![]() |
revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
|
O jardim das cabeças de bronze: visitação às esculturas de Valdir Rocha Mirian de Carvalho
I
- DAS CABEÇAS
Trata-se
de uma ordenação poética do motivo escultórico, incluindo nas obras
estrato imaginativo, que as compõe, através de uma estética da parte
animando e personificando o todo, e da síntese eclodindo em analítico
olhar do escultor, ajustando estas cabeças ao pescoço do visitante. Em
volumetria, visualizada - a cabeça, imaginário - o corpo, ambos se
completam em ato, intenção e pensamento, inscritos em bronze,
ressalvando-se que, tendo o artista trabalhado outros materiais, estamos
visitando esculturas em metal: cabeças
de bronze… pele textura fisionomia, sonorizadas na poética de sua
matéria. Homem.
Divindade. Animal. Na interpretação do motivo, Valdir Rocha percorre
mitos, paixões, pecados, intimidades dos homens e dos deuses, e reações
das aves e serpentes, lembrando-nos de nosso pertencimento ao reino
animal, e de nosso destino de finitude. Percorrendo este acervo de expressões
e entreolhares, bicho e homem se surpreendem em metamorfose iniciada pela
cabeça, conferindo ao imaginário corpo - seu ser originário. Neste
acervo de fisionomias, atributos dos deuses e semi-deuses, ou qualidades
dos humanos tangenciam nossas possibilidades e limites na voz metálica
das cabeças de Jano, dos Titãs ou da Eternidade, e
de outros seres originários da argila, seres que agora vivem e se
humanizam revestidos de pele de metal. Pulsante no bronze, a argila, matéria
originária do fôlego das coisas vivas, é pressentida como duplo, uno e
nascedouro, no destino das cabeças.
Integradas à poética da obra, as etapas do fazer são rememoradas na
inquietude do artista: "O que
é mais perene -
a argila ou o bronze? Os materiais, em si, têm igual perenidade. A fundição
de um modelo em bronze importa em responsabilidade grande, na suposição
de que o objeto dele feito seja mais duradouro. Deveria ser? Merece
ser?" [7]
Considerando-se
a vida da matéria, diríamos que, imagística, poética e
simultaneamente, argila e bronze são substâncias intrínsecas às cabeças.
Bronze e argila se encontram amalgamados na imaginação do artista, que
as concebeu perenes e instantâneas, quando as definiu em expressão e
presença. Ainda que destruído o molde, argila e bronze vivem entredoação
e fisionomia no lirismo do destino originário, sem pecado, em metamorfose
e ontogênese, nestas cabeças de metal enraizadas na terra. Enraizadas no
útero de barro que, em seus semblantes, plasmou pele, arcaísmo e
atualidade. E verdade poética de rosto e máscara. Como
ressalta Sabina de Libman, estes bronzes se identificam com máscaras:
"Máscaras festivas, primitivas ou não, máscara cotidiana e
social." [8] Seguindo tal analogia, podemos nos perguntar pelos
sentidos e desdobramentos destas máscaras concebidas em arcaísmo e
atualidade. Peles testas bocas rugosas e antigas… escavados ou não,
olhos guardando sombras das crateras escondidas na argila do primitivo
molde que as acolheu na infância do mundo. Molde e temporalidade marcando
semblante e caracterização, rosto assinalando arquétipos na alma do
homem, trazendo vestígios da criação da terra - espécie de memória
platônica - reminiscência que as originou imemoriais, quando coisa e idéia
foram plasmadas pelo Demiurgo, quando o mundo andava e retornava no giro
de áion: o tempo cíclico das
mitologias e imagens anteriores ao homem.
Lembremos
que a máscara - teatral, tribal, carnavalesca ou momentânea - social ou
cosmogônica - não representa
fisionomia, mas encarna o ser em ato. Na Grécia Antiga, o poeta lírico Thespis, organizador das danças e coros do ditirambo, ao usar pela
primeira vez a máscara nos festejos de Dionísio, não representou este
deus. Ele atuou como Dionísio.
Tornou-se Dionísio, para viver as potencialidades da festa e da
embriaguez - da embriaguez cósmica - consagrando-se em escala humana e
universal. Possuído pela poesia ritmada pelos pés, Thespis
foi o primeiro ator trágico, ao assumir lugar e linguagem do deus,
sorvendo vinho e paixão. Festejando, mostrando-se divino - dionisíaco -
atuou incontido em si, e no outro. À
ribalta do mundo, a máscara sou eu e o outro, em intenção, privação,
possibilidade, esculpindo nossos rostos, dizendo o que somos, o que vemos,
e de que modo vemos, pensamos e sentimos. No rosto da máscara não há
representação. Não existe farsa. Nem simulacro. Rosto
músculos e ironia. Erotismo raiva ou indiferença. As
Cabeças encenam e realizam roteiros e falas
de máscaras em desvelamento. Elas não conhecem disfarce ou dissimulação.
Nós, atores em carne osso e desígnio - máscara desejo e símbolo - nos
reconhecemos nestes bronzes,
rastreando e libertando nossos deuses bichos lacunas e cabeças. E
vestindo imaginário corpo que nos pressente em proximidade e distância. II
- DO JARDIM Inicio
visita às cabeças de bronze.
Longe das galerias museus definições, peço ao escultor licença poética
para plantá-las no meu jardim de areia. Concentrado em despojamento
oriental, esse lugar reúne ancestralidade e cotidiano viver, combinando
com a floração do metal nestas pequenas cabeças em diálogo comigo. Não
resisto ao tato. Quero conhecê-las com as mãos. Desejo imaginá-las
sonoras. Em sua matéria, polimento, cor e opacidade sugerem
diversificadas respostas ressonando vento chuva ou afago. Aos ouvidos e
corpos imaginários preenchidos por sinestesias: Cada cabeça: uma sonoridade.
Brotando
do chão, desejo posicionar estas cabeças em lugares adequados às suas
singularidades e diferenças, enquanto converso com elas sobre a múltipla
dualidade que me encarcera e liberta o corpo. Parte delas, em mim se
reconhece: Píncaro da Glória e ou Glória Extinta,
vivendo a simultaneidade do ato e paixão. Inscrições íntimas ou
desenho no meu jardim, vou posicionando estas cabeças numa ordenação
afetiva, sem lastros de sucessão. Nelas, encontro correspondências
inexplicáveis pela linearidade. Por
escolha, me disponho a arrumar meu rebanho de cabeças. De frente. De
lado. Visão da nuca. Sombra luz revelando pegadas do dia, da noite, e de
si mesmas… estágios da vida que as agrega, projetando na areia
irrepetidos dizeres de cenho ou serenidade, intenção ou arroubo,
fisionomia contorno olhar saltando dos corpos imaginários. Polidas,
pintadas ou entranhadas de pátina, elas revelam pele e carne macerada -
fragmento e transcendência - das virtudes e faltas que me atingem, e dos
meus feitos ou decisões sem pecado ou virtude. Enquanto elas se
contemplam, nós nos contemplamos guardando as horas da vida e da morte,
num "acordo íntimo", acreditando no verso: "Há metafísica
bastante em não pensar em nada." Sempre
revisito o Pequeno Jano. Hoje,
deixei-o à entrada do jardim. Deus
das Portas, lugares transitivos abrindo ou fechando mapas sobre a
soleira. Duas direções. Inumeráveis escolhas e acasos presididos por
Jano… Mas nunca me lembro de perguntar-lhe: "O
ser que abre a porta é o mesmo que a fecha?"
Duas faces - dois olhares - unindo tempos primitivos de ontem e devires.
Diante das portas, me reconheço ambígua e ambivalente. Portas são
espelhos à procura de imagem. Vejo-me naquelas que abri ou fechei, e nas
semi-abertas e entre-fechadas, que não ousei mover. A dualidade é minha
matéria. A dúvida, também. Manhã e noite, reinicio janeiro, umbral
deste túnel do ano e de tantos outros perdidos na palma da mão,
simbolizando no rosto dos astros diário e bandeira de esgotado tempo. Ante
Enlace, me torno escorregadia, cedendo à vertigem do dorso em
curvas, deslizando em busca de lugar exato para a bicéfala serpente,
imaginário falo de ininterrupto encontro… esta se deslocará pelo
jardim… qualquer lugar será adequado ao flexível corpo que,
espiralado, se lambe e se acaricia. Mobilidade é seu espaço. Prossigo
a visitação. As cabeças de bronze conversam dormem unem-se e
separam-se. O Rabugento sempre rabugentando
suas falas de anelada lagarta. Os Titãs
sonhando dominar os céus. A Eternidade,
cabeça em horizontal açoite, sem saber que eu existo, me alerta: -
O que de mim desejas, será para
sempre. O que tens, não te pertencerá. Vontade ou desejo: nada te
despertará no adormecido bronze do meu rosto. Teus versos, teu muro de
lamentações e teu chá das cinco inexistem neste meu abolido tempo. Vale
a pena? me pergunto… e por ela passo, fazendo do instante meu êxtase de
espera e deleite. A fuga do tempo não me assusta. Que o eterno ventre
possa partejar na areia o lugar que lhe convém! E que deixe em paz os
humanos… Imitando
a Eternidade, Vivaz, a cabeça do capeta tentou alguém… e se deleita com seu ofício.
Qual terá sido o prêmio? Uma alma? Duas almas? Por que, sempre, atribuímos
maldade ao capeta? Ou capetas somos nós? Não teria sido outro o objeto
da barganha? Flores? Samambaias nas fendas das pedras? Um beijo? Ele está
satisfeito, eu o deixo onde está.
Depois,
coloco no meio do jardim a Águia -
homem-pássaro - olhando com alto olhar a infinitude do solo, adivinhando
a trama de Dominante e Dominado, que respondem ao jogo fálico de transitória completude
contemplação-gozo-recomeço… dominante-dominado…
dominado-dominante… dominador… macho fêmea noite dia… parte…
todo. Procuro
conter o Cismarento. Não
consigo. Olhando-o com meu olhar fixo, sua cabeça gira deslocando-se em hélice.
Gira gira gira, e olhos não mais a alcançam. Plantadas
e implantadas na areia. No alto. No chão. Homem. Animal. Divindade. Ao
meu redor, outras cabeças de bronze. Ofídica emplumada fálica - são
elas oráculo e memória das nossas ações, articulando os dois nortes de
Jano. Rosto fisionomia máscara… Que rosto não foi, não é, não será
- máscara? Jardim
de sonoridades. Cabeças de bronze. Seus nomes combinam com olhar e boca.
Atos de vaidade luxúria altivez - os pecados capitais que as coroam -
lhes dão humanidade, e finalidade ao Julgador
riscando a linha divisória entre jardim e abismo. Moisés? Júpiter?
Corpo ou pescoço de montanha, o julgamento prossegue. Cabeça
e bronze. O olhar, porta de entrada. Saída fazendo-se pela garganta.
Fossem peixes de um cardume de metal, morreriam pela boca: cratera selada
farejando e mordendo seu dizer antes da fala, porque a língua não
cicatriza seu desejo de humanidade. E morreriam pelos olhos: crateras de
leite ou sangue forjando e sonorizando dardos de silêncio, posto que o
tempo não cicatriza profundezas da retina. Mas, no meu jardim, a morte
seria interlúdio. Cabeças
de bronze, sua matéria pulsa, relembrando primitiva existência modelada
em argila: terra totêmica, origem e alquimia do calor que as moldou em
expressão e sonoridade. Olhar e boca. Olhos delineando-as da cabeça aos
pés… Junto à porta da casa, encontro lugar para o Pequeno
Jano, olhando as duas faces inacessíveis das portas entreabertas ao
tempo. NOTAS |
|
Mirian de Carvalho. Crítica e poeta. Vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Publicou, em parceria com Angela Martins, Novas Visões: Fundamentando e Espaço Arquitetônico e Urbano (2000). Texto originalmente publicado no Catálogo da Mostra Artistas Contemporâneos Prêmio ABCA 2000/2001, em versão aqui atualizada. Contato: mir3@zaz.com.br. Página ilustrada com obras de Valdir Rocha (Brasil). |