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O tempo emblemático na pintura de César Romero
Mirian
de Carvalho
Tendo
como projeto estético registrar aspectos da identidade nordestina, César
Romero reinterpreta os símbolos do Candomblé, rememora as festas
populares da cristandade, os objetos do povo, como as colchas de retalhos
e fachadas das casas do interior da Bahia, para recriar o mundo
imaginando-o em desdobramentos temático-pictóricos que valorizam as
potencialidades da cor. De modo poético, o tempo se irradia nos olhos das
cores ao encontrarem nosso olhar. Vista e ou fotografada por César
Romero, a imagística do povo desliza pelas geometrias reversíveis das
suas Cromutações: título da
mostra realizada em Salvador e no Rio em 2001, e em Brasília em 2002. Mas
percebemos que os jogos de cores são o marco
estético de sua obra como um todo: fluxo e repouso de cromatismos
mutantes a vivificar a poesia do tempo.
Que tempo é esse? Que tempo é esse -
engendrado pela cor -
em permanência instantânea?
Na
matéria do pintor -
a cor -
pulsa o tempo. Revisitando estas obras de César Romero, eu os convido a
presenciar o tempo luzente criando imagens e símbolos, que se renovam e
se fixam no olhar em ato. Unidade ativa no processo de fruição das
artes, o instante fixa para nós os efeitos da cor, fazendo da obra átimo
de tempo e perenidade. Emissão de luz dando vida à opacidade do mundo
nas áreas escuras das telas, o instante nasce da cor. Na instantaneidade
se articulam harmonias e contrastes, calor e frio, imagens, motivos,
afetos, ritmos, captando parcialidade e permanência da poesia do tempo na
experiência visual, através de um fragmento colorido jorrando da tinta.
E do olho atento.
Vemos
em várias obras um raiozinho espelhado ziguezagueando pelo colorido. E,
em diferentes cores, ressurge em outras obras. Imagem-migrante, o pequeno
raio se desvela como fragmento perceptivo centralizando um tempo instantâneo
-
atual e arcaico -
por envolver resíduos de uma memória imemorial de tempos preexistentes
à obra. Este tempo será detectado por outro olhar, e, quando o devir
se transmutar em agora, esta
imagem será percebida por olhos visitantes. O instante se vai, mas sempre
renasce flamejante entre olhar e perplexidade.
Na
pintura de César Romero, os corações, as setas, os pássaros -
e outros motivos -
reúnem olhar e brilho, no tempo em fuga. Cor-tinta e cor-reflexo se
cromutam, dando relevo à instantaneidade: o tempo morre para renascer ao
olhar partejante de reflexos nesta poesia da água diluindo a tinta, na poética
da tinta espalmando o pincel nas texturas
óticas da acrílica tatuando a pele da tela.
Surgidos
em obras anteriores, tempo e imagem se desdobram, ressurgem, e se tornam
emblemas. Então, podemos ver o tempo. Podemos sentir o tempo fixado na
atualidade do instante. Se me detenho na predominância do verde, um verde-emblema
se põe em cena, ressonando em luz sua poética das metamorfoses:
"Verde que
te quero verde"! Verde que te quero prisma de cores, e te vejo tátil
-
em outras tintas -
quando meus olhos giram, pontuando o mundo com cromutações. Cor que te
quero cor. Vermelho que te vejo coração. Tempo que te quero cor. Faixa. Platibanda. Enigma. Memória.
E te acolho emblema. Olhar que
te quero tempo. Cor que te pressinto instante! Tempo que te adivinho
afetivo e atual.
Na
pintura de César Romero, o tempo tinge as coisas da terra,
o tempo imagina amorosamente os costumes das gentes do lugar. Aos meus
afetos, Oxumaré se faz arco-íris e se lança às minhas imagens,
captando-me olhar e imaginação. Oxumaré vai colorindo a Bahia em festa,
vai colorindo símbolos, pintando a poesia enraizada no tempo não-cronológico,
nesta nossa experiência do instante poético. Mas, na pintura de César
Romero, há vários tempos transformando em poesia os tempos visuais das
festas e das fotografias -
anteriores à pintura. Anteriores e atuais, plasmando
cromáticas raízes de uma estória de mito e de estrada, no
cuidado do tempo arcaico apreendido pela memória imemorial. Ao ser instante, o tempo se esvai. Em sendo cor,
o tempo repousa ritmado.
E,
cromutando-se em poesia, permanece nas cores de um Tempo Emblemático vivido na obra de César Romero. |