a correspondência "Ser-somos" na segunda estrofe
poderia ser mantida; e a penúltima linha ("Cantar é na verdade um
outro alento") parece-me falsear o sentido do original (In
Wahrheit singen), que diz "em verdade", e não "na
verdade". No quinto soneto, as questões seriam várias, e de algum
peso para a interpretação activa que a tradução tem de ser. Apenas dois
exemplos, em que se deixam cair momentos fulcrais da figura rilkiana da
"relação" (visível/invisível, real/mais real) e da dialéctica
dual que atravessa este soneto e todo o ciclo (os "dois reinos" do soneto 6). As linhas "Eis Orfeu
cantando / de uma vez por todas" eliminam um desses momentos, ao
apagarem a forma do neutro alemão (Es
singt) que, nesta fase de Rilke, é também a fórmula do transcendente
que sobre ele se abate (a "Voz" que fala nas Elegias
e nos Sonetos) - e lhe
permite, nesse ominoso Fevereiro de 1922, concluir as primeiras (Quintela
usa aqui, correctamente, a fórmula impessoal e universal possível em
português: "É Orfeu quando há canto"). E ainda: a última linha
do primeiro terceto (e a passagem para o seguinte) contém um daqueles
conceitos-chave em Rilke, também nas Elegias,
que é o de Hiersein (o
"estar-aqui"), que se perde numa tradução excessivamente
interpretativa e obscurecedora da relação clara expressa no original. Os
versos a que me refiro (em V.G.M.: "A palavra prolongalhe a presença,
// mas ei-lo onde não estais, desaparece.") surgem em Quintela - livre
das preocupações da rima! - numa forma mais próxima do original, mais
clara quanto ao sentido e mais equilibrada (pela explicitação da dicotomia
"aqui-além"): "Quando o seu Verbo vence o estar-aqui, //
ei-lo além já, onde vós não chegais." Mas isto são as contingências de qualquer passagem. O que o leitor dos Sonetos a Orfeu de Vasco Graça Moura reterá, para além do pormenor, é um conjunto notável que veste os de Rilke como uma segunda pele. A pele visível, e a mais actual, de Rilke em Português. |
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Filósofo, ensaísta e tradutor do alemão, o português João Barrento é um dos intelectuais mais relevantes de seu país. Tem publicado livros como A palavra transversal (1996), Uma seta no coração do dia (1998) e A espiral vertiginosa (2001). Ensaio incluído no livro: A Palavra Transversal. Literatura e Ideias no Século XX (Lisboa. Livros Cotovia, 1996). Contato: jfsb@pol.pt. Página ilustrada com obras do artista Enrique Lechuga (México). |