revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003

Livros da Agulha

Boa viagem, Sheherazade ou a balada dos malditos, de R. Roldan-Roldan1 Boa viagem, Sheherazade ou a balada dos malditos, de R. Roldan-Roldan. Editora Komedi. São Paulo. 2003. 144 pgs. Contato: www.komedi.com.br.

O trem é, por excelência, um meio de transporte que mais serve à linguagem das transfigurações. Talvez por sua estrutura disforme, talvez pelo estigma da falsa lentidão proporcionada pela sua velocidade de enfado ou pelo mistério que se pode encerrar em cada um dos seus compartimentos. É provável, ainda, que a escolha do trem se dê pela necessidade de se estabelecer planos paralelos, vidas paralelas, como se destinos exatos pudessem ser incorporados a seus trilhos; ou, ao contrário, neles, fosse mais do que provável o descarrilamento catastrófico das fantasias ou das certezas.

É, fundamentalmente, neste veículo, também, alimentado pela força da metáfora, que um escritor “nascido na Europa, criado na África e radicado no Brasil” produz uma obra circular, de retorno repetido ao lugar-nenhum, e apropria-se de uma série de paisagens semi-artificiais embaralhadas pela presença inusitada de personagens reinscritas pela memória das leituras.

Em Boa Viagem, Sheherazade ou A Balada dos Malditos, R. Roldan-Roldan ressuscita - é provável que de forma inconsciente - as idéias de Bergson. Para este filósofo, ciência e intuição são regidas, respectivamente, por um eu superficial, que cristaliza idéias e cria aparentes situações descontínuas para a sobrevivência material do homem; e por um eu profundo, que flui como uma unidade em perpétua mudança e constitui o aspecto espiritual do ser humano. Esse progresso na continuidade, segundo Bergson, é unificado pela memória.

Seguindo o avesso desse pensamento filosófico, pode-se pensar que Roldan construiu um personagem em progresso na descontinuidade, o que o torna desmemoriado. Assim é que este homem sem memória defronta-se com muitos nomes, como se buscasse a si mesmo, verdadeiramente. Sem acreditar que se chama Bogdan Tangerescul, ora faz-se do muçulmano Abdelkader ben Youssef, ora do judeu sefardita David Benchetrit; e é ainda transformado no poeta errante Léo Lins ou qualquer outro que possa ser criado pelas mulheres fantasiosas que para ele convergem: Ljubica, Sabbah Oufkir ou Sheherazade.

Na verdade, esse “Homem-Que-Era-Outro”, perplexo diante da sua impossibilidade de saber-se, vive a conduzir-se, sem razões, a mundos paralelos, que cada vez mais o distanciam da sua identidade. Se, a princípio, a não-memória pode conceder a esse personagem-narrador desapego e “uma certa liberdade de ação”, logo o torna sombrio. Uma angústia que se desfaz em doses de pequenas mortes, nos encontros com as mulheres, amantes de fogo, provocadoras de cinzas.

No entanto, a própria narrativa transforma o personagem em fênix. A profunda necessidade de escrever do narrador, faz com que se alente a possibilidade de recuperar a memória, mesmo com poucas palavras, como se o silêncio reproduzisse cachoeira de verbos e uma profusão de narrativas em noites profundas ou baladas desautorizadas tomassem conta do mundo.

Também poeta e contista, o autor dos romances Azeviche ou Nossa Senhora do Sagrado Sexo e O Bárbaro Liberto - Mnaloah (2º lugar do Prêmio Internacional “Marengo d’Oro”, em 2002, na Itália), com esta obra, completa a trilogia da “in-identidade, campo aberto para outras narrativas ou baladas tão bem construídas nas margens epifânicas do verbo”, conforme aponta no prefácio da obra, o poeta e crítico R. Leontino Filho.

Boa Viagem, Sheherazade... é um romance que explora a própria linguagem e, por conseqüência, o próprio Ser. Uma escrita que, a exemplo do seu personagem, busca a sua face, o seu ensejar-se ao leitor. A esse destinatário, Roldan surpreende pelo desembaraço com que saca a moldura das expectativas, quer seja pela multiplicidade de revelações insólitas, quer pelo naturalismo das cenas de sexo, ou ainda, pela negação de princípios, sejam eles do fundamentalismo islamita, do catolicismo imposto ou da judaica errância.

Roldan-Roldan, ao investir na linguagem corrente, tanto se aproxima da consciência modernista, quanto do exílio caótico da pós-modernidade, para onde tantos escritores se dão como destino. Porém, diferenças fundamentais podem ser encontradas nos arranjos da sua narrativa: a simplicidade com que a trama é urdida e a possibilidade dos vários efeitos produzidos. E mais, a reiterada reflexão, geradora de um discurso aberto, e os limites dos paradoxos que tendem a revelar a eterna busca - entre o real e o ficcional, o trivial e o metafísico, o referencial e o poético -, completam os vazios da sua singular ficção.

[Jorge Pieiro]

A Dimensão Fantástica na Obra de Eça de Queirós, de Maria do Carmo Castelo Branco Sequeira2 A Dimensão Fantástica na Obra de Eça de Queirós, de Maria do Carmo Castelo Branco Sequeira. Campo das Letras Editores. Portugal. 2003. Contato: www.campo-letras.pt.

Maria do Carmo Castelo Branco Sequeira, é a autora desta recente obra, ensaio que a Campo das Letras editou, docente de 1986 a 2002 na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto Maria do Carmo vai ao encontro do universo imaginário encerrado na obra do escritor que, diga-se, a tem “acompanhado” em toda a sua vida, nos estudos de didáctica e critica literária das obras dos nossos autores dos séculos XIX e XX.

Não sendo certamente a presente edição, surgida a partir da sua tese de doutoramento, apresentada à Universidade do Minho em Setembro de 2000 - ano o aniversário da morte de Eça -, corolário dos inúmeros estudos que Maria do Carmo publicou anteriormente, decorrentes de colóquios e congressos em que participou, fica patente a paixão com que a investigadora aborda Eça pelos múltiplos prismas de que o autor fez revestir a sua obra, e se de estética se fala transparece no fim o retrato de Eça longe do “photomaton”, do “polaroid” Eça é-nos apresentado e comungamos de mais um amigo que certamente nos acompanhará para além das noites frias feitas de leituras para iludir as insónias.

Esta é “A Dimensão Fantástica na Obra de Eça de Queirós”,para além das “querelas” entre camilianos e queirosianos, onde se revelam produtos de conjunturas da crise político-social-cultural à ideológica moderna, e claro à crise estética do universo de oitocentos.

De metodologia de análise motivada pela visão diferente, lançando uma piscadela de olhos ao diálogo com Eça, descobre no seu mundo construído, “verosímil paralelo” o escritor realista. A autora abre os olhos ao leigo para a verdadeira dimensão dos escritos, coerente na fundamentação teórica, descobrem-se as subtilezas de uma escrita que surge para além do “mero fabrico de artistas” da pena, descortinando o leitor as razões, as causas e efeitos de uma sociedade que se vê visada, entre o “irreal”, o “real”, surgindo o humor numa espécie de exercício mental, panacéia e reflexão para utilização de um público cada vez mais céptico porque mais sofisticado, a fé e o descrédito no progresso (situado entre o período áureo do realismo e a sua dissolução, numa época de desenvolvimento da imprensa e em que o gosto do romance se intensifica) afloram, os verdadeiros “fantasmas” que Eça faz revestir nos seus legados escritos descodificados nesta verdadeira investida à arqueologia. Numa abordagem sociológica de interacção em que o público é alvo, assistimos ao desmontar dos processos de procura de sensações, onde a curiosidade estimulada pela avidez do estranho e do maravilhoso faz na senda

de Poe, ressuscitar o cíclico diálogo histórico do indivíduo com as suas próprias crenças e a validade com que aceita o sobrenatural, o insólito, o perturbante que lacera, subverte ou denega regras, contornando o real e acaba por desvendar a imagem de um universo, paradigma de uma realidade social e culturalmente aceite, mas que se vê caricaturada pela ironia, sarcasmo ou simples humor em mundos que Eça constrói, do anamófico ao grotesco, sinistros espectrais, bárbaros fica mais que o estilo, a “metáfora de um mundo”… a descobrir. [nota publicada em O Diabo, Lisboa 14/01/2003]

Janelas Verdes, de Murilo Mendes3 Janelas Verdes, de Murilo Mendes. Quase Edições. Portugal. 2003. Contato: www.doimpensavel.pt/quasi.

Numa excelente edição, prefaciada por Luciana Stegagno Picchio e posfaciada por Eucanaã Ferraz, chega-nos agora este livro, que foi terminado em 1970 e esperou vários anos para ser publicado. A obra foi corrigida, tendo em vista a sua publicação em Portugal. Porém, só em 1989 é que o projecto se realizaria, numa edição de 250 exemplares para a Galeria 111 de Lisboa, ilustrada por desenhos executados especialmente por Maria Helena Vieira da Silva. Cada exemplar era acompanhado por 2 serigrafias originais da mesma pintora. A primeira edição incluía apenas a primeira das três partes que, na sua origem, constituíam o livro. Era, como o sublinha Luciana Stegagno Picchio, o sector dedicado às cidades ou aos lugares de Portugal que o haviam marcado mais intensamente. Os organizadores deste volume cumpriram rigorosamente a vontade do autor, integrando nesta edição as partes que não constavam da edição anterior. No sector 1 incluem-se os retratos das cidades e outros lugares, que já se encontravam presentes na edição de 1989 para a Galeria 111, no sector 2, incluem-se os retratos de grandes portugueses, inédito em Portugal, mas já publicado no Brasil na edição póstuma da Poesia Completa e prosa, editada por Lucciana Stegagno Picchio, em 1994.

Embora o título da obra nos remeta, de imediato, para o Museu das Janelas Verdes, não é dele que Murilo trata. O poeta explicita-o nas suas notas (p.193) e acrescenta que o livro trata de espaços abertos e de liberdade, do mar e do campo português, das cidades que percorre com o seu olhar, atento ao pormenor. Nele se descortina o poeta sensível, contaminado pelo contacto com a arte e, sobretudo, com pintura contemporânea. E não é por acaso que o livro abre com a cidade de Guimarães, como o nota no seu posfácio Eucanaã Ferraz, cidade que é considerada não apenas o berço da nação portuguesa, mas essencialmente pelo seu "número espantoso de janelas", congregando a metáfora toda a sua intensidade e máxima expressão. Como o nota o autor (p. 17), "Abrindo o povo tantas janelas, quer dizer (suponho) que é arejado, ama a vida , a comunicação", exprime a janela esta passagem para o ilimitado do olhar e para a sua expansão, contrariamente a um certo acanhamento de um Portugal cinzento e fechado em si mesmo. Murilo nota nessa cidade, paralelamente ao imenso número de janelas, o "ar festeiro" das pessoas, que saem à rua para "alegrar-se, animar-se, adiar o tediário". É bem o olhar do flanêur que espreita os transeuntes, observando-os de longe e regozijando-se com as "moças de hoje" que já não são "janeleiras", mas "rueiras", para utilizar a sua expressão. O jogo da metáfora janela/representação, isto é, janela tomada enquanto metáfora, torna-se explícito na referência a Caldéron de la Barca, quando Murilo compara a função da janela no Gran Teatro del mundo: "Que toda la vida humana/ representaciones es." (p.19).

Tal como nas janelas de Magritte, em que o olhar, mais do que observador passivo, se transfigura em "inventor", produzindo o seu objecto, também em Murilo o olhar inventa e redesenha o objecto do desejo, tomando como exemplo a figura de Mumadona: "Acreditando que fosse bela, belíssima, invento uma outra versão da sua figura"(p.19). E, assim, a mulher (Mumadona) já não é uma figura da memória, mas uma invenção do poeta, que surge como paisagem: "Todas as janelas de Guimarães se espalancam em sua honra." A cidade de Guimarães converte-se, em virtude das suas ressonâncias míticas, na fonte e, também, em foco utópico ou ponto de fuga do olhar: "serviria de modelo a outras cidades futuras; provavelmente se fundará numa Janelopólis universal, traduzindo abertura para a invenção, a liberdade, a convivência e a paz definitiva; com muitas janelas verdes, além de vermelhas, brancas, azuis, dialogando-se" (p.20).

Não é por acaso que Murilo estabeleceu com Portugal uma relação tão intensa. O poeta desposou Saudade Cortesão, filha do historiador Jaime Cortesão. Este viveu no Brasil, onde manteve, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo, um círculo numeroso de amigos, que incluíam Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Octávio Tarquínio de Sousa, José Lins do Rego, entre muitos outros. Dele, traça Murilo um retrato tocante, de um homem comunicativo, descontraído e com um "ar feliz" (p. 165), possuidor de uma erudição vasta, um humanista pleno, cuja morte "resultou num golpe profundo". Dessa relação nasceu, em Murilo, o diálogo entre Portugal e o Brasil, exprimindo as relações vivas e contagiantes entre as cidades e paisagens portuguesas e Murilo Mendes oferece-nos, em Janelas Verdes, uma obra que se vai configurando de modo descontínuo e fragmentário, por entre lugares de fascínio e pessoas que intensificaram a sua relação afectiva com Portugal. O tom é o da crónica, oscilando entre vários registos e sempre reconhecível pelo humour que entrecorta o realismo, conferindo ao livro uma estrutura dissonante e que define uma "etnografia" muito peculiar.

As cidades e as paisagens, o campo e o mar português vão-se entretecendo com referências literárias e históricas e, até, de gosto pessoal, como é o caso da culinária portuguesa. O gosto pela inclusão do banal e do quotidiano no extraordinário, do pequeno e do monumental, é também um dos aspectos interessantes do livro, revelando-se ainda a dessacralização dos mitos, tão ao sabor da ironia modernista, como é o caso: "Contestando Camões, Jaime Cortesão e Vitorino Magalhães Godinho sobre os descobrimentos, penso que os antigos portugueses fizeram-se ao mar, passaram para além de Taprobana, não para dilatar a fé e o império, antes para fugir às terríveis ladeiras lisboetas; a elas devemos, em última análise, a invenção do Brasil." Esta ideia do Brasil como invenção portuguesa é um elemento que aparece frequentemente em Janelas Verdes.

Por outro lado e sempre sob o signo da rememoração, Murilo Mendes dedica o sector 2 às figuras históricas e literárias portuguesas que mais o marcaram e activaram o seu imaginário, acerca de Portugal. Se aparecem, no seu périplo, figuras longínquas como Nuno Gonçalves, Gil Vicente e Padre António Vieira, são, no entanto, os escritores do século XIX e XX que mais comparecem neste livro e, na maioria dos casos, esses capítulos são dedicados a amigos com quem manteve estreito convívio, entre poetas, escritores e poetas, como Sophia, Miguel Torga, Vieira da Silva, Ruy Belo, Luiza Neto Jorge, entre outros.

A ideia de viagem, desenhada pelas rotas de uma errância que é dupla, tanto na escrita, como no próprio movimento e inquietude do viajante, é, talvez, a mais adequada. Uma errância que se assume no modo como é, a cada instante, metaforizada no recorte poético e na linguagem e "inventada", nesse sentido em que Proust exigia plenamente da literatura: que ela pudesse reconstituir, não a experiência vivida, mas aquela que era digna de ser lembrada. A memória, aqui, "deforma", recorta, amplia o seu objecto e subverte a ideia de um estatismo que ela possui: "segundo Heráclito, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Mas o movimento não é oposto à memória" (p. 46). Como o nota, Eucanaã Ferraz, a memória age por uma dynamis capaz de se deslocar e alojar nos próprios seres: "Entretanto poderíamos garantir que um rio não tem memória? O Lima viu nascer desde o início os vianenses, e viu nascer muitas coisas antes de nascer Viana; quem me dirá que não tem arquivos?" (p. 46). Encerrando a alquimia e o redobramento entre esquecimento e memória, esse movimento transforma o seu objecto em objecto reflexivo, no instante em que opera sobre ele.

Por isso, a escrita de Murilo não pode deixar de ser metalinguística, dando-se a dois níveis que se entrelaçam e onde convergem múltiplas referências em simultâneo, numa densa polifonia habitada pela pluralidade das vozes, as do passado e as do presente, habitado pela constante dissonância.

Gostaria, ainda, de chamar a atenção para esta obra, em que o tom dominante é sobretudo a relação afectiva entre os dois países, irmãos na língua e na sua cultura. Expressão viva de uma utopia?

[Maria João Cantinho]

Os mortos também contam, de Miguel Méndez4 Os mortos também contam, de Miguel Méndez (trad. Cláudio Willer). Escrituras Editora. São Paulo. 2003. 144 pgs. Contato: imprensa@escrituras.com.br.

O ano é de 1992, aniversário 500 do descobrimento da América. Três mortos-vivos provenientes de diferentes lugares, além de um grande espaço de tempo que os separaram em vida, emergem de um rio. Antonio Garcí del Moral ficou na condição de esqueleto desde 1536, igualmente, Chavarín Tirilín juntou-se a ele em 1948 e, por fim, completa o trio o jornalista Diego, morto em 1990. Unidos pela mesma língua espanhola, saem à procura de um sepulcro digno de seus ossos, afim de descansarem em paz.

Os Mortos Também Contam, mostra a trajetória de três personagens que, mesmo na condição de esqueletos, travam discussões entre si, confidenciam seus desejos e sentidos que não mais existem mas que carregam como memórias vivas em seus restos de homem. Trocam vivências de épocas distintas, com diferentes costumes e linguagens.

Miguel Méndez insere-se na narrativa de maneira sutil como o escritor procurado pelos mortos-vivos para que transcreva suas existências. Desta forma, poderão relatar os acontecimentos, suas experiências e opiniões sobre as lutas de índios e guerreiros espanhóis na conquista das Américas. Sentem-se responsáveis por testemunhar o que ocorreu com os pobres e ignorados que participaram de todo o drama da história, bem como os povos indígenas, suas origens e culturas.

O autor constrói um microcosmos que reflete a batalha diária da sobrevivência dos pobres, em contraste com a dos ricos, “pois escrevo” diz Méndez “desde a minha condição de mexicano índio, espalda molhada e chicano”, num intento de resgatar do esquecimento as línguas nativas das minorias e dar testemunho do sofrimento humano universal.

Trechos da narrativa, principalmente as falas do personagem Chavarín Tirilín, são em pachuco, um dialeto originário dos chicanos, mexicanos que migraram para os Estados Unidos. É um linguajar que não possui uma tradução equivalente no português, por isso foi feita uma versão aproximada dessas falas.

Um livro criativo e expressivo, o melhor da narrativa do povo chicano. Uma novela clássica e inédita, publicada no Brasil, com a tradução modelar de Claudio Willer.

Miguel Méndez faz jus à sua invenção como figura humana, autodidata, subsistindo vinte e quatro anos nos Estados Unidos, com trabalhos rudes, alcançou ser professor na Universidade de Arizona em Literatura Hispânica e é o primeiro “chicano” a receber o doutorado de honoris causa em Letras e Humanidades nessa Instituição.

É autor de romances fundamentais da cultura “chicana” que merecem ser por nós conhecidos: El sueño de Santa María de las Piedras, Entre letras y ladrillos e Peregrinos de Aztlán.

Zeosório Blues. Obra poética 1, de Edimilson de Almeida Pereira5 Zeosório Blues. Obra poética 1, de Edimilson de Almeida Pereira. Mazza Edições. Belo Horizonte, MG. 2002. 198 pgs. Contato: edmazza@uai.com.br.

O que leva um poeta a reunir sua obra em um ou alguns volumes? Talvez a legítima vontade hegeliana de unidade, esta quimera moderna que tanto nos preocupa. Ou talvez, quem sabe, a vontade de freiar a natural dispersão do uerbum poético, que se dá a praias infindas, diversas até daquelas que conhece o autor... Não sabemos a resposta de forma intuitiva. É preciso investigar cada caso, com fome de explorador de cavernas. Em se tratando de Edimilson de Almeida Pereira, poeta mineiro de projeção nacional e internacional, podemos arriscar uma hipótese: a obra exige a unificação. Tal ocorre não só devido ao movimento dos anos que s'encostam na folha - desde 1985 nosso vate publica... desde quando (d)escreve? - mas também graças a uma natural propensão da obra de Edimilson: ela anseia comunicar-se. E de que forma seus versos poderiam falar mais sofregamente do que em uma reunião, em um codex essencial de poemas? Nele, os versos conversam, às vezes animados, às vezes com certo susto, mas sempre ecoam à vontade. Assim é.

Zeosório Blues - Obra poética 1 (Mazza Edições, 2002) é a primeira parte de uma tetralogia com a qual nos presenteará Edimilson, reunindo a "estrela da vida inteira", até o momento, já que espera-se que novas obras sucedam e acompanhem, pari passu, as quatro planejadas reuniões. Neste primeiro momento, no qual o próprio autor admite um certo subjetivismo muito peculiar no critério de edição, podemos observar certos topoi comuns à dicção particularíssima de Edimilson. Vejamos, em síntese, no que consistem.

A idéia central que informa toda a obra é a de ritmo, pois o poeta constrói seus poemas - ora longos como rios no deserto, ora concisos como o sussurro no ouvido - tendo em vista uma sintaxe que afoga o inecessário, fazendo submergir a frase poética depurada. Mas que não se enganem os menos atentos, já que a música sincopada dos versos não nasce de sua exterioridade, sic et simpliciter, como queria Verlaine. O ritmo do trompete sa(n)grado que modela o blues mais-que-triste, enevoado e sorridente é, antes de tudo, uma pura criação do intelecto. Só a relação - ambígua, na maioria das vezes, o que dá ao poema a feição de charada deliciosa - intrínseca entre significado e significante é capaz de construir o ritmo rasgado. Nesse sentido, a melopéia substitui-se, com grande vantagem, pela logopéia, a dança das palavras (Ezra Pound). Ora, se os ritmos de Edimilson são capazes de seduzir - e eles o são -, é porque o leitor foi capaz de deixar-se abandonar à corrente infinita de cores e sons destilados nas páginas de Zeosório Blues, caligrafadas com o zelo e o cuidado de quem conhece as armadilhas da língua.

Os poemas de Edimilson exigem, portanto, uma entrega de seu ouvinte/leitor, já que para escutar as letras cantarem, com a voz terrivelmente doce de uma Janis Joplin renascida nas ruas queridas de Juiz de Fora ou de outra calvinesca "cidade invisível" (New Orleans, Luanda, Rio de Janeiro etc.) é preciso esquecer o duro remoer dos dias. O trabalho poético nasce de um paradoxo: otio, sem duvida, como defenderia T. S. Eliot, mas ao mesmo tempo em que reflete uma opção de criação extremamente intelectualizada, dá sentido e existência ao negotio tão caro à sensibilidade latina. E o locus amoenus de Edimilson não surge de um aprazível campo idílico, mas antes das pressões cotidianas, espezinhantes e terríveis. Só assim é possível encontrar a redenção em uma onda de rádio, comunicador universal por meio do qual Edimilson pretende pagar sua dívida de sangue com a poesia.

Zeosório Blues exercita-se, como o ginasta de Ponge, à beira do abismo. É fácil não compreender o texto se o perscrutamos com demasiada sisudez. Por outro lado, o baile e a festa serão os elementos capazes de (re)ligar esse carnaval de outono que perpassa a obra com a história do operário anônimo, caminhante entre caminhantes. Como o de Manuel Bandeira, o carnaval de Edimilson não cavalga no sentimentalismo lacônico e embriagado de Schumann, mas antes procura, no rigor da palavra pinçada de negros abismos, a fórmula de reconciliação com a vida fora do papel.

A obra de Edimilson passeia assim por caminhos particularíssimos, onde reencontra personagens conhecidos e situações-limite, nas quais o poeta conversa com suas raízes, sejam familiares, sejam poéticas, sejam, por fim, amorosas. No entrecruzamento de solidões, Edimilson aponta para a possibilidade ínfima de salvação, que, naturalmente, só se encontra, in potentia, no decurso maior do fazer poético, que, longe de amarrar-se a tendências arcaizantes ou pseudo-modernas, prefere exprimir-se de uma maneira sutil, elegante e sóbria.

Existem, por certo - trata-se de uma reunião de obras -, algumas desigualdades, não em termos de qualidade, mas de interesse por determinados temas, o que, ao meu ver, só torna a experiência do leitor ainda mais rica: pular do salão do pierrot de Edimilson, o fantástico mestresala, para as tórridas passagens do bairro, do sonho abstrato e da lúcida pessoalização de seu Linaeus é um desafio que o leitor de poesias - este poeta de olhos vagos - não pode negar. A recompensa é gratificante: sentir a pulsação de um blues de cicatrizes inúmeras que, ferindo nossos ouvidos, nos faz lembrar do desespero da dor, pois só o que dói é humano.

Rectius: só o humano é belo.

[Andityas Soares de Moura]

Bocas de cena, de Viriato Teles6 Bocas de cena, de Viriato Teles. Campo das Letras Editores. Porto, Portugal. 2003. 138 pgs. Contato: claudia.abreu@campo-letras.pt.

Histórias em forma de conversas, com Amália Rodrigues, Baden Powell, Chico Buarque, Sting, Léo Ferré, Juliette Greco, Pete Seeger, Atahualpa Yupanqui, Marcel Marceau e Mário Viegas.

De acordo com Edite Soeiro, “Este é um livro de histórias. Histórias em forma de conversas, onde se fala do fado de Amália Rodrigues e dos sambas de Baden Powell, das revoluções musicais de Chico Buarque e de Sting, da canção francesa das épocas de Léo Ferré e Juliette Greco, da grande música de intervenção de Pete Seeger e Atahualpa Yupanqui, da poesia gestual de Marcel Marceau e da quinta dimensão das artes de palco no corpo e na alma de Mário Viegas: dez personagens de situações excepcionais e a sua relação com o mundo.” […] “São dez as entrevistas, estas dez e não quaisquer outras, porque o autor ao seleccioná-las quis dar-lhes um fio de coerência interventiva: aquela que, assumidamente, os entrevistados sempre souberam viver. Aquela que o autor, ele próprio, apesar do tom de marginalidade que gosta que transpareça da sua maneira de estar na vida, pretende legar ao filho Pedro, um puto de 8 anos a quem um dia, não tarda nada, o «velho» Viriato começará a contar os múltiplos pontilhados da sua vida.”

Viriato Teles nasceu em Ílhavo, em 1958. Frequentou sucessivamente o Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Aveiro e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Jornalista desde 1979, tem trabalhado como redactor ou colaborador de diversas publicações, programas de rádio e televisão. Entre 1981 e 1993 fez parte das redacções dos semanários Se7e e O Jornal, ligado essencialmente à área dos Espectáculos, para onde realizou a maioria das entrevistas que integram este livro. Na Rádio, colaborou com a Antena I e destacou-se como «cronista de escárnio e mal-dizer», na TSF. Em Televisão já fez reportagem, escreveu guiões de ficção e realizou documentários. É ainda co-autor de diversas canções e participou em festivais na Grécia (Salônica, 1992, com o tema que se classificou em primeiro lugar) e no Chile (Viña del Mar, 1994). Depois de, em 1998, ter reunido alguns poemas no volume Margem para Dúvidas, publicou em 1999 o livro Zeca Afonso: As Voltas de um Andarilho, nova versão muito aumentada do opúsculo homónimo editado originalmente em 1983 na colecção Cadernos de Reportagem. Tem pronto para publicação o livro A Utopia Segundo Che Guevara, uma extensa reportagem realizada a partir de Havana sobre a vida e a luta do principal ícone da Revolução Cubana.

Mundo, diabo e carne, de José do Patrocínio Filho7 Mundo, diabo e carne, de José do Patrocínio Filho. Editora Antiqua. São Paulo, SP. 2002. Contato: www.editoraantiqua.com.br.

Quem abrisse ao acaso as páginas de uma das novelas de escândalo que o editor-escritor Benjamin Costallat publicava por sua editora, corria o risco de se deparar com o seguinte anúncio do lançamento próximo de um livro de crônicas mundanas:

São estudos da agiotagem, da cocaína, do lenocínio, da feitiçaria, da vida contemporânea de uma grande cidade. O jogo, a politicagem e a pirataria, nos seus aspectos mais emocionantes.

Estamos em 1923 e esta era a "reclame" de "Mundo, Diabo e Carne", segundo livro de José do Patrocínio, Filho pela Costallat & Miccolis Editores.

Estes livros de estilo muito particular, que, não raramente, atingiam consecutivas edições em tiragens de até nove “milheiros”, desapareceriam por completo nas décadas seguintes - e consigo seriam também varridos do cânone oficial os nomes de Théo-Filho, Orestes Barbosa, Mendes Fradique, Mário Hora, Romeu d'Avellar, entre outros.

Hoje, quase oitenta anos depois, quando mencionamos José do Patrocínio, Filho, a reação mais comum do interlocutor é confundir levianamente este com seu pai ou expelir um "quem?" mais rápido e espantado.

Além de herdeiro do articulador político e jornalista negro que lhe deu o nome, Zeca do Patrocínio foi um dos mais importantes talentos jornalísticos, humorísticos e boêmios da belle-époque brasileira.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1885, e morto em Paris, em 1929, Zeca deslocou-se pelo mundo como se ele fosse uma aldeia global, muito antes de MacLuhan, da televisão ou da internet.

Dividindo seu tempo entre cargos diplomáticos, jornalismo, boêmia e viagens (sem falar nas atividades teatrais ou mesmo nos roteiros de cinema que escreveu - incluindo aí uma experiência pioneira em cinema falado), os três livros que Benjamin Costallat conseguiu arrancar de Zeca ("A Sinistra Aventura", "Mundo, Diabo e Carne" e "O Homem que passa") são uma amostra mínima de seu talento - cujo habitat natural eram as mesas de cassinos e de cafés, fuméries, redações e restaurantes.

Rio, Paris, Amsterdã, Bruxelas, Londres: qual fosse o itinerário do nômade Zeca, ele sempre terminava operando nos subterrâneos. Cocaína e ópio, éter e morfina, mascaradas sensuais e jogatina, trânsito pelo jet-set internacional e despejos por falta de pagamento: sempre o mundo, o diabo e a carne à sua espera.

O primeiro livro, "A Sinistra Aventura", lançado em 1923, é uma "ficção autobiográfica" dando conta de suas embrulhadas à época da primeira guerra mundial, quando foi preso em Londres, sob a acusação de espionagem em prol do kaiser alemão. Essa trama escandalosa teve esgotada, em dois meses, sua primeira e única edição de três mil exemplares... Parte do texto original já tinha sido publicada na "Gazeta de Notícias" e a versão final apresentada pelos editores Costallat & Miccolis acabou sendo uma re-elaboração ficcional ("romance trágico e sensacional" - como anunciava a orelha) de sua passagem pelas prisões inglesas.

"Mundo, Diabo e Carne" é, sem dúvida, o melhor dos três livros, sendo, na verdade e mais uma vez, uma coletânea de textos publicados em jornais nas décadas de 10 e 20, revistos para publicação em livro, em 1923. Há, até, um prefácio para o romance cosmopolita "Annita e Plomark, Aventureiros", que Zeca escreveu para o amigo Théo-Filho (moraram no mesmo prédio da rua Vintemille, n. 5, em Paris) e que, após discreta "remixagem", foi costurado junto com essas crônicas mundanas.

Como já se escreveu a respeito, são páginas decadentistas de onde se desprendem "o mal, a infâmia, o crime, a decomposição contaminadora". É neste volume que encontramos também "A História da Baratinha", uma fábula de humor enigmático, transportada para o teatro em 1925.

Devemos nos lembrar que a década de 20 testemunhou um fluxo violento de mudanças sociais e tecnológicas que tiveram reflexos na língua corrente. Os textos de Zeca são ricos em neologismos, usados para descrever os mais diversos costumes emergentes, da indumentária aos vícios elegantes. Estas formas novas são marcadas por um donaire à la Huysmans - bem diverso, portanto, do áspero afã modernista, e mais próximo de uma atualização, para aquela década, da escritura decadentista. A linguagem é oscilante, mas sempre plena em hiperestesias, misturas lingüísticas, trocas simbólicas e apropriações textuais. 

Manuel Bandeira, Álvaro Moreyra e Agrippino Griecco dedicaram páginas memoráveis a Zeca; nos anos 50, R. Magalhães Júnior escreveu uma biografia detalhada sobre o autor, trilhando suas andanças e aventuras. Apesar disso, seus livros nunca foram reeditados e acabaram desaparecendo de vista. Hoje em dia, raríssimos, são disputados por pesquisadores ávidos.  

Um exercício paciente e insalubre de arqueologia literária acabou por nos revelar que, embora à margem da margem - por seu ritmo de vida fora do convencional e pelo incômodo e estranhamento que causa seu minúsculo corpus literário - Zeca do Patrocínio merecia o resgate de sua obra mais importante e uma revisão despojada dos habituais preconceitos levantados astuciosamente pelas igrejinhas literárias de plantão.

"Mundo, Diabo e Carne" é uma verdadeira mascarada textual, onde o bas-fond (crupiês, prostitutas, cáftens, hashishins, opiômanos, cocainômanos) desfila lado a lado com o bloco dos "humilhados e ofendidos" (tocadores de realejo, mendigos, moradores de rua, moribundos de hospital público, coristas famintas do teatro de revista), num despretensioso exercício de micro-história a integrar qualquer pesquisa que rastreie manifestações da transgressão na literatura brasileira e a deliciar qualquer leitor interessado em desvelar a "alma encantadora das ruas".

[Marcus Rogério Tavares Sampaio Salgado]

El arte de callar, de Rodolfo Alonso8 El arte de callar, de Rodolfo Alonso. Alción Editora, Córdoba, Argentina, 2003, 112 pp.

Me gusta releer, y lo he hecho muchas veces, a gusto, poema por poema, lentamente, con largas pausas, El arte de callar (2003). Los horizontes son múltiples, muy diversos, cada poema tiene el suyo, el que le da su razón de ser y lo ubica en la estela que despliega, como en el instante mismo en que tuvo lugar el impacto con lo real. Pero la mirada es siempre la misma, y es ella la que sería necesario poder asir si se quisiera absolutamente unificar las perspectivas. Pero precisamente, parece que no es necesario hacerlo, y dejar por el contrario que la vida se despliegue, se extienda, se expanda según un destino que le es propio y que nada en el mundo puede prever: estamos en la indeterminación real, estamos liberados por fin de toda teleología (la que desde hace más de dos mil años nos impone la civilización occidental platónico-cristiana). Dicho de otra manera estamos en una región que sólo percibe y puede recorrer la poesía en su libertad absoluta, y así resulta, me parece, que si la mirada es única, la visión, o el “ver” es, por naturaleza, para siempre múltiple. El “ver”, porque es necesario desconfiar del siempre posible relente de mesianismo que ofrece la “visión”, el “ver” descubre, revela lo real por medio de la mirada, y esa mirada, en Rodolfo Alonso, desde siempre, es no solamente de una rara agudeza, sino como marcada, en su naturaleza misma, por una suerte de empatía, e incluso (no vacilemos en emplear una palabra que nuestra cultura ha vuelto obsoleta), de bondad. Diría más ampliamente de generosidad. Pero nos encontramos mucho más allá de toda sentimentalidad a flor de piel, o de psicologismo primario; estamos, con esta obra (no solamente esos últimos poemas) al nivel del afecto fundamental que un gran filósofo como Erwin Strauss sitúa en el corazón de su pensamiento: “En el sentir, estoy yo y el mundo, yo con el mundo”. Esta cita, se la tomo a Henri Maldiney de una de sus obras capitales, Abrir la nada, el arte desnudo (Ed. Encre marine, 2000, p. 290). Ese “sentir”, es evidentemente nuestra capacidad de emoción frente a los acontecimientos que no cesan de atravesar nuestro yo en sus relaciones consigo mismo y con el mundo. Y cada uno de los textos de El arte de callar fue provocado por una emoción esencialmente generosa experimentada después de un encuentro con el otro, con el mundo. No es por nada que este poeta ha conservado las fechas de cada uno de sus poemas: son la forma libre que ha tomado, cada vez, un contacto -generalmente doloroso— con el exterior. Es decir que el instante del impacto ha permanecido esencial, no ha perdido nada de su fuerza, da incluso el sentido de la universalidad que él desencadena. Porque si el choque continúa siendo perceptible, es su irradiación la que le da su verdadero alcance. Y la transferencia de uno a otra, del impacto a la irradiación está totalmente impregnada de generosidad, de su generosidad, es decir de su participación sensible -la del “sentir”— en la vida que lo une con el otro, con los otros, con el mundo. Una de las características de ese “sentir”, es justamente esa bondad de la que hablaba, y que es infinitamente sensible en cada uno de sus textos. Es ciertamente uno de los raros poetas que conozco que trasciendan de un golpe todo el sentimentalismo banal que puede nimbar a la bondad. Hay seguramente otra cosa allí. Está la “apertura”, en el sentido que le daba Rilke y que asegura a estos poemas su espacio que excede siempre a eso que la “literatura poética” impone tan a menudo. Cada texto da salida al aparecer de una presencia interna, inmanente, y justamente suscitada o provocada por el “acto” poético. Presencia a la vez íntima, personalizada, y también despersonalizada porque situada de conjunto al nivel de una “común presencia”, como diría nuestro amigo Gonzalo Márquez Cristo siguiendo a René Char. Se podrían percibir algunas influencias en los poemas de esta colección, pero sería un error: hay escrituras diferentes, según el clima y las perspectivas en que se encuentra o se ubica. No está lejos de hacerme pensar en las “ventanas simultáneas” de Robert Delaunay, rilkeanamente abiertas sobre el mundo, pero a partir de las cuales esa misma mirada de la que hablaba, ese “ver” de una cierta manera, se despliega. Esa “común presencia” es el lugar mismo donde se manifiesta su generosidad, es decir donde se manifiestan sus actos de conciencia (quiero decir sus poemas), donde sus miradas sobre el mundo le permiten una participación estrecha con los acontecimientos que allí se producen. De donde la diversidad que el “ver” favorece por la mirada siempre renovada, siempre “sensible” enfocada sobre esos acontecimientos.

[Fernand Verhesen]

Versos comunicantes (poetas entrevistan a poetas iberoamericanos) [José Ángel Leyva, coordinador]9 Versos comunicantes (poetas entrevistan a poetas iberoamericanos) [José Ángel Leyva, coordinador]. Alforja Ediciones. México. 2002.

Versos comunicantes reúne entrevistas realizadas a veintinueve poetas entrevistados por dieciocho poetas. Para entender la conformación del volumen, acerquémonos a él por medio de una simple estadística,. José Ángel Leyva realizó seis entrevistas, dos de ellas junto con Begoña Pulido Herráez. Claudia Posadas, cinco entrevistas. Mary Carmen Sánchez Ambriz, dos y Floriano Martins, cuatro. En la introducción, Leyva afirma que en este volumen fue preocupación de los entrevistadores "escuchar las voces de poetas mexicanos que rebasan los sesenta años de edad" p. 14) y señala. que hay dos ausencias insoslayables: José Emilio Pacheco y Gabriel Zaid. "Ambos -continúa Leyva- han levantado una barrera infranqueable contra los periodistas y escritores que pretenden sus palabras, sus opiniones, sus puntos de vista," (p. 14).

Estas ausencias me hicieron recordar lo ocurrido hace muchos años con la antología Laurel, compilada por Octavio Paz, donde también hay dos ausencias que sorprenden a cualquier lector: Pablo Neruda y León Felipe. En este caso, cuando Paz concibió el proyecto, ya la amistad con Neruda estaba fracturada. De este modo, cuando el libro ya, estaba en prensa, aclara Paz en el epílogo, Neruda envió una carta. a Bergamín, director de la editorial Séneca, encargada de la edición. "en la que se negaba a figurar en la. Antología”. Posteriormente, Bergamín tuvo una querella con el poeta Juan Larrea, amigo de León Felipe, quién decidió entonces "no figurar en la antología".

En Versos comunicantes aparecen poetas que pertenecen a distintas generaciones: los mayores son Pablo Antonio Cuadra., de Nicaragua, nacido en 1912 y fallecido en 2002. Le sigue Gonzalo Rojas, de Chile, nacido en 1917. A la década de los años veinte corresponden ocho poetas, a la de los treinta, trece; a la de los cuarenta, tres y, finalmente, a la de los cincuenta, también tres.

En cuanto a los países, México está representado por cuatro voces; Argentina, España Brasil y Colombia, por tres cada uno. Guatemala tiene dos representantes, en tanto que Nicaragua, Perú, Honduras, Uruguay, Venezuela, Panamá y Cuba., están representados por un poeta cada uno. En la nómina., hay cinco mujeres poetas. Por último, la, traducción de las entrevistas de los brasileños fue hecha por el también poeta, Margarito Cuéllar; los poemas en portugués que Preceden a la entrevista son versiones de Saúl Ibargoyen. Por su parte, Ferreira Gullar, otro poeta brasileño, conversó en español con José Ángel Leyva, y el poema "Plátanos podridos" es traducción de Alma Velasco.

La entrevista a José Santiago Naud me sedujo por su título: "Los rostros de nuestra americanidad". La de Olga Orozco me atrajo por el poema "Olga Orozco", fuertemente autobiográfico, y me evocó la voz de Rosario Castellanos, en tres poemas: ''Acción de gracias". "Recordatorio" e "Himno" (reminiscencias que cobraron vigor a medida que leía el texto). Por último, la corta entrevista al guatemalteco Humberto Ak´Abal no por su brevedad es menos significativa.

Floriano Martins plantea a José Santiago Naud, nacido en Río Grande del Sur, Brasil, en 1930, preguntas largas y complejas relacionadas con los autores brasileños anteriores a Naud, con la semiótica, los nexos entre las literatura brasileña y las de otros países iberoamericanos, entre otros tópicos. Estas preguntas ameritan, por supuesto, largas y profundas respuestas casi como pequeños ensayos. Quizás como ideas fundamentales de Naud, conservaríamos dos: por una parte, está convencido de que "Un buen estudio de literatura comparada demostraría maravillosas concordancias en la trayectoria de la poesía mexicana y brasileña" (p. 161) y, por la otra., sea. cual fuere la ubicación geográfica de los países del Bravo hacia el sur, "todo ha de converger en el corazón de Brasil. Y no sólo en el corazón, sino también en el cerebro y la entraña". (D. 163)

Olga Orozco, (Argentina, 1920-1999) responde a Marco Antonio Campos de manera ligera y deleitosa, pero no por ello menos profunda, dejando al descubierto su espíritu. Las preguntas son directas, lo que permite a Orozco explayarse en la respuesta. Fue así como encontré, para mi gran sorpresa, múltiples similitudes con Castellanos. Ambas nacieron en la década de los años veinte: la argentina, en 1920, la mexicana, en 1925. La primera tuvo una larga vida, 79 años. La segunda, murió a los 49 años y, aun así, su bibliografía es abundante. Orozco menciona su poema "La casa"; Castellanos tiene el suyo titulado "La casa vacía", de tono muy diferente. Ambas escribieron en versículos. “Lamentación de Dido” el poema de mayor aliento de Rosario Castellanos está escrito en esta métrica., sobre una historia clásica. Orozco contesta que prefirió sobre todo el versículo por sus "frecuentaciones de los libros sagrados, y, tal vez, me atrevo a creerlo -dice-, porque nací en La Pampa, donde la llanura se extiende y donde el horizonte lo rodea a uno por todas partes. En La Pampa se está como a la intemperie y uno tiene un vértigo continuo" (p. 42)

Marco Antonio Campos la interroga sobre la muerte y Orozco confiesa que empieza a sentirse aterrada, además de que encuentra difícil sobreponerse a la ausencia de los seres queridos. Castellanos escribe en su Poema "Encargo":

“Cuando yo muera dadme la muerte que me falta
y no me recordéis.
No repitáis mi nombre hasta que el aire sea
transparente otra vez.”

y en "Amanecer", exclama:

“Qué se hace a la hora de morir? ¿Se vuelve
la cara a la pared?
¿Se agarra por los hombros al que está cerca y oye?
¿Se echa uno a correr, como el que tiene
las ropas incendiadas, para alcanzar el fin?”

A la pregunta, "¿Se ha sentido usted rodeada mentalmente por los cuchillos de la locura?", Olga Orozco contesta que fue la poesía la que la. apartó del sendero de Artaud y concluye: "Incluso, cuando estoy angustiada, mis juegos predilectos son con las palabras, aun cuando sea llenar un simple crucigrama" (D. 45). Castellanos también se valió de las palabras para enfrentarse a la locura y, de este modo, en "Pasaporte", afirma:

“Mujer, pues, de palabra. No, de palabra no.
Pero sí de palabras,
muchas, contradictorias ay, insignificantes,
sonido Duro, vacuo cernido de arabescos,
juego de salón, chisme, espuma, olvido.

En los días de entreguerras, cuando vinieron al mundo, México y Argentina eran países muy diferentes. El nuestro apenas se acercaba a la pacificación tras la cruenta guerra civil. Argentina vivía tiempos mejores. Posiblemente, nunca intercambiaron palabra. Empero, sus preocupaciones, sus lecturas, su amor a la poesía las hermanan en el tiempo y en el espacio Orozco tuvo una vida dichosa: "A lo largo de los años he sido muy feliz, muy amada, he tenido mucho amor alrededor mío y lo he sentido con gran intensidad" (P. 50). Castellanos, en cambio, vivió el amor como un abandono, cual Dido al alejarse Eneas. Gozó del amor, la estimación y la amistad de amigos, colegas y alumnos, pero ello no bastó a su alma.

Grata resulta la entrevista a Humberto Ak'Abal, nacido en Totonicapán. Momostenango, Guatemala, el 31 de octubre de 1952. Ha recibido muchísimos premios nacionales e internacionales y, en 1998, el muy significativo Premio Continental Canto de América de Literatura en Lenguas Indígenas otorgado por la UNESCO, la Secretaría de Educación pública de México, la Asociación de Escritores en Lenguas Indígenas y la Casa de los Escritores en Lenguas Indígenas. Como en el caso de Orozco, las preguntas de Carlos López van al grano y el poeta responde sin reticencia. El guatemalteco confiesa que se inclinó hacia la poesía en la niñez, a través de las "imágenes y metáforas con que su madre enriquecía los relatos de su infancia; por ello, el paisaje que más aparece en su memoria es, como él dice, "Mi niñez y la naturaleza".

Versos comunicantes nos ofrece la oportunidad de oír a veintinueve voces hablar de su poesía y de la poesía en general, de su visión de mundo y de su vida personal. Conocemos dieciocho maneras de cuestionar, de interrogar, de invitar al entrevistado a quitarse la armadura y a hablar sin recelo. El libro es, asimismo, una especie de vasos comunicantes, tal vez una herradura. hueca en uno de cuyos extremos se vierte un líquido que inmediatamente fluye hacia el otro, buscando el equilibrio. Si la sostenemos verticalmente, ambos extremos estarían llenos hasta el mismo nivel. No otro fin se propusieron José Ángel Leyva, compilador del volumen, y los otros poetas que lo acompañaron en la aventura.

[María Rosa Fiscal]

Dentro da noite, de João do Rio10 Dentro da noite, de João do Rio. Editora Antiqua. São Paulo, SP. 2002. Contato: www.editoraantiqua.com.br.

Dentro da noite é o sétimo livro publicado por João do Rio e tem características que o diferenciam dos precedentes. Não é composto de reportagens como As religiões no Rio (1904), A alma encantadora das ruas (1908) ou Cinematógrafo (1909); nem de entrevistas como O momento literário (1905); ou obra de pesquisa como Fados, canções e danças de Portugal (1910). Está mais próximo de Era uma vez... (1909), coletânea de contos infantis em parceria com Viriato Correia - embora as histórias de Dentro da noite, mórbidas e sensuais, estejam bem longe de recomendáveis a crianças de qualquer idade.

É um livro que tem história. Ao voltar de sua primeira viagem à Europa, em março de 1909, João do Rio encontrou morto e enterrado seu pai, o professor de matemática e astronomia Alfredo Coelho Barreto, que morrera no dia 20.

Dez dias depois, para cobrir as despesas do funeral, assinou com a Editora Garnier contrato para um livro intitulado Dentro da noite, com adiantamento da quantia então nada desprezível de um conto de réis. Nessa época, apenas 11 dos 18 contos haviam sido publicados em jornal, sendo os outros 7 escritos no decorrer do ano.

Os volumes da primeira edição trazem a data de 1910, mas na verdade só foram postos à venda no início do ano seguinte, porque, impressos em Lisboa, só chegaram ao porto do Rio no final do ano. João do Rio estava novamente na Europa, comemorando sua recente (12 de agosto) posse na Academia Brasileira de Letras, e só voltou no final de maio de 1911. O livro foi posto à venda antes de seu regresso, pois foram publicadas resenhas na Gazeta de Notícias e no Correio da Manhã na última semana de abril. Dentro da noite é a maior coleção de taras e esquisitices até então publicada na literatura brasileira. Oito histórias tratam de diversas formas da deformação sensorial (hiperestesia): sonoras, olfativas, sadomasoquistas - incluindo abuso de drogas, sexo e cleptomania. Cinco abordam diretamente a busca da satisfação sexual da elite na classe baixa, e três ameaçam com o perigo das doenças contagiosas oriundo de tal mistura. Um clima opressivo de pavor cerca o sensualismo, expresso nas descrições de cores e cheiros, de personagens tão próprios do estilo Decadentista.

Poucas obras enquadram-se tão bem nos conceitos expressos por Susan Sontag no ensaio Sobre o camp, no qual analisa o art nouveau como forma de expressão homossexual. Oscar Wilde, num trecho do De profundis, diz que o paradoxo está para a gramática assim como o homossexualismo, para o sexo. Creio ser esta uma boa chave para decifrar o estilo vertiginoso, paradoxal, bizarro e por vezes quase repulsivo do nosso autor.

Mais do que pela obra de Wilde, de quem João do Rio foi admirador e tradutor, Dentro da noite é muito influenciado por dois outros autores, hoje fora de moda. Um é o médico austríaco Krafft-Ebing, cujo Psicopathia sexualis (1886) era o que de mais avançado havia sobre anomalias sexuais antes da aparição das obras de Freud. O outro é Jean Lorrain (Paul Duval), o mais decadente dos decadentistas franceses. Desafeto de Marcel Proust e Debussy, era um homossexual escancarado como Wilde, e morrera há pouco na Riviera com os intestinos ressecados pelo vício do éter, que ingeria derramado sobre uma taça de morangos. Esquecido mesmo na França durante quase um século de vanguardismo e duas guerras mundiais, Lorrain está sendo reabilitado pela crítica responsável, que não pode mais ficar impassível diante do brilhantismo de seu estilo. Seus livros de contos, em especial Histoires de masques (1900) e crime des riches (1905) são uma importante fonte destas histórias cariocas.

Onze delas utilizam o recurso da narração indireta, ou seja: alguém conta algo ao narrador que nos conta. Grande parte das vezes esse narrador é o fictício Barão de Belfort, “velho dandi sempre impecável que diz as coisas mais horrendas com perfeita distinção”, um descendente direto de Lord Wotton, o narrador wildeano de O retrato de Dorian Gray, essa bíblia do Decadentismo. Belfort fez um grande sucesso entre os leitores, ressurgindo em outras obras, como a peça A bela Madame Vargas, a novela A profisão de Jacques Pedreira e as crônicas de Pall-Mall Rio - sobrevivendo até 1916.

Não devemos também ignorar a força e a variedade dos personagens femininos de João do Rio, outra característica de sua obra. As emancipadas Alda Pereira (A parada da ilusão), Irene de Souza (Uma mulher excepcional) ou Laurinda Belfort contrastam vivamente com a anoréxica Carlota Paes (A noiva do som) - que morre apaixonada pelo som de um piano distante - ou a submissa Clotilde de Dentro da noite - que permite que o noivo tarado lhe pique os braços com alfinetes.

Como vimos anteriormente, mais da metade dos contos havia sido publicada antes do contrato com a Garnier, e os restantes, no período entre o contrato e a edição do livro. Um é de 1904, um de 1905, um de 1906, seis de 1908, seis de 1910 e três de data não identificada. Com exceção de um (A noiva do som, revista Kosmos), todos saíram na Gazeta de Notícias. Vejamos na ordem cronológica, diferente da publicada em volume.

A noiva do som (setembro de 1910), A sensação do passado (02-08-1905) e Emoções (data não localizada) são as primeiras histórias do Barão de Belfort. Dentro da noite (01-01-1906), uma das melhores, trata de sadismo e se passa num trem da Central do Brasil, sendo uma intrusão do Marquês de Sade no mundinho provinciano dos personagens de Machado de Assis. A alusão aos belos braços nus da protagonista nos remete imediatamente a Capitu machadiana. O fim de Arsenio Godard (23-01-1908) se passa na Revolta da Esquadra contra Floriano Peixoto e tem muitos admiradores. Aventura de hotel (13-07-1908), O monstro (02-11-1908), O bebê de tarlatana rosa (16-03- 1908), Laurinda Belfort (06-05-1908) e Histórias da gente alegre (data não localizada) são típicas narrativas decadentistas, tirando lições filosóficas de acontecimentos amorais. O bebê... é o melhor conto de João do Rio e um dos melhores da literatura brasileira, integrando magistralmente suspense e erotismo numa história carnavalesca de final surpreendente e mórbido. Histórias da gente alegre - outra do ciclo Belfort - também se destaca pelo tema do homossexualismo, estrategicamente raro na obra de um autor tão conhecido por praticá-lo. Última noite (27-06-1908) flerta com a temática lusitana: Armando, imigrante português seduzido e esmagado pelo mundo teatral carioca, desempregado e faminto, passa seus últimos momentos num trem da Central, mostrado como metáfora da vida moderna, tão rápida quanto implacável. Duas criaturas (20-03-1910), Coração (21-02-1910) e A parada da ilusão (03-03-1910) tratam de casais inusitados: um rico seringueiro que desposa uma cocote mesmo sabendo que ela vai ser infiel; um pobre professor que se dedica à filha moribunda abandonada pela esposa infantilóide e fútil; e a esperta viúva que seduz um estudante. Este segundo conto é bastante autobiográfico e fala disfarçadamente dos pais do autor e da morte de seu irmão caçula, Bernardo Guttemberg. O narrador de A peste (27-02-1910) conta as agruras de localizar um amigo (e possível amante) durante uma epidemia de varíola, mantendo uma lúgubre atualidade nos nossos tempos aidéticos. Uma mulher excepcional (03-04-1910) constrói muito bem o fascinante personagem da atriz Irene de Souza. A mais estranha moléstia (04-12-1910) e O carro da Semana Santa (data não localizada) tratam da hiperestesia do olfato e do sexo, respectivamente.

Este último, onde o erotismo desenfreado desenrola-se em locais públicos e sagrados, condensa muito bem o clima mórbido presente em toda a obra. Com ele se encerra este livro estranho e fascinante.

Essa eclética reunião de estilos, linguagens e filosofias - que em outros autores revelaria somente um ecletismo superficial - é a própria essência do livro de João do Rio e sua época, cheia de antigas novidades e imortais velharias.

Para um tempo de transição, um estilo e uma linguagem de transição. Mas de primeira categoria, como o leitor pode confirmar, virando a próxima página e mergulhando no mundo faiscante de Dentro da noite, um livro para gourmetsliterários.

[João Carlos Rodrigues]

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