revista de cultura # 33 - fortaleza, são paulo - março de 2003

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O tempo emblemático na pintura de César Romero

Mirian de Carvalho

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César RomeroTendo como projeto estético registrar aspectos da identidade nordestina, César Romero reinterpreta os símbolos do Candomblé, rememora as festas populares da cristandade, os objetos do povo, como as colchas de retalhos e fachadas das casas do interior da Bahia, para recriar o mundo imaginando-o em desdobramentos temático-pictóricos que valorizam as potencialidades da cor. De modo poético, o tempo se irradia nos olhos das cores ao encontrarem nosso olhar. Vista e ou fotografada por César Romero, a imagística do povo desliza pelas geometrias reversíveis das suas Cromutações: título da mostra realizada em Salvador e no Rio em 2001, e em Brasília em 2002. Mas percebemos que os jogos de cores são o marco estético de sua obra como um todo: fluxo e repouso de cromatismos mutantes a vivificar a poesia do  tempo. Que tempo é esse? Que tempo é esse - engendrado pela cor - em permanência instantânea?

Na matéria do pintor - a cor - pulsa o tempo. Revisitando estas obras de César Romero, eu os convido a presenciar o tempo luzente criando imagens e símbolos, que se renovam e se fixam no olhar em ato. Unidade ativa no processo de fruição das artes, o instante fixa para nós os efeitos da cor, fazendo da obra átimo de tempo e perenidade. Emissão de luz dando vida à opacidade do mundo nas áreas escuras das telas, o instante nasce da cor. Na instantaneidade se articulam harmonias e contrastes, calor e frio, imagens, motivos, afetos, ritmos, captando parcialidade e permanência da poesia do tempo na experiência visual, através de um fragmento colorido jorrando da tinta. E do olho atento.

César RomeroVemos em várias obras um raiozinho espelhado ziguezagueando pelo colorido. E, em diferentes cores, ressurge em outras obras. Imagem-migrante, o pequeno raio se desvela como fragmento perceptivo centralizando um tempo instantâneo - atual e arcaico - por envolver resíduos de uma memória imemorial de tempos preexistentes à obra. Este tempo será detectado por outro olhar, e, quando o devir se transmutar em agora, esta imagem será percebida por olhos visitantes. O instante se vai, mas sempre renasce flamejante entre olhar e perplexidade.

Na pintura de César Romero, os corações, as setas, os pássaros - e outros motivos - reúnem olhar e brilho, no tempo em fuga. Cor-tinta e cor-reflexo se cromutam, dando relevo à instantaneidade: o tempo morre para renascer ao olhar partejante de reflexos nesta poesia da água diluindo a tinta, na poética da tinta espalmando o pincel nas texturas óticas da acrílica tatuando a pele da tela.

César RomeroSurgidos em obras anteriores, tempo e imagem se desdobram, ressurgem, e se tornam emblemas. Então, podemos ver o tempo. Podemos sentir o tempo fixado na atualidade do instante. Se me detenho na predominância do verde, um verde-emblema se põe em cena, ressonando em luz sua poética das metamorfoses: "Verde que te quero verde"! Verde que te quero prisma de cores, e te vejo tátil - em outras tintas  - quando meus olhos giram, pontuando o mundo com cromutações. Cor que te quero cor. Vermelho que te vejo coração. Tempo que te quero cor. Faixa. Platibanda. Enigma. Memória. E te acolho emblema. Olhar que te quero tempo. Cor que te pressinto instante! Tempo que te adivinho afetivo e atual.

César RomeroNa pintura de César Romero, o tempo tinge as coisas da terra, o tempo imagina amorosamente os costumes das gentes do lugar. Aos meus afetos, Oxumaré se faz arco-íris e se lança às minhas imagens, captando-me olhar e imaginação. Oxumaré vai colorindo a Bahia em festa, vai colorindo símbolos, pintando a poesia enraizada no tempo não-cronológico, nesta nossa experiência do instante poético. Mas, na pintura de César Romero, há vários tempos transformando em poesia os tempos visuais das festas e das fotografias - anteriores à pintura. Anteriores e atuais, plasmando  cromáticas raízes de uma estória de mito e de estrada, no cuidado do tempo arcaico apreendido pela memória imemorial. Ao ser instante, o tempo se esvai. Em sendo cor, o tempo repousa  ritmado.

E, cromutando-se  em poesia, permanece nas cores de um Tempo Emblemático vivido na obra de César Romero.

Mirian de Carvalho. Crítica e poeta. Vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Publicou, em parceria com Angela Martins, Novas Visões: Fundamentando e Espaço Arquitetônico e Urbano (2000). Texto originalmente publicado no Catálogo da Mostra Artistas Contemporâneos Prêmio ABCA 2000/2001, em versão aqui atualizada. Contato: mir3@zaz.com.br. Página ilustrada com obras de César Romero (Brasil).

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