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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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Oficina de leitura Jéferson Assumção
Leitura:
o mais humano dos hábitos. Moacyr
Scliar
Quem
sabe um suposto afastamento dos valores europeus, ao mesmo tempo que uma
aproximação à cultura estadunidense, pragmática, televisiva, de massa
seja uma explicação para o fato de nossas famílias lerem tão pouco? E
olha que não em comparação com os nossos colonizadores europeus, mas até
com famílias de países de realidades bem próximas à nossa. Argentina,
Uruguai e Chile, por exemplo, consomem, proporcionalmente, mais livros e
jornais que os brasileiros. Uma comparação com esses países pode ser útil
para encontrar pistas sobre as origens da falta de leitura no Brasil, mais
do que analogias com outras realidades ainda mais distantes, tanto geográfica
quanto culturalmente, da nossa. Tudo
bem, esses três países têm um histórico bem diferente do Brasil em
termos de colonização e educação. Em 1915, de cada três argentinos, um
tinha nascido na Europa. Em Buenos Aires, um em cada dois. Diferentemente de
quase todas as famílias no Brasil, esses imigrantes receberam terras ao
chegar na América. Uma maior base patrimonial fez com que, logo em seguida,
essas populações já estivessem exigindo do Estado educação pública, o
que não aconteceu no Brasil. Desde os jesuítas, até agora, a história da
educação no Brasil pode ser dividida entre educação para a elite (de
qualidade e cara) e educação para os pobres (de baixa qualidade e não
para todos).
Segundo
o Anuário Editorial Brasileiro, do Grupo Editorial Cone Sul, o Brasil
inteiro, onde vivem cerca de 170 milhões de pessoas, tem apenas 2008
livrarias, o que dá, em média, um estabelecimento para cada 84,4 mil
brasileiros! Uma única cidade européia, Paris, tem duas mil livrarias. A
Argentina, antes da crise, tinha mais de 950 livrarias (para uma população
de 37 milhões de habitantes). Em dois anos, a crise fez fechar 250 desses
estabelecimentos. No Brasil, muitas cidades, inclusive no Rio Grande do Sul,
não possuem uma livraria sequer. A Câmara Rio-Grandense do Livro e o Clube
dos Editores divulgaram há três meses que 75% das cidades gaúchas não têm
pontos de venda de livros. A situação é ainda pior em estados do Norte e
Centro-Oeste. Roraima, Tocantins e Amapá têm, cada um, apenas duas
livrarias em seus vastos territórios. Na Região Norte do Brasil, há
apenas uma livraria para cada 215,3 mil habitantes. Sul e Sudeste estão um
pouco melhores. Na Sudeste, a média é de uma livraria para cada 64,2 mil
pessoas, enquanto que, na Sul, a média é de uma livraria para cada 56,7
mil habitantes. Certamente,
a altíssima concentração de renda brasileira – uma das maiores do mundo
– impede as camadas mais pobres da sociedade de terem acesso aos bens
culturais, a livros, teatro, música e informação que não venham
diretamente da cultura de massa, seguindo a fórmula da indústria cultural:
ou seja entretenimento barato, de baixa qualidade, para quase todos. Tanto o
fator número 1 (O livro deve estar em
um lugar privilegiado dentro do imaginário nacional), quanto o número
2 (É preciso haver famílias de leitores) parecem não ser assim tão
fáceis de serem resolvidos, ainda mais quando se vive em uma sociedade
conservadora e concentradora, que faz
questão de manter as coisas tais como estão. O
governo federal não sabe ler Para
tentar melhorar as coisas, são criados, de tempos em tempos, programas de
incentivo à leitura. Implementados pelo governo federal, eles, como se pode
ver em diversos dados, têm se mostrado um flagrante desastre. São
ineficazes na reversão dos números desfavoráveis, embora o Ministério da
Cultura, a despeito de todas as evidências, venha afirmando o contrário. O
problema é claro: essa tentativa do governo federal, de reversão nos
baixos índices de leitura, fica impossibilitada por suas próprias práticas
nos planos político e econômico. Afinal, é um tanto difícil formar “um
país de leitores” com campanhas esporádicas, se ao mesmo tempo se
implementa uma política econômica que mantém sistematicamente elevadas
taxas de desemprego (do início da década de 90 ao seu final, passamos de
10% de desempregados para mais de 20%) e baixíssimo poder econômico às
camadas mais pobres da população.
O
terceiro fator necessário para a existência de leitores em um país é: A
escola deve saber formar leitores. Como se sabe, não bastassem as políticas
econômicas excludentes, a história da educação no Brasil é também uma
história de exclusão, de fortalecimento de uma elite que se beneficia do
que de melhor há em termos de ensino e de uma crescente mercantilização
do saber. Segundo David Plank (em Política
Educacional no Brasil: Caminhos para Salvação Pública. Editora
Artmed, 2001, Porto Alegre), desde o seu início, ainda no século XIX, as
políticas educacionais brasileiras, excetuando breves períodos, ainda no
começo do século XX, não tiveram como fim o desenvolvimento de uma
sociedade menos desigual. Pelo contrário, salientaram as diferenças,
promoveram a nítida separação entre uma educação de elite e outra para
os pobres. Com a entrada no século americano, o XX, essas políticas
educacionais, como se sabe, eram a mera tradução de determinações que os
Estados Unidos colocaram em prática em todo o mundo pobre. Decorre daí a
pragmatização do ensino, o tecnicismo, direcionamento da educação para a
formação de mão-de-obra para o tipo de desenvolvimento que o Império
(Estados Unidos e países ricos) necessitava. O
objetivo era formar peças para a máquina capitalista ao invés de seres
humanos críticos. E quem é que pagou o pato? O leitor, é claro. É ele o
alvo do acordo Mec-Usaid, da reforma do ensino de 1964 e da Lei de
Diretrizes e Bases de 1967. De lá para cá, nunca mais teríamos leitores,
afinal aquelas reformas ainda não foram de todo revertidas, nem mesmo pelos
governos “democráticos”. A escola continua sem literatura estrangeira,
sociologia e filosofia no ensino médio, o que significa: continua sem
leitores. Há pouco Fernando Henrique Cardoso vetou a volta das disciplinas
humanas nos currículos. Flagrante contradição de um governo que afirma
estar empenhado em fazer do Brasil “um país de leitores”. A
escola não sabe ler Resulta
de toda essa história uma escola que é uma verdadeira “máquina de
destruir leitores”. E é aqui que está um outro grande problema, talvez o
maior, a ser enfrentado. Com o atual estágio de mercantilização e
anestesia em que a sociedade brasileira se encontra, parece ser impossível
colocar o livro em “um lugar de destaque no imaginário nacional”, assim
como não se pode fazer com que as famílias se tornem famílias de
leitores. Só nos resta intervir na escola, espaço que está mais perto dos
verdadeiros interessados em fazer do Brasil “um país de leitores”. São
eles os educadores, escritores, leitores desinteressados, humanistas em
geral que sabem: a escola atual é uma máquina de destruir leitores porque
“a escola não sabe ler”. Por isso, quando vai formar leitores, toma
caminhos tão tortuosos que acabam resultando mais no afastamento dos alunos
dos livros do que no contrário. E
quais são esses caminhos, ou melhor, quais as engrenagens da máquina de
destruir leitores? Vamos a elas. A primeira é a promoção de um recorte
utilitarista e pragmático, um tipo de leitura feita na sala de aula que,
decididamente, é um empecilho violento à formação de leitores. Esse
recorte dá um peso à leitura que ela, quando feita fora da escola, não
tem. A leitura feita na escola é chata porque é profissional, porque
continua sendo usada para passar ideologias, conteúdos etc. Não se lê na
escola com o fim único e exclusivo de formar leitores, e sim para passar
português, história, geografia. Assim, dá-se uma “utilidade” a esse hábito
que, sem esse conteúdo, ele pareceria não ter. Aí está um primeiro
contrapé em que se pode pegar a escola, essa não-leitora. Se ela tivesse o
hábito da leitura de literatura, saberia que é na sua aparente inutilidade
que a leitura é de fato útil, pois é nessa “inutilidade” que ela
discursa contra um mundo prosaico e utilitarista.
Um
primeiro passo é desvincular a leitura da educação, retirar o peso que o
ensino colocou e que transformou essa aventura da leitura num passeio de ônibus
forçado, dirigido não pelo leitor, mas pelo professor-motorista. Os
leitores não lêem só para aprender. Em primeiro lugar, lêem para se
comover, para rir, chorar, vibrar, sentir. É daí que vem o gosto, que
nunca mais se abandona. Aprender algo, ou não, é coisa secundária. É preciso que a leitura leiga entre na escola, esse lugar sagrado demais. Precursores do Renascimento, os goliardos (filhos de Golias) eram grupos de estudantes que iam do interior dos países europeus para estudar nas universidades que ficavam nas capitais. Em sua época, século XIV e XV, as universidades eram clérigas e esses leigos interioranos muitas vezes tinham dificuldade em se adaptar à vida religiosa. Para serem cultos, era preciso ter fé. E isso não é para qualquer um.. Por isso mesmo, alguns desses estudantes abandonavam a faculdade no meio do caminho para não perder a laicidade. Sem profissão, muitos iam parar nas ruas, onde viraram poetas boêmios - um deles era o famoso poeta francês François Villon. Foi nas ruas das grandes cidades que ficou borbulhando um tipo de relação com a leitura que não era clériga nem leiga, mas uma mistura, um meio-termo. O Brasil nunca teve goliardos. A única leitura que se faz aqui é a clériga, a escolada, a utilitária feita entre as quatro paredes escuras da máquina. O resultado todos nós, infelizmente, conhecemos. Sem atacar esse problema, um entre tantos outros, nós nunca vamos conseguir fazer do Brasil um país de leitores. |
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Jéferson Assumção (Brasil, 1971). Jornalista e ensaísta. Autor de Máquina de Destruir Leitores (2000), é também co-autor de livros como O Mundo das Alternativas - Pequeno Dicionário para Uma Globalização Solidária (2002) e O Caminho da Vitória - Imagens Históricas da Trajetória Política de Lula da Silva (2003). Contato: jeferson@veraz.com.br. Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México). |