revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003






 

Pinturas e fotografias de Mário Camargo

Mirian de Carvalho

.

Mário CamargoInaugurada no Rio de Janeiro, e seguindo rota que inclui exposição em Roma, Natureza Inventada, recente mostra de Mário Camargo, nomeia proposta que se concretiza: inventar a natureza. Esse ofício inventivo se revela a partir da valorização da técnica, ressaltamos, porque na Arte Contemporânea, os passos dos procedimentos técnicos se tornam parte da obra, levando alguns artistas a realizar outros registros, como o fotográfico, tal fez Mário Camargo, neste conjunto de trabalhos, reunindo pintura e fotografia.

Duas artes. Duas poéticas. Técnicas diversas. Transformações da matéria. Interpretações visuais dessa matéria. E fiquemos atentos a esta integração, do ponto de vista poético: a concepção fotográfica duplicando, interpretando a cena pictórica, e revelando uma complementaridade de olhares diversos sobre o mundo criado plasticamente.

Mário CamargoNesta mostra, duas artes se articulam na tessitura da terra, antes e depois da invenção da natureza, através de criativo jogo de olhares entre pintura e fotografia, fazendo de uma - espelho da outra. Entretanto, à maneira de um conto fantástico de Borges, o espelho não reproduz a imagem que o contempla.

Ao invés de reproduzir e encarnar um duplo preso ao vidro, o espelho fotográfico fixa singularidades e labirintos do kósmos pictórico, reinventando-o ao reter fragmentos do visível e do não-visível. E, numa entredoação especular, pintura e fotografia se reconhecem pelas diferenças que as particularizam ante o trabalho da matéria densificada.

Resultante de uma poética da aspereza das cores terra, a pintura de Mário Camargo ativa sensações que despertam o tato. O visitante se vê atraído pela espessura das cores texturizadas - um solo manuseado - em desvelamento das camadas mais profundas, aflorando à superfície.

Mas que superfície é essa?

Mário CamargoNão se trata de acabamento externo. Mas de um desvelar das "superfícies de dentro": cortes reveladores dos estratos subterrâneos de uma terra exposta ao tato, aos pés, à descese arquetípica, através das camadas de cores e densidades diversas.

O trabalho da fotografia - iniciando-se pelo rastreamento da terra - capta "subterrâneas" luzes e sombras, entranhadas nos fragmentos de corrosão-composição do solo criado pelo artista. Digitalizada, a imagem fotográfica passa por intervenções, descobrindo e fixando aspectos velados ao primeiro olhar da matéria pigmentada.

Mário CamargoPor meios diferenciados, o visual se completa em "tátil abstração" realizada através de imagens não representativas, escavando camadas rugosas, granuladas, marcando veios sulcos dobras relevos rochas e areias, no mundo inventado de modo pictórico - e fixado no papel - como corte e recorte da terra captada no nascedouro.

Desta Natureza Inventada por Mário Camargo, em etapas integradas, emerge um solo gerado em tons sóbrios, habitado por águas imaginárias concentradas nas tintas, fazendo aflorar universos subterrâneos, onde pintura e fotografia se entreolham como espelhos em olhar de estranhamento. Nessa poética da aspereza das cores da terra, descobrimos que os espelhos são seres reveladores da alquimia da matéria e dos pigmentos inventados pela mão, fixando gestualmente as tintas, e atuando na dinamogênese de uma natureza em processo de transformação. 

Mirian de Carvalho. Crítica e poeta. Vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Publicou, em parceria com Angela Martins, Novas Visões: Fundamentando e Espaço Arquitetônico e Urbano (2000). Contato: mir3@zaz.com.br. Página ilustrada com obras de Mário Camargo (Brasil).

retorno à capa desta edição

índice geral

triplov.agulha

triplov.com.agulha.editores

jornal de poesia

Banda Hispânica (Jornal de Poesia)

Ser Espacial (Brasil/Portugal)