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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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José Craveirinha: antiquíssimos astros da África Fabrício Carpinejar
O
caldeirão de som e selvageria desencadeou uma das vozes mais ternas da língua
portuguesa. Prêmio Camões de 1991, a mais alta distinção literária do
idioma, Craveirinha foi atleta, jornalista, ativista social sob o pseudônimo
de Mário Vieira e presidente da Associação de Escritores Moçambicanos.
Começou sua atividade literária no jornal O
Brado Africano, atuando depois como jornalista em Notícias, A Tribuna, Notícias
da Beira, O Jornal e a Voz de Mocambique.
Sua estréia na literatura aconteceu com Chigubo (1964). Logo após seu lançamento, conheceu os porões da
repressão e esteve preso de 1965 a 1969.
Natural de Lourenço Marques (Maputo), morreu aos 80 anos em 6 de
fevereiro. Autor de Cantico a un Dio
de Catrame (1966) e Karingana ua
Karingana (1974), sua morte não balançou os obituários, restrita às
parcas linhas desse parágrafo. Craveirinha
é uma espécie de Nicolás Guillen de Moçambique. Como o cubano centenário,
sua poesia nasceu gritada, ricocheteando a voz em munição da miséria.
Dialetos inflamam a garganta a subir alto.
“E seu grito de Mãe é um chiuáia-uáia
de desespero. E o mato desperta em assombrações de lua e o velho batuque
fermenta os espíritos”. Em sua parelha de sons, narra o conflito da
superfície do mundo, opressora, governista e racista (“os botões
amarelos das fardas metálicas”) com as funduras da ancestralidade,
impulsiva e ligada aos clamores da plantação, aos hábitos e à exultação
africana (“os homens desta terra/ dançam as danças do tempo de guerra/
das velhas tribos juntas na margem do rio”). Seu apelo se mistura à denúncia,
à indisposição atávica contra a segregação racial. “E brinquedos
de trapos não se misturam na Munhuana/ com bonecas loiras de sapato e
tudo/ porque os pais arianos rezando nas catedrais/ não deixam,
A
segunda fase da produção de José Craveirinha tem seu apogeu com Maria
(Caminho, 1988), compêndio esplendoroso, maduro e definitivo, que
descreve seus magros anos após a morte da esposa em outubro de 1979.
Não há nada igual e tão perturbador na lírica amorosa. Em
versos livres, sintéticos e arrebatados, fareja-se uma ausência em todo
passo. É como se a ausência estivesse ali, diante dos olhos, carnal e
perfeita, compadecida das imperfeições de quem a chama.
É quase uma elegia, quase um salmo,
algo de intuição romântica e de acabamento contemporâneo.
Apesar de ser um canto fúnebre, uma despedida, é um testemunho de alta
vivacidade e sensualidade sobre “um inusitado casal de namorados já com
netos”. O marido refaz o
trajeto dos dois, começando com o final: a descrição da cena em que ela
vai a um exame no hospital para nunca mais voltar. O livro é dividido em
cinco capítulos. A simplicidade da linguagem segue o despojamento e o
rigor do afeto. Nele, o homem suporta a imensidão da casa, o trabalho
dobrado. Engoma a camisa, demora-se na agulha e chora a clareza da mobília
e das roupas no armário. Tudo sugere a presença da esposa, conhecida
pelos vizinhos e amada pelos filhos, que segurou a barra na época em que
o marido foi preso (“num jipe militar/ lírico algemado”).
O que incomoda Zé não é tanto a falta de Maria,
é descobrir que – sem ela – é ele que falta.
Sem o testemunho da mulher, é como se não vivesse. Se não há
como contar para Maria, seus dias não têm sentido. Ele vivia para narrá-la.
“Mais feliz do que eu/ nossa mútua
ausência/ a ti minha esposa/já não te dói.” Um exemplo é quando
o autor tenta limpar a casa: “Nos primeiros tempos/ como era inábil/
nas minhas mãos/ a viuvez/ da vassoura.”
Quem
espera um livro caudaloso, adjetivado, com floreios e barragem de metáforas,
deve se abaixar na estante. Essa dor aqui é a de olhos enxutos, que só
fala o necessário. E quando fala, cala. De uma caixa de correspondência,
a nostalgia vem à tona e embaralha a respiração: Um Sr. José Craveirinha e Excelentíssima Esposa. Os
atos falhos são reservas de memória.
O luto do moçambicano é sabedoria de conhecer inteiramente uma
pessoa a ponto de desconhecê-la. A convivência não pode abolir a
surpresa. A ironia perpassa o périplo do viúvo, dirimindo resquícios de
sentimentalismo e dando um tom de honestidade ao relato. O sujeito não se
esconde na resignação, porém atua com autocrítica ao rodar as lembranças,
como ao constatar que ela desejava uma mesa maior e que agora sozinho a
mesa sobra. Na metade da
obra, o poema Posfácio assegura a verdadeira insuficiência do narrador
poético: Nostalgias de Maria Capa: Anônimo. Tiragem:
este exemplar.
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Fabrício Carpinejar (Brasil, 1972). Jornalista e poeta. Autor de Um Terno de Pássaros ao Sul (2000) e Biografia de uma árvore (2002). Contato: carpinejar@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México). |