revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003






 

O jardim das cabeças de bronze: visitação às esculturas de Valdir Rocha

Mirian de Carvalho

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I - DAS CABEÇAS

Valdir RochaDominando vários procedimentos técnicos, Valdir Rocha os instrumentaliza de modo poético, mantendo uma recorrência temática: a cabeça. Desenha, pinta [1], grava [2] e esculpe cabeças. Cada cabeça, um mundo. Eternidade, Jano, Pequeno Jano [3], Julgador, Rabugento, Veloz: na obra escultórica, a denominação nos indica marcante característica fluindo expressiva nos seres concebidos por uma "estética da redução" [4], como assinala Péricles Prade: “[...] pois o artista simplifica e reduz as formas ao essencial, valendo-se de esculturas de pequeno formato." [5] Realizada em pequena dimensão, variando [6], aproximadamente, entre 13 e 55 cm, a cabeça nos faz intuir e ou imaginar respectivo corpo que a ela se integra.

Trata-se de uma ordenação poética do motivo escultórico, incluindo nas obras estrato imaginativo, que as compõe, através de uma estética da parte animando e personificando o todo, e da síntese eclodindo em analítico olhar do escultor, ajustando estas cabeças ao pescoço do visitante. Em volumetria, visualizada - a cabeça, imaginário - o corpo, ambos se completam em ato, intenção e pensamento, inscritos em bronze, ressalvando-se que, tendo o artista trabalhado outros materiais, estamos visitando esculturas em metal: cabeças de bronze… pele textura fisionomia, sonorizadas na poética de sua matéria.

Homem. Divindade. Animal. Na interpretação do motivo, Valdir Rocha percorre mitos, paixões, pecados, intimidades dos homens e dos deuses, e reações das aves e serpentes, lembrando-nos de nosso pertencimento ao reino animal, e de nosso destino de finitude. Percorrendo este acervo de expressões e entreolhares, bicho e homem se surpreendem em metamorfose iniciada pela cabeça, conferindo ao imaginário corpo - seu ser originário.

Neste acervo de fisionomias, atributos dos deuses e semi-deuses, ou qualidades dos humanos tangenciam nossas possibilidades e limites na voz metálica das cabeças de Jano, dos Titãs ou da Eternidade, e de outros seres originários da argila, seres que agora vivem e se humanizam revestidos de pele de metal. Pulsante no bronze, a argila, matéria originária do fôlego das coisas vivas, é pressentida como duplo, uno e nascedouro, no destino das cabeças. Integradas à poética da obra, as etapas do fazer são rememoradas na inquietude do artista: "O que é mais perene - a argila ou o bronze? Os materiais, em si, têm igual perenidade. A fundição de um modelo em bronze importa em responsabilidade grande, na suposição de que o objeto dele feito seja mais duradouro. Deveria ser? Merece ser?" [7]

Considerando-se a vida da matéria, diríamos que, imagística, poética e simultaneamente, argila e bronze são substâncias intrínsecas às cabeças. Bronze e argila se encontram amalgamados na imaginação do artista, que as concebeu perenes e instantâneas, quando as definiu em expressão e presença. Ainda que destruído o molde, argila e bronze vivem entredoação e fisionomia no lirismo do destino originário, sem pecado, em metamorfose e ontogênese, nestas cabeças de metal enraizadas na terra. Enraizadas no útero de barro que, em seus semblantes, plasmou pele, arcaísmo e atualidade. E verdade poética de rosto e máscara.

Como ressalta Sabina de Libman, estes bronzes se identificam com máscaras: "Máscaras festivas, primitivas ou não, máscara cotidiana e social." [8] Seguindo tal analogia, podemos nos perguntar pelos sentidos e desdobramentos destas máscaras concebidas em arcaísmo e atualidade. Peles testas bocas rugosas e antigas… escavados ou não, olhos guardando sombras das crateras escondidas na argila do primitivo molde que as acolheu na infância do mundo. Molde e temporalidade marcando semblante e caracterização, rosto assinalando arquétipos na alma do homem, trazendo vestígios da criação da terra - espécie de memória platônica - reminiscência que as originou imemoriais, quando coisa e idéia foram plasmadas pelo Demiurgo, quando o mundo andava e retornava no giro de áion: o tempo cíclico das mitologias e imagens anteriores ao homem.

Valdir RochaPor isso, nesta poética, não há lugar para o dourado cintilante. Estes bronzes são seres de entrelume. Se polidas as cabeças, elas se desvelam sob luz tênue, que as reúne aos seus semelhantes de pele tingida de anterioridade, ou corroída pelo musgo da pátina, mostrando dons ancestrais e funções da terra: raiz seiva crescimento e devir - atributos da matriz, simbolizando nascimento e morte. Eterno retorno à máscara primordial, qualquer que seja o semblante por nós escolhido.

Lembremos que a máscara - teatral, tribal, carnavalesca ou momentânea - social ou cosmogônica - não representa fisionomia, mas encarna o ser em ato. Na Grécia Antiga, o poeta lírico Thespis, organizador das danças e coros do ditirambo, ao usar pela primeira vez a máscara nos festejos de Dionísio, não representou este deus. Ele atuou como Dionísio. Tornou-se Dionísio, para viver as potencialidades da festa e da embriaguez - da embriaguez cósmica - consagrando-se em escala humana e universal. Possuído pela poesia ritmada pelos pés, Thespis foi o primeiro ator trágico, ao assumir lugar e linguagem do deus, sorvendo vinho e paixão. Festejando, mostrando-se divino - dionisíaco - atuou incontido em si, e no outro.

À ribalta do mundo, a máscara sou eu e o outro, em intenção, privação, possibilidade, esculpindo nossos rostos, dizendo o que somos, o que vemos, e de que modo vemos, pensamos e sentimos. No rosto da máscara não há representação. Não existe farsa. Nem simulacro.

Rosto músculos e ironia. Erotismo raiva ou indiferença. As Cabeças encenam e realizam roteiros e falas de máscaras em desvelamento. Elas não conhecem disfarce ou dissimulação. Nós, atores em carne osso e desígnio - máscara desejo e símbolo - nos reconhecemos nestes bronzes, rastreando e libertando nossos deuses bichos lacunas e cabeças.

E vestindo imaginário corpo que nos pressente em proximidade e distância.

 

II - DO JARDIM

Inicio visita às cabeças de bronze. Longe das galerias museus definições, peço ao escultor licença poética para plantá-las no meu jardim de areia. Concentrado em despojamento oriental, esse lugar reúne ancestralidade e cotidiano viver, combinando com a floração do metal nestas pequenas cabeças em diálogo comigo. Não resisto ao tato. Quero conhecê-las com as mãos. Desejo imaginá-las sonoras. Em sua matéria, polimento, cor e opacidade sugerem diversificadas respostas ressonando vento chuva ou afago. Aos ouvidos e corpos imaginários preenchidos por sinestesias: Cada cabeça: uma sonoridade.

Valdir RochaMúltiplas ressonâncias, pátina polimento tinta - corrosão brilho-fosco pintura: Onde colocar Totem? Trio? E Súdito? Desejo ouvi-los. Eles reverberam sons da matéria transformada por dentro, marcando na superfície momentos da moldagem e calor da fundição. Na cabeça Veloz, marcas no metal assobiam a passagem do vento. Tenaz, a Eternidade emite tons graves de silenciosa unissonância jamais interrompida.

Brotando do chão, desejo posicionar estas cabeças em lugares adequados às suas singularidades e diferenças, enquanto converso com elas sobre a múltipla dualidade que me encarcera e liberta o corpo. Parte delas, em mim se reconhece: Píncaro da Glória e ou Glória Extinta, vivendo a simultaneidade do ato e paixão. Inscrições íntimas ou desenho no meu jardim, vou posicionando estas cabeças numa ordenação afetiva, sem lastros de sucessão. Nelas, encontro correspondências inexplicáveis pela linearidade.

Por escolha, me disponho a arrumar meu rebanho de cabeças. De frente. De lado. Visão da nuca. Sombra luz revelando pegadas do dia, da noite, e de si mesmas… estágios da vida que as agrega, projetando na areia irrepetidos dizeres de cenho ou serenidade, intenção ou arroubo, fisionomia contorno olhar saltando dos corpos imaginários. Polidas, pintadas ou entranhadas de pátina, elas revelam pele e carne macerada - fragmento e transcendência - das virtudes e faltas que me atingem, e dos meus feitos ou decisões sem pecado ou virtude. Enquanto elas se contemplam, nós nos contemplamos guardando as horas da vida e da morte, num "acordo íntimo", acreditando no verso: "Há metafísica bastante em não pensar em nada."

Sempre revisito o Pequeno Jano. Hoje, deixei-o à entrada do jardim. Deus das Portas, lugares transitivos abrindo ou fechando mapas sobre a soleira. Duas direções. Inumeráveis escolhas e acasos presididos por Jano… Mas nunca me lembro de perguntar-lhe: "O ser que abre a porta é o mesmo que a fecha?" Duas faces - dois olhares - unindo tempos primitivos de ontem e devires. Diante das portas, me reconheço ambígua e ambivalente. Portas são espelhos à procura de imagem. Vejo-me naquelas que abri ou fechei, e nas semi-abertas e entre-fechadas, que não ousei mover. A dualidade é minha matéria. A dúvida, também. Manhã e noite, reinicio janeiro, umbral deste túnel do ano e de tantos outros perdidos na palma da mão, simbolizando no rosto dos astros diário e bandeira de esgotado tempo.

Ante Enlace, me torno escorregadia, cedendo à vertigem do dorso em curvas, deslizando em busca de lugar exato para a bicéfala serpente, imaginário falo de ininterrupto encontro… esta se deslocará pelo jardim… qualquer lugar será adequado ao flexível corpo que, espiralado, se lambe e se acaricia. Mobilidade é seu espaço.

Prossigo a visitação. As cabeças de bronze conversam dormem unem-se e separam-se. O Rabugento sempre rabugentando suas falas de anelada lagarta. Os Titãs sonhando dominar os céus. A Eternidade, cabeça em horizontal açoite, sem saber que eu existo, me alerta: - O que de mim desejas, será para sempre. O que tens, não te pertencerá. Vontade ou desejo: nada te despertará no adormecido bronze do meu rosto. Teus versos, teu muro de lamentações e teu chá das cinco inexistem neste meu abolido tempo. Vale a pena? me pergunto… e por ela passo, fazendo do instante meu êxtase de espera e deleite. A fuga do tempo não me assusta. Que o eterno ventre possa partejar na areia o lugar que lhe convém! E que deixe em paz os humanos…

­­Imitando a Eternidade, Vivaz, a cabeça do capeta tentou alguém… e se deleita com seu ofício. Qual terá sido o prêmio? Uma alma? Duas almas? Por que, sempre, atribuímos maldade ao capeta? Ou capetas somos nós? Não teria sido outro o objeto da barganha? Flores? Samambaias nas fendas das pedras? Um beijo? Ele está satisfeito, eu o deixo onde está.

Valdir RochaVendo o Homo Erectus em repouso, penso em trocá-lo de lugar, longe das águas das chuvas. Mas, desperto, ele burla minha vontade, cumprindo "ritos de passagem": Adorador do Sol, contemplando o Deus do Dia e Contador de Estrelas, recontando luzes. Algumas já morreram, mas no meu jardim a morte é interlúdio… e o Homo Erectus, seguindo sua cabeça móvel, se transforma em Pêndulo girando 180, 360, 361, 362 graus, renovando mitos de caminhante sem pés - girando sua cabeça de bússola e transmutação.

Depois, coloco no meio do jardim a Águia - homem-pássaro - olhando com alto olhar a infinitude do solo, adivinhando a trama de Dominante e Dominado, que respondem ao jogo fálico de transitória completude contemplação-gozo-recomeço… dominante-dominado… dominado-dominante… dominador… macho fêmea noite dia… parte… todo.

Procuro conter o Cismarento. Não consigo. Olhando-o com meu olhar fixo, sua cabeça gira deslocando-se em hélice. Gira gira gira, e olhos não mais a alcançam.

Plantadas e implantadas na areia. No alto. No chão. Homem. Animal. Divindade. Ao meu redor, outras cabeças de bronze. Ofídica emplumada fálica - são elas oráculo e memória das nossas ações, articulando os dois nortes de Jano. Rosto fisionomia máscara… Que rosto não foi, não é, não será - máscara?

Jardim de sonoridades. Cabeças de bronze. Seus nomes combinam com olhar e boca. Atos de vaidade luxúria altivez - os pecados capitais que as coroam - lhes dão humanidade, e finalidade ao Julgador riscando a linha divisória entre jardim e abismo. Moisés? Júpiter? Corpo ou pescoço de montanha, o julgamento prossegue.

Cabeça e bronze. O olhar, porta de entrada. Saída fazendo-se pela garganta. Fossem peixes de um cardume de metal, morreriam pela boca: cratera selada farejando e mordendo seu dizer antes da fala, porque a língua não cicatriza seu desejo de humanidade. E morreriam pelos olhos: crateras de leite ou sangue forjando e sonorizando dardos de silêncio, posto que o tempo não cicatriza profundezas da retina. Mas, no meu jardim, a morte seria interlúdio.

Cabeças de bronze, sua matéria pulsa, relembrando primitiva existência modelada em argila: terra totêmica, origem e alquimia do calor que as moldou em expressão e sonoridade. Olhar e boca. Olhos delineando-as da cabeça aos pés… Junto à porta da casa, encontro lugar para o Pequeno Jano, olhando as duas faces inacessíveis das portas entreabertas ao tempo.

 

NOTAS
1 Na obra especificada na nota nº 4, Valdir Rocha - Cabeças, há reproduções da pintura do artista. Sobre a pintura de Valdir Rocha, consultar também a obra Intimidades Transvistas (São Paulo: Escrituras, 1997). A referida obra apresenta reproduções de pinturas de Valdir Rocha e poemas, de consagrados autores, tendo como tema quadros do artista. 
2 Com relação à gravura em metal, pode ser consultada a obra Gravuras em Metal - Valdir Rocha, São Paulo: Artemeios, na qual se encontram textos dos críticos de arte Carlos Soulié do Amaral e Jorge Anthonio e Silva, bem como fragmentos textuais de outros críticos, poetas e curadores, comentando a obra de Valdir Rocha. Sobre a xilogravura, deve ser consultada a obra Valdir Rocha - Xilogravuras (São Paulo: Escrituras, 2001), com texto da professora e crítica literária Nelly Novaes Coelho, analisando o trabalho de Valdir Rocha.
3 Sobre as cabeças denominadas Jano e Pequeno Jano, encontra-se no prelo o ensaio intitulado O Mito de Jano na Escultura de Valdir Rocha: as múltiplas faces do tempo e das portas, de nossa autoria, a ser publicado em Dialoghi Rivista di Studi Italici # V (Rio de Janeiro: PROITA-UERJ, 2003).
4 Cf. PRADE, Péricles. Do que se chama Cabeça e outras Incursões, in Valdir Rocha - Cabeças (São Paulo: Arte aplicada, 2002).
5 Idem, ibidem, p.6.
6 São exceções: a figura menor, com 7 cm de altura, constitutiva do par Dominante / Dominado, e o conjunto variacional Homo Erectus / Adorador do Sol e Contador de Estrelas, com 146 cm de altura.
7 Questão estética proposta por Valdir Rocha , e registrada pela autora deste ensaio.
8 Cf. LIBMAN, Sabina de. IN Valdir Rocha - Cabeças, op. cit., orelha.

Mirian de Carvalho. Crítica e poeta. Vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Publicou, em parceria com Angela Martins, Novas Visões: Fundamentando e Espaço Arquitetônico e Urbano (2000). Texto originalmente publicado no Catálogo da Mostra Artistas Contemporâneos Prêmio ABCA 2000/2001, em versão aqui atualizada. Contato: mir3@zaz.com.br. Página ilustrada com obras de Valdir Rocha (Brasil).

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