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revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003 |
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Rosa Alice Branco: esboços de sombras Floriano Martins
FM
– Há um verso teu em que dizes que as palavras te chamam para dentro do
poema, o que acaba sugerindo certo sentido de entrega. De que maneira se
constrói teu mundo poético? RAB
– Eu sinto sempre esse apelo, mas sem imaginar sequer como
responder-lhe. Acho que existe, no que à Poesia respeita, uma
incomensurabilidade fundante entre escrever e saber. O que significa que
se eu soubesse responder-te não estarias a entrevistar-me, simplesmente
porque não poderia escrever. Um
dos aspectos em que concordo absolutamente com Lacan é quando ele afirma
“ça écrit”. Eu nunca senti que escrevo, mas que sou escrita, embora
esta frase não revele qualquer passividade. Limito-me a deixar que o meu
corpo se inscreva no papel que me vai tatuando poro a poro. E entrego-me
voluntariamente a este vício feliz. O
que te posso dizer do meu universo poético é que ele advém, como arquétipo,
e não como construção, de uma inversão da relação metonímica: cada
minúsculo pormenor do quotidiano mais quotidiano pode tocar-me como
totalidade infragmentável e completa. E depois a sua música encontra as
linhas da pauta para o que der e vier. Por isso a minha escrita é feliz:
tenho sempre o cesto de papeis à mão. FM
– António Ramos Rosa refere-se à correspondência intertextual ao
ressaltar a presença de um livro teu, A mão feliz, dentro de um
livro dele, A imobilidade fulminante, este escrito após aquele.
Embora seja incontestável essa realização intertextual, o fato é que
raros poetas admitem publicamente um diálogo tão intenso como o faz
Ramos Rosa. Poderias dizer o mesmo em relação às tuas identificações? RAB
– Ramos Rosa não é só um escritor maior, mas também um leitor
generoso. Há desde logo entre os dois a mesma paixão pelas coisas do
mundo e pela Filosofia que aparece implícita, mas nunca como imposição
poemática. A
tua questão coloca-me numa posição difícil porque sou feita da matéria
de tudo o que li, mas nunca ninguém fez da minha escrita o eco de
qualquer outra voz. Talvez porque cada livro meu seja um exorcismo de uma
questão obsessiva que vou trabalhando em mim sem procurar propriamente
uma resposta. E cada obsessão requer uma linguagem diversa e em tudo
semelhante para a tratar. Quanto
a uma identificação, no sentido dos meus poetas imprescindíveis, ou
essenciais (portugueses, para que a lista não seja infinita) posso citar:
Carlos Oliveira, Ruy Belo, Alexandre O’Neill, Ramos Rosa, Herberto
Helder, Egito Gonçalves, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Nuno Júdice,
Manuel António Pina, Manuel Gusmão e Daniel Faria. FM – Dentro desse roteiro de obsessões, como
lidas com a distinção entre o que é invisível e o que está oculto?
Indago isto pensando em tua defesa de que a construção do mundo reside
no olhar humano, e pensando na perspectiva já referida por René Magritte
de que “um ser desconhecido no fundo do mar, não é o invisível, é o
visível oculto”. Qual a relevância dessa perspectiva em tua poética? RAB
– A desocultação é da ordem do táctil e, como tal, requer um gesto
que retire o véu. Mas nunca sabemos se deste gesto advirá uma revelação,
já que, freqüentemente, o véu integra tudo aquilo que é, apenas,
suposto ocultar. Da mesma forma, nunca saberemos se a desocultação é,
de facto, uma nova ocultação, a mais perversa, aquela a que se refere
Roland Barthes quando observa que a denotação é a mais perigosa das
conotações. E ainda, somos obrigados a aceitar que, por vezes, nada
existe sob o véu, mas véu apenas. É o nosso gesto que tem por vocação
preencher os vazios, dar sentido, atribuir significados sem deixar espaço
para o significante flutuante, para utilizar o termo de Lévi-Straus.
Assim, a desocultação é uma operação que se reveste da mesma ambigüidade
da interpretação do secreto, do mito, da lenda.
A
vocação da minha escrita é a de tornar o invisível visível (o que não
vai contra o conceito de “visível oculto” na acepção de Magritte).
Esta orientação já é notória no meu primeiro livro que tem como epígrafe
de Bataille: “o animal está no mundo como a água no interior da água”.
O
meu trabalho vai no sentido de um descentramento progressivo para atingir
essa participação (no sentido totémico) em que posso ser toda mundo sem
deixar de ser mão. O meu universo é o das compossibilidades, das coexistências
em que tudo conspira. E meu corpo vai-se tornando atento, inocente,
amoroso: tocado. Assim vai retirando da in(-) significância (do invisível)
o que, de direito, aspira a despertar. Resta
apenas saber se me cumpro. FM
– Mencionas o Barthes e penso aqui na distinção que ele estabelecia
entre dois tipos de leitores, o que pratica o que ele chama de
“responsabilidade crítica” (entre os quais se insere) e aquele que
apenas consome passivamente textos (e em tal categoria incluía o
Bachelard, considerando tal relação “muito limitada”). Qual tipo de
leitora te consideras? RAB
– Em primeiro lugar não posso considerar, de forma alguma, que
Bachelard consuma passivamente os textos. É que eu li, tanto o Bachelard
epistemólogo, como o Bachelard das Poéticas. De facto, acho que li tudo
de Bachelard e de Barthes, inclusivamente o seu último artigo que saiu em
Playboy sobre a fruição de queijos e vinhos. É que Bachelard,
nem a ele próprio se consome passivamente como leitor. Basta só pensar
na sua Filosofia do Não (é pelo facto de saber dizer não que o
seu sim não pode deixar de ser crítico e activo) e na Poética do
Espaço. O modo como sente os lugares dos textos fundamentais e os
reescreve doando de sentido os lugares da nossa vivência não tematizada,
mas sem nada retirar ao seu vivido, demonstra uma atenção sensível e
uma capacidade de analisar e transfigurar a espacialidade, inclusive da própria
língua. Por outro lado, há que saber o que é a responsabilidade crítica
e os aspectos que ela pode vestir, sem se cingir ao traje estruturalista
(independentemente da importância desta visão do mundo). Toda a questão
se pode reduzir a um olhar míope, a partir de um ponto de vista centrado,
ou a um olhar que oscila entre a miopia e a panorâmica. Mas a minha
leitura de alguns dos textos de Barthes e Bachelard fizeram-me sentir que
nunca mais seria a mesma depois de os ler. E esses textos não cabem nos
limites das correntes com que nos armadilhamos para lhes colocar
etiquetas. Também
não considero pertinente a oposição entre responsabilidade crítica e o
consumir passivamente textos. O próprio Barthes falou muito de fruição
na sua obra e eu não sei se a fruição se pode enquadrar dentro da
proposta estabelecida. Dir-te-ei
que nunca consumo nada passivamente, nem mesmo chocolate (é um tema de Álvaro
de Campos, na “Tabacaria”), e que a responsabilidade crítica é
apenas uma das minhas muitas orientações de leitura. Às vezes
concedo-me o luxo de não ter qualquer responsabilidade crítica, pelo
menos numa primeira leitura. Dou-me inteiramente ao gozo da leitura.
Outras vezes acontece que retomo o texto para assumir uma responsabilidade
que neguei criticamente à primeira leitura. Sou uma leitora apaixonada de
tudo o que me apaixona. E quando me deixo, simplesmente, ler é quando a
responsabilidade assume o seu des-limite vertiginoso, como crítica a uma
crítica deslocada. A leitura faz-se em mim atirando-me para fora de mim.
E constitui-se em camadas arquitectónicas, relativamente às quais essa
oposição deixa de fazer qualquer sentido. Toda a leitura é excessiva e
construi-se, linha a linha, como uma figura do excesso. FM
– Observa Gastão Cruz, no posfácio da Poesia Completa de Luís
Miguel Nava, que “todos os grandes poetas fazem sínteses das várias
linguagens em circulação no seu tempo e no tempo que os precede”. Se
pensarmos em predominâncias estéticas, o que haveria de mais consistente
e renovador na poesia portuguesa contemporânea? RAB
– O despojamento e a celebração do quotidiano. A Poesia, sobretudo a
partir dos anos 90, despe-se das metáforas, embora os críticos continuem
a reduzir, por hábito ou preguiça, os objectos de sentido à metáfora.
Bastava não consumirem passivamente (risos) Paul Ricoeur. Mas se o
fizerem podem sempre dizer que se trata de uma metáfora viva. De tantos tropos
disponíveis, ou a (re)-inventar, os textos críticos centram-se sobretudo
na metáfora, o que retira a particularidade da poesia que se faz neste
momento em Portugal e a infecta com etiquetas perfeitamente inapropriadas.
Esta operação de limpeza da linguagem poética prende-se com aquilo a
que eu chamo celebração do quotidiano, ou elogio do quotidiano, no
sentido de Todorov referindo-se a Vermeer, entre outros pintores. Dei este
exemplo para observar que uma poesia do quotidiano não significa
linearidade ou lugar comum. É um olhar atento às coisas que nos tocam no
seu ínfimo acontecer e que tecem as nossas vidas. Trata-se de todo um
trabalho de interiorização e transfiguração. É notável que muitos
dos poetas de “gerações” anteriores se tenham aproximado desta
poesia e que alguns se tenham sentido renascer nela. Eu sinto sempre na
palavra poética da poesia contemporânea a carne do verbo, uma transparência
que deixa entrever as entranhas. Mas não nos deixemos enganar, pois que
cada objecto: a pele, a chávena, o pão, são sempre objectos de sentido,
tal como bem o notou Magritte com “ceci n’est pas une pipe”, ou
“ceci n’est pas une pomme”. Não podemos beber pela chávena
escrita, comer o pão poético e tocar na pele do poema. Deveremos antes
degustar, saborear e acariciar cada poro da palavra. FM
– E de que maneira estes aspectos resistem a uma comparação com outras
tradições líricas, numa margem e outra do Atlântico, por exemplo? RAB
- Na questão anterior falavas em renovação e aqui em tradições líricas.
Eu nunca tinha descoberto que o Atlântico tem margens, mas franjas de
vagas que se aproximam e se afastam da costa. De resto, é bom que se
saiba que a Poesia recente do Brasil, por via impressa, chega muito pouco
a Portugal, que não temos um intercâmbio cultural e que quase só a NET
desempenha um papel de troca, se exceptuarmos um número da Revista Relâmpago
dedicada à Poesia brasileira contemporânea e as edições Quasi. O mesmo
é dizer-te que não posso falar com fundamento do que se faz hoje no
Brasil, pois o meu corpus de conhecimentos teria de ser bem mais
amplo. Acho que aqui há todo um trabalho a fazer. FM
– Por um lado, o que me dizes me faz pensar em John Cage: “A arte está
em processo de retornar ao que lhe é próprio: a vida”, pois é
naturalmente isto o que mencionas como “celebração do cotidiano”,
esta celebração que uma tradição oficial da lírica brasileira
rejeita, movida pela infiltração excessiva do positivismo em nossa
cultura. RAB
– A Arte e as Artes são simultaneamente um despoletar e um reflexo de
que a vida retoma à própria vida. Genericamente (já que há sempre as
grandes excepções), nas gerações anteriores encontramos, tanto uma
vertente lírica ornamentada, como uma Poesia muito conceptual. A Poesia
como celebração do quotidiano é um bom sintoma de outra postura de
vida. As palavras despem-se do medo de serem apenas palavras, mas passamos
de uma dimensão representativa a uma dimensão mais apresentativa. Há
toda uma intimidade, uma aproximação furtiva ao quotidiano que lhe
retira a banalização do olhar. É como Cézanne pintava as maçãs, como
reflectia sobre um simples açucareiro ao comentar que é preciso amar
essas pequenas coisas, quando falava da tristeza da pele do pêssego, ou
das rugas da maçã. Subitamente, somos confrontados com esses minúsculos
seres mágicos que nunca tinham convocado a nossa atenção e que ganham a
dignidade de objectos amados. O demasiado positivismo incorre no problema
de todos os demasiados ismos. Só desfigurando os sufixos se
reinventa a tradição, actualizando-a sem lhe retirar a carga histórica.
RAB
- Não creio que exista esse ardil, não de uma forma sistematizada. Eu só
o encontro em pequenos grupos e a cada grupo seu ardil. A deficiência
real na relação entre as duas margens passa por factos insuperáveis e
prosaicos como o preço dos portes de correio. Às vezes a água que une
pode ser um mar que separa. Essa questão da superioridade tinha-me
passado despercebida, talvez porque não cabe no meu olhar, ou talvez
porque seja apenas exacerbada por gente que tem pouco em que pensar. O que
acontece é que há sempre mais preocupações económicas por quem de
direito, nas relações entre países, do que preocupações em estreitar
as relações culturais. O ponto crucial desta questão prende-se com o
facto de que, para o poder, a cultura não está na ordem do dia, não
constitui nunca uma prioridade. No nosso caso é ainda mais lamentável
porque nem temos que ultrapassar o “exílio linguístico”. É
um facto que lemos alguns dos grandes nomes da Poesia brasileira, mas
lemo-nos sempre no passado. Quer dizer que seria deveras importante saber
o que se está a fazer no momento, até mesmo quais os nomes que são
apenas promissores. Poder fazer parte das escolhas e não receber apenas já
nomes “consumados” e consumidos. Por
isso as Revistas na NET me parecem, para já, a única possibilidade não
utópica de uma troca em tempo real. Mas há que repensar o modo de tornar
eficaz esta troca, de lhe retirar o carácter pontual e arbitrário, de
encontrar autênticas relações biunívocas, de explorar e reflectir
sobre os legados e as identidades que se vão gerando pelas vivências múltiplas
e diversificadas. Quanto a mim, o acordo ortográfico só serve para tapar
o sol com a peneira. uma mesma língua não pode significar, de modo
algum, uma mesma linguagem, pois esta não é um arquivo originário, mas
um modo actual de um povo estar no mundo que não deve sujeitar-se ao ismo
da redução. Toda a redução é simplista e empobrecedora. FM – A propósito, estás agora justamente
preparando a edição de uma revista virtual, de maneira que gostaria que
comentasses um pouco sobre teus planos editoriais e um pouco também a
respeito de como, em Portugal, essa mídia tem funcionado em termos de
circulação de cultura.
Relativamente à Revista,
eu estive na co-direcção de Figuras e de Limiar e pertenço
à Hablar/Falar de Poesia. Neste momento, e porque o pressuposto é
ter um projecto, estou, realmente interessada numa Revista que circule
pela Net que possa ser feita em qualquer lado e chegar a qualquer lado,
instantaneamente. Esta inclinação deve-se ao facto das próprias
características da Net, mas também a outros factores. Em primeiro lugar,
trabalho com interação (no que se refere aos novos objectos
interactivos), uma vez que ensino Design. Nos meus últimos papers
para conferências internacionais tentei escrever as bases para uma
Filosofia da interação e foi, para mim própria, uma surpresa encontrar
na realidade virtual e na realidade aumentada os conceitos dominantes das
sociedades estudadas por Marcel Mauss, Lévi-Strauss ou Lévy-Bruhl, tais
como: dádiva, a troca simbólica e a participação.
Para começar considero
que não existe um erotismo explícito na minha poesia. Creio mesmo que
essa carga erótica na recepção é um efeito da sensualidade dos poemas,
entendida aqui como uma poética dos sentidos e dos sentires. Em todo o processo
perceptivo existe uma ego-recepção, já que os sentidos estão,
simultaneamente vocacionados para o interior de nós e para o exterior
mundano. Da visão podemos dizer que vemos vendo-nos. Existe sempre um
sentir de nós, do nosso corpo, em tudo o que percepcionamos e fazemos. A minha poética pode ser
entendida enquanto apologia do corpo no mundo, em que o corpo funciona
como um sistema aberto em constante importação e conseqüente transformação.
O maravilhoso operador destas passagens é sobretudo a pele,
suficientemente consistente para se constituir enquanto "superfície"
delimitadora e suficientemente porosa para deixar entrar o mundo de um
modo táctil e eis porque tudo o que nos chega através de qualquer
sentido como os olhos, o nariz, a boca etc., nos acaricia. O meu poema
"Obra-Prima", em Da Alma e dos Espíritos Animais, tenta
tematizar em verso aquilo que acabo de dizer. Assim, paradoxalmente
(porque tematiza) e conseqüentemente (porque o objecto tematizado é a
carícia) é um poema de resolução inteiramente sensual. A minha escrita é cada
vez mais uma escrita de pele, uma escrita tocada pelas coisas; mas não
creio que exista mais carga sensual quando escrevo "perna" do
que quando escrevo "pedra", porque a carícia tem a mesma
intensidade e a mesma verdade. Aceito sem restrição a
idéia de uma tensão inquiridora do infinito, mas obrigo-me também a
algumas elucidações. Tensão, neste caso, tem o sentido de diferença de
potencial que constitui a própria possibilidade da vida e o infinito é
buscado, ou mesmo encontrado, a partir do finito (o que não significa
limitado ou em oposição binária com o infinito). O que de facto me
interessa é mergulhar nos aspectos que desdobram o finito em infinito,
pois cada minúscula partícula está prenhe de infinito e de devir. Creio
que a minha poética se constitui enquanto convocação das coisas, no
sentido de trazer para a luz aquilo que parecia condenado à sombra. Esta
convocação é feita através da carícia, pois quanto a mim, só ela tem
o poder de despertar as coisas e as arrancar ao abismo da invisibilidade
ou esquecimento. Mas a libertação não é, necessariamente dolorosa, seja qual for o grau de intensidade. Depende da receptividade à dádiva, da apetência em tocar e ser tocado. A carga sensual da minha poesia, que advém sempre do pacto entre o corpo e o mundo, em que o corpo se faz corpo com o mundo, poderia quase exprimir-se numa frase, que apesar das aparências, nada tem de cartesiana): toco e sou tocada, logo existimos. |
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Rosa Alice Branco
(Portugal, 1950). Um fragmento desta entrevista foi originalmente
publicado no Rascunho # 39 (Julho de 2003). Contato: r.a.branco@mail.telepac.pt.
Página ilustrada com obras da artista Ileana Moya (Costa Rica). |