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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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Portugal e Manuel de Castro: a viagem interior ao além-mar e além-real Mauro Jorge Santos
E
a nossa grande Raça partirá em busca de uma índia nova , que não existe
no espaço, em naus que são construídas “daquilo de que os sonhos são
feitos”. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos
navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente. Fernando Pessoa
Assim, o material com o qual
trabalho é aquele contido nos livros: Estrela rutilante, de Manuel de
Castro (cópia manuscrita); “Edoi Lelia Doura” - Vozes comunicantes da
poesia moderna portuguesa (antologia organizada por Herberto Helder) e
“Teoria da paródia surrealista”, de J. Cândido Martins. Agradeço muito à Professora
Isolete Alves pela revisão do meu texto. Tomei contato com a poesia de
Manuel de Castro através da obra organizada por H. Helder, da qual constam
referências não só sobre o Café Gelo, situado no bairro do Rossio, em
Lisboa, como também sobre o poeta e os amigos com os quais lá se reunia,
entre estes o próprio Herberto Helder, Antonio José Forte, Helder Macedo,
João Rodrigues, Virgílio Martinho, Luís Pestana, José Carlos Gonzalez,
João Fernandes, Zanaga, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Manuel de Lima,
Fernando Saldanha da Gama, Manuel Crespo, José Manuel Simões, Raul Leal,
Goulart Nogueira, Ernesto Sampaio, Luiz Pacheco, António Gancho e Mário
Cesariny. Um artigo de Antonio José
Forte: “Breve Notícia, Breve Elogio do Grupo do Café Gelo”, publicado no Jornal de Letras, no
189, fala sobre o Grupo. Na Web, umas poucas informações
disponibilizadas referem-se ao Grupo como sendo “ o segundo fôlego do
grupo surrealista” (Vasco de Castro); num site sobre o pintor João
Vieira, um dos artistas plásticos do Grupo Café Gelo, um pequeno texto faz
referência ao Grupo. Reproduzo aqui um trecho do mesmo: “Deste grupo
podemos dizer que nunca terá sido formalmente desfeito, mantendo-se ainda
hoje o mesmo espírito de amizade e colaboração entre os seus membros que
existia na altura”; numa resenha sobre trabalhos de Henrique Tavares,
outro pintor do Grupo, é mencionado o “legendário ‘anti-grupo’ do
Café Gelo, em Lisboa “; um site sobre Benjamin Marques, pintor, também
membro do Grupo, o Grupo Gelo é considerado como sendo a “alta sociedade
dos surrealistas dissidentes”. Herberto Helder escreveu sobre
Manuel de Castro: “Nasceu em Lisboa em 1934, e aí morreu. Uma autodestruição
sistemática, premeditada, conduziu-o à morte prematura em 1971”. “A
ultrapassagem de um certo limite é (...) uma mudança de situação, nunca
uma conseqüência” escreveu ele algures quatro anos antes de “mudar”.
Publicou Paralelo W (1958) e A estrela rutilante (s/d, 1960). Existem alguns textos seus, a maior
parte de circunstância, espalhado por revistas e jornais”. Não há quaisquer informações
sobre possíveis reedições da obra de Manuel de Castro, a não ser sobre
os 11 poemas que constam da antologia publicada por H. Helder. Quanto ao poeta ser, ou não,
surrealista, creio que as palavras de Cesariny deram uma dimensão exata do
que seria isto: “Pode-se ser surrealista sem ter lido Breton. Pode-se ler
Breton e não ser surrealista. Pode-se ser surrealista e não se ser,
realmente, mais nada. Pode-se não ser surrealista e prestar-se com isso
excelente serviço a todos e ao surrealismo em especial.” Focarei este artigo
principalmente nas relações do invisível, do mágico e do sagrado na obra
de Manuel de Castro. O liame das palavras
Na obra de Manuel há uma oscilação
entre o fascínio e o cansaço do invisível, o mistério participa desde o
título do segundo livro: “A estrela rutilante”, nome também dado em
algumas traduções do tarô de Thot ao arcano 17. Este contraste em relação ao
cansaço e ao fascínio do mistério da vida é também notado no trecho
inicial deste belíssimo poema em prosa, “A história das palavras”, de
Almada Negreiros, que deixa mais claro o trajeto de “A estrela
rutilante”: A história das palavras
As mulheres e os homens estavam espalhados pela
Terra. Uns estavam maravilhados, outros tinham se cansado. Os que estavam
maravilhados abriam a boca, os que tinham se cansado também abriam a boca. Houve um homem sozinho que se pôs
a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que
estavam cansadas. As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz
de cada um - mais luz, alegres - menos luz, tristes. O homem sozinho ficou a pensar nesta diferença.
Para não esquecer, fez uns sinais numa pedra. Este homem sozinho era da minha raça - era um Egípcio! Os sinais que ele gravou na pedra para medir a luz
por dentro das pessoas, chamaram-se hieróglifos. Mais tarde veio outro homem sozinho que tornou estes
sinais ainda mais fáceis. Fez vinte e dois sinais que bastavam para todas
as combinações que há ao Sol. Este homem sozinho era da minha raça - era um Fenício. Cada um dos vinte e dois sinais era uma letra. Cada
combinação de letras era uma palavra. Vinte e dois são os sinais, as
letras, como vinte e dois são os arcanos maiores do Tarô. Letras que
formam os nomes e as palavras secretas de que Manuel tanto fala ? Como neste
trecho de Scorpius: Falo-vos exemplarmente do éter Um único livro detém a Verdade UM ÚNICO LIVRO Onde está o animal de diamante Sendo o nome deste capítulo (último)
“O rosto de Ísis” seria a palavra misteriosa em “Scorpius” aquela
usada por Ísis para curar Hórus de uma picada de escorpião? Em “Pert Kheru” (poema cujo
título, ao que tudo indica, estaria relacionado com magia egípcia e/ou
“O livro dos mortos do antigo Egito”), voltamos ao “livro”, ao
“navio” e ao “diamante”: desenhadas com giz no alcatrão das ruas o volume
o peso a cor o som Em “Ritual”, o livro também
figura como objeto mágico: Ritual vive nos livros o espírito dos mortos Em “Rio”, um dos poemas de
amor, de Manuel, do capítulo “A terceira viagem”, tudo é fusão dos
corpos, contemplação e conquista: Aqui, no lume, na fabricação íntima dos astros (...) o rio dilata-se Luminosa na tempestade de figuras geométricas tu
Dalila L. Pereira da Costa, em
seu livro “sobre as raízes arcaicas da saudade”: “Da Serpente à
Imaculada”, escreveu: “Com nossa vocação salvífica
e ainda nosso esquema cosmogónico, se relacionará um dos mais marcantes
traços de nossa vivência religiosa: a destruição periódica da História.
Povo criador por excelência de História, entre todos os povos do Ocidente,
uma incessante sede de regeneração, tudo começando por destruir, para
recomeçar tudo de novo pelo princípio ab
initio, o levará ciclicamente à abolição da sua memória e realidade
histórica” . Assim como as crianças judias não
podem receber um nome com o mesmo valor numérico de palavras como
“morte”, em hebraico, e a criança cigana, se estiver muito doente, é
batizada novamente, com outro nome, na hipótese do nome e a essência da
criança não se harmonizarem, no poema “Paralelo
W”, o “nome diferente” é uma tentativa de recomeço, condição
de entrada, de iniciação: (...) No entanto prefiro-me veneziano rápido os navios partem este é o tempo em que morrem os príncipes manchas no céu da noite Sobre os cadáveres assim incorruptíveis Em “Paralelo W” há indícios de uma analogia de uma dupla iniciação;
a iniciação da busca pelo alheio nas jornadas marítimas, e a busca por si
mesmo na iniciação nos cultos de Ísis. No “Dicionário de mitos literários”,
organizado por Pierre Brunel, consta no verbete Ísis, escrito por Ann-Déborah
Levy, que “Sob influência grega, o culto de Ísis sofre uma renovação
no Egito ptolomaico: as rainhas da dinastia dos lágidas identificam-se com
a deusa, e Cleópatra faz-se chamar de Nea
Ísis. A divindade é então considerada uma alegoria do Egito como um
todo, e não mais somente do vale do Nilo. É este, sem dúvida, o
significado de uma inscrição no templo de Dendará, onde se diz que ela
nasceu “sob a forma de uma mulher negra e vermelha” - o negro sendo a
cor do limo, e o vermelho designando o deserto.” O nome, a palavra, o verbo
propiciam a organização de mundo, dão origem a uma arquitetura
quintessencial, o escrito se insere e muda o concreto, a força do irreal,
como disse Herberto Helder da poesia: “É irreal, e vive.” Lugar mágico: mundo, amor,
viagem
A Estrela, arcano 17 do tarô,
uma preparação e método para afiar o gume dos olhos, para o vácuo áspero
da Noite. Os olhos, nesta estrela
rutilante, representam o arcano fundamental da esperança. Esta, é vista
aqui como a vê o teólogo Raimon Panikkar, como: “...não
pertencente ao domínio do futuro, mas sim, ao do invisível.”. A Estrela, arcano maior do tarô,
também conhecida como “A estrela rutilante”, a mais bela carta na
maioria dos tarôs, é tema do poema abaixo, de Rodrigo de Haro, colocado
aqui como ilustração, poema este que, como todos os demais que escreveu,
traz a marca de sua rara intimidade com o maravilhoso: Tema do Arcano da Estrela São ânforas gêmeas queridas na farmácia Boa Estrela. Do prumo. Duas ânforas, sob o telhado da estrela. (Rodrigo de Haro) Em “A estrela rutilante”,
segundo livro de Manuel de Castro, livro perpassado por liame mágico na
imagética; vigília devotada ao substantivo-invisível - o corpo atento,
poroso, às metamorfoses da atmosfera, ciclos de máscaras e fantasmas como
num quadro de Remédios Varo, como em “o jovem mágico” de Cesariny: “.../eu sei atravessar a fronteira das coisas/...”, uma luz que
alheia-se, viaja como um rio que a noite une: “a noite é um magnífico coral na noite”, escreveu Manuel. Equação
oculta, ferida decifrada do dia. Kierkegaard em “Temor e
tremor” fala do poeta como sendo aquele que guarda, um guardião do que é
precioso. Precioso, na obra de Manuel de Castro, traduz-se numa sabedoria
que, abraçada ao mágico, escreve no poema “A ERC JOSAMU JOVE” uma espécie
de invenção e tomada de seu próprio “lugar”: A ERC JOSAMU JOVE Nós os intocáveis, os imundos, recusamos asa branca na varanda O poema se adequaria bem ao capítulo
“Poemas de combate”, do livro A
estrela rutilante. “Pêndulo” (um dos “poemas de combate”) torna
mais nítida a senda escolhida - a viagem: um rosto mercador
um rosto vagabundo seguindo-se depois em “Situação
do terceiro grau” meu nome é
A ESTRELA RUTILANTE Os nomes dos mortos, das horas,
das estátuas, dos dias, os esquecidos significados relembrados, o amor como
caminho lírico de transformação (sangria, costura e coagulação dos símbolos)
, pois: o meu amor é a aquisição de uma técnica (...) o meu amor é a correcta magia dos sons o meu amor é uma trovoada nas margens da noite e é ainda a carcassa úmida dos barcos (...) No olhar do ser amado está “o
caminho para a livre conquista de um nome” e uma direção; “Situado
na cadência dos brilhos marítimos”; uma navegação, uma descoberta:
com o tacto na cabeça transfuso conquistei no teu corpo a maneira real E a visão fraturada do
infinito: “o amor é um ritmo sem
cronologia e sem perdão/ e a presença da claridade lunar/ a tentativa do
grande espaço aberto”. Cartas, mapas, meios de orientação,
do rito dos amantes, um oculto nome que enlaça a amante, amante-ar, amante-água,
amante fogo, amante-terra, amante-éter que a absorve como num sonho. A espelhada música da
proximidade e a transmutação consumada do casal alquímico em “Ainda um
poema de amor”: rosto igual
sereno (...) Troca, estranhamento e a saudade
incorporada em “Carta: esqueço-te com a terna complacência do silêncio
“Um poema. No sentido da luz,/
na direcção do vento. Como os nomes/ que são o culto ritual do coração./
Como um signo - que se deseja eterno/ e não é mais que tempo.” O amante, como efêmera visão
em “Eurídice”, “Último poema possivelmente de amor” e “Canção”:
“(...)em teu sorriso/ vi a blusa simples
o teu ar tangível/ frágil/ como estávamos próximos e o tempo era
breve/ ali” “(...) tu/ única para quem fui
adeus o
homem sem comédia” “palácio que esqueci/ teu
corpo já estrangeiro/ no nome tão distante/ felino ainda na noite /
/ triste como um rio/ sereno como as pontes” Recuperam-se, na obra de Manuel,
as expressões criadas por Herberto Helder no texto de prefácio a um livro
de António José Forte e que J. Cândido Martins destaca: “As expressões
fogosidade destrutiva e empenhamento
regenerador, sintetizando admiravelmente a ambivalência da carnavalização
surrealista (...)”: As tuas mãos - ponte para o deserto/ como um
perdido farol de vegetais marítimo perante as ruínas de um arco triunfal -
/ desfazem-se numa lenta poeira de saudade/ e são a perfeita indicação
topográfica de meu quotidiano reencontro com a morte/ / porque tu és o meu clássico sentido de aventura/ votado
à morte/ proposto ao mar/ (...) Neste mesmo poema, “A proscrição
do amor”, vem ao mesmo tempo um imperativo iconoclasta da destruição dos
Deuses do panteão egípcio: A proscrição do amor ATENÇÃO:
aqui:-
Heliópolis DESTRUAMOS MINUCIOSAMENTE OS DEUSES STOP Estes são os sentidos:
petrificar os sentidos. As tuas mãos - ponte para o deserto Poema que traz versos representados pelo signo da divisão:
“(...)mas não este fim inglório e suburbano(...)”, “(...) um suicídio
sem música/ uma aglutinação do riso (...)” e “é preciso terminar com
os mortos pelo eco/ do meu último juramento a proscrição do amor”. Manuel veste aqui a máscara de
Seth, como veste, neste mesmo livro, as máscaras de Ísis e de Osíris,
mais nítidas, em outros poemas. No “Dicionário de Deuses e
demônios”, de Manfred Lurker, no verbete Seth temos: “Seth: O deus sombrio do
antigo panteão egípcio. Como senhor do deserto, ele é o adversário de Osíris,
o deus da vegetação, e a briga entre os dois irmãos reflete a luta
permanente entre estes dois aspectos da natureza. Por ter matado o irmão,
Seth passou a ser encarado posteriormente como incorporação do mal (...) Seth tinha um aspecto positivo,
aparecendo como o parceiro, no Alto Egito, do deus tutelar do Baixo Egito Hórus.
De pé na proa do barco do sol, Seth luta contra a serpente Apophis.” O pólo regenerador, o
automatismo e a viagem da inocência desesperada Depois, não há mais símbolo,
há magia direta; mar e vento; aventura, no capítulo “regresso ao
oriente”: “Ternura, erva branca/ Ternura, desespero, erva
branca/ (...) / Partir é renascer inteiramente/ Extensos fogos sobre o
Oceano/ expostos à análise dos aventureiros/ reconduzem a esperança/ à
interpretação dos signos/ sob o céu maleável da beleza/ O amor não é
um símbolo/ O amor não é natural/ O amor não é felicidade/ O amor não
é sofrimento/ O amor é uma arte mágica./ (...)” “Vou descer em busca da Kabala/ e reaparecer demóniorritmo
entre campas/(...)/Areia esparsa sobre o papel branco/ - sinal de Sol,
Nuvem, Mar e Vento./ Areia.” A velocidade também é buscada
como uma forma de escrita da inocência, sentido principal dos momentos de
defesa de uma escrita automática, pela qual encontrar-se-ia o que é próprio
de cada um, como neste trecho de “O asteróide em fuga” (um
meta-automatismo?): Penetra a filigrana dos nervos Impõe-se uma ultrapassagem aérea
da conquista cada centímetro cúbico da noite no tempo permanente Deixa correr célere a pena sobre o papel branco e
gelado (...) deixa que célere voa o pensamento Mais uma vez as naus, o sagrado
e “esta febre de Além, que me consome” Discorrendo a respeito do
importante rito do barco de São Benedito, “festa religiosa onde ocorre o
barco, sem que o santo seja protetor dos navegantes e viaje nele
materialmente” , Câmara Cascudo fala desta procissão marítima e depois
de suas raízes: “Naturalmente a barca simbólica
veio de Portugal, ligada ao culto popular dos oragos protetores de viagens.
Outrora, todos os deuses dedicados à navegação tinham festas parecidas e
recebiam promessas e ofertas. O homem quase nada mudou do lado de dentro. A deusa egípcia Ísis tinha na
sua evocação de protetora das jornadas marítimas, o título de Pelágia e
na sua procissão aparecia a barca arrastada pelos devotos, especialmente na
ilha de Faros, tão fiel à deusa que esta também se chamaria Faria. E,
como se sabe, a origem do “farol”, por ter sido aceso na ilha de Faros,
perto de Alexandria, o mais antigo de que há notícia no mundo.” Quanto a esta tradição
portuguesa da bipolaridade das Descobertas, tanto dos Mistérios do Divino
quanto dos Mistérios da Terra, cito trechos esclarecedores do Prólogo do
espantoso livro “Da Serpente à Imaculada”, de Dalila L. Pereira da
Costa: “Para apreender o segredo da pátria
portuguesa, mesmo num só fragmento, será permitido começar por vê-la
como, telúrica, infernal, oracular, salvífica e ainda limítrofe: como
terra de fronteira. Neste esquema proposto e na
referência à sua primeira característica, nossa religião surge já na
proto-história, como tópica, revelando uma união inseparável e
individualizada, do homem e dos deuses, com a Terra, geograficamente
marcada. Nossa mitologia e história sendo também desde logo fundamente
condicionada pela nossa geografia. (...) Mas, se é esta metade telúrica
- e ela ainda, descendo às suas entranhas mais fundas, ctónicas - a que
dominará o complexo mítico e existencial português, este surgirá desde
logo, integrando uma bipolaridade, como união da Terra e do Céu.
Hierogamia que por ela singularizará a nossa cosmogonia. Como terra infernal, ela será
votada a partir de seus primórdios, ao culto dos mortos e da fecundidade e
ao poder oracular e salvífico, o que lhe é concedido pelas águas, as que
em si detêm o conhecimento do futuro e as que também regeneram e
purificam.
(...) E para a nação
portuguesa, marcando seu tempo sagrado por excelência: porque nos séculos
XV e XVI, o homem vive concretamente o mito, realizando-o como rito, pela
Descoberta. (...) Como limite, junto a um
território ignoto ou interdito, perigoso, defendido pela água, as trevas e
os monstros inominados, Portugal teria em Sagres o ponto máximo,
abruptamente cortado em falésia, que marcará o fim do mundo: ponto onde se
encontra a terra dos vivos e a terra dos mortos, o conhecido e o
desconhecido, este mundo e o Outro Mundo”. Após este trecho, a autora fala
das origens religiosas em Portugal e discorre sobre as raízes religiosas da
Saudade (a melhor manifestação, criação dos portugueses, segundo ela),
substancialmente expressa na poesia, em poetas como Camões, Frei Agostinho
da Cruz e Teixeira de Pascoaes, “três dos maiores poetas portugueses que,
sendo também dos maiores detentores e cantores do segredo da saudade, por
si revelarão que aqui na terra portuguesa, foi pela saudade que esse
caminho entre Terra e Céu, ou assunção da Terra, seria primeiro aberto, e
possível de ser percorrido, nacionalmente pelo homem.” Cesariny tem o poeta Pascoaes em
mais alta conta do que o próprio Pessoa, conforme entevista recente dada a
um jornal português. Pascoaes em “Regresso ao Paraíso”,
na contagem das almas que entram no portão do Inferno, vê almas de poetas
que: “(...) tiveram a audácia de fazer/ Falar a muda Esfinge;/ Que
interrogaram Deuses e Fantasmas,/ E comeram o fruto proibido/ Da árvore do
Mistério. (...)” As descobertas do além-mar, véus
afastados do corpo do mundo, busca do divino, como no poema “Ocidente”
em “Mensagem” de Fernando Pessoa: Com as duas mãos - o Acto e o
Destino - Fosse a hora que haver ou a que havia Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal Em “Horizonte”, outro poema
de “Mensagem”, o sonho de abraçar o além; a fronteira estranha,
renovadora: O sonho é ver formas invisíveis Em todo o capítulo “O rosto
de Ísis”, a divindade é percebida num processo de “possessão
sensual”, assim como Lúcio Vaz, caminha no fio do alento constante do
Invisível, que é quase um personagem na novela “A Confissão de Lúcio”,
tal a densidade atmosférica de sua presença. “A confissão de Lúcio”
de Mário de Sá-Carneiro é também, como bem definiu Fernando Cabral
Martins, “uma ficção do afeto como símbolo do conhecimento.” Mário de Sá-Carneiro, autor
cuja maior parte da obra em prosa, somando-se aí os contos de “Céu em
fogo” , é uma meditação sobre o Invisível e o Mistério. O rosto de Ísis Seu rosto viera da sombra entrevira-O nos precipícios aonde me levara as letras que aprendi os Sinais talhei com Ele a proa das galeras o rosto era o deserto cada ruído ou forma era Ele viera nítido das faldas do Himalaia era o meu próprio rosto simplesmente cada manhã é o círio cada pedra Seu pedestal e o meu espírito (...) Ainda no “Dicionário de mitos
literários”, no verbete Ísis, é citado “O asno de ouro” de Apuleu: “O próprio ato de iniciação
representa uma morte voluntária e uma salvação obtida por graça”. E de
volta ao texto de Ann-Déborah Levy: “o desvendamento da estátua de Ísis
era a recompensa suprema dos iniciados na Antiguidade”, que mais tarde
cita: “Em “A imagem velada de Saïs”, Schiller opõe a seu herói a
advertência da hierofante: “...Nenhum
mortal”/ diz ela/, Remove o véu antes que eu mesma o tenha feito;/ E seja
quem for que com a mão profana e culpada/ Levante antes do permitido esse véu
santo e intocável,/ Esse alguém” ... diz a deusa... “Esse alguém...?” “Vê a verdade”. Ao transgredir tal proibição,
o herói sofre um castigo que vai além daquele aplicado ao Lucius de
Apuleu: não tarda a levar seu segredo para o túmulo, e o leitor fica sem
conhecê-lo. Após a redenção e o júbilo na luz da divindade, a fusão e
incorporação na Criação, como no último poema: Ignorado e Sepulto no Silêncio
do rio “Entre
o Fruto Santo e a Obra Carnal; a Ponderação” O homem alquímico cala,
preserva o último nome; a busca do que não acolhe representação, porque
não é passível de domínio: o Invisível (no qual pôde inserir um gesto,
uma palavra, mas, jamais adivinhar a cadeia entre uma conseqüência e
outra). Vigília humílima e atenta perante o que se sente mas jamais se toma posse, porque não é do domínio humano, é a Graça; liberdade suprema, divina, recurso final (e mágico em sua concatenação) de Justiça. |
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Mauro Jorge Santos (Brasil). Poeta e ensaísta. Autor de Casa de V(er)aneio e Cobra Coral (1996) e Cão sem rosto do lado B do horizonte (2003). Contato: drplirtz@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México). |