![]() |
revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
|
Claudio Willer: meditações de emergência Roberto Piva
Em
1997, a FUNARTE, órgão cultural vinculado ao Ministério da Cultura,
promoveu uma série de entrevistas por Roberto Piva, intituladas “Meditações
de Emergência”. Uma delas, comigo, foi realizada em 31
de março. Essas
entrevistas estavam disponíveis no site da FUNARTE, que parece ter
sido desativado. Por isso, resolvi torná-la disponível na Agulha, a bem de pesquisadores e outros leitores a quem tudo isso
pode interessar. Acrescentei notas, tornando-a mais inteligível para quem
não acompanhou os acontecimentos em São Paulo na década de 1960. Muito
do que está registrado na primeira metade desta entrevista também pode
ser encontrado em outros lugares, especialmente no documentário Uma
outra cidade, de Ugo Giorgetti, e na longa entrevista comigo feita por
Floriano Martins, gravada em Especulo.
Já a segunda metade contém material mais virgem, menos divulgado. [C.W.]
CW - Então, vamos por partes, pois isso é um monte de coisas. Nos anos 60, realmente havia um ambiente cultural muito interessante em São Paulo, composto por artistas de vários tipos, poetas novos, e tudo isso gravitava bastante ao redor do Massao Ohno e da Coleção Novíssimos. Eu já conhecia o Piva antes, mas muita gente com a qual viemos a ter amizade, até criar uma espécie de grupo ou confraria, nós conhecemos naquele contexto, direta ou indiretamente ligado à Coleção Novíssimos. Conheci o Piva mais ou menos em 59 ou 60, e já tinha ouvido falar dele antes. O Piva já era bastante famoso. No colégio onde eu estudava, o Dante Alighieri, eram muito comentadas algumas façanhas e características do Piva. Naquela
época, de repente me enturmei com um bando de excêntricos, o André, o
Irco, o Feto. Era uma turma que dedicava metade do seu tempo a ouvir ópera
e a outra metade a armar confusões. Conheci o Piva quando estava num bar
com o Irco, o Olé, e o convidei para uns grupos de música que eu
organizava na ACM [2]. Ele foi ver o que era, e disse: “Vamos fazer um
ciclo, uma série de poesia!” Aí, você (Piva) chamou várias pessoas
para falar sobre poetas. Acabou você falando sobre Sá Carneiro, eu sobre
Augusto dos Anjos, o Salinas abriu sobre Antero de Quental, o De
Franceschi sobre Cruz e Souza… RP
- O Victor Knoll sobre Murilo Mendes… CW
- O Paulo del Greco sobre Drummond, e não lembro mais quem sobre quem. Bom,
naquele grupo apareceram pessoas com quem viemos a ter contato regular,
como Décio Bar, Carlos Felipe Moisés e mais esse pessoal que já citei.
Na época, São Paulo tinha um centro, e um ponto aonde todo mundo
convergia, atrás da Biblioteca, onde havia o mitológico Paribar, e o
Leco ou La Crémerie, que era mais o ponto da minha turma, e onde, algum
tempo depois, foi aberto o Barroquinho, onde lancei meu primeiro livro de
poesia e você o seu segundo livro de poesia. RP
- Que foram respectivamente Anotações
para um Apocalipse, que tem prefácio meu, e Piazzas.
Nós lançamos no Barroquinho, que era do Zilco Ribeiro, que foi um grande
diretor de teatro de revistas, da linha daquele Silveira Sampaio, e ele
foi, aliás, assistente do Silveira Sampaio. (público)
- Quando a Galeria Metrópole foi inaugurada? Lá tinha o Ponto de
Encontro, também? CW
- A Galeria Metrópole foi inaugurada em 63. Na verdade, freqüentávamos
o lugar desde 59, porque já havia o Leco e o Barba Azul, o Paribar, muito
anteriores… A gente percorria aquele pedaço, que ia desde aquele bar de
cineastas perto da Sete de Abril até a outra esquina, fazendo o circuito
do Paribar, do Leco e do Barba Azul. RP
- Com paradas magníficas no Hotel Cambridge, por causa da bossa nova, né? CW
- Isso foi em 64. O Cambridge com Alaíde Costa, Pedrinho Mattar e Johnny
Alf. Uma
coisa muito certa, dita em um ciclo sobre a década de 60 que fizemos
algum tempo atrás, foi sobre a viabilidade econômica de viver naquele
tempo. Uma parte de nós trabalhava em emprego que dava pouco dinheiro;
outra parte recebia mesada, e outra nem isso. Mas dava, por exemplo, para
ir ao Cambridge Bar, quase toda noite, durante uma época, ir com uma
namorada minha da época, me provisionar de três ou quatro Tom Collins -
tomava-se muitos drinques, coquetéis - e ficar ouvindo Alaíde, para
depois completar o restante da noite. Então, o orçamento da gente agüentava
essas coisas. Outra coisa que havia era justamente isso, de São Paulo ter
um centro. Evidentemente, São Paulo era extremamente provinciana, e nosso
antiburguesismo militante tem a ver com o grau extremo de caretice, de
moralismo, de provincianismo da burguesia paulista da época… isso foi
se dissolvendo ao longo dos anos 60, depois, naquele período mais
contracultural. O pessoal de hoje não imagina os níveis de caretice da
época. RP
- Era um horror! CW
- Em 59, por exemplo, foi quando um filme como Les Amants, do Louis Malle - tinha uma cena em que eles estavam
transando, e não aparecia nada, aparecia eles dando as mãos, o que
significava o orgasmo - deu em censura, em polêmica sobre o filme, e por
aí afora. Mas,
com tudo isso, ao mesmo tempo havia essa coisa de um centro, de lugares
aonde você iria sabendo que ia encontrar as pessoas… o que se perdeu
bastante. Quero dizer, houve um ciclo de lugares assim, e o último deles,
já nos anos 80, foi o Pirandello na Rua Augusta, mas hoje em dia não há
mais lugares ou espaços referenciais. Conseqüentemente, perde-se a
dimensão da disponibilidade. Hoje, quando você sai para ir a algum
lugar, é um programa, ou seja, você marca, você combina… Naquela época
- isso é uma dimensão de que eu trato um pouco em meu livro Volta,
mesmo falando mais da Paris do começo do século do que de São Paulo -
podia-se sair sem ter nada marcado, sair ao acaso, e para mim isso era fácil,
pois eu morava em um apartamento no Viaduto Major Quedinho, a quinhentos
metros desse lugar que descrevi. Podiam acontecer os encontros, os episódios
mais inesperados, desde conversar com amigos até conhecer alguém, ou até
mesmo se envolver em aventuras que lembram alguns filmes da época, da
Nouvelle Vague, do cinema italiano. Por exemplo, Os
Primos de Claude Chabrol… aquela festa! Aquela festa naquele
apartamento crepuscular, Jean-Claude Brialy segurar aquele castiçal,
botar a mão no peito e começar a declamar: “Oh, meine mutter!” -
naquela festa, nós estivemos… houve bastante daquilo. Dolce
Vita
de Fellini, na segunda vez em que o vi, tive a impressão de que havia
estado naquelas festas, e já não sabia mais se era por causa da primeira
vez em que havia visto o filme - que me impressionou muito - ou se estava
reconhecendo lugares onde tinha estado, por exemplo aquelas festas do
Albertito Martino, naquele casarão de Higienópolis. RP
- Exatamente! É até anterior ao Dolce
Vita. CW
- É, mais ou menos em 60, por aí. Eram muito parecidas com aquelas
festas naqueles palácios antigos, como em uma das cenas do Dolce Vita. Até os papos, as conversas daquele pessoal de Dolce
Vita, no apartamento daquele intelectual que depois se mata, são
muito parecidos com gente que também conhecemos. RP
- E que se matou, inclusive. CW
- Então, estou tomando a referência cinematográfica, porque é mais fácil
alguém pegar o vídeo e ver. Até coisas mais bravas ou mais pesadas,
lembrando filmes como A Longa Noite de Loucuras (La
Notte Brava) RP
- Com o roteiro de Pasolini… CW
- …e direção de Bolognini. É um bando de garotos completamente
loucos. Público
- E Os Trapaceiros? CW
- Os Trapaceiros, quando passou
em 58, foi impactante, embora fosse um filme moralista. Foi com isso que a
Nouvelle Vague rompeu, pois nela havia filmes que mostravam essa juventude
transgressora, e que eram a favor da transgressão. RP
- Exatamente. CW
- Veio tudo de uma vez só, tanto a revolução formal de Alain Resnais, o
Mariembad e Hiroshima, quando a subversão do conteúdo de um filme como Acossado (À bout de soufle)
de Godard. Evidentemente, um filme de que gostamos especialmente, com
aquele esplêndido anti-herói, um negócio que não existia antes. O que
fazíamos e com quem convivíamos era muito parecido com o que está
naqueles filmes. Não por acaso, pois a cinematografia européia, em
comparação com a americana, trouxe a vida, a vida imediata, a vida que
as pessoas viviam, para o cinema. Era uma realidade muito próxima a nós.
Isso, além de uma série de referências também presentes nesses filmes
franceses: é evidente que Sartre, com todas as restrições que tenho a
ele, na época era um autor referencial, e um monte de gente se dizia
existencialista - a série Os
Caminhos da Liberdade era encontrada na biblioteca de todo mundo - e
quando Sartre veio ao Brasil, eu e o Piva fomos vê-lo no Teatro João
Caetano e no Cultura Artística. Tanto é que você (Piva) me apresentou
ao Salinas nos seguintes termos: “Esse é o cara que se trancou por três
semanas em seu apartamento para ler e estudar O Ser e o Nada.”. Você me apresentou o Salinas nesses termos.
(risos) Para
exemplificar, éramos capazes de ir à casa do Vicente e Dora Ferreira da
Silva, fazer uma leitura, capítulo por capítulo, daquele livro de
Heidegger sobre Hölderlin, sobre a essência da obra de arte. A gente
tinha um grupo de leituras… RP
- Eu fiz o Ser e Tempo. CW
- Quando o Piva diz: “Eu fiz o Ser
e Tempo”, já dá a idéia de um certo tipo de densidade cultural
que coexistia com esse ambiente, com a vida movimentada ou muito
intensamente vivida que tínhamos. Então, éramos capazes de começar lá
mesmo, na casa do Vicente e da Dora - Vicente era autoridade máxima no
Brasil em Heidegger - e depois sair por aí afora para armar todo tipo de
confusão e, eventualmente, continuar até o dia seguinte, de repente
virar personagens do La Notte Brava,
Giornata Ballorda e coisas desse
tipo. Havia disponibilidade, ninguém programava nada, as coisas iam
acontecendo, e havia uma comunicação muito grande entre cultura e vida.
Quando Zé Celso [3] fala, como falou na vez passada, quando fez aquela crítica
à USP, qual foi mesmo a expressão que ele usou? RP
- Universotário, coisa assim… CW
- Então, talvez esteja se referindo, justamente, a essa cisão acadêmica
entre cultura e vida. Para nós, ler Heidegger, ou de repente um puxar do
bolso um poema que havia escrito e mostrar para o outro, e ao mesmo tempo
fazer tudo a que tínhamos direito, não eram coisas separadas. Ao contrário.
A descoberta de Allen Ginsberg foi reveladora porque significava tudo
isso. Sentimo-nos uma espécie de reflexo do Uivo
de Ginsberg, daquele painel geracional, Eu
vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, e tal…
nós vivemos isso também! RP
- É claro! CW
- Quanto ao cinema japonês, acho que fui um dos iniciadores do modismo do
bairro japonês, e levei para lá o Piva e vários amigos meus. Havia
quatro cinemas japoneses, e esse era o departamento de esteticismo.
Infelizmente, a cinematografia japonesa entrou em decadência… Eu vi séries
completas de Tomu Ushida, por exemplo, que é o máximo do esteticismo de
filme de samurai. Os sete filmes da série Myamoto
Musashi, além dos três da série Myamoto
Musashi de Hiroshi Inagaki. Ou aquela série da Espada
Diabólica do Ushida, e por aí afora. Filme japonês, principalmente
no Cine Niterói, era toda semana. O
Massao Ohno está nisso desde o início, porque, logo depois que conheci o
Piva, o Massao lançou a Coleção Novíssimos, uma coleção por
assinatura. Tinha alguém que levava os livros em casa e as pessoas
pagavam, e aquilo viabilizava economicamente a série, na qual saiu um
monte de poetas. Só
para completar: por volta de 62, 63, houve uma espécie de segmentação,
e nós radicalizamos. Havia muitos poetas fazendo muitas coisas. Então,
teve umas leituras que o Eduardo Alves da Costa organizou no Arena.
Resolvemos fazer, então, a nossa leitura, uma sessão só com o nosso
grupo. Fomos você (Piva), eu, Rodrigo de Haro e o Décio Bar. E nós nos
especializamos mais ainda naquela fase de nos reunir regularmente, a fase
do Sérgio Lima. Duas pessoas que conviviam muito com a gente eram Rodrigo
de Haro e Sérgio Lima, mas alternadamente. Quer dizer, teve o período do
Rodrigo de Haro, aí ele desapareceu, e aí teve um período de nos
reunirmos muito com Sérgio Lima, e depois teve outro período em que Sérgio
Lima saiu um pouco de vista e quem reapareceu foi Rodrigo de Haro. Agora,
afora isso, eram o Décio Bar, o De Franceschi, o Regastein, o Ruggiero, o
Guilherme de Farias, o Bicelli… o Bicelli e a Maninha pouco depois, já
em 64, 65… RP
- Aliás, quem me apresentou o Bicelli foi você. CW
- Foi a Maninha quem me apresentou o Bicelli. Daquele
nosso grupo, inequivocamente, o pessoal que escrevia, ou seja, Rodrigo,
você, Sérgio Lima, De Franceschi, Bicelli e obviamente eu, todos estão
com produção aí, estão com obras. Então, foi um período seminal, que
não ficou só no caos existencial, pois houve também uma troca de
informações, importante para todos, e o início de um processo de criação,
de pessoas que estão escrevendo, cada qual a seu modo, com todas as
diferenças de estilo, de personalidade e de postura de cada um, mas que
estão produzindo, fazendo literatura de qualidade até hoje, e vão
continuar fazendo enquanto puderem escrever. RP
- E a casa de campo em Eldorado? E o barco? Sábados e domingos, fins de
semana, semanas inteiras de veleiro. CW
- Meus pais haviam comprado uma casa de campo, e nos fins de semana em que
eles não iam lá a gente se divertia bastante (risos). Aquela vez em que
o Bicelli ficou pré-comatoso, e aí nós vimos, naquela espécie de
abismo, pois era uma pirambeira até chegar à margem da represa, lá
embaixo, uns setenta metros de jardim, meio parque, e aí nós vimos o Décio
Bar e uma namorada dele transando em pé, pelados, iluminados pela lua,
duas figuras completamente brancas debaixo daquela garoa fina e gelada
(risos). Essas cenas são como flashes, certos lances de que a gente se
lembra. É como se fosse uma colagem, um filme sem história, uma seqüência
não-linear onde vão aparecendo cenas e situações. Agora,
o veleiro - era preto, categoria Vinte Metros… foram episódios cômicos,
o meu cronista, Bicelli, conhece as histórias do veleiro. Tinha um amigo
nosso, o Edmar, um colega de determinados tipos de expedições do Piva,
que se agregou a nós e comprou por sua vez um classe Star branco. O meu
veleiro se chamava Maldoror, o dele, ele apelidou de Mallarmé (risos). O
veleiro é circunstancial, mas era divertido.
CW
- Era uma coisa que havia muito na época, o bandido romântico. Li se
comportava como um perfeito bandido e, ao mesmo tempo, não só gostava de
Baudelaire, mas sabia de cor as Litanias a Satã das Flores
do Mal. Chegou um momento em que realmente tivemos que parar, houve
uma série de coisas que nos fizeram desacelerar. Primeiro, de 64 em
diante certas coisas se tornaram mais perigosas, devido ao recrudescimento
da violência policial E também chegou um momento em que não dava mais,
pois começamos a ser chamados pela polícia para saber se tínhamos algo
a ver com o que ele fazia. Aí, cortamos. O banditismo romântico foi
muito interessante, mas chegou uma hora em que tivemos que cortar, porque,
se não, iríamos ter aborrecimentos enormes. (público)
- Claudio, e o começo do grupo surrealista? CW
- Na verdade, nós éramos um grupo surrealista desde quando nos
conhecemos. O Piva já conhecia bem, o Piva colecionava o surrealismo, a
revista La Brèche, por exemplo.
Poesia surrealista foi uma coisa seminal e formadora para todos nós.
Agora, em 63, o Sérgio Lima veio de Paris, havia feito estágio de um ou
dois anos na Cinemateca Francesa e participou pessoalmente, diretamente,
do movimento surrealista. Conheceu André Breton, subscreveu manifestos
surrealistas, correspondeu-se com Breton e teve contato com ele até sua
morte em 66. Então, houve um período em que nós nos reuníamos em
grupo, regularmente, uma ou duas vezes por semanas, em um bar, no estilo
surrealista. Isso, essa fase sistemática de grupo, durou até 64. O grupo
explodiu, e eu acho que nós não poderíamos e nunca conseguiríamos
formar o tipo de movimento do surrealismo. Acho o surrealismo fundamental
em dois níveis: como criação, e isso é o que realmente importa, a criação
poética; e como movimento de idéias, como prosseguimento da rebelião
romântica e tentativa de unir a rebelião romântica à transformação
da sociedade. A junção do mudar a
vida com o transformar a
sociedade, de Rimbaud e Marx. É um movimento de idéias que teve
mudanças ao longo do século, e que é fundamental. De tudo o que
aconteceu naquele período vanguardista do começo do século,
evidentemente foi o movimento mais significativo, mais importante, e,
disparadamente, o mais consistente. Agora, para dar um exemplo, em 68, eu
fui à França… - aliás, houve um episódio engraçado, eu estava em
Paris, era fevereiro, e de repente dou de cara com o Zé Celso na Champs
Elisées, fomos almoçar, aí o Zé Celso comentou comigo, porque já
havia acontecido O Rei da Vela
[4] e, obviamente, tínhamos gostado: “É, parece que tem um negócio
agora, chamado tropicalismo, e estão dizendo que eu faço parte dele, que
tenho algo a ver com isso.” Público
- O tropicalismo foi bem depois! CW
- Não. Foi em 67. Aqueles festivais do Caetano e Gil foram no final de
67, e o tropicalismo foi em 68. Daquela
vez, Paulo Paranaguá, cineasta surrealista, me levou à Universidade de
Nanterre e havia um zunzum, um ambiente de qualquer coisa acontecendo,
porque os estudantes estavam começando a se rebelar por causa de homem não
poder entrar em alojamentos femininos: foi onde se iniciou uma coisa que
foi crescendo, até dar nas rebeliões de maio de 68. Voltando
ao surrealismo, Paranaguá me levou a uma reunião do grupo surrealista,
estava Elisa Breton, havia um monte de gente, estavam os surrealistas da
época. E depois fomos ao apartamento do Vincent Bounure, uma das figuras
de linha de frente, das mais ativas do surrealismo. E houve aquela coisa
do francês, o francês nesse ponto é meio parecido com o português, de
encarar o que os portugueses chamam de “polémica”, de começar a
discutir e não parar mais, eles são muito passionais. Então, por causa
da geração Beat… RP
- Eles têm grilos com isso aí. Tem uma parte que não tem, o José
Pierre. CW
- É. Eu achava a geração Beat uma referência fundamental, e ele
questionava seu valor literário. Isso deu uma discussão que foi,
digamos, das onze da noite até umas três da manhã, no apartamento
dele… RP
- O que eu entendi na época, do que você falou, me desculpe interromper,
foi que esse grupo, Bounure, uma parte dele - por exemplo: havia um cara
chamado José Pierre, que achava que pop-arte, Rauchenberg, eram continuação
do surrealismo, e Alain Jouffroy, que era um surrealista, achava que Beat
Generation é continuação do surrealismo, e você pega textos do
Ginsberg, dos poetas Beats, aquilo é influência básica do surrealismo
francês - mas tem esse pessoal, esse Bounure, que por moralismo, ficavam
falando que era coisa de lama, que queria se sujar com a lama… Lembra de
um negócio assim, que ele falava? CW
- Bem, o que aconteceu foi que eu falei que achava a Beat fundamental,
decisiva como movimento, pois, de fato, foi a primeira vez em que uma
rebelião poética se transformou em movimento social, um movimento
coletivo mesmo, primeiro os beats e depois o ciclo da contracultura, e eu
achava que Ginsberg era um grande poeta e Kerouac um grande prosador, e
foi aí a divergência, na questão da importância literária. Aquela
discussão pegou aí. Mas,
de qualquer forma, eu acho o surrealismo fundamental, e se formos, digamos
assim, elencar os movimentos, as grandes revoluções culturais, eu ponho
o surrealismo em primeiro lugar. Agora, sempre pratiquei uma certa
heterodoxia, eu jamais poderia conviver com qualquer espécie de
ortodoxia. Sempre fui uma pessoa de fazer frentes, e nunca me meti em
nenhum partido ou organização específica, porque se tornam ambientes
fechados. Então, na minha poesia é evidente a identidade com o
surrealismo… RP
- Beat generation! CW
- Mas com o surrealismo, quer dizer, eu mesmo escrevo muito mais parecido,
se for para fazer paralelos… RP
- Não. Eu queria dizer que a definição da sua poesia, de acordo com o
Pasolini, a minha também, provavelmente a do Bicelli e outros… é magmática!
Do magma do vulcão, que une minerais, cinzas, minérios e vários
elementos da natureza, no caso do magma, assim como nós unimos várias
correntes de pensamento da poesia. Você não acha isso? CW
- Com certeza. E, realmente, há essa idéia de reunir, de um ponto de
convergência… Voltando um pouco atrás na década de 60, há um artigo
meu que saiu na revista da Biblioteca Mário de Andrade, sobre movimentos
poéticos do começo da década de 60: embora antagonizássemos fortemente
o pessoal que nós achávamos que fazia poesias bem comportadas e que, de
fato, fazia uma coisa bem comportada, como era o caso do Lindolf Bell e inúmeros
outros poetas, tínhamos algo em comum. Primeiro de tudo, se definirmos
negativamente, com relação à ortodoxia e às concepções artísticas
do Partido Comunista, do Partidão, que eram extremamente dominantes na época;
ou seja, com relação à estética do nacional-populismo. Com relação,
igualmente, ao formalismo, à poesia concreta e às demais correntes
formalistas que, de alguma forma, surgiram como ramificações da poesia
concreta. E, também, tínhamos em comum duas características
importantes: uma delas, a volta à poesia do “eu”, a poesia na
primeira pessoa. O poeta engajado, dentro da estética nacional-populista,
não está falando da subjetividade dele: está falando das grandes lutas
sociais. O poeta formalista também não fala dele: o sujeito, o “eu”,
está abolido em qualquer concepção formalista, seja de Eliot, dos
poetas concretos, de quem for. Então, aquela foi a volta à poesia como
expressão da subjetividade. Acontece que eram subjetividades diferentes
em cada caso: a nossa era uma subjetividade que incluía o inconsciente, o
inconsciente freudiano. Outra coisa, outro ponto em comum, também, foi o
cosmopolitismo. Nós éramos uma geração que, se for para
contextualizar, estava dentro daquele ambiente que caracterizou o governo
Juscelino Kubitschek, de desenvolvimento, de uma abertura, de uma
internacionalização da economia. Sentíamos que São Paulo viria a se
tornar uma metrópole, como de fato se tornou. Um lugar com uma espécie
de diálogo ou de contato com o resto do mundo, e não aquela província
que São Paulo era na época. Então, tínhamos essa abertura, esse
cosmopolitismo de nos interessar pelo que acontecia no mundo todo e,
evidentemente, por manifestações com uma dimensão crítica, que
significassem algum tipo de ruptura ou subversão. Isso tanto podia valer
para determinados modos de assimilar o existencialismo, quanto para o
surrealismo, quanto para uma Nouvelle Vague, quanto para, sem dúvida
alguma, e com muito destaque, para a geração Beat. Estávamos antenados
e sintonizados com o que acontecia no mundo e, olhando retrospectivamente,
sem dúvida éramos extremamente atualizados. Com relação ao
surrealismo, numa época em que se dava como certo que não existia mais,
nós antecipamos uma revalorização do surrealismo que aconteceria mais
tarde. Com relação à geração Beat, nem se fala! Fomos os primeiros no
Brasil a falar disso e, principalmente, não só a falar ou a cultivar uma
exterioridade Beat, que nem chegamos propriamente a cultivar, mas a ler,
porque isso era o importante, a ler Ginsberg, Kerouac, Corso, Burroughs. A
ponto de, por exemplo, aquela leitura, aqueles espetáculos de leituras de
poemas da geração Beat, que eu preparei junto com o Décio Bar, em 67,
terem sido uma coisa única e pioneira, mesmo. Foi no Teatro da Rua, um
teatro do Emílio Fontana onde era a boate Saloon, naquela galeria da rua
Augusta. Décio Bar tinha uma boa cultura teatral, havia feito os seminários
de Eugênio Kusnet no Arena. Eu fiz as traduções, nós preparamos os
atores, três atores alunos do Fontana, e ficamos alguns meses em cartaz,
às segundas-feiras. Bicelli
- Na segunda apresentação já foi proibido, foi uma luta junto com
deputados para tentar liberar, você lembra? CW
- Na primeira apresentação. Na estréia. A censura naquela época era
muito grande, se bem que piorou pós-68. Perdi bastante tempo com
censores, tive sorte de pegar um dos menos mal-humorados. Agora, na
primeira apresentação, faltavam alguns certificados e quiseram
interditar. Então, dois políticos, amigos do Décio, o Perrone, esse da
ECA, que era deputado, e o Jacinto Figueira Júnior, o ‘homem do sapato
branco’, amigo do Perrone, os dois, o Perrone e o Jacinto estavam lá,
intervieram e possibilitaram que o espetáculo não fosse interrompido… No
final dos anos 60, em 1970 - época em que traduzi Os Cantos de Maldoror - no pós-final de 68, houve um refluxo que
durou até 76, e o grupo se dispersou um pouco, a gente desacelerou. Foi
um período em que não publicamos, em que realmente havia um risco físico,
até em se aventurar em manifestações puramente literárias. Eu, se
algum dia for fazer autobiografia, faço um capítulo sobre as vezes em
que não fui preso, ou por um motivo ou por outro. Havia duas categorias
de motivos pelas quais você poderia ser preso, uma por causa de
envolvimentos contraculturais, outra por causa de política, até por ser
amigo de alguém ou figurar na caderneta de endereços de alguém. Houve
gente que entrou em frias horripilantes por causa disso. Então, tivemos
um período, até o final dos anos 60, que foi muito rico, muito intenso,
mas que é um momento, um período circunscrito, limitado no tempo. Houve
outro período, depois, em que as coisas se tornaram complicadas, além de
assustadoras: saber que havia gente que conhecíamos sendo morta aos
poucos, ou saber que alguém, por alguma bobagem qualquer, de repente
teria sido preso. Público
- Você e o Salinas se falavam, esse Salinas foi preso várias vezes? CW
- Foi. E a morte dele teria sido por um aneurisma que ele contraiu na prisão,
por o terem espancado, fica um coágulo, dez, vinte anos depois, de
repente estoura o cérebro do sujeito. Houve
também as próprias transformações que São Paulo sofreu, esse
descentramento, essa mudança do perfil da cidade. Eu não reclamo, não
sou nostálgico, do tipo querer voltar atrás no tempo. E a caretice, o
extremo moralismo da época, incomodavam muito. Basta dizer que, por volta
de 63, tivemos dois amigo internados em clínicas psiquiátricas,
aparentemente pelo fato de andarem com a gente. Quer dizer, parece que o
motivo foi esse. Um deles, nós destruímos o consultório do psiquiatra
que o internou. O outro, o *** [5] - eu entrei com um revólver naquela clínica
psiquiátrica onde ele estava internado. RP
- O ***? CW
- É, o ***. Inventei uma história para entrar lá, de que eu ia internar
alguém e queria ver a clínica. Eu estava com uma Browning aqui, debaixo
da camisa, e meu jipe parado bem na porta. Eles mostraram quase tudo, a clínica
toda, mas não mostraram o lugar onde ele estava. Se mostrassem, eu puxava
o revólver, encostava na cabeça do cara e seqüestrava o *** tranqüilamente.
A gente não conhecia limites, e eu teria feito isso numa boa, tanto é
que entrei armado. De qualquer forma, é impressionante, e pego isso como
exemplo de caretice. Quando… Público
- Não houve um outro seqüestro desses, famoso na época? CW
- Ah, sim, aquele seqüestro! O da Lígia Otto Jordan. Foi um enorme escândalo,
quem sabe dessa história é a Lygia Fagundes Telles. Quando
líamos aqueles impropérios do Artaud contra psiquiatras, ou aqueles
trechos anti-psiquiatras do Nadja
do André Breton, sabíamos muito bem do que eles estavam falando. É
estarrecedor um psiquiatra, um sujeito formado em medicina e que fez um
juramento ético, permitir-se esse tipo de coisa. Parece século XIX, e
vocês vêem como foi o tamanho da ruptura, de repente acontecer o contrário
disso, Basaglia, anti-psiquiatria, abrir tudo, fechar hospícios, e as
novas modalidades de terapia. Mesmo a psicanálise freudiana que se
praticava na época era, para esse tipo de psiquiatria, uma coisa
subversiva, quanto mais terapia reicheana. E a gente lia Wilhelm Reich,
era leitura corrente. Realmente, aí há um antes e um depois, onde antes,
de um lado, a qualidade de vida era muito melhor, você vivia muito mais
tranqüilo, muito mais seguro, porém… Público
- Depois havia o seguinte, me parece: com a diferença da época, as
drogas eram diferentes também, não é? CW
- As drogas eram outras, a paranóia com as drogas realmente se tornou
pesada pós-68 também. Mas a gente nem se drogava tanto. Público
- O que eu estou falando é o seguinte: é que hoje, por exemplo, existe o
crack. CW
- Esses alcalóides agora, se criou uma cultura das drogas nas grandes
metrópoles em geral, e não é só em São Paulo. Você vai ao
Hauptbahnhof (Estação Central) de Frankfurt, que é lugar de junkie,
e a lugares assim, é deprimente o que você vê. Lá os junkies são mais de opiáceo, aqui são mais de alcalóides, mas,
enfim… Além
dessa questão do dinheiro, de que tudo era mais barato, e naquela época
você podia fazer muito mais coisas com menos dinheiro. Por outro lado,
havia essa opressão pesada de uma sociedade burguesa, e havia algo
curioso: se São Paulo tinha essa coisa fechada, careta e tudo, o Rio de
Janeiro, com o qual a gente tinha algum contato, que era um Rio de Janeiro
de Posto 6 e Ipanema, já era um ambiente e uma vida mais aberta. Embora,
no meio de tudo, isso nós, em São Paulo, tivéssemos um certo tipo de
densidade - essa história das leituras de O
Ser e o Tempo é um exemplo, foi
algo único. (público)
- Como o grupo do Vicente, que foi único, não é? CW
- Foi. Mas não era só o Vicente, éramos nós mesmos. Eu me lembro de
uma vez, quando a gente estava começando a ter contato e a se enturmar.
Uma noite, no seu apartamento (de Piva), estavam o Salinas, João Ricardo
Penteado, Paulo del Greco, e, assim como a gente poderia ter saído para
jantar ou para beber ou qualquer outra coisa, você (Piva) puxou da
estante a edição da obra poética de Fernando Pessoa e lemos a Ode
Marítima inteira, cada um lendo um trecho em voz alta, e aquilo
perfaz uma hora e pouco de leitura de poesia. Fazíamos esse tipo de coisa
com total naturalidade, sempre, regularmente. RP
- Willer, fale do seu primeiro livro, Anotações
para um Apocalipse. CW
- O Anotações para um Apocalipse…
Eu sempre gostei de literatura e de escrever, agora, fazer poesia mesmo e
achar que era poeta, foi no contexto desse ambiente cultural. Durante uma
época, quando eu li Saint-John Perse, fiquei escrevendo um monte de
poemas, aquela coisa apoteótica, grandiosa, do Saint-John Perse, que é
um poeta grandioso. Aí, descobri Lorca, principalmente o Lorca do Poeta
em Nova York. Em um dado momento, isso tudo, leituras como, por
exemplo, Henri Michaux; o Robert Desnos do Libertè
ou l’Amour, aliás, foi você (Piva) quem me alertou para esse livro
entre outras coisas, aquela narrativa em prosa poética, que é um exercício
de liberdade, isso tudo, e várias outras coisas que estávamos lendo, se
juntaram naquilo que eu senti como sendo um estilo meu, e que deu na série
de poemas em prosa que estão nesse primeiro livro, que saiu em 64. Massao
Ohno, muito generosamente, chegou: “Willer, quero te publicar!”. E
publicou ao mesmo tempo o Piazzas
do Piva; o Anotações, que foi
prefaciado pelo Piva, e que tinha também um manifesto, uma espécie de
declaração de princípios nossa, certas coisas muito precursoras, e que
não eram pontos de vista apenas meus, mas da gente, daquele grupo de
pessoas. Por exemplo, citava muito no manifesto aquela insistência do
Allen Ginsberg na ampliação da consciência, e essa idéia de uma crítica
ao mesmo tempo ao capitalismo, à sociedade burguesa, e ao Estado
comunista, à URSS, a Cuba e à Tchecoslováquia, de onde Ginsberg foi
expulso, mostrando que nenhum dos dois sistemas teria respostas para a
questão da ampliação da consciência. Então, citava aquilo que ele
falava na entrevista da Eco
Contemporâneo: A ordem é: ampliar a área de consciência. (Público)
- Ele abriu o caminho para a nova era, não é? CW
- É. Eu fincava muito o pé em uma posição que está muito bem expressa
em um livro que líamos na época, de um autor que eu acho um dos grande
pensadores do século XX, Octavio Paz. Para mim, Octavio Paz está para a
segunda metade do século XX assim como Goethe está para o final do século
XVIII, ou seja, como um daqueles grandes humanistas em quem convergem o
conhecimento, a lucidez e a criatividade de uma época. Ele nem havia
escrito outros livros que lemos depois; ele não havia escrito, por
exemplo, Los Hijos del Limo, Os
Filhos de Barro. Já tínhamos a idéia, que está, a meu ver, muito
claramente expressa em O Arco
e a Lira, da poesia como revolução. RP
- Aliás, não sei se você conhece o discurso dele na ONU, em que ele
falava do surrealismo: “O Século XX será conhecido não como o século
do marxismo, mas como o século do surrealismo.” Um prêmio Nobel ao
surrealista, ao poeta da metáfora. CW
- Da metáfora e da imagem poética. É um dos autores, que para mim, são
fundamentais. Talvez nesse ciclo que vai haver aqui também, o Autoria
do Século, eu devesse ter pego, ao invés do Ginsberg - Ginsberg,
também é um belo tema para palestras, de quem eu falo com prazer [6] -
mas devesse ter pego o Octávio Paz, acho que não foi devidamente
examinado por aqui. RP
- Você leria um poema para a gente, do Anotações? CW
- Eu estou com vontade sabe do quê, Piva? De você fazer um pouco mais de
perguntas, e eu fazer um pouco de leitura de poesia no final, na ordem
inversa, pegando primeiro alguns inéditos e depois retrocedendo até o Anotações. RP
- Então, esse foi o primeiro livro, o segundo foi o Dias Circulares? CW
- O Dias Circulares… Olha,
houve uma coisa curiosa. Por algum tempo… RP
- O Dias Circulares é de… ? CW
- 76, foi lançado na Feira de Poesia e Arte, no Teatro Municipal, e esse
lançamento é o capítulo 2 do meu livro Volta,
onde mais ou menos eu relato como foi, e do qual o Piva fez parte muito
ativamente. Houve
uma coisa curiosa: de 68 até 75, durante sete anos, parei de escrever
poesia. Como poeta eu sou bissexto, escrevo pouco, tenho ciclos de fazer
muita poesia e ciclos que podem durar anos de não sair nada. De um lado,
foi um tempo em que a gente, nós dois e muitos amigos, nos encontrávamos
menos, naquele período bravo de repressão pesada. A gente voltou a se
ver mais naquela época de Feira de Poesia e Arte. RP
- Mas não por causa de repressão pesada. Eu fui ser produtor de rock… CW
- Você estava na Sociologia [7], e eu tinha empresa de pesquisa de
mercado, e aí você reapareceu. E eu também dava aula na USP. Esse negócio
de carreira acadêmica, uma coisa meio trabalho, meio atividade
intelectual e meio diletantismo também, talvez me tivesse travado um
pouco, isso de estar com um pé em uma coisa e um pé em outra. Então, de
repente uma coisa mais burocrática, mais pragmática, trabalhar em
pesquisa de mercado, na hora que eu dividi, digamos assim, a coisa do
trabalho e a coisa da criação, a criação voltou. Pode ser isso, e pode
ser também que eu sentisse os ventos de abertura e de reativação do
ambiente cultural soprando. Mas
eu sei que o Massao Ohno disse que me publicava, ele sempre me publicou
numa boa… Ele sempre foi extremamente generoso comigo, considerando ser
alguém que vive de publicar livros de poesia e da remuneração desses
livros, e não tem esquemas de vendas. Mas então ele chegou: “Willer,
vou te publicar, mas você me organiza o lançamento de uns livros…”,
e isso deu em um enorme acontecimento anárquico, que juntou milhares e
milhares de pessoas e mobilizou muitos artistas, não só poetas, mas
artistas plásticos, músicos, performers e coisa e tal. O livro,
Dias Circulares, peguei alguns poemas pós-Anotações,
ainda da década de 60 - uma série que eu acho muito bonita, gosto
daqueles poemas em prosa - e alguma coisa que estava fazendo recentemente,
uma espécie de exercício de estilo, quase de fragmentação da imagem,
que depois fui juntando em um processo de criação muito pessoal, onde de
repente entrou algo que não havia antes em meus poemas, o tema, a
capacidade de fazer um poema de imagens, de associações livres e espontâneas,
e ao mesmo tempo escrever sobre um tema. Foram os poemas que eu comecei a
escrever em 76, que deram no Jardins da Provocação, que é meu livro de 81; poema sobre
Dashiell Hammett, poema sobre a morte de García Lorca, poema sobre o mar,
esse que eu transcrevo e conto como criei no meu livro em prosa, Volta.
Minha poesia sempre foi lírica, lírica nos dois sentidos: lírica no
sentido de poesia amorosa, e lírica também no sentido que a palavra
lirismo tem em teoria literária, como expressão do sujeito. A poesia lírica
é a poesia da expressão pessoal, diferenciada da épica ou da epopéia;
a poesia que está narrando ou relatando algo exterior ao narrador. Mas,
enfim, sempre fui lírico. De qualquer forma, pelo menos uma parte dos
poemas do Jardins da Provocação,
até um poema descrevendo uma noite orgiástica, aquela que houve depois
da leitura da Livraria Lorca, e coisas desse tipo, é de poemas quase
narrativos, e ao mesmo tempo também com as características dos poemas em
prosa do Anotações para um
Apocalipse e do Dias Circulares.
É como se houvesse um processo de criação, onde comecei sem tema nenhum
e criando só com imagens; no Jardins
da Provocação já tenho vários poemas temáticos, e agora fiz uma
narrativa em prosa, Volta, onde estou contando uma história. Se bem que é uma história
não-linear, e que, ao contrário do que se espera de uma história, não
chega a lugar algum. É uma história, uma narrativa, mas tem uma
estrutura de poema, já que ela é circular, não-linear, e o discurso é
linear, tem uma seqüência. Como diz Octavio Paz: O
discurso vai em linha reta e a poesia se move em círculos. Nesse
aspecto, minha narrativa em prosa tem estrutura poética, embora os textos
sejam em prosa, e até haja textos ensaísticos, mas também textos em
prosa poética. O que não me impede de estar escrevendo poemas também,
evidentemente diferentes, pois você nunca escreve igual, mas com características
semelhantes aos poemas que eu fazia na década de 60, e também poemas temáticos,
e pretendo reunir tudo, tenho vontade de fazer uma espécie de Selected
Poems com esses poemas recentes e uma boa parte do que tem no Jardins da Provocação, no Dias
Circulares e no Anotações para
um Apocalipse. Vai se chamar Estranhas
Experiências, e talvez eu publique este ano, se eu conseguir sair
desta coisa interminável que é preparar a obra completa do Lautréamont,
que eu não consigo parar, estou até tirando férias da Secretaria… [8] RP
- Quando vai sair?
RP
- Mas você não consegue parar o quê? CW
- O ensaio… Eu fiz duas traduções do Lautréamont, a de 70 e a de 86,
e havia feito prefácios e, já que estava citando autores, resolvi citar
corretamente, dizer de onde eu havia tirado, assim: Lautréamont
de Gaston Bachelard, Librairie José Corti, Paris, 1934. Fazer uma coisa
decente em matéria de informar direito o leitor. E isso foi aumentando,
pois é claro que eu tenho mais coisas para falar sobre Lautréamont agora
do que tinha antes. Esse prefácio virou quase um livro, se eu detalhasse
mais um pouco virava livro. Do jeito como está, vai dar quarenta ou cinqüenta
páginas, só o prefácio, e o troço todo vai dar quatrocentas páginas.
De qualquer modo, há uma tradição de Lautréamont ganhar prefácios
imensos, o de Maurice Blanchot, Lautréamont
et Sade, foi publicado como livro e também como prefácio de uma das
edições da Obra Completa, não lembro se a de José Corti ou qual delas. RP
- Falávamos do Dias Circulares.
E o Jardins da Provocação, é
de quando? CW
- É de 81. Aí, entrei em um período de escrever muito, muitos poemas.
Tem até coisa que sobrou, que está engavetado e talvez eu publique. E
foi essa coisa de juntar a criação espontânea, a criação imagética
surrealista, e o tratamento do tema. Também coloquei um manifesto com
algumas idéias, inclusive a idéia do poder mágico da palavra poética,
que tentei traduzir nos termos da semiologia e da teoria literária, e
hoje acho que esse texto ficou um pouco acadêmico. Então, retomei isso
nesse livro que eu escrevi agora, Volta, de uma forma mais clara. Quer dizer, a relação entre magia
e poesia, onde a poesia é magia. RP
- Como assim? CW
- O incidente fulcral, que é central nesse meu livro, Volta, é a história de André Breton no Amor Louco. Ele conhece uma mulher que era dançarina, que tinha um
número que era muito comum nos cabarés na França, de mergulhar em um
aquário e ficar se exibindo dentro dele. Ele havia estado em um
restaurante antes, onde havia ouvido o seguinte trocadilho: Ici
l’on dîne (aqui se janta.), Ici
l’ondine (aqui a ondina). Aí, ele percebe que essa mulher era a
ondina, pois estava dentro d’água, era aquática. Marca um encontro
depois de ela sair do cabaré, faz uma caminhada com ela, saindo de
Montmartre, percorreram um pedação de Paris, daquele pedaço de Place
Pigalle até a zona do Quartier Latin, e o trecho que vai do Les Halles,
passando pelo Hôtel De Ville, atravessando Notre Dame, entrando no
Quartier; e ele percebeu, depois, que tudo isso estava referido, que havia
um monte de alusões e de referência até claras a esses lugares e situações
em um poema que havia escrito muitos anos antes, em 1923, Girassol,
Tournessol. Então, ele havia feito, sem perceber, um poema profético. RP
- É curioso, o Ginsberg tem um poema para o girassol também. CW
- Ginsberg tem o Sutra do Girassol.
E também tem episódios assim na biografia dele, de poemas que depois se
transformaram em acontecimentos, de experiências de revelação ligadas
à criação poética. Você tem uma conexão, magia e misticismo,
evidentemente magia é uma coisa, e misticismo é outra, e ocultismo é
outra, mas elas se comunicam, e poesia de outro lado, que é riquíssima.
Então, eu pego duas situações ou dois exemplos, e coloco um ao lado do
outro. Um deles, é o caso da poesia que vai chamando a magia. É evidente
que os surrealistas gostavam de magia, gostavam de ocultismo, gostavam de
astrologia, estudavam, mas não eram iniciados. RP
- O Artaud era, veja o Taraumara. CW
- Não. Aí é que está, ele se iniciou depois, à maneira dele, no rito
Taraumara, que é outra coisa, outro departamento, que é justamente o
xamanismo. Os surrealistas tinham as referências culturais daquela tradição
ocultista ocidental, dos Iluminados, de Martinez de Pascalis, uma
tradição que começa no final do século XVIII e provavelmente continua
até hoje, e que foi fundamental para Baudelaire, para Gérard de Nerval,
principalmente para os simbolistas. Mallarmé talvez fosse um iniciado, e
os simbolistas liam, estudavam e freqüentavam grupos iniciáticos, um
tipo de ambiente que é muito bem retratado naquele livro do Huysmans, Lá
Bas, um autor que Breton adorava, diga-se de passagem. Enfim, havia
tudo isso, mas os surrealistas não eram iniciados, e nem poderiam ser,
pelo caráter anárquico do surrealismo. O que acontecia muito era de os
poemas terem uma face, um componente mágico - como foi nesse caso que
contei, do Girassol - ou
ocorrerem coisas meio mágicas, meio sobrenaturais na vida deles, mas fora
dos quadros da disciplina iniciática. Então, eu os coloco frente a
frente, diante de exemplos de poetas iniciados como Yeats, um poeta
grandioso, eu acho a poesia dele luminosa. Sem dúvida, numa época de
movimentos vanguardistas, Yeats é um tradicionalista, eu digo que é como
se fosse um poeta do século XIX que invade o século XX. Pois Yeats,
desde o começo, freqüentava mesmo: começou freqüentando Madame
Blavatsky, depois a Ordem da Aurora Dourada, e depois mais uma de que eu não
me lembro agora. E há uma coisa curiosa na poesia do Yeats, ele melhora
à medida que vai avançando no esoterismo; além do que, a poesia dele é
consciente e propositadamente esotérica. Yeats deixou claro que não se
devia ler sua poesia apenas como operação com símbolos esotéricos,
principalmente com símbolos do Tarô, mas ele fazia isso, e fazia
propositadamente. Aquele pessoal da Aurora Dourada trabalhava muito com o
Tarô, assim como os maçons e outros grupos iniciáticos mexem muito com
o Tarô e os arcanos, e Yeats usava essa simbologia nos seus poemas. Foi
um poeta esotérico mesmo, fazia poesia hermética e ocultista, embora não
se deva reduzi-la apenas a uma transcrição do ocultismo ou esoterismo.
Com isso, melhorou como poeta, e cresceu à medida que se aprofundou e
ganhou graus de iniciação. Aquele episódio espantoso do livro dele que
sua mulher escreveu, A Vision -
ela escrevia em transe, em escrita automática, e, ao mesmo tempo, se
pegarmos os ensaios do próprio Yeats e as suas idéias anteriores a esse
livro, idéias sobre a busca de uma tipologia humana com base esotérica,
então A Vision é o que Yeats
estava tentando fazer, e que de repente a mulher dele, como se fosse uma
sibila, lhe deu. É um episódio notável. Esse contraponto, colocar
frente a frente, imaginariamente, essas duas figuras, Breton e Yeats,
ambas presentes no meu livro, eu acho fascinante. RP
- Tem uma pergunta do Bicelli, ele quer que você fale sobre sua iniciação
na Umbanda Omolocô da Mãezinha, onde freqüentávamos todos.
Eu relatei a um pai de santo, ele falou que a Umbanda Omolocô é
um sincretismo do Candomblé e Umbanda, e ele sabe da história que,
quando ela incorporava, o galo de São Benedito cantava. Isso está em
livros de Umbanda, ele me falou. CW
- Eu acho que foi muito enriquecedor, pois Cidade Dutra era pura periferia
de São Paulo, havia umas poucas casas no meio dos terrenos baldios, e nós
conhecemos outros lugares e pessoas. Íamos regularmente a Cidade Dutra, e
conhecer São Paulo é sair do circuito que, hoje em dia, vai da Avenida
Faria Lima ao Centro, e ver que existem bem mais coisas que isso. Essa
experiência humana foi riquíssima. Vimos coisas, e vi coisas em mesas
espíritas, em Candomblé, em ocultistas. Já vi coisas “pra burro”,
mas nunca, mesmo freqüentando com regularidade, eu me filiei. Eu sou eclético
e heterodoxo e, evidentemente, é muito difícil aceitar tal e qual,
qualquer que seja, alguma das cosmogonias, seja a cosmogonia da tradição
ocultista, seja a cosmogonia afro-brasileira, aquela genuinamente africana
do Candomblé, com toques sincréticos, seja o sincretismo da Umbanda, que
na verdade é um sincretismo brasileiro com diferentes influências
africanas, tanto da Nigéria quanto da região mais embaixo, do vale do
Congo, Zambeze, onde tem esses cultos mais animistas que no Candomblé não
são admitidos, a idéia de falar com mortos, e também influências da
tradições esotéricas, do espiritismo; quer dizer, a Umbanda é a religião
mais antropofágica de todas, no sentido de haver pego elementos e símbolos
de tudo quanto é lado, e tê-los combinado à sua maneira. É um tipo de
devoração antropofágica, culturalmente falando e, de todas as religiões,
é a mais genuinamente brasileira. Tenho a impressão que surgiu mais em
Minas Gerais do que na Bahia. Sou conhecedor fragmentário, mais que
iniciado. Mas o desfile de tipos, de situações e histórias, é de uma
riqueza impressionante. RP
- O que você viu lá que o impressionou? CW
- Vi muita coisa. É curioso que, em muitos desses centros terreiros, há
uma espécie de pacto, ao mesmo tempo com Deus e o diabo. A linha branca e
a linha negra ao mesmo tempo. O homem da linha negra da Quimbanda era o Vô.
Um dia, entre outras coisas, vi ele, em transe, tirar a camisa, pegar um
punhal e, bem na minha frente, a uma distância pequena, riscar o peito,
sair sangue, e ele sair do transe, olhar o peito com aqueles cortes,
passar uma toalha, e rapidamente o sangue e os cortes irem desaparecendo.
Havia outro tipo, o Lindolfo, talvez o mais competente que eu já tenha
conhecido, que trabalhava de um modo totalmente diferente, não era sessão,
não era gira. Ele passava a mão na cabeça da pessoa, e ia dizendo
coisas. Não havia ritual de Umbanda, apesar de usar a simbologia da
Umbanda. Era um psíquico, aliás, todos eles são, se é que a gente pode
chamá-los de psíquicos. Vou explicar esse negócio, como é, vou
explicar por alto, dar uma hipótese. É uma questão de forma e conteúdo.
O mesmo tipo de energia, seja o que for essa energia, se a pessoa estiver
em um ambiente judaico cabalista, pode se tornar um cabalista; se estiver
em um ambiente umbandista, pode se tornar umbandista; se estiver no
ambiente de candomblé, ou espírita de mesa branca, ou maçom… Ou seja,
há capacidades que talvez estejam íntegras no sentido de orientação de
algumas espécies animais, que é algo meio sobrenatural, inexplicado.
Essa hipótese é de Colin Wilson, o autor de O
Oculto: há uma espécie de radar interno que persiste no ser humano.
E isso precisa, eu penso, de um contexto, de uma simbologia, ou seja, de
uma linguagem para se traduzir. Então, tudo isso, seja umbanda, candomblé,
cabala ou maçonaria, dependendo das inclinações da pessoa e também do
contexto, do grupo social com que se relaciona, é que fornece o repertório
para manifestar essa paranormalidade, ou xamanismo, que é a forma
original, a matriz de tudo isso, direta ou indiretamente. Além dos casos
em que o xamanismo se conserva como tal até hoje. Voltando
ao Lindolfo, que era um típico psíquico, que apenas usava a forma ritual
da Umbanda - isso era muito evidente, tanto é que ele não tinha uma
linha de médiums, nem nada disso -, fazia anos que eu não ia lá, era em
Santo André, e resolvi ir. Eu estava publicando livros, tinha aquela série
Feira de Poesia, em que saíram
o Piva, a Marilda Pedroso, e outros poetas que publiquei. Uma espécie de
sucursal de Massao Ohno que estava me tomando muito tempo e dinheiro.
Cheguei lá, depois de uns anos que não ia, entrei, botei a mão na cabeça
dele, ele falava de uma forma infantilizada, uma mistura de Preto Velho
com criança, olhou para mim e disse: “Livrinho! Livrinho! Está fazendo
livrinho! Vai dar certo! Vai dar certo! Vai dar certo, viu!” [9]. Nem
era o que eu queria perguntar a ele. Então,
há coisas inquestionáveis, e eu contaria mais uns dez ou vinte episódio
desses, que, contudo, a meu ver, não justificam a adesão, a não ser por
uma vocação pessoal, uma coisa íntima. Por exemplo, não dá para você
criticar Yeats por haver entrado na Aurora Dourada e ter-se tornado
ocultista, pois, se não, ele não teria sido quem foi. Aquele foi um
componente fundamental da sua identidade e da sua criação. Então,
qualquer pessoa que se enriquecer, em qualquer dessas manifestações,
isso é ótimo. Excelente. Acabei tendo um contato muito pluralista, eclético
e heterodoxo, sem me fixar em nada. Conheci Umbanda, Candomblé, espíritas,
ocultistas de vários naipes e vários tipos de seitas iniciáticas.
Agora, repito e volto a insistir - e isso é uma coisa que o Piva
assimilou muito bem na poesia dele, pós-Quizumba
[10] principalmente, embora já estivesse evidente antes: essa questão
dos diferentes modos de conhecer o Brasil. Trata-se de mediações, de
instrumentos de contato com aquilo que se poderia se chamar de
“realidade brasileira”, fora das grandes generalizações sociológicas
e da pobreza e aridez acadêmica. Uma coisa é você falar do povo, do
proletariado lato sensu, falar
disso como categoria, e outra coisa é ir lá, ver eles, e ver não só no
ritual, mas ver no dia-a-dia deles, porque isso é indissociável, como nós
víamos. Público
- E o Fernando Pessoa? Não era discípulo de Crowley? CW
- Não. Fernando Pessoa tem um poema em homenagem a Crowley e traduziu
Crowley. Agora, isso é controvertido, porque Fernando Pessoa era fechado.
Parece que foi um grande estudioso de astrologia, teosofista de Madame
Blavatsky e rosacruz. Mas isso não é nada extraordinário em si, quero
dizer, o quanto tem de esoterismo na poesia dele - e tem muito, Ricardo
Reis é poesia de fundo metafísico e esotérico ao mesmo tempo, sem dúvida
alguma, e pode haver coisas em Bernardo Soares e Fernando Pessoa ele mesmo
que sejam iniciáticas, mas eu teria que dominar esses códigos melhor do
que domino, para fazer o estudo mais conclusivo, e quanto à biografia de
Fernando Pessoa, ele era recluso, havia aquilo de entender a criação
literária como mascaramento, a idéia dos heterônimos, talvez aquela idéia
rimbaudiana do eu é um outro, talvez, então, a idéia de Pessoa fosse que o
“eu” são muitos - assim, o que sabemos sobre Fernando Pessoa leva
mais a crer que ele fosse um rosacruz e um teosofista de Madame Blavatsky,
o que não é, em si, nada de extraordinário [11]. Extraordinário é o
modo talentoso, genial, como Fernando Pessoa recodificou isso
poeticamente, pois todo mundo era teosofista ou iniciado em alguma coisa.
A gente tem que levar em conta, quando falamos em Yeats, em Crowley, em
Pessoa ou em Mallarmé, o caldo de cultura esotérica em que o ambiente
cultural estava mergulhado naquele período Acho que diálogos com esses
esoterismos, de diferentes modos -: o modo de dialogar do surrealismo é
um; o modo de dialogar dos simbolistas é outro; e dos irlandeses e
ingleses do começo do século era outro - são diálogos enriquecedores,
por causa dessa relação muito íntima que existe entre poesia e magia, a
começar pelo fato de ambas pertencerem à ordem do mítico, do pensamento
mítico, da percepção mítica do real, da lógica analógica,
contraposta ou diferenciada da razão discursiva e cartesiana. Isso
existia muito mais, talvez, na Antiguidade, mas na modernidade está
presente no Romantismo e nesses pós-românticos, nesse período
fascinante de loucura que é o final do século XIX francês, por exemplo.
Uma espécie de simbolismo ou coisa parecida que na verdade continha uma
quantidade de poetas e prosadores completamente doidos, genialmente
criativos, como Rimbaud, Lautréamont, Tristan Corbière, Laforgue, e de
quebra Villiers de l’Isle Adam e Huysmans. Um período de ebulição,
que acho único na história da cultura. Quando dizem que o surrealismo é
delirante, eu discordo. Quer dizer, o surrealismo é delirante; agora, com
relação ao tamanho da loucura daquela gente, do período que vai de
Baudelaire até Dada, eles estavam tentando pôr a casa em ordem, estavam
tentando sistematizar, traduzir aquilo em idéias políticas e filosóficas.
Um empreendimento impossível, é evidente, e fracassado, mas grandioso, e
de uma extraordinária riqueza. Mas o delírio para valer aconteceu antes.
O que Breton fez foi assimilar esse delírio, aceitá-lo e tentar uma
recodificação. Bicelli
- Claudio Willer, quero te pedir desculpas pela pergunta que farei agora.
Porque quem está aqui está vivendo esta profunda emoção transmitida
pelo teu depoimento, e quero te propor algo que poderá parecer prosaico,
mas vamos lá: Sei que você sempre procurou fazer uma reflexão política
sobre a experiência humana. Você continua se interessando por política? CW
- Essa pergunta é fundamental. Eu acho que tinha que falar em política,
porque há uma dimensão revolucionária da criação poética que nunca
conseguiu se transformar até hoje em movimento político. De certa forma,
os reflexos disso estão presentes na contracultura, que foi um movimento
político, evidentemente. Mas, na hora em que a contracultura tentou se
organizar politicamente, em 68, fragmentou-se, pois caiu nos impasses e
problemas da organização política, naquela contradição entre a
burocratização inevitável em qualquer movimento político, e a busca da
liberdade. Foi no momento em que houve o racha do SDS [12], em 68. Foi então
que acabou a contracultura. Aquilo que parece ter sido o apogeu da
contracultura, 1968, na verdade foi o seu canto do cisne, embora a
contracultura tenha perdurado, em um ambiente contracultural que sempre
achei ótimo, muito divertido, ao longo dos anos 70. Contudo,
o que aconteceu com o surrealismo, as tentativas de dialogar com as
diferentes correntes políticas, o Partidão primeiro, os trotskistas
depois, e os anarquistas finalmente, e que nunca deram certo, é exemplar
e paradigmático de uma contradição real e profunda que existe entre
poesia e política, a militância política e a prática política e até
o pensamento político. Quando eu falo de política no sentido amplo, e
digo, por exemplo, que a poesia é revolucionária, isso é política em
outro sentido. Então, há uma relação contraditória mesmo. É
absolutamente natural que nunca nos tivéssemos vinculado a partido políticos.
No caso específico da nosso geração, uma das expressões disso que eu
critico como caretice burguesa - o Zé Celso tocou no assunto, ele já
deixou isso bem claro na sessão passada - era, sem dúvida alguma, o
Partido Comunista. A priori,
para nós, era uma coisa inviável, muito mais inviável do que foi para o
Zé Celso, que tentou uma espécie de esquerda temática, extra-Partidão
e extra Teatro de Arena, na fase de Vida
impressa em dólar. Não tinha como, porque era a caretice burguesa e
mais o bitolamento da criação artísticas. E meu relacionamento com
aquela militância mais à esquerda, com algumas correntes, foi muito
ruim. Eu me lembro que, na época das leituras da geração Beat, 1967,
houve um boicote ostensivo de algumas correntes e movimentos estudantis.
Cheguei para o pessoal que estava, na época, no TUSP (Teatro da USP), e
que só fazia Brecht, era só Brecht direto, era cartilha brechtiniana e
tinha que ser Brecht, então, cheguei para os caras em um restaurante, e
disse: “Por que vocês não encenam aquela peça do Günther Grass.”-
é uma em que Brecht é o personagem principal, onde Grass critica a omissão
e calhordice do Brecht durante os levantes de Berlim, aquelas manifestações
da Alemanha Oriental em 54, tentando se libertar, que precederam o levante
húngaro. Eu fazia essas coisas também, na lata! (risos) Ao mesmo tempo,
outros grupos, a Iara Iavelberg, que era muito minha amiga, e por osmose o
José Dirceu [13], que na época era namorado dela, mobilizaram os
respectivos centros acadêmicos para vender meu espetáculo, e levaram os
alunos para assistir a encenação da geração Beat. É evidente que
havia muita gente de mente aberta, como Iara Iavelberg, que já estava com
um pé na militância para valer. Gente militante de esquerda que era
nossa amiga, pessoas que militaram radicalmente, mas que tinham uma percepção
crítica daquilo. Talvez
a última tentativa de diálogo com a esquerda tenha sido o período da
livraria Kairós [14]. Aliás, a penúltima. O que acontecia foi que os
trotskistas eram excelentes pessoas, o Castilho de Kairós é um sujeito
encantador, uma pessoa com quem converso com o maior prazer, e não tenho
qualquer preconceito contra alguém ser quadro militante, fundador de
qualquer organização de esquerda, o PT inclusive. Insuportável mesmo,
porque havia uma pressão dogmática, era o Partidão. O Partidão até
tinha gente simpática e interessante - o Mautner tinha uma visão
delirante do Partidão, e o Regastein também chegou a se aproximar. Mas o
Mautner nunca foi o quadro típico de Partidão. Ele se dizia comunista,
mas é evidente que era um discurso pessoal, uma reinterpretação pessoal
do comunismo. Ele se aproximar do Partidão foi um gesto delirante. De
qualquer forma, voltando ao episódio dos trotskistas da Kairós, a
livraria virou um point nosso,
pois os trotskistas, por antagonismo com relação aos comunistas do
Partidão, cultivavam muito aquela coisa de aproximação com o
surrealismo, herança de Trotsky, da visão de Trotsky pós-União Soviética,
porque se tivesse sido Trotsky no lugar de Stalin, poderia ter sido tão
pesado, parecido ou pior sob certos aspectos, quanto com Stalin. Trotsky,
afinal de contas, foi quem esmagou os revoltosos de Kronstad e quem partiu
para cima do anarquismo de Nestor Makhnó.
Bicelli
- Percebe-se uma coisa. Esse tipo de caminho que você adotou, ele é
corajoso, e ao mesmo tempo você paga um preço por isso, num certo
sentido. Porque a grande parte da imprensa é comunista, de esquerda,
etc., até hoje. Se você se diz antiburguês, então você já tinha
naquela época o Estadão contra você. E se você se diz, ao mesmo tempo,
anti-Partidão, crítico em relação a isso tudo, porque tem grandes
nulidades no Brasil que se fizeram no Partido… CW
- Olha, eu tenho um manifesto de 65, Bicelli, que nós dois assinamos, o
texto básico eu escrevi, onde questionávamos em primeira instância,
evidentemente, o regime militar. Aí, todas as frentes, com tudo quanto
fosse organização de esquerda, evidentemente valiam. Realmente, era com
o que não se podia transigir. E eu nunca aceitei muito aquele discurso
anti-esquerdista, e valia uma política de frente, pois nós não estávamos
em um regime soviético, mas em um regime militar brasileiro. Que, aliás,
acabou construindo o Estado burocrático com características soviéticas,
que hoje em dia está difícil de transformar, em parte por causa do
corporativismo e da oposição da própria esquerda, que acha que o Estado
dentro do paradigma soviético pode trazer algo de bom. Quer dizer, no
momento em que os militares, depois de controlarem a política, as
instituições políticas, passaram a tentar controlar a economia, através
da criação de empresas estatais e da estatização de setores
produtivos, principalmente na infra-estrutura, então caminharam para uma
espécie de sovietismo de militar brasileiro, que não prosperou porque o
fato de haverem entrado em crise econômica, e o projeto ter fracassado,
alertou setores maiores da população, fortaleceu a oposição e levou à
democratização. Então,
nós assinamos um manifesto, em 65, reclamando em primeiro lugar do regime
militar, mas reclamando também das bitolas do Partidão, dos críticos
fascistas de cinema, do Lindolf Bell, e, da minha parte, eu não alteraria
nenhuma linha do estava escrito lá. O que eu acho, para completar, é
que, de um lado, Marx tinha razão em uma série de aspectos da sua produção
teórica que os próprios marxistas não entenderam. Todo o processo de
globalização, essa expansão capitalista de hoje em dia, essa
internacionalização, essa dinâmica capitalista, essa capacidade de se
transformar, isso tudo está claramente em Marx, até naquela metáfora de
que no capitalismo tudo o que é sólido se desmancha no ar. É um modo de
produção e conseqüentemente uma sociedade dinâmica, ao contrário de
outras sociedades, feudais, etc., que são fechadas, querem-se estáticas.
O caráter aberto do capitalismo foi melhor entendido por Marx, do que
pela maioria dos marxistas, à exceção de Gramsci e de figuras
divergentes, como Marcuse. Se bem que Marcuse é brilhante em Eros
e Civilização e maniqueísta, a meu ver, em Ideologia
da Sociedade Industrial, assim como todo o grupo de Frankfurt. Enfim,
feito o reconhecimento desses aspectos da contribuição de Marx, acho que
a política tem que ser repensada em suas bases, e ainda precisa haver
algum tipo de compreensão teórica que avance sobre Marx, pensando
alternativas ao capitalismo, à sociedade burguesa, e também um
pensamento que possa traduzir e recodificar em termos políticos aquilo
que a contracultura tentou fazer e não conseguiu, a revolução poética,
a rebelião romântica, transformadora da sociedade. Neste ponto, aquilo
que você (Piva) falou de Octavio Paz, de que o século XX vai ser
lembrado, não como o século do comunismo, mas sim do surrealismo, nisso
ele tocou no nervo, ou na veia, seja onde for, pelo seguinte: a rebelião
romântica, da qual o surrealismo é a expressão mais elaborada e mais
complexa, é tão ou mais transformadora da sociedade quanto a revolução
socialista. Quando
eu acentuei a caretice e a repressão pesada que vivíamos em São Paulo,
sem chegar a falar de outras épocas, como o século XIX vitoriano, é
para acentuar a importância da liberdade individual, e o quanto nós
devemos a essas conquistas, sem dúvida alguma a essas várias expressões
da rebelião romântica, inclusive o surrealismo, geração Beat,
contracultura e o impacto de Antonin Artaud sobre a contracultura. Tudo
isso ainda está para ser traduzido em termos de teoria política. Eu vejo
lampejos ou esboços dessa teoria em Octavio Paz, e, de uma forma
diferente, talvez em pensadores como Michel Foucault. Mas não há uma
tradução para o pensamento político disso que acontece ao longo da história
da sociedade burguesa e é político. RP
- Só queria lembrar que e eu falo sempre para o pessoal, nas conferências,
que o PT deve gostar muito do General Geisel, que criava uma estatal por
dia, e, em segundo lugar, lembrar aquela frase do Artaud: “Todo ato
individual é anti-social”. CW
- Muito bem lembrado. RP
- Depois disso, gostaria que você lesse os originais pra gente. CW
- Eu ia propor isto, fazer uma rodada de poesia e outras de perguntas de
vocês. Voltando ao plano imediato, à imanência, o Estado burocrático
é a pior praga que existe. Por enquanto, estou conseguindo sobreviver
psiquicamente numa organização burocrática, mas de boa qualidade,
Secretaria de Cultura na gestão Konder. Eu me lembro de quando o Bicelli,
que é um quadro muito competente na administração pública, chegou lá,
e viu como o pessoal que trabalhava comigo fazia os contratos e aquela
burocracia toda, ele se virou pra mim: “O jeito como esse pessoal
trabalha, nem parece funcionário público!” (risos). Na primeira, ele
flagrou isso, porque sabe como é o estado burocrático. Eu não tenho
nenhuma confiança em uma capacidade do capitalismo e da empresa
capitalista de evoluírem e produzir progresso por si. Acho que as
esquerdas, comunismo inclusive, deram uma grande contribuição ao
pressionarem o capitalismo na direção de uma ampliação de direitos
sociais. É provável que sem comunismo, e tudo isso, tivéssemos hoje um
quadro semelhante ao que Victor Serge descreve em Memórias
de um Revolucionário, de como era a vida do operário no começo do século.
As esquerdas em geral, comunismo inclusive, obrigaram o capitalismo a
reconhecer sindicatos, melhorar salários, dar direitos trabalhistas, e
acabaram contribuindo decisivamente para a expansão e prosperidade do próprio
capitalismo. Duvido que a empresa capitalista, em si, tivesse essa dinâmica,
se não fosse essa polaridade. Essa polaridade desaparecer, de uma lado
abre uma nova era, tira da frente algumas coisas desagradáveis, já que
ninguém tem a mínima vontade de ver pela frente um estado burocrático,
mas talvez faça desaparecer um tipo de situação contraditória que, no
mínimo, obrigava o capitalismo a se renovar. Acho essa nova era
preocupante. Não a vejo com otimismo e não dou de barato, de jeito
nenhum, qualquer possibilidade do capitalismo, da sociedade burguesa
capitalista, evoluir por si mesma. Mas, de qualquer forma, descontando
tudo que teria de ser dito sobre empresa capitalista e o capital
monopolista, sem dúvida alguma a pior praga que existe é o estado burocrático.
Pára tudo, atrasa tudo, o estado corporativista. Então,
se for para fazer militância política… é claro que não dá para
endossar nenhum tipo de ideologia neoliberal. Se for para discutir política,
a questão do estado burocrático, da desburocratização inclusive, pois
desburocratização é democratização, é devolver para a sociedade - e
é curioso como tem gente que faz discurso de participação da sociedade,
da democracia, e, ao mesmo tempo, defende a coisa mais antidemocrática
que existe, que é o estado burocrático, e o corporativismo, a corporação
dentro do estado. Corporativismo fora do estado, até que tem efeitos
positivos. Dentro do estado só dá em atraso. Então, isso de
desburocratização do Estado, e conseqüente democratização, é sem dúvida
nenhuma, um grande tema político hoje em dia… e que eu topo discutir,
pois sei o que é. [LEITURA
DE POEMAS - Willer lê vários
poemas de seus livros, e também alguns inéditos - ao final da leitura,
um dos participantes pede que seja lido, ainda, um poema de Dias
Circulares sobre Paris - e, depois de mais essa leitura, faz uma
pergunta sobre Paris] CW
- Olha, uma vez eu passei de raspão pelo Bois de Boulogne, e nem fui, até
hoje, às Buttes Chaumont, aquele jardim que Aragon descreve no Camponês de Paris, que ele achava um lugar estranho. Até hoje não
fui [16]. Acho que, se ficasse seis meses lá, ainda ia ter o que ver,
porque é muita coisa. Muita coisa no seguinte sentido: coisas que,
culturalmente, são para se ver - grandes concertos, exposições de alta
qualidade - e coisas simbólicas. É o que eu digo no meu livro, Volta:
Paris é a cidade escrita, cidade de referências literárias. Por
exemplo, o lugar que eu quero ver na próxima vez, aonde nunca fui, e é
perto da onde eu fico em Paris, perto do Marais, é esse museu da ciência
ou coisa que o valha que tem lá, eu nem havia reparado que
existia, onde está o Pêndulo do Foucault. Pois o livro do Umberto Eco, O
Pêndulo do Foucault, é muito bom, é muito inteligente. (respondendo
a mais uma pergunta, sobre a relação de sua poesia com o romantismo alemão): CW
- Eu acho o seguinte… Octavio Paz falou uma coisa certa em Os Filhos do Barro: aquele período de loucura francês é
erradamente chamado de pós-simbolismo. Segundo ele, o pós-simbolismo é
continuação do romantismo alemão. Novalis é tremendamente denso,
agora, o que mais me fascinou nesse período (do romantismo alemão) foi
aquela fase longa de esquizofrenia do Hölderlin, com aqueles poemas
fragmentários, que são extremamente modernos. Por que são modernos? Ou
por que Gérard Nerval é moderno? Um psicanalista importante, Isaias
Mehlson, estava me dizendo que, para ele, o inconsciente é uma consciência
não-discursiva. Aí, percebi a razão da modernidade de um Hölderlin na
fase de loucura, ou um Nerval de Aurélia: como eles estavam loucos, faziam um texto não-discursivo.
Algo que hoje em dia, pós-vanguardas, é normal, a idéia do texto não-discursivo,
que está completamente incorporada à cultura. Naquela época, a poesia
era discursiva. A loucura, a não-discursividade do inconsciente que
aflorava nas psicoses deles, os tornou, além de serem grandes escritores
e grandes poetas independentemente disso, quero dizer que, sem loucura,
tanto Hölderlin quanto Nerval seriam grandes, mas na loucura deram um
passo adiante e criaram obras vanguardistas, por causa do caráter não-discursivo
antecipando-se à vanguarda, por ser uma escrita do inconsciente. (público)
- Eu vi um prefácio seu muito interessante do Subterrâneos, que você fez, sobre o Kerouac. Eu acho um prefácio
muito legal, em que você evidencia as qualidades dele como prosador. Eu
queria saber o que você acha dele enquanto poeta?
Se você gosta dele enquanto poeta e se ele tem qualidades como
poeta? CW
- Tem. Naquele prefácio, porque se criou muito estereótipo em cima da
geração Beat, principalmente naquele prefácio, e em algumas outras
coisas que escrevi sobre geração Beat, eu bati muito na tecla do
intertexto. Todo mundo fica vendo a Beat como rebelião individual, uma
rebelião neo-romântica contra o establishment
americano, contra o academicismo da literatura que se fazia na época, e
ninguém dá atenção ao quanto eles eram extremamente cultos. Subterrâneos
é transcrição de Dostoievsky. Então, pego isso, nesse prefácio. E
escrever é escrever o que você leu, também. Um bom exemplo disso, nós
temos no Piva. NOTAS |
|
Roberto Piva (Brasil, 1937). Poeta. Autor de Paranóia (1963), 20 poemas com brócoli (1981) e Ciclones (1997). Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México). |