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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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O poder do gesto em Fernando Lemos Maurício Matos
O
gesto traz sempre no rosto Fernando Lemos
Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador,
impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo,
tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de
ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro
de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras
industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma
que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à
procura de coisa melhor. (Lemos: 1994) Analisando a produção dos poetas portugueses emigrados
para o Brasil durante o regime salazarista, Graça Capinha aborda a poesia
de Fernando Lemos, basicamente, sob o ponto de vista (semântico e sintático)
da tensão provocada pelo contraste cultural experienciado pelos emigrados.
Para tanto, a autora partiu da própria poesia de Fernando Lemos e de
entrevistas com o poeta. Se tivesse que procurar uma metáfora para traduzir a
imagem que me ficou do encontro com este poeta, creio que teria de escolher
a imagem do seu atelier, onde me
recebeu com um imenso sol da tarde de Inverno paulista a iluminar, através
da vidraça de uma parede inteira, a profusão complexa de objetos de arte
cobrindo a totalidade do espaço de texturas diversas. De todas as
entrevistas, foi esta a que mais clara e lucidamente se (auto-)debruçou
sobre a complexidade de uma identidade e de uma arte construídas dentro de
um contexto de múltiplas intersecções, ambigüidades e contradições.
(Capinha: 1997) Logo a seguir, a autora cita três versos do o poema “A
linguagem é apenas um processo”, que, para sua análise, evidencia
poeticamente a situação do emigrado: [...] Entrando mal dentro de um Portanto, diz-se o poeta entre dois abismos: um na memória,
outro na realidade; um que o fez, outro que “não foi feito para as [suas]
quedas”, mas que ajuda a fazer, como podemos ler em “Depoimento 1”.
Todavia, não é esta a única possibilidade de análise dos versos. É
evidente que o léxico poético de Fernando Lemos sofrerá profunda influência
de suas atividades como artista plástico. Assim, vemos, segundo a análise
de Graça Capinha, a palavra “quadro” utilizada como metáfora para pátria.
Seguindo o poema, lêem-se ainda os seguintes versos: Letra é um desenho mudo que começa numa ponta e acaba Iniciada em Lisboa, a carreira artística de Fernando Lemos
desenvolve-se, sobretudo, na área da pintura e do desenho. Tem hoje
trabalhos expostos em museus e coleções particulares no Brasil, em
Portugal, Espanha, Suíça, Polônia, França, Estados Unidos, Japão,
Holanda, Argentina. Trabalhou, ou trabalha, também com tapeçaria, pastilha
vidrada, vitrais, azulejos e esculturas em ferro; e ainda é fotógrafo e
poeta. Interessado pela atividade surrealista, participou, em
1952, na exposição realizada na Casa Jalco, que fez escândalo, e onde a
sua pintura e as suas fotografias se impuseram por uma profundidade original
da visão. (Sena, 1983) A Casa Jalco era uma casa de móveis e decorações, na Rua
Ivens, onde, em 05 de janeiro de 1952, foram inauguradas três “Primeiras
exposições individuais”, dos artistas plásticos Fernando de Azevedo,
Vespeira e Fernando Lemos. O evento, de tão celebrado escândalo promovido
no meio intelectual lisboeta de então, ficou mais conhecido, simplesmente,
como a Exposição da Casa Jalco.
A partir de então, a condição de emigrado deu lugar à
de exilado político. Por esta seara, Fernando Lemos militou assiduamente
como colaborador no periódico Portugal
Democrático (1956-1975), o mais significativo veículo de oposição ao
regime salazarista: “Um jornal português não submetido à censura”,
era esta a “vinheta”, presente em cada número, que “assegurava ao
leitor a credibilidade há muito ausente dos jornais [então] publicados em
Portugal” (Santos: 1998). Segundo Gilda Santos, “os artigos encadeados,
seriais, que se estendem por vários números, estabelecendo um pacto de
leitura” seriam uma das constantes do Portugal
Democrático: A série do “rato” (rato = Salazar), com textos de
Jorge de Sena e desenhos/caricaturas de Fernando Lemos teve grande sucesso.
Aliás, no que se refere a ilustrações, os traços de Fernando Lemos em
muito contribuíram para levantar a qualidade gráfica, nem sempre
brilhante, do jornal. (Santos: 1998) Na fotografia, foi na Casa Jalco que fez sua estréia,
quando, além de apresentar 20 trabalhos a óleo, 22 guaches e 29 desenhos,
Fernando Lemos expôs ainda um conjunto de 75 fotografias, resultado de um
percurso iniciado em 1949. Destas, trinta eram retratos de personagens
ativos na cena intelectual portuguesa deste período. “Do escândalo da
exposição, filha do surrealismo recente em Portugal” - diria José-Augusto
França quatro décadas depois - “rezam as crónicas do tempo e a memória
da gente ainda viva.” (França: 1982) Na poesia, Fernando Lemos publicou, em 1953, Teclado
Universal: uma série de quatorze poemas, mais ou menos extensos,
revelando um imaginário esteticamente surrealista. O volume saiu no último
número da segunda série dos Cadernos
de Poesia, veículo de inapagável valor histórico para a poesia
lisboeta nas décadas de quarenta e cinqüenta, sem “quaisquer
compromissos de grupo”, no dizer de Jorge de Sena, seu mais notório
diretor. Em 1963, Teclado Universal
é editado em livro, acrescido ainda de outros 48 poemas. Em 1985, é
reeditado com o título: Cá & Lá,
antecedido de Teclado Universal,
um alentado volume contendo um total de 118 poemas, um prefácio de Jorge de
Sena, um texto de E. M. de Melo e Castro e um poema de Haroldo de Campos,
“Croquis do pintor-poeta”, em homenagem a “o fernando / lemos” que
“escreve com um pincel / de riscos ferinos / não escreve / fere com seu
traço / o papel” (Lemos, 1982). O material fotográfico exposto em 1952 não representava,
todavia, a totalidade da produção realizada em quatro anos. Parte de
material foi apresentada, em exposições individuais ou coletivas, no Rio
de Janeiro (1953), São Paulo (1968), Lisboa (1982), Montreal (1983) e Paris
(1992). De 20 de julho a 9 de outubro de 1994, as fotografias foram expostas
novamente em Lisboa, e reunidas num catálogo individual, composto por 113
peças, das quais mais de 50 % são retratos de pessoas ligadas direta ou
indiretamente à nata da intelectualidade portuguesa de então; e, como em
Portugal proliferam os poetas, são estes os mais fotografados. Segundo
Perfecto E. Cuadrado: No que se refere à produção
do movimento surrealista português [...] haveria que assinalar: [...] o
predomínio ofuscante da poesia sobre os outros géneros literários [...], ao que haveria que acrescentar a pintura
ou poesia-pintura como âmbito de expressão predilecta por parte dos
surrealistas portugueses, e a incursão noutras artes também de especial
interesse para os surrealistas como o cinema ou a fotografia, esta última
com aportações tão notáveis como as de Fernando Lemos. (Cuadrado, 1998) Apesar da linearidade plástica, o catálogo pode, todavia,
sugerir subdivisões temáticas, sendo a primeira e a última compostas por
apenas uma fotografia: como prólogo, “A mão e a faca”; como epílogo,
“Eu”, a imagem reproduzida na capa de uma coletânea intitulada
sugestivamente “Fernando Lemos - À sombra da luz”. (Lemos: 1994) O segundo trabalho do livro registra em tom cuidadosamente
esmaecido o preto e o branco, todavia bem contrastados, de uma belíssima
paisagem, “Rua do Sol ao Rato (minha primeira fotografia)”, cenário
cujo significado Fernando Lemos informa em “Depoimento 1”: “Nasci na
Rua do Sol ao Rato, [...]” (Lemos: 1994), a mesma rua onde renasceria, em
1949, como fotógrafo. Seguem-na mais doze outras paisagens inusitadas,
percebidas mais ou menos sob um ângulo de visão surrealista, ou norteadas
por uma estética que assim podemos aproximadamente definir e exemplificar
no pronunciado contraste, semântico e plástico, de “Coincidência”,
presente ainda nas árvores de “Jardim” e de “Hoje há passarinhos”. A “Luz teimosa”, que atravessa as frestas de duas
portas entreabertas, abre outra seção do catálogo, seguida por “Luz
armada”, “Luz em obras” e etc, cuja temática é explícita no título
destes trabalhos. Em “Nevoeiro de Moledo” e “Manequim do Vespeira”,
vê-se a luz, literalmente, como o foco fotográfico sobre um fundo obscuro:
uma rua margeada por um casario, com postes ao longo, no primeiro caso; no
segundo, o vulto de uma imagem, possivelmente religiosa. Seguem-se a estas,
“Natal do talho” e “Cena esfolada”: fotografias de um açougue, em
que a luz, em contraste acentuado, deixa apenas sugeridas as silhuetas dos
cadáveres dos animais. Tematicamente, a luz é ainda o foco do trabalho,
mas é o quanto, através dela, revelam os corpos, que parece promover a
plasticidade acentuada nestas fotografias; e talvez acrescentasse Manuel
Bandeira: “Sente-se o pintor nas fotografias de Fernando Lemos. Mas
advirta-se: não se trata de todo de um desses fotógrafos que se metem a
pintores, espécie que não aprecio, pois o mais a que chegam é a uma
falsificação da fotografia [...].” (Bandeira: 1994) A parte seguinte, inicia-a o trabalho “Intimidade dos
armazéns do Chiado”. Para além de tudo o que o Chiado pode sugerir neste
título, vemos, provavelmente no interior de um de seus históricos armazéns,
a imagem da cabeça de um manequim sobre uma bancada e, contrastando com a
luz baça que atravessa uma janela muito suja, braços e pernas sintéticos
pendem do teto. O tema é o corpo humano, explorado aos fragmentos, através
de bonecos: sejam estes manequins, modelos de madeira para pintura (“Nu de
ensaio” e “Cena humana”) ou brinquedos de criança (“Hospital de
bonecas”). Pinturas, fotografias e desenhos do corpo humano são
fotografados, persistindo na busca indireta dos corpos, reconhecidos na
produção simbólica de outrem, como em “Mão de sombra”, “Luz do
olhar”, “Banho de sol” ou “Espreitando o quadro de Moniz Pereira”,
que é a fotografia da pintura das costas de uma mulher nua, e peça inicial
de uma série de onze belíssimos nus, anônimos todos, alguns conseguidos
através dos recursos - ou da falta deles, o que naturalmente estimula a
criatividade - da antiga câmera Flexaret. Em “Movimento”, “Nu
lento”, Nudez dança”, “Colagem” e “Gesto emoldurado”, vemos o
produto final de um processo descrito por Fernando Lemos nos seguintes
termos: As experiências feitas na duplicidade da imagem
fotografada, cujos resultados são normalmente considerados como acidente
devido à batida de uma foto sobre outra, foram no nosso caso e aí
expostas, intencionais. A máquina usada na época, uma Flexaret, não era
automática. Isso permitia tirar partido do espaço de um rolo de 12 módulos
de 6 x 6, imprimindo-lhe várias imagens com combinações programadas,
conscientes e, ao final, obter várias dezenas de opções para imprimir cópias
ampliadas de detalhes que se tornavam entidades. Não se trata então de
sobreposição de negativos [...]. (Lemos: 1994)
Após o primeiro impulso do automatismo, [...] as fotos que
estão expostas, passaram também a ser dirigidas, controladas, programadas.
Também nessa época, a colagem, sistema de emprestar a certas imagens já
estabelecidas nalgum suporte a capacidade de adesão a outras sobre outros
suportes, ocupou muito do nosso cuidado nas experiências. E, finalmente, a
ocultação (não confundir com ocultismo) onde, por exemplo, a tinta da
china se derrama coerente, desrespeitando as imagens já impressas, ora
saqueando, ora desmistificando, ora resgatando o universo irónico das
semelhanças e/ou das diferenças, ora na recriatividade de eliminar redundâncias
num retrato, reduzindo-o ao que nele era achado essencial. (Lemos: 1994) A conjugação pronominal do verbo derramar (“a tinta da
china se derrama coerente”) pressupõe a intervenção do acaso; a percepção
desta “coerência”, que pode haver ou não, é o papel do artista, o
“primeiro impulso do automatismo”. Por trás de tudo isto, no caso da
fotografia, a técnica e o senso estético orientam um processo em que as
imagens são “dirigidas, controladas, programadas”. Revela-se, portanto,
associada à escrita automática pela intenção de coletar elementos estéticos
do inconsciente, a busca da essência do retrato através da intervenção,
ainda que mínima, do acaso, processo cujo filtro será o senso crítico do
poeta, do pintor ou do fotógrafo. No dizer de Fernando Lemos, de um
“primeiro impulso de automatismo” deve resultar um mote, a partir do
qual a obra será tecnicamente criada. Uma destas técnicas, a “ocultação”,
consiste em deixar, “consciente[mente] ou tomado como tal”, o acaso
intervir na matéria, para então lapidar o resultado desta intervenção,
obtendo assim um resultado ainda diverso: a recriação da matéria
original, reduzida ao que nela era “achado essencial”. Este processo
pode ser percebido em “Nu de surpresa”, certamente uma das mais
impressionantes fotografias de Fernando Lemos. Deixar que o acaso intervenha na obra, ou até mesmo
provocar a sua intervenção, para, a partir dela, chegar a imagens imprevisíveis,
que todavia - ou por isso mesmo - confundem esteticamente o retrato e sua
essência, é um processo descrito pelo pintor figurativo irlandês Francis
Bacon (1909-1992) como a pedra fundamental de sua experiência criativa
(Sylvester: s/d). Todavia, segundo ele, é preciso um apurado senso crítico
para perceber se a tinta que caiu ou foi jogada na tela tem ou não coerência
plástica com o contexto no qual foi inserida. Se a conseqüência do
processo, por um lado, é a conquista da essência do retrato, por outro, é
muita tela perdida, por “muita” intervenção do acaso, ou talvez senso
crítico demais. No caso da pintura, imagina-se com maior facilidade como se
pode induzir a intervenção do acaso: diversas técnicas, pincéis, cores e
tipos de tinta, diversas combinações de tudo isto e tudo mais - que de
diversos instrumentos se serve o pintor, inclusive das próprias mãos, a
talvez arremessar tinta sobre um fundo figurativo, por exemplo. Por outro
lado, no caso da fotografia, porém, os limites da máquina tornam
imperativo ao artista a criação de meios para permitir a intervenção do
acaso no processo fotográfico - parte físico, parte químico -, se esta
for a sua intenção. A superposição de negativos durante a revelação
pode certamente gerar um efeito surrealizante. Todavia, quando dois ou mais
negativos são escolhidos e justapostos intencionalmente para projeção em
papel foto-sensível, o resultado da operação é previsível. Quanto ao
material, a quantidade de lentes e filtros disponíveis podia já ser
grande, mas o resultado de toda combinação será sempre igualmente previsível. Assim, para induzir a mínima intervenção do acaso e, a
partir do reconhecimento plástico deste processo, fazer uma fotografia
surrealista, houve de se recorrer à um artifício mecânico, que na verdade
era um atraso tecnológico da câmera utilizada: a Flexaret, que não corria
automaticamente o filme a cada exposição e não tinha trava no botão do
disparador. Com esta câmera, foi possível sobrepor fotografias - não
negativos. Assim, a quantidade de luz que entrava nas sucessivas exposições
intencionais sobre o mesmo espaço do filme interferia na textura da imagem
que estava já registrada, pois o filme não corria até que o fotógrafo
decidisse passar para uma nova fotografia, e dar aquela por encerrada. Desta
forma, cada fotografia é o resultado de uma sucessão de exposições do
filme à luz, e não de apenas uma exposição, como normalmente ocorre no
processo das convencionais câmeras Reflex. A sucessão de exposições será,
portanto, o produto final da intervenção manifesta da memória sobre os
olhos do fotógrafo. Na impossibilidade de fotografar o próprio imaginário: A tomada de duas ou mais imagens propositadas num mesmo
espaço do filme virgem elabora, por um sistema de anulação ou acréscimos
cadenciados, a descoberta de novas texturas e organismos fornecidos pela
luz, que é a matéria prima da fotografia. [todavia] A margem de acaso é mínima,
uma vez controlada a Asa, a posição em relação ao campo visual, o
diafragma, etc. Assim se procurou dar à experiência um cunho de
plasticidade mais pictórica e descomprometida com a técnica fotográfica
legislada pela máquina. (Lemos: 1994) Na programação consciente
e técnica da Asa do filme, da
iluminação, do tempo do obturador e da abertura do diafragma, todavia,
intervirá o inconsciente através
da memória, único registro plástico
da(s) última(s) imagem(ns) registrada(s), no mesmo espaço do filme. A
decisão de quantas exposições serão feitas também compete ao fotógrafo,
tecnicamente instruído para
tornar a fotografia possível, ou seja, “não queimar o filme”, ao
calcular o quanto de luz e quantas exposições o filme poderá suportar,
antes de rodá-lo; cabe à sua intenção a escolha do(s) objeto(s) a
ser(em) fotografado(s), esteticamente
percebidos, ou captados, e preparados (ou não); e ainda, processa-se entre
os olhos e as lembranças do fotógrafo a relação entre as imagens
registradas intencionalmente, mas mnemonicamente
sobrepostas. Imagem e imaginário sobrepostos, é o que se pode chamar de
fotografia surrealista. Mas Fernando Lemos pode melhor resumir tudo isso,
com a experiência vivida de quem o fez e, portanto, em termos mais poéticos: Essas experiências e inquietações têm a ver com a
Flexaret, com o botão de disparar desabotoado e livre, desautomático,
capaz de assumir um erro de fotógrafo amador comum e nomeá-lo gesto
operador na arte em liberdade, que foi o lado sagrado do surrealismo.
(Lemos: 1994) Além dos pais, de Lucília Farinha - cujo decote, com a
sombra do braço ocultando o colo do seio, esconde o que, no dizer de Camões,
“não é pera esconder-se” - e de muitos outros, como os artistas plásticos
Fernando de Azevedo e Vespeira, compõem ainda esta série os retratos um
grande número de escritores, hoje, notórios, naquele momento, ainda
construindo a sua notoriedade - uns, através d’Os
Cadernos de Poesia; outros, das veredas do surrealismo literário
português, e de seu movimento; outros, ainda, tão-somente dos versos que
iam fazendo, e que, no tempo, os fariam os poetas que hoje são, entre eles:
Adolfo Casais Monteiro, Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill,
António Pedro, Jorge de Sena, José-Augusto França, José Cardoso Pires e
Sophia de Mello Breyner Andresen. Seria arriscado afirmar que todos estes
estão - com exceção feita apenas para um José Cardoso Pires ou um Adolfo
Casais Monteiro - ou estiveram, em maior ou menor intensidade, de algum modo
vinculados ao surrealismo, seja no processo literário de criação, seja no
produto final de ao menos um período ou da totalidade de suas obras? Em
“Depoimento 3”, diz Fernando Lemos:
Sobre a exposição da Casa Jalco, escreveria Fernando
Lemos, quarenta anos depois,: “Assumi na Casa Jalco, publicamente, a minha
condição de surrealidade exposta...” Considerando, sobre esta afirmação,
a quantidade de poetas mais ou menos surrealistas retratados e expostos
neste evento e a associação que faz o “fotógrafo-poeta” Fernando
Lemos entre a escrita automática e o seu processo de criação fotográfica,
concebido a partir de opções declaradamente surrealistas, evidencia-se a
relação entre o verbo e a imagem, neste caso, o poema e a fotografia, na
obra de Fernando Lemos. Pintor, desenhador e fotógrafo, a sua obra [...] patenteia
uma forte personalidade, dotada de um rico sentido poético que da realidade
abstracciona subtilmente os elementos de uma penetrante e rude visão da
vida, que surgia também nos poemas com que colaborou em Cadernos de Poesia e na publicação Unicórnio e números subsequentes. Esses poemas trouxeram ao
surrealismo um tom de decidida e vigorosa aceitação da vida, sem o
desespero ou o sarcasmo negro que tem caracterizado algumas expressões
deste movimento. (Sena: 1983) Antes da primeira edição de Teclado Universal nos Cadernos
de Poesia, em 1953, o catálogo da Exposição da Casa Jalco
“comportava textos de dois dos expositores, F. Azevedo e F. Lemos (deste
um poema), [...] em 600 exemplares especiais, [...] uma publicação
excepcional no meio da modéstia então costumeira dos catálogos de exposições.”
(França, 1994). O poema de Fernando Lemos, “Para o catálogo da minha
primeira exposição por sinal surrealista, escandalosa, lisboeta”, só
foi reeditado em 1963, na primeira parte, datada de 1952, do conjunto de
poemas inseridos na segunda edição de Teclado
Universal. Nele, como nas fotografias, não se vê “o desespero ou o
sarcasmo negro que tem caracterizado algumas expressões” do surrealismo
português, mas sim “um tom de decidida e vigorosa aceitação da vida”,
expressa num lirismo imagístico que nos deixa sem palavras ao ver a beleza
do [...] Sol que vem cinicamente e, ainda no mesmo poema, “Para o catálogo da minha
primeira exposição por sinal surrealista, escandalosa, lisboeta”, Acordar lentamente ou, nos versos de “Cepti-cidade”, primeiro poema de Teclado
Universal, Fumar um cigarro entre duas dificuldades Os mesmos dedos pintam, desenham, fotografam e escrevem.
Semanticamente, o “pintor-poeta” Fernando Lemos, como lhe chamou Haroldo
de Campos, revela-se em flagrar “os idílios amorosos da pintura antiga /
e assistir ao pudor [...] / do lado de lá de todas as imagens pintadas”;
o “fotógrafo-poeta”, no espreitar intimamente o Sol, cuja luz é
fundamental para um trabalho em que os “retratados” receberam “iluminação
de uma só lâmpada, quando era de noite e do sol (que também é só um)
nas operações diurnas.” (Lemos: 1994) e lâmpadas muitas
lâmpadas! [...] Lá tão longe por já não haver lâmpadas Pedras muitas pedras E as horas são mais lentas na noite em que já não há mais lâmpadas Em “Escadinhas da Saudade”, sol e lâmpadas, como metonímias
do dia e da noite, em contraponto, fazem o pano de fundo para um enredo
narrativo marcadamente surrealista: no plural, as lâmpadas, “muitas lâmpadas!
/ [...] a sobrarem do vidro”, são anaforicamente comparadas às “Pedras
muitas pedras”; no singular, o Sol “não quis chegar”, fazendo “as
horas [...] mais lentas” e prolongando a obscura contemplação das
“almas côr de noite”. Insistindo na análise semântica da poesia de Fernando
Lemos, percebe-se portanto que, neste poema, a presença e a ausência das lâmpadas
e do sol iluminam e obscurecem, alternadamente, a história da “rapariga
sem história”, que “jurou [...] / [...] cumprir o cheiro de segredos
que ouve nos passos”, que “já vai descalça para sentir / o frio das
pedras”, que “sorri” e [...] sentada na própria sombra É esta a única “lâmpada” singularizada que aparece
no poema e, se lhe nasceu na “testa branquíssima”, soa como uma idéia,
entre a sinestesia e a metáfora, talvez “o cheiro do segredo que ouve nos
passos” e que vai “pela noite fora”, “enquanto / está realmente
noite”, “noite em que já não há lâmpadas”. Desta forma, como quem
tem uma idéia, com “uma só lâmpada” - enquanto o Sol, “que também
é só um”, não viesse “cinicamente / [...] / verificar” o “sem remédio”
do cotidiano - Fernando Lemos iluminou seus retratos internos e/ou noturnos. Essa precariedade era em parte conseqüência da pouca
verba que sobrava da pobreza, de um lado e da mensagem, pelo outro, que
estava implícita na ética surrealista, ou seja, a simplicidade, o
“abaixo o luxo”, na tal operação de colecta sobre o inconsciente que
apresentava sempre o lado milionário da nossa imaginação e sonho [...].
(Lemos: 1994) Como as “Gentes que distantes a sonhar na ponte do salário
/ ardem em chamas” (Lemos: 1985), Fernando Lemos, no período em que
realizou as fotografias da Exposição da Casa Jalco, partiu da simplicidade
e do sonho - este, imaginação e desejo - para compensar as faltas
materiais de então. Assim, em “Saudades”: Eu sonho dormir com o poder do gesto Certamente, “o poder do gesto”, Fernando Lemos o tem em
seu imaginário estético, seja literário, seja plástico. Segundo Jorge de
Sena, “seria um simplismo ver [na] recorrência” da palavra gesto nos textos de Fernando Lemos a “denúncia de quanto são
escritos por um homem que, pintor e desenhista, não pode deixar de ter o
‘gesto’ como essencial função”, pois “pintar ou desenhar não
pressupõe mais gestos do que escrever.” (Sena: 1985). Todavia, em português,
a palavra gesto é bissêmica: seu
significado mais comum é “movimento do corpo, especialmente da cabeça e
dos braços, ou para exprimir idéias ou para realçar a expressão”, e de
fato é redutor perceber, na presença do significante gesto
na poesia de Fernando Lemos, apenas a interferência da atividade de pintor,
que tem nos “gestos” um registro patente. O outro significado da palavra
gesto é restrito, no século XX,
a um pequeno número de especialistas, mas corrente, por exemplo, na poesia
de Camões: “semblante” (Ferreira: 1972) ou, aproximadamente,
“rosto”. Desta forma, o objeto do “sonho” será o “gesto” em
“Saudades”, e “gesto” será, possivelmente, “semblante” no poema
“Outra apresentação em forma de conversa (do catálogo de uma Exposição)”: Há em todas as coisas expectativas Apenas um gesto (movimento) pressupõe a fotografia, mas a
repetição deste gesto pelo “fotógrafo-poeta” Fernando Lemos registrou
a “expectativa” de inúmeros gestos (semblantes), em retratos que
adquiriram autonomia estética através do que “neles era achado
essencial”. Muitos destes, como já foi dito, tiveram parte na exposição
de 1952, em cujo catálogo António Pedro apresentava o então jovem
surrealista, nos seguintes termos: Quanto a querer dizer coisas que não têm nada que ver com
a pintura, o Fernando Lemos é felizmente daquela espécie de gente que é
capacíssima de as coisas dizer quando não está a pintar. Pintando, com a
máquina fotográfica ou com os pincéis, age como quem ama devagar:
descobrindo aos milímetros e enternecendo-se a cada descoberta -
desmultiplicando o enlevo do pormenor até ao esquecimento de tudo. (Pedro:
1994) NOTA |
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Mauricio Matos (Brasil, 1973). Jornalista, poeta e ensaísta. Tem textos publicados no Brasil e em Portugal sobre poetas de língua portuguesa, tais como Fernando Lemos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Camões, Jorge de Sena, etc. Como editor, exerceu o cargo de Assistente Editorial na Fundação Nacional de Arte - FUNARTE, entre 2000 e 2001. Contato: mauricio.matos@bol.com.br. Página ilustrada com fotografias de Fernando Lemos (Portugal). |