revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003






 

Portugal e Manuel de Castro: a viagem interior ao além-mar e além-real

Mauro Jorge Santos

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E a nossa grande Raça partirá em busca de uma índia nova , que não existe no espaço, em naus que são construídas “daquilo de que os sonhos são feitos”. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente.

Fernando Pessoa

 

Mauro Jorge SantosPretendo, aqui, fazer uma apresentação da obra de Manuel de Castro, mesmo ciente de que a disponibilidade de material bibliográfico - tanto de autoria do poeta, quanto de informações e aparato crítico sobre o mesmo e acerca do contexto do grupo de artistas que se reuniam no Café Gelo - é pequena .

Assim, o material com o qual trabalho é aquele contido nos livros: Estrela rutilante, de Manuel de Castro (cópia manuscrita); “Edoi Lelia Doura” - Vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa (antologia organizada por Herberto Helder) e “Teoria da paródia surrealista”, de J. Cândido Martins.

Agradeço muito à Professora Isolete Alves pela revisão do meu texto.

Tomei contato com a poesia de Manuel de Castro através da obra organizada por H. Helder, da qual constam referências não só sobre o Café Gelo, situado no bairro do Rossio, em Lisboa, como também sobre o poeta e os amigos com os quais lá se reunia, entre estes o próprio Herberto Helder, Antonio José Forte, Helder Macedo, João Rodrigues, Virgílio Martinho, Luís Pestana, José Carlos Gonzalez, João Fernandes, Zanaga, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Manuel de Lima, Fernando Saldanha da Gama, Manuel Crespo, José Manuel Simões, Raul Leal, Goulart Nogueira, Ernesto Sampaio, Luiz Pacheco, António Gancho e Mário Cesariny.

Um artigo de Antonio José Forte: “Breve Notícia, Breve Elogio do Grupo do Café Gelo”,

publicado no Jornal de Letras, no 189, fala sobre o Grupo.

Na Web, umas poucas informações disponibilizadas referem-se ao Grupo como sendo “ o segundo fôlego do grupo surrealista” (Vasco de Castro); num site sobre o pintor João Vieira, um dos artistas plásticos do Grupo Café Gelo, um pequeno texto faz referência ao Grupo. Reproduzo aqui um trecho do mesmo: “Deste grupo podemos dizer que nunca terá sido formalmente desfeito, mantendo-se ainda hoje o mesmo espírito de amizade e colaboração entre os seus membros que existia na altura”; numa resenha sobre trabalhos de Henrique Tavares, outro pintor do Grupo, é mencionado o “legendário ‘anti-grupo’ do Café Gelo, em Lisboa “; um site sobre Benjamin Marques, pintor, também membro do Grupo, o Grupo Gelo é considerado como sendo a “alta sociedade dos surrealistas dissidentes”.

Herberto Helder escreveu sobre Manuel de Castro: “Nasceu em Lisboa em 1934, e aí morreu. Uma autodestruição sistemática, premeditada, conduziu-o à morte prematura em 1971”. “A ultrapassagem de um certo limite é (...) uma mudança de situação, nunca uma conseqüência” escreveu ele algures quatro anos antes de “mudar”. Publicou Paralelo W (1958) e A estrela rutilante (s/d, 1960). Existem alguns textos seus, a maior parte de circunstância, espalhado por revistas e jornais”.

Não há quaisquer informações sobre possíveis reedições da obra de Manuel de Castro, a não ser sobre os 11 poemas que constam da antologia publicada por H. Helder.

Quanto ao poeta ser, ou não, surrealista, creio que as palavras de Cesariny deram uma dimensão exata do que seria isto: “Pode-se ser surrealista sem ter lido Breton. Pode-se ler Breton e não ser surrealista. Pode-se ser surrealista e não se ser, realmente, mais nada. Pode-se não ser surrealista e prestar-se com isso excelente serviço a todos e ao surrealismo em especial.”

Focarei este artigo principalmente nas relações do invisível, do mágico e do sagrado na obra de Manuel de Castro.

O liame das palavras

Na obra de Manuel há uma oscilação entre o fascínio e o cansaço do invisível, o mistério participa desde o título do segundo livro: “A estrela rutilante”, nome também dado em algumas traduções do tarô de Thot ao arcano 17.

Este contraste em relação ao cansaço e ao fascínio do mistério da vida é também notado no trecho inicial deste belíssimo poema em prosa, “A história das palavras”, de Almada Negreiros, que deixa mais claro o trajeto de “A estrela rutilante”:

A história das palavras

As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam maravilhados, outros tinham se cansado. Os que estavam maravilhados abriam a boca, os que tinham se cansado também abriam a boca.

Houve um homem sozinho que se pôs a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que estavam cansadas.

As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz de cada um - mais luz, alegres - menos luz, tristes.

O homem sozinho ficou a pensar nesta diferença. Para não esquecer, fez uns sinais numa pedra.

Este homem sozinho era da minha raça - era um Egípcio!

Os sinais que ele gravou na pedra para medir a luz por dentro das pessoas, chamaram-se hieróglifos.

Mais tarde veio outro homem sozinho que tornou estes sinais ainda mais fáceis. Fez vinte e dois sinais que bastavam para todas as combinações que há ao Sol.

Este homem sozinho era da minha raça - era um Fenício.

Cada um dos vinte e dois sinais era uma letra. Cada combinação de letras era uma palavra.

Vinte e dois são os sinais, as letras, como vinte e dois são os arcanos maiores do Tarô. Letras que formam os nomes e as palavras secretas de que Manuel tanto fala ? Como neste trecho de Scorpius:

Falo-vos exemplarmente do éter  
nenhum homem será glorioso na morte  
enquanto não se tornar total  
e não possuir seu nome exactamente

Um único livro detém a Verdade  
onde são as tarântulas magníficas  
movendo-se e vivendo a sua obra

UM ÚNICO LIVRO

Onde está o animal de diamante  
E se encontra a palavra.........

Sendo o nome deste capítulo (último) “O rosto de Ísis” seria a palavra misteriosa em “Scorpius” aquela usada por Ísis para curar Hórus de uma picada de escorpião?

Em “Pert Kheru” (poema cujo título, ao que tudo indica, estaria relacionado com magia egípcia e/ou “O livro dos mortos do antigo Egito”), voltamos ao “livro”, ao “navio” e ao “diamante”:

desenhadas com giz no alcatrão das ruas  
descansando nas páginas dos livros  
incendiadas na manhã oval  
emolduradas num céu fulgurante e marroquino  
as palavras soltam desesperadamente  
o eco do teu corpo destruído

o volume   o peso    a cor    o som  
rasgados   cobertos de diamantes estilhaçados  
do teu corpo irremediavelmente destroçado  
deslizam no clima  
nas paredes  
no navio de laca      oscilando sereno     no imenso mar

Em “Ritual”, o livro também figura como objeto mágico:

Ritual

vive nos livros o espírito dos mortos  
sua cadência direcção e nome  
flores que o vento ampara   luz que se dissolve  
palavras  simplesmente mágicas  
nascidas num gesto campo de lilases  
clima de silêncio pleno e conventual  
retrato antigo que se afasta e esbate

Em “Rio”, um dos poemas de amor, de Manuel, do capítulo “A terceira viagem”, tudo é fusão dos corpos, contemplação e conquista:

Aqui, no lume, na fabricação íntima dos astros  
sou tua sombra e nome verdadeiro  
Som de pedra, espanto de violino  
a envolver-te a cintura vibrátil

(...)

o rio dilata-se  
e na superfície vogam pulsos de louça  
como os habitantes da nação que fundei  
para a prospecção das matérias  
com que construo a tua permanência

Luminosa na tempestade de figuras geométricas  
que atravessa a atmosfera marítima  
perdida no labirinto de fogos de artifício  
que fulguram o casario brumoso e distante  
fundente nos destroços submersos  
desfeita e absorvida por ondinas

tu  
já meu corpo  
de eu-rio  
   sempre

Remedios VaroUm país secreto de amor, aventura e movimento traçado por Manuel de Castro: “Largos largos largos LARGOS HORIZONTES / - não te recordarei. Há um país fatal, / existe uma zona de aventura, um segredo./  / O amor possui o tempo - Ignora/ que já não há velas nem os capitães/ são agora donos de seus barcos./ Tudo que nos transporta participa/ do nosso imparável movimento./  / Ignora/  /que os ancoradouros são para navios/ mas os navios partem/ e por vezes não regressam”

Dalila L. Pereira da Costa, em seu livro “sobre as raízes arcaicas da saudade”: “Da Serpente à Imaculada”, escreveu:

“Com nossa vocação salvífica e ainda nosso esquema cosmogónico, se relacionará um dos mais marcantes traços de nossa vivência religiosa: a destruição periódica da História. Povo criador por excelência de História, entre todos os povos do Ocidente, uma incessante sede de regeneração, tudo começando por destruir, para recomeçar tudo de novo pelo princípio ab initio, o levará ciclicamente à abolição da sua memória e realidade histórica” .

Assim como as crianças judias não podem receber um nome com o mesmo valor numérico de palavras como “morte”, em hebraico, e a criança cigana, se estiver muito doente, é batizada novamente, com outro nome, na hipótese do nome e a essência da criança não se harmonizarem, no poema “Paralelo W”, o “nome diferente” é uma tentativa de recomeço, condição de entrada, de iniciação:

(...)

No entanto

prefiro-me veneziano rápido  
oferecendo anéis aos mendigos  
vestir-me de rubro e negro para ti  
ao som dos clarins  
fluir viagem de flores súplice de perigo

os navios partem  
por vezes não regressam e todavia  
eis O SUL - uma palavra, um gesto  
um lugar, um anel  
rápido som de clarim  
Viagem de Flores  
Perigo

este é o tempo em que morrem os príncipes  
ao sol-posto num final sereno  
e se iniciam os ritos bárbaros  
da Grande Velocidade

manchas no céu da noite  
quebram e reúnem seus corpos  
em cósmicos espelhos  
enquanto um mágico aceno de flúor  
descreve a partida de nossas frotas  
na imensidão azul escura  
cristalizando no oculto um sentido  
para a vida e a morte  
concretizando o brilho de nossos músculos  
 - um brilho que cheira a limo e sal.

Sobre os cadáveres assim incorruptíveis  
dos velhos príncipes desagregados no mar  
passam os navios  
e a geração angélica e terrível  
talha o seu destino sobre-humano  
onde a noite vai expulsar os astros  
iniciar-se, e ter um nome diferente

Em “Paralelo W” há indícios de uma analogia de uma dupla iniciação; a iniciação da busca pelo alheio nas jornadas marítimas, e a busca por si mesmo na iniciação nos cultos de Ísis. No “Dicionário de mitos literários”, organizado por Pierre Brunel, consta no verbete Ísis, escrito por Ann-Déborah Levy, que “Sob influência grega, o culto de Ísis sofre uma renovação no Egito ptolomaico: as rainhas da dinastia dos lágidas identificam-se com a deusa, e Cleópatra faz-se chamar de Nea Ísis. A divindade é então considerada uma alegoria do Egito como um todo, e não mais somente do vale do Nilo. É este, sem dúvida, o significado de uma inscrição no templo de Dendará, onde se diz que ela nasceu “sob a forma de uma mulher negra e vermelha” - o negro sendo a cor do limo, e o vermelho designando o deserto.”

O nome, a palavra, o verbo propiciam a organização de mundo, dão origem a uma arquitetura quintessencial, o escrito se insere e muda o concreto, a força do irreal, como disse Herberto Helder da poesia: “É irreal, e vive.”

Lugar mágico: mundo, amor, viagem

A Estrela, arcano 17 do tarô, uma preparação e método para afiar o gume dos olhos, para o vácuo áspero da Noite.

Os olhos, nesta estrela rutilante, representam o arcano fundamental da esperança. Esta, é vista aqui como a vê o teólogo Raimon Panikkar, como: “...não pertencente ao domínio do futuro, mas sim, ao do invisível.”.

A Estrela, arcano maior do tarô, também conhecida como “A estrela rutilante”, a mais bela carta na maioria dos tarôs, é tema do poema abaixo, de Rodrigo de Haro, colocado aqui como ilustração, poema este que, como todos os demais que escreveu, traz a marca de sua rara intimidade com o maravilhoso:

Tema do Arcano da Estrela

São ânforas gêmeas queridas  
 que açafata lentíssima  
manipula  
 

na farmácia Boa Estrela.  
São duas jarras elegantes,  
altivas jarras canoras, águas  
diferentes da normal inclinação

Do prumo. Duas ânforas,  
duas ânforas em tuas mãos  
copeira magnética,

sob o telhado da estrela.

(Rodrigo de Haro)

Em “A estrela rutilante”, segundo livro de Manuel de Castro, livro perpassado por liame mágico na imagética; vigília devotada ao substantivo-invisível - o corpo atento, poroso, às metamorfoses da atmosfera, ciclos de máscaras e fantasmas como num quadro de Remédios Varo, como em “o jovem mágico” de Cesariny: “.../eu sei atravessar a fronteira das coisas/...”, uma luz que alheia-se, viaja como um rio que a noite une: “a noite é um magnífico coral na noite”, escreveu Manuel. Equação oculta, ferida decifrada do dia.

Kierkegaard em “Temor e tremor” fala do poeta como sendo aquele que guarda, um guardião do que é precioso. Precioso, na obra de Manuel de Castro, traduz-se numa sabedoria que, abraçada ao mágico, escreve no poema “A ERC JOSAMU JOVE” uma espécie de invenção e tomada de seu próprio “lugar”:

A ERC JOSAMU JOVE

Nós os intocáveis, os imundos, recusamos  
nossa vida à condição comum.  
Porque é imortal a rosa que nos leva  
entre o dia e a noite.  
Nós os derrotados, impuros, oferecemos  
nossa miséria a um significado  
oculto e diferente -

asa branca na varanda  
nome escrito nos telhados  
estrada atravessando a terra de ninguém  
Nós os últimos dos últimos coroamos  
impérios e jardins

O poema se adequaria bem ao capítulo “Poemas de combate”, do livro A estrela rutilante. “Pêndulo” (um dos “poemas de combate”) torna mais nítida a senda escolhida - a viagem:

um rosto mercador    um rosto vagabundo  
inventor de palavras  
com a sensualidade das máquinas de guerra

seguindo-se depois em “Situação do terceiro grau”

meu nome é    A ESTRELA RUTILANTE  
e viagem não é substantivo   é estilo  
de cada pedra um som particular  
e o mínimo degrau o livre abismo

Os nomes dos mortos, das horas, das estátuas, dos dias, os esquecidos significados relembrados, o amor como caminho lírico de transformação (sangria, costura e coagulação dos símbolos) , pois:

o meu amor é a aquisição de uma técnica  
um processo de transformação dos corpos  
a prospecção dramática dos ritos

(...)

o meu amor é a correcta magia dos sons  
a ultrapassar da noite  
fulminante e arrebatada   num círculo de fogo  
coberta de engenhos de destruição  
correndo extensamente sem peso

o meu amor é uma trovoada nas margens da noite  
uma proposta veínulada a sangue  
patrocinada por mortos deambulantes

e é ainda a carcassa úmida dos barcos  
destroçados n’ areia

(...)

No olhar do ser amado está “o caminho para a livre conquista de um nome” e uma direção; “Situado na cadência dos brilhos marítimos”; uma navegação, uma descoberta:

com o tacto na cabeça transfuso

conquistei no teu corpo a maneira real  
de narrar em música    transportada no vento  
rápidas histórias eqüestres      breves histórias de monstros  
e os astros em ponte

E a visão fraturada do infinito: “o amor é um ritmo sem cronologia e sem perdão/ e a presença da claridade lunar/ a tentativa do grande espaço aberto”.

Cartas, mapas, meios de orientação, do rito dos amantes, um oculto nome que enlaça a amante, amante-ar, amante-água, amante fogo, amante-terra, amante-éter que a absorve como num sonho.

A espelhada música da proximidade e a transmutação consumada do casal alquímico em “Ainda um poema de amor”:

rosto igual      sereno  
no deslizar da água, nos ruídos  
na transfiguração alquímica do sangue

(...)

Troca, estranhamento e a saudade incorporada em “Carta:

esqueço-te com a terna complacência do silêncio  
habitual das horas no seu movimento  
e no entanto restou um perfume quase imperceptível  
do olhar por uma vez aceite  
em mim, um olhar que julguei  
fosse o meu amor, a ilusão  
de um gesto que olhamos como  
se nos pertencesse e no entanto  
nos é alheio  
Eu havia contribuído integralmente  
A terra foi por um instante pura  
através do teu corpo plástico e pausado.  
 

Remedios VaroEm, “Um poema”, o poema é entrevisto como um ato evanescente de devoção:

“Um poema. No sentido da luz,/ na direcção do vento. Como os nomes/ que são o culto ritual do coração./ Como um signo - que se deseja eterno/ e não é mais que tempo.”

O amante, como efêmera visão em “Eurídice”, “Último poema possivelmente de amor” e “Canção”:

“(...)em teu sorriso/ vi a blusa simples  o teu ar tangível/ frágil/ como estávamos próximos e o tempo era breve/ ali”

“(...) tu/ única para quem fui   adeus    o homem sem comédia”

“palácio que esqueci/ teu corpo já estrangeiro/ no nome tão distante/ felino ainda na noite /   / triste como um rio/ sereno como as pontes”

Recuperam-se, na obra de Manuel, as expressões criadas por Herberto Helder no texto de prefácio a um livro de António José Forte e que J. Cândido Martins destaca: “As expressões fogosidade destrutiva e empenhamento regenerador, sintetizando admiravelmente a ambivalência da carnavalização surrealista (...)”:

As tuas mãos - ponte para o deserto/ como um perdido farol de vegetais marítimo perante as ruínas de um arco triunfal - / desfazem-se numa lenta poeira de saudade/ e são a perfeita indicação topográfica de meu quotidiano reencontro com a morte/  / porque tu és o meu clássico sentido de aventura/ votado à morte/ proposto ao mar/ (...)

Neste mesmo poema, “A proscrição do amor”, vem ao mesmo tempo um imperativo iconoclasta da destruição dos Deuses do panteão egípcio:

A proscrição do amor

ATENÇÃO:                       aqui:- Heliópolis

DESTRUAMOS MINUCIOSAMENTE OS DEUSES STOP

Estes são os sentidos: petrificar os sentidos.

As tuas mãos - ponte para o deserto  
como um perdido farol de vegetais marítimo  
perante as ruínas de um arco triunfal -  
desfazem-se numa lenta poeira de saudade  
e são a perfeita indicação topográfica de meu quotidiano reencontro com a morte  
porque tu és o meu clássico sentido de aventura  
votado à morte  
proposto ao mar (...)

Poema que traz versos representados pelo signo da divisão: “(...)mas não este fim inglório e suburbano(...)”, “(...) um suicídio sem música/ uma aglutinação do riso (...)” e “é preciso terminar com os mortos pelo eco/ do meu último juramento a proscrição do amor”.

Manuel veste aqui a máscara de Seth, como veste, neste mesmo livro, as máscaras de Ísis e de Osíris, mais nítidas, em outros poemas.

No “Dicionário de Deuses e demônios”, de Manfred Lurker, no verbete Seth temos:

“Seth: O deus sombrio do antigo panteão egípcio. Como senhor do deserto, ele é o adversário de Osíris, o deus da vegetação, e a briga entre os dois irmãos reflete a luta permanente entre estes dois aspectos da natureza. Por ter matado o irmão, Seth passou a ser encarado posteriormente como incorporação do mal (...)

Seth tinha um aspecto positivo, aparecendo como o parceiro, no Alto Egito, do deus tutelar do Baixo Egito Hórus. De pé na proa do barco do sol, Seth luta contra a serpente Apophis.”

O pólo regenerador, o automatismo e a viagem da inocência desesperada

Depois, não há mais símbolo, há magia direta; mar e vento; aventura, no capítulo “regresso ao oriente”:

“Ternura, erva branca/ Ternura, desespero, erva branca/ (...) / Partir é renascer inteiramente/ Extensos fogos sobre o Oceano/ expostos à análise dos aventureiros/ reconduzem a esperança/ à interpretação dos signos/ sob o céu maleável da beleza/ O amor não é um símbolo/ O amor não é natural/ O amor não é felicidade/ O amor não é sofrimento/ O amor é uma arte mágica./ (...)”

“Vou descer em busca da Kabala/ e reaparecer demóniorritmo entre campas/(...)/Areia esparsa sobre o papel branco/ - sinal de Sol, Nuvem, Mar e Vento./ Areia.”

A velocidade também é buscada como uma forma de escrita da inocência, sentido principal dos momentos de defesa de uma escrita automática, pela qual encontrar-se-ia o que é próprio de cada um, como neste trecho de “O asteróide em fuga” (um meta-automatismo?):

Penetra a filigrana dos nervos  
o olhar desarmados dos objetos  
ameaçador, gelado de penumbra
 
com um ruído convulso e persistente  
de facas, de vidros, de engrenagens

Impõe-se uma ultrapassagem aérea da conquista  
    a dobragem do medo  
para o assalto da estratosfera líquida  
aonde o movimento é amplo e de vertigem -

cada centímetro cúbico da noite  
se adquire no precipício do jogo  
com as palavras decompostas  livres   propulsoras  
lubrificadoras de ossos   vorazes

no tempo permanente  
o exercício extremo do limite  
amplifica os ângulos  
destrói as máquinas antigas  
propõe a celeridade como estilo  
no regresso possível à pureza dos nomes

Deixa correr célere a pena sobre o papel branco e gelado  
semeados de gotículas azuis que são palavras  
umas a seguir às outras velozmente  
quase nem refreadas

(...)

deixa que célere voa o pensamento  
porque irás indubitavelmente infantil  
encontrar o teu modo inevitável de dizer as coisas”

Mais uma vez as naus, o sagrado e “esta febre de Além, que me consome”

Discorrendo a respeito do importante rito do barco de São Benedito, “festa religiosa onde ocorre o barco, sem que o santo seja protetor dos navegantes e viaje nele materialmente” , Câmara Cascudo fala desta procissão marítima e depois de suas raízes:

“Naturalmente a barca simbólica veio de Portugal, ligada ao culto popular dos oragos protetores de viagens. Outrora, todos os deuses dedicados à navegação tinham festas parecidas e recebiam promessas e ofertas. O homem quase nada mudou do lado de dentro.

A deusa egípcia Ísis tinha na sua evocação de protetora das jornadas marítimas, o título de Pelágia e na sua procissão aparecia a barca arrastada pelos devotos, especialmente na ilha de Faros, tão fiel à deusa que esta também se chamaria Faria. E, como se sabe, a origem do “farol”, por ter sido aceso na ilha de Faros, perto de Alexandria, o mais antigo de que há notícia no mundo.”

Quanto a esta tradição portuguesa da bipolaridade das Descobertas, tanto dos Mistérios do Divino quanto dos Mistérios da Terra, cito trechos esclarecedores do Prólogo do espantoso livro “Da Serpente à Imaculada”, de Dalila L. Pereira da Costa:

“Para apreender o segredo da pátria portuguesa, mesmo num só fragmento, será permitido começar por vê-la como, telúrica, infernal, oracular, salvífica e ainda limítrofe: como terra de fronteira.

Neste esquema proposto e na referência à sua primeira característica, nossa religião surge já na proto-história, como tópica, revelando uma união inseparável e individualizada, do homem e dos deuses, com a Terra, geograficamente marcada. Nossa mitologia e história sendo também desde logo fundamente condicionada pela nossa geografia.

(...) Mas, se é esta metade telúrica - e ela ainda, descendo às suas entranhas mais fundas, ctónicas - a que dominará o complexo mítico e existencial português, este surgirá desde logo, integrando uma bipolaridade, como união da Terra e do Céu. Hierogamia que por ela singularizará a nossa cosmogonia.

Como terra infernal, ela será votada a partir de seus primórdios, ao culto dos mortos e da fecundidade e ao poder oracular e salvífico, o que lhe é concedido pelas águas, as que em si detêm o conhecimento do futuro e as que também regeneram e purificam.

Remedios VaroAinda e sobretudo, vocação de terra limite, dada pela sua posição e fronteira dum Continente, sobre um abismo, o Mar Tenebroso, o das águas primordiais, da Noite, do Caos, dos monstros e do país dos mortos, ou Ilha dos Santos. Assim seus heróis dos que a mais marcaram na sua história ou lenda primitiva e ainda actual, serão Hércules, Ulisses e Orfeu: aqueles que desceram aos Infernos, o reino das trevas, dos mortos, da profecia e da regeneração.

(...) E para a nação portuguesa, marcando seu tempo sagrado por excelência: porque nos séculos XV e XVI, o homem vive concretamente o mito, realizando-o como rito, pela Descoberta.

(...) Como limite, junto a um território ignoto ou interdito, perigoso, defendido pela água, as trevas e os monstros inominados, Portugal teria em Sagres o ponto máximo, abruptamente cortado em falésia, que marcará o fim do mundo: ponto onde se encontra a terra dos vivos e a terra dos mortos, o conhecido e o desconhecido, este mundo e o Outro Mundo”.

Após este trecho, a autora fala das origens religiosas em Portugal e discorre sobre as raízes religiosas da Saudade (a melhor manifestação, criação dos portugueses, segundo ela), substancialmente expressa na poesia, em poetas como Camões, Frei Agostinho da Cruz e Teixeira de Pascoaes, “três dos maiores poetas portugueses que, sendo também dos maiores detentores e cantores do segredo da saudade, por si revelarão que aqui na terra portuguesa, foi pela saudade que esse caminho entre Terra e Céu, ou assunção da Terra, seria primeiro aberto, e possível de ser percorrido, nacionalmente pelo homem.”

Cesariny tem o poeta Pascoaes em mais alta conta do que o próprio Pessoa, conforme entevista recente dada a um jornal português.

Pascoaes em “Regresso ao Paraíso”, na contagem das almas que entram no portão do Inferno, vê almas de poetas que: “(...) tiveram a audácia de fazer/ Falar a muda Esfinge;/ Que interrogaram Deuses e Fantasmas,/ E comeram o fruto proibido/ Da árvore do Mistério. (...)”

As descobertas do além-mar, véus afastados do corpo do mundo, busca do divino, como no poema “Ocidente” em “Mensagem” de Fernando Pessoa:

Com as duas mãos - o Acto e o Destino -  
Desvendámos. No mesmo, ao céu  
Uma ergue o facho trêmulo e divino  
E outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia  
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,  
Foi alma a Ciência e corpo a Ousadia  
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal  
A mão que ergueu o facho que luziu,  
Foi Deus a alma e o corpo Portugal  
Da mão que o conduziu.

Em “Horizonte”, outro poema de “Mensagem”, o sonho de abraçar o além; a fronteira estranha, renovadora:

O sonho é ver formas invisíveis  
Da distância imprecisa, e, com sensíveis  
Movimentos da esprança e da vontade,  
Buscar a linha fria do horizonte  
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -  
Os beijos merecidos da Verdade.

Em todo o capítulo “O rosto de Ísis”, a divindade é percebida num processo de “possessão sensual”, assim como Lúcio Vaz, caminha no fio do alento constante do Invisível, que é quase um personagem na novela “A Confissão de Lúcio”, tal a densidade atmosférica de sua presença. “A confissão de Lúcio” de Mário de Sá-Carneiro é também, como bem definiu Fernando Cabral Martins, “uma ficção do afeto como símbolo do conhecimento.”

Mário de Sá-Carneiro, autor cuja maior parte da obra em prosa, somando-se aí os contos de “Céu em fogo” , é uma meditação sobre o Invisível e o Mistério.

O rosto de Ísis

Seu rosto viera da sombra  
Seu rosto talhado em ônix  
puro e fragrante   puro e nobre    puro  
 e máscara-indissolúvel

entrevira-O nos precipícios aonde me levara  
a ambição -  
e rastejei com Ele gravado no peito  
todas as grandes cidades do mundo

as letras que aprendi     os Sinais  
os gestos que multiplicaram as plantas  
ressuscitaram os corpos  
e fizeram oscilar a cúpula celeste  
- não eram meus. Provinham  
de Seu puro e nobilíssimo rosto.

talhei com Ele a proa das galeras  
desenhei-O n’areia  
caminhei com Ele pregado como cravos  
nas vértebras

o rosto era o deserto  
e o deserto o nostálgico canto árabe

cada ruído ou forma era Ele

viera nítido das faldas do Himalaia  
contornara a Índia e lançara-se no Egipto  
directo ao coração da vida

era o meu próprio rosto  
 - e esqueci-O . Vive em mim   agora  
como a DEUSA; outro corpo pede  
outra memória

simplesmente cada manhã é o círio  
que Lhe rende preito

cada pedra Seu pedestal

e o meu espírito  
Seu véu sagrado

(...)

Ainda no “Dicionário de mitos literários”, no verbete Ísis, é citado “O asno de ouro” de Apuleu:

“O próprio ato de iniciação representa uma morte voluntária e uma salvação obtida por graça”. E de volta ao texto de Ann-Déborah Levy: “o desvendamento da estátua de Ísis era a recompensa suprema dos iniciados na Antiguidade”, que mais tarde cita: “Em “A imagem velada de Saïs”, Schiller opõe a seu herói a advertência da hierofante: “...Nenhum mortal”/ diz ela/, Remove o véu antes que eu mesma o tenha feito;/ E seja quem for que com a mão profana e culpada/ Levante antes do permitido esse véu santo e intocável,/ Esse alguém” ... diz a deusa... “Esse alguém...?”

“Vê a verdade”.

Ao transgredir tal proibição, o herói sofre um castigo que vai além daquele aplicado ao Lucius de Apuleu: não tarda a levar seu segredo para o túmulo, e o leitor fica sem conhecê-lo. Após a redenção e o júbilo na luz da divindade, a fusão e incorporação na Criação, como no último poema:

Ignorado e Sepulto no Silêncio do rio  
desfeito e absorvido por ondinas  
serei quando passar o fundo do navio  
o Sortilégio das águas sibilinas

“Entre o Fruto Santo e a Obra Carnal; a Ponderação”

O homem alquímico cala, preserva o último nome; a busca do que não acolhe representação, porque não é passível de domínio: o Invisível (no qual pôde inserir um gesto, uma palavra, mas, jamais adivinhar a cadeia entre uma conseqüência e outra).

Vigília humílima e atenta perante o que se sente mas jamais se toma posse, porque não é do domínio humano, é a Graça; liberdade suprema, divina, recurso final (e mágico em sua concatenação) de Justiça. 

Mauro Jorge Santos (Brasil). Poeta e ensaísta. Autor de Casa de V(er)aneio e Cobra Coral (1996) e Cão sem rosto do lado B do horizonte (2003). Contato: drplirtz@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México).

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