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revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003 |
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Ana Hatherly: meditações sobre a escrita e o ato criador Ana Marques Gastão
AMG - «Não é no espelho que devemos observar-nos.
Homens, contemplem-se no papel.» Nestas palavras de Michaux, está uma síntese
daquilo que poder ser considerado a sua obra, exploradora do conceito de
escrita. Concorda? AH - A frase tem muito a ver comigo. De certa
maneira, pertencemos a uma mesma família, só que Michaux integra a família
surrealista e eu não. Vem do automatismo e da droga e do debruçar-se
sobre si próprio com o alheamento do real. Eu não venho da droga, do
alheamento do real, venho só de dentro, um outro dentro diferente do
dele. O meu dentro resulta, pelo menos no trabalho, de uma meditação
sobre a escrita e o acto criador. Interessa-me tentar aprofundar o que é
o mistério da criatividade. O que se cria, como se cria... Isso está na
base do que faço. AMG - Mas há esse lado da contemplação no papel
que traz a contemplação de um vulto. Onde está esse vulto? AH - Essa a minha relação com o real, não só no
sentido do acontecimento, mas do próprio Homem. A confrontação do
artista com a pessoa. Quem cria é necessariamente uma pessoa com toda uma
história cultural por trás. Ninguém nasce do nada. Mas, ao mesmo tempo,
a criatividade dir-se-ia a descoberta de um lado nunca conhecido, tendo
algo que ultrapassa a dimensão normal do humano. Sobre esse mistério,
tento debruçar-me. Cada vez que escrevo ou pinto, há sempre uma
descoberta. AMG - Consegue entrelaçar essa ideia da relevância
estrutural da escrita - englobando poesia, pintura, cinema -,
com a criança que foi Ana Hatherly, de aparência nórdica, mas
nascida no norte do país? AH - Não tive uma infância feliz, foi muito solitária,
sem irmãos, sem ninguém da minha idade com quem brincar, numa época em
que a educação era muito severa dentro da burguesia. Mais tarde, fiquei
muito grata por essa severidade, porque preparou-me para as agruras que
vieram. Havia, no entanto, aspectos mágicos. A minha avó, que me educou,
contava histórias que ainda hoje sei de cor. Depois vivia-se toda uma
tradição cultural da época, muito da região do norte, crescia-se em
casa com as criadas, convivia-se com a religião. Existia um conceito do
sagrado, do divino e, sobretudo, do ritual. O ritual foi muito importante
na minha formação. Lembro-me quando minha avó me levava às igrejas,
pelo menos a uma delas, do séc. XVIII, que ainda hoje existe, a Capela
das Almas. Aquelas novenas ao fim de tarde no mês de Maio cheias de
flores e incenso... Eu via os anjos a dizerem-me adeus com a mão. Tinha
alucinações. Na adolescência, recusei esse tipo de conhecimento.
Passados anos, reconheci o erro e estou muito grata por me terem dado
acesso a essa forma de cultura. Muitos dos meus alunos não a tiveram e são
muito mais pobres. AMG - O que nos leva às suas raízes assentes no
barroco. O artista barroco vê - di-lo em «O Ladrão Cristalino» - o
invisível, procurando mostrá-lo. Neste dentro-fora, evolui a sua
actividade que pensa as palavras, o seu clamor, como diz num dos seus
poemas? AH - É exactamente isso: procuro esse diálogo
impossível entre o visível e o invisível. A criatividade passa por aí,
ou mesmo a relação com o sagrado, por querer tornar visível o invisível,
o que talvez nunca seja totalmente possível. Não se trata
necessariamente de querer ver, mas de ver por dentro. AMG - Tendo em conta que letras e artes se associam
numa perspectiva barroca, a escrita não nasce, porém, para si, apenas do
jogo intelectual, da subversão pelo riso, pois não? Há distância,
rigor, mas dentro de uma tragicidade... AH - Isso é profundamente verdade. O riso vem do
espírito lúdico do barroco, vivi na infância rodeada de formas do
barroco, até na casa onde vivíamos. Ainda hoje vivo. Trata-se de uma
arte que vai mais longe, embora se pense nela como decorativa, ligada aos
palácios, ou seja ao Poder. Quando comecei a conhecer a literatura,
apercebi-me disso. O que mais me impressionou foi a inteira dedicação àquilo
que se faz, a possibilidade de brincar na profundidade absoluta.
Fazendo-o, tocamos a raiz das religiões mais antigas. O próprio zen
baseia-se no riso. Mas que espécie de riso? Não o riso sem consequências.
Já Freud o explicou. Os barrocos são artistas - seja na pintura, na
literatura ou na música -, de um rigor absoluto. Não se pode fazer
nenhum jogo sem uma regra muito precisa, porque de outro modo não há
jogo, mas dispersão. E o barroco é uma arte do rigor, veja-se Bach. AMG - O que nos leva às suas raízes musicais... AH - Estudei música e quis especializar-me em música
barroca. Com essa arte aprendi a severidade e o desejo de segurança técnica
que me ajudaram em tudo o que faço. Essa disciplina, esse rigor, foram-me
incutidos na infância. AMG - Como se o privilégio de uma estética
passasse pela clarificação da continuidade entre temporalidade e
eternidade, entre matéria e espírito? AH - Esse dir-se-ia ser o fundamento do barroco e do
meu trabalho. Ao assimilar-se o rigor, está-se livre para brincar ou não.
Tudo é jogo, a vida é jogo, no sentido metafísico, na medida em que há
uma regra para um desempenho que pode ser em duelo ou não. Vivo na
fronteira entre o diálogo e o duelo com tudo. Esse é o lado subversivo
do meu trabalho. Estou justamente em duelo pelo extremo rigor da minha
vontade de compreender e de exprimir. AMG - Falou de duelo. Refere-se também às relações
de poder entre as pessoas? AH - Sim, claro, isso também vem do barroco, época
que, devido à presença forte da Igreja, à nossa cultura, à tradição
ocidental, está cheia de figuras de Poder. Nasci no tempo do salazarismo,
aprendi, por isso, quais as consequências funestas de quem enfrenta um
poder absoluto. Fui dominada pela rebeldia, pela vontade de me insurgir
contra tudo. AMG - Diz, a certa altura, em «O Pavão Negro»
(que, por assim dizer, prolonga «A Idade da Escrita»): «Enlouquecidos
pela dor/cobrimo-nos com o barro das palavras.» Escreve, pinta, cria num
processo inverso ao da dor? AH - Paralelo. Não há criação sem dor, pode
ter-se mais ou menos consciência disso, dependendo do tipo de
profundidade que se atinja ou se procure atingir. O meu trabalho tem uma
dimensão metafísica e essa tem de ser necessariamente dolorosa. AMG - Pensar sobre a natureza da poesia, da música,
da arte é, em última análise, colocar questões teológicas ou metafísicas? AH - Não tanto teológicas, mas metafísicas sim,
de certeza. AMG - Por isso o filtro dos mestres zen na sua obra,
aliada a uma tradição do pensamento ocidental?
AMG - D. H. Lawrence disse que é necessário ser
terrivelmente religioso para ser artista... AH - Religioso e erótico. Não há nenhuma religião
verdadeiramente desligada do erotismo, acontece no catolicismo, na religião
cristã. Vemos isso nos escritos barrocos, sobretudo nos das freiras.
Estudei muito a escrita das mulheres. Há um erotismo extraordinário na
poesia «a lo divino». São textos deliciosos, sobretudo, os de Soror
Maria do Céu, sobre quem fiz a minha tese de doutoramento. Continuo a
realizar, nessa área, um trabalho de investigação com ex-alunas minhas
já doutoradas: estou a projectar uma grande antologia de poesia barroca
temática: começando com as aves, flores, frutos, pedras preciosas,
etc..., o que nos levará depois ao contraste entre amor humano e amor
divino, presente numa Santa Teresa de Ávila ou num São João da Cruz.
Mas há que entender esses textos num sentido elevado. O erotismo é uma
das forças da criação. Não há criação sem erotismo. AMG - Está a falar de um êxtase? AH - De um profundo empenhamento do corpo e da alma.
Essa é a grande criação que nos emocionou ao longo dos tempos. Sem
entrega não há criação. AMG - Acredita, então, numa dimensão sagrada da
palavra? AH - É a sua dimensão autêntica, embora nos esqueçamos
dela, até no domínio da fala. A poesia ensinou-me a importância, não só
dos valores estéticos, políticos e sociais, mas, sobretudo, dos
sagrados. Eu, que passei tantos anos a defender e a praticar a visualidade
do texto, chamando a atenção para as palavras escritas como representação
de algo, hoje, ao fim de 45 anos de publicação, estou a regressar ao
valor oral do poema, para que este volte a adquirir a sua importância
original. Não estou a referir-me à fala no diálogo, mas à fala em
poesia. Quem escreve para teatro ou cinema sabe o que isso é. Ao sermos
obrigados, já secularmente, a ler em voz baixa, o que no passado não se
fazia, porque era considerado diabólico - coisa que poucas pessoas sabem
-, perdemos uma dimensão do sagrado. Podemos escrever textos para serem
lidos em silêncio ou ditos em voz alta. O escritor tem à sua disposição
três aspectos fundamentais: a escrita para ser lida, ou ouvida, ou
entendida como desenho, representação de um gesto humano, mesmo que seja
tipográfico ou no computador. Ainda é a mão humana a funcionar nesses
casos. Quando passarmos à fase em que apenas falamos e o computador já
escreve, ainda conseguirá impôr-se a força da voz humana. Há toda uma
gama que não tem sido entendida e valorizada na sua totalidade. Eu, que
pratico a visualidade - a escrita muda -, estou a tentar desenvolver esses
aspectos. Estão a vulgarizar-se, no mundo inteiro, os recitais de poesia.
Sente-se cada vez mais a importância da voz. AMG - A que atribui esse fenómeno? AH - À perda de importância do ser humano como
indivíduo. Ver alguém a falar e a dizer é algo muito diferente de
vermos essa mesma pessoa num aparelho de televisão. A singularidade
individual da voz é aquilo que o distingue, até no plano do sagrado. AMG - As leituras de Derrida são, no entanto, as de
uma teologia zero, do «sempre ausente». Viu desaparecer todos os seus laços
afectivos primordiais por meio da morte. Como integra nesse vazio a sua
concepção de sagrado? AH - Com muita dificuldade, mas é preciso aprender
e o zen já nos ensinou, como todas as religiões orientais em particular,
que a morte tem um estatuto diferente daquele que lhe confere a religião
católica. Acreditar na vida para além da morte é um problema que não
se conseguiu resolver até agora. O desaparecimento, para mim - e a
palavra diz tudo -, é das coisas mais dolorosas que a vida ensina. AMG - Está também a falar dos mortos-vivos... AH - Sim, sim, para mim, é a mesma coisa. O mistério
do desaparecimento atinge-me da maneira mais profunda. Quando alguém
desaparece é indescritível o que se sente. Isto dominou a minha vida
toda. Talvez a arte exista para colmatar esse vazio. Criamos porque nos
falta alguma coisa. E talvez, por isso, tenha escrito: «Amando muito
muito/ficamos sem palavras». AMG - Numa das suas tisanas (293) escreve: «Então
acordo e compreendo que a nossa união nunca se dará porque não é mística
nem mítica.» Liga o sagrado à relação com o Outro? AH - O sagrado é a relação com o Outro, o tal
Outro invisível, aquele que nunca se vai encontrar. Não que tenha
aparecido, é que nunca chega a aparecer, a não ser que vejamos o sagrado
em tudo. Fizeram-no os que cultivam a natureza como representação de
Deus, uma das facetas do barroco levada às últimas consequências. AMG - O sagrado pode passar por um instante, por um
rosto? AH - Obliquamente, sim. AMG - A ideia de impossibilidade na relação
intersubjectiva, particularmente na amorosa, percorre a sua obra, como em
«Tisana de preço fantástico». Ou no livro «Rilkeana» e noutros... AH - Há sempre algo de inatingível. Em «Rilkeana»,
por exemplo, nas suas variações, não sou capaz de materializar a ideia
do anjo. Surge, então, como invenção. Existe uma impossibilidade básica
na natureza humana que é sempre uma fracção de qualquer outra coisa.
Somos incompletos, não chegamos a atingir, estamos quase a ver e
desaparece... AMG - Funde como ficção e realidade, tendo em atenção
essa falta? AH - A ficção dir-se-ia uma forma de criar um real
que não existe. Mesmo os mais materialistas, estão a cobrir-se com o
barro das palavras. Porque estas são a representação de uma outra coisa
qualquer que não conseguimos representar. A concepção do anjo está na
base das «Elegias de Duíno». Mas não é só o que lá está. O que se
nota no meu trabalho, particularmente na «Rilkeana», que demorou três
anos a criar – só fiz isso e mais nada -, é a possibilidade de aceitar
a presença do anjo. Fiz até vários desenhos.. Mas antropomorfizar um
anjo é no mínimo um sacrilégio! (risos) Isso tem de ficar noutra zona.
O sagrado não é acessível, não se lhe pode pôr a mão. E ainda bem,
senão era material. AMG - Escreve, pelo menos nas «Tisanas», porque
algo aconteceu ou acontece, para produzir o acontecer. E noutro tipo de
escrita, fá-lo porquê? AH - Há sempre, no que faço, uma ideia de procura,
da origem de qualquer coisa que está no fundo. Quis seguir a carreira
musical e fui obrigada a abandoná-la por razões de saúde. Senti uma
perda tremenda, um desaparecimento. Essa formação trouxe-me a dimensão
do rigor. Quando estive doente, num sanatório da Suiça, o médico
disse-me que eu nunca mais iria poder cantar ou tocar, mas aconselhou-me a
escrever, que «era mais descansado....» E foi o que fiz. AMG - Depois veio o experimentalismo... Foi pioneira
da poesia experimental. Na sua deriva visual, a erudição sempre
acompanhou a produção artística... AH - Sim, depois entrei para o grupo dos
experimentalistas, que reflectia um posicionamento de insubordinação. A minha relação com o Poder foi sempre
difícil, tudo o que era subversivo me interessava. Lutar era a posição
certa naquela altura, num momento em que, ao nível mundial, surgiam
acontecimentos históricos marcantes como os movimentos estudantis dos
anos 60, a guerra colonial e a do Vietname, a arte «Pop», a luta das
mulheres, a expansão da música rock, etc... AMG - Como recorda esse período da sua vida? AH - Como uma época de luta, difícil para todos nós.
Eu estava numa fase de recusa de tudo. Havia uma revolta dos jovens, também
internacional, e eu empenhei-me profundamente, como faço sempre, tentando
aproximar a arte da vida. Paguei um preço elevadíssimo, fui perseguida.
Não me importo. Agora acabou, outros que o façam. Não se pode ficar
eternamente à frente, e cedo me apercebi de que, por exemplo, o
concretismo era redutor. Não existe só uma vanguarda, mas vanguardas
sucessivas ao longo dos tempos. Ainda há quem pratique hoje formas do
experimentalismo dos anos 60, mas esses são retardatários. A sociedade
evolui, as gerações sucedem-se, é preciso dar lugar. Faço outras
coisas, tenho outras coisas para fazer. AMG - Como reagiu este país retrógrado a essa
pequena revolução? AH - Muito mal, muito mal, porque nós queríamos
romper com o imobilismo. No prefácio que faço à antologia da minha
poesia experimental, «Um Calculador de Improbabilidades», falo disso,
incluindo até polémicas que surgiram então, nomeadamente no «Diário
de Lisboa», entre outros jornais. O ambiente foi adverso a essa
experimentação. Éramos poucos, mas havia uma razão de ser para o
movimento: tratava-se de uma tomada de consciência internacional e
nacional; contra um «statu quo» intolerável, nos anos 60/70, até ao 25
de Abril. Existia, portanto, uma necessária demonstração da nossa oposição
àquilo que se estava a viver, a toda a repressão de que éramos
objectos. Com a revolução, a opressão terminou, bem como a censura. A
partir daí, colaborei com elementos que revelaram o meu júbilo perante a
revolução. AMG - Os cartazes, por exemplo, alguns estão no
Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian...
AMG - Mas não só participou desse movimento, como
foi, com Eugénio Melo e Castro, um dos principais teorizadores da poesia
experimental. AH - Fomos ambos teóricos, embora não tenhamos
sido os originadores do movimento, surgido com António Aragão e Herberto
Helder, que se desligou rapidamente. Isso não retira a importância a
Melo e Castro, figura muito activa nacional e internacionalmente. AMG - Com António Aragão e E. M. e Castro,
Herberto Helder organizou os «Cadernos da Poesia Experimental Portuguesa».
Está um pouco esquecida essa intervenção de Helder... AH - Mas existiu, a documentação e a correspondência
comprovam-no. Salette Tavares, uma mulher difícil, interessante, avançada
para o seu tempo, também teve uma contribuição extremamente importante,
embora não teorizasse. Coube-lhe, igualmente, a sua dose de
contrariedade. Melo e Castro tomou mesmo uma posição partidária, entrou
para o Partido Comunista, coisa que nunca fiz. Sempre prezei, acima de
tudo, a minha independência. O meu partido é o da liberdade, que defende
os valores sagrados do convívio das nações e da natureza. Não se pode
estar noutro sítio. AMG - É interessante situar «O Mestre», novela
labiríntica, lado a lado com «Os Passos em Volta», de Herberto Helder,
e «Rumor Branco», de Almeida Faria. Aproxima-a de quê? Da necessidade
de liberdade, ou continua a não saber o que pensa a seu respeito? AH - Essa novela surge, no princípio dos anos 60,
num momento crucial, ao lado dessas outras duas que referiu, e que
modificaram o rumo da ficção portuguesa. Só agora se está a reconhecê-lo,
no estrangeiro já aconteceu há muito. «O Mestre» foi tema de várias
teses, o Brasil acarinhou-o ao longo de décadas. AMG - Reconhecimento, quarenta anos depois... AH - Em Portugal, isso não é nada. «O Mestre» -
apesar das suas três edições entre nós - tem sido muito estudado no
estrangeiro, especialmente pelos grupos ligados a Jacques Lacan. Trata-se
de um exemplo único de novela em que o amor é desmontado, desmitificado,
completamente desconstruído pelo humor, mas simultaneamente de um texto
profundamente trágico. Em causa está a subversão do Poder, a discípula
mata o mestre várias vezes... AMG - Mas também se mata a si própria... AH - Matando o mestre, mata-se a si própria, essa
é a grande lição. A personagem feminina apaixona-se por um indivíduo
que não lhe pode corresponder: é homossexual. Nos anos 60, imagine-se.
Tratava-se de matar o pai e o pai é o mestre, não o professor, e com
conotações metafísicas. Escrevi a novela em dez dias e não fui capaz
de lhe acrescentar uma só linha depois. Zanguei-me com os portugueses
- mas isso está sempre a suceder-me -, e, nos anos 80, doei a
primeira versão do manuscrito à Biblioteca da Universidade de Upsala.
Hoje já não me importa que leiam ou não. AMG - Estamos na realidade sempre a destruir tudo,
como se diz na novela? AH - O mestre responde: «il ya des choses que’il
ne faut pas vouloir.» (risos) Aquele mestre era uma alusão a muitas
coisas, mas também ao amor impossível. Desejamos sempre aquilo que não
podemos ter... AMG - Há algo de essencial nesse livro sobre a
natureza da criação e a questão da imaginação... Diz, a dado momento,
que a imaginação serve para matar ou ressuscitar o que nunca teve
realmente vida... AH - Ah, sim... Desde muito cedo, tive consciência
da espinha dorsal de tudo o que faço, da ideia de impossibilidade... A
ligação entre palavra e desejo... Há uma coerência interna que, mesmo
45 anos depois, me surpreende. Tinha acabado de começar a publicar, e já
lá estava o embrião de tudo o que veio depois. Seguir-se-iam o
experimentalismo e outros caminhos diversos. Quando escrevi «O Mestre»,
estava em Paris, em tratamento. Escrevo muito quando estou no estrangeiro,
sobretudo as «Tisanas», que têm uma regra fundamental, a do acontecer.
Acontece sempre alguma coisa. O real é uma sucessão de aconteceres. Às
vezes, não é uma imaginação transformadora, mas uma visão
transformadora. Isso, sim, define a imaginação. AMG - Ao lado da faceta irónica da pintora da
escrita que Ana Hatherly é, existe um lado quase infantil. Klee vem à
memória... AH - Com a idade que tenho, pergunto-me como
consigo, não digo ser infantil, mas ter aquela genuína idade da criança.
A tisana dos anjinhos (349) revela-o, porque eu gostava muito de olhar
para as nuvens, redondinhas e luminosas, amontoadas por vastas áreas do
azul do céu. E uma vez perguntei: «o que é aquilo? São os anjinhos,
responderam-me. E eu acreditei porque era verdade.» Só uma criança é
capaz de acreditar. Resta-me esse lado infantil, que tem qualquer coisa de
puro, mas isso o verdadeiro criador possui; não sei se posso chamar-lhe
inocência. Talvez seja uma maneira limpa de olhar para as coisas. AMG - A sua obra gira em torno da procura do saber.
Acha que «a tragédia do homem é o conhecimento», como escreveu Cioran? AH - Sou grande leitora e admiradora de Cioran, a
quem chamo o meu «primo rigoroso». Quando estive na Roménia, fui à
procura dos seus vestígios. Li-o sempre atentamente. O seu desespero ante
o sagrado sempre me tocou muito. Era, se quisermos, um filósofo do
desespero, de uma lucidez penetrante e talvez um dos escritores que mais
me impressionaram, embora não seja um dos autores da minha formação.
Leio prefencialmente História da Filosofia, pouca ficção. «A Montanha
Mágica» marcou-me imenso, porém. Também vivi num sanatório. Quando
escrevi «O Mestre», Ionesco foi igualmente importante. Tudo passa pela
manipulação das palavras, sacralizá-las e dessacralizá-las dir-se-ia
um processo fundamental. AMG - «As palavras aproximam (...)/Ou então não:/matam/afogam
/separam definitivamente (...), escreve em «O Pavão Negro». AH - Esse é o poder superior da palavra. Mas
voltando a essa ideia do Cioran de que a tragédia do homem é o
conhecimento, eu diria que a tragédia está em não se conseguir
conhecimento bastante, desculpa Cioran!... AMG - Talvez Cioran quisesse dizer que o saber traz
consigo a perda de ilusão... AH - Sim ou não, é como as palavras (risos). Pode
ser o acréscimo, mas é preciso passar por esse processo dolorosíssimo.
A tragédia do humano tem a ver com a incapacidade de não atingir Deus.
Nunca chegamos a saber. Quando se procura muito, se estuda muito, quando
se chega lá, vê-se que não é nada daquilo. Esta a lucidez normal do
que Cioran pensou, só que o diz elipticamente. Chama-se a isso o pecado
original. A árvore do saber... Mas o Homem não soube nada, só soube o
mal. Foi castigado. Ninguém consegue saciar o desejo. É o cerne de tudo. AMG - Klee escreveu que não devemos ter medo de nos
vermos envolvidos no meio de elementos indigestos. A frase aplica-se-lhe.
Entre o doce e o salgado, qual escolhe? AH - (Risos) Depende das ocasiões. No outro dia na
televisão, quando se falava da situação adversa em que a minha obra
viveu, durante muitos anos, perguntaram-me quem eram os meus pares. Meus
pares, não, meus ímpares, digo. Esses é que são indigestos. Em relação
a Klee, admiro-o imenso, até a dimensão dos seus trabalhos. Fez obras
muitos pequeninas. Aprendi imenso com isso e entendi qual o seu
constrangimento ao sentir-se limitado num espaço, numa dada situação
social. Eu, como ele, tive que lutar muito, o que é visível nas obras
minúsculas que fiz. Nelas a escrita dir-se-ia quase ilegível. Só se
fazem coisas pequeninas com grande desespero. AMG - A escrita, o pensamento são somente concebíveis
enquanto fragmento? Sob a forma de uma explosão ou não? AH - É sempre fragmento, a criação, insaciável.
Faz parte do desejo. AMG - Tem ultimamente usado o spray, penetrando no
universo dos «graffiti». Interessou-lhe o lado subversivo? AH - Sim, mas já estou a sair daí. Nos últimos
quatro anos, trabalhei com spray. Essa explosão dos «graffiti» de rua
tem um carácter clandestino, não tem autor, faz-se em grupo, de noite.
É algo que a sociedade contempla como uma mácula. O espírito de equipa,
a ideia de subversão e o posicionamento político interessaram-me. Não
sigo o mesmo percurso que eles, mas tentei reinventar os «graffiti», que
são sempre assinatura, voz de alguém. Já domino a técnica, por isso não
me interessa mais. Posso usá-la ou não. O importante é tomar posição
na altura certa. No momento em que os «graffiti» são proibidos, eu faço!,
cumprindo um sentido de transgressão... É o mestre que eu quero matar. AMG - No seu último livro, «Itinerários», acaba
com uma «Carta a Uma Menina que Queria Ser Poeta». É, no fundo uma «Arte
Poética»...
AMG - Regressando a «Itinerários», vejo-os como
um mapa... AH - São percursos. O primeiro poema di-lo: «Na
minha oficina herética/o labirinto contraria o linear:/percorre-me/como
se fosse uma veia/segura em seus meandros/A não necessidade, o que
seria?/que nova desordem criaria?/que outras descobertas?/A fugaz
eternidade das ideias-mestras/incessante refaz os jogos da
racionalidade/mas o jogo é um itinerário/e a sedução do
rigor/recoloca-nos incessante na senda do desejo» Está aqui tudo, é um
auto-retrato. Nada é linear. No barroco, também não. Há meandros. Como
seria se não houvesse necessidade? O rigor é muito exigente; há essa
sedução. E o desejo, sempre o desejo. AMG - «Escrever é querer descobrir o próprio
vulto». Isso basta-lhe? AH - Sou obrigada a isso. AMG - Sempre num caminho de instabilidade? AH - Como o melro que na minha varanda salta pelo
jardim num hotel de cinco estrelas: «(...) Flâneur jovial/seu
canto/enche de encanto o meu dia/Preciosa ilusão de alegria/como criança
saltando à corda/brinca/com as leis do fim». Tenho uma paixão pelos
melros. AMG - Entre a vida e a morte, o princípio e o fim.
Talvez por isso a citação
de Keats que surge nos dois últimos livros: «Itinerários» e «O Pavão
Negro»: «Pensar é encher-se de tristeza». Porquê? Tem a ver com
dimensão de finitude? AH - Talvez, e com a ideia de sofrimento. Fui uma
grande leitora de Keats. Talvez seja o que diz Cioran, essa aspiração ao
conhecimento nunca alcançado: «Pensando em ti eu sofro: a prática das
coisas/é um penoso mistério/uma veleidade/no breve travo da memória»,
escrevo em «Itinerários». Afinal, estes itinerários são mais
pungentes do que eu pensava! (risos). AMG - Aparentemente há uma leveza nesse livro, mas
é trágica. Na sua obra, tudo está labirintica e ironicamente ligado. Há
uma consciência da morte (a dos outros e a nossa) e a lucidez de saber
que o poeta se transforma no seu próprio espólio... AH - Eu sei que «Caminho só/ímpar/viúva/Um pombo
cor de cobre aproxima-se:/olha-me um instante/e depois afasta-se/para
sempre.» («Itinerários») Já na «Rilkeana», dizia: «caminho solitária/apoiada
só na minha ironia» (risos). O que vem ao de cima é sempre o sentimento
trágico da vida, porque nunca nos saciamos. Depois de amarmos, sofrermos,
não temos nada. Diante de nós, o desaparecimento. AMG - «Nunca mais se ouve o que é inaudível»? AH - O invisível, o inaudível... Mas não queria
dar a ideia de uma pessoa triste. Sou lúcida, isso sim, dinâmica, vital,
tenho uma enorme energia física e de acção no real. AMG - É intolerável a «intensidade do sentir?» AH - Sinto intoleravelmente. Sinto com uma
intensidade tal que as pessoas se assustam, por isso não deixo que se
aproximem muito e desapareço sempre primeiro. Sou muito atenta, vejo as
pessoas excessivamente, registo tudo. Tenho uma câmara invisível, depois
afasto-me e, no meu «replay», apanho as coisas. Não me esqueço. Quando
me tenho de separar de alguma coisa, fico doente, porque não me sai da
memória. Da beleza também. Um pôr de sol dá cabo de mim por dias
inteiros. AMG - Que distância vai da Ana Hatherly de «Eros
Frenético» à Ana Hatherly dos últimos livros? AH - Trinta e tantos anos. Muita coisa mudou. O
poema que dá o título ao livro «Eros Frenético» teve um impacte
negativo tremendo. As pessoas estavam habituadas a falar do amor num
enquadramento romântico, do século XIX. Esse texto é erótico, mas a
imagística é a da máquina. Isso ofendeu muita gente, como se o corpo não
fosse uma máquina, uma máquina sofredora. O poema é intensíssimo. AMG - E subverte o romantismo: «Eles estavam ali em
frente um do outro/no silêncio da sua morte/ocupando diferentes espaços»... AH - Há sempre essa solidão, porque não se ama
nunca, só se deseja, como digo numa tisana. Há subversão nesse livro,
mas com outra forma de sentir, utilizando novas metáforas. Fui atacada,
mas de uma maneira ainda mais violenta quando peguei na Leonor («Leonorana»).
Adoro Camões, admiro-o e conheço-o, ensinei-o durante vários anos na
faculdade, mas quis desmontar o mito. O país não perdoou, só perdeu com
isso. AMG - Não há vanguarda sem tradição... AH - E o meu mal é conhecer relativamente bem a
tradição cultural portuguesa, tenho, portanto, consciência da
responsabilidade de a continuar,
sabendo que há tantos gigantes. Lanço-me, e nisso sou como os barrocos,
não tenho medo. E depois sofro as consequências. AMG - Como viveu a criadora no mundo académico? AH - Só fui para a Universidade como professora
depois do 25 de Abril. Já tinha uma carreira como escritora subversiva e
fui aceite com alguma dificuldade. Escolhi uma área proibida de
especialização, considerada das menos notáveis da cultura portuguesa.
Muita gente se esquece que Padre António Vieira e D. Francisco Manuel de
Mello são os exemplos máximos da escrita do barroco em Portugal. As
pessoas passam por cima disso. Entusiasmei-me, apaixonei-me e dediquei-me
completamente, tendo conseguido, apesar de tudo, merecer algum respeito.
Quando editei a revista «Claro-Escuro», ficou bem evidente que havia uma
dimensão que as pessoas eram obrigadas a respeitar. Isso facilitou a
minha inserção. Mas durante muito tempo, não podia sequer mencionar o
meu trabalho experimental. Tudo o que tinha feito décadas antes de entrar
para a Universidade, prejudicava a minha imagem. Diziam que eu era
demasiado original. Isso tudo já passou e a minha alegria é ter
conseguido formar alunos, hoje meus discípulos, que me estimam. Para eles
trabalhei. AMG - Enquanto criadora, sentiu-se sempre mulher? Há,
a seu ver, uma criatividade especificamente feminina? AH - Senti-me sempre profundamente mulher. A mulher
é muito diferente do homem. O criador não tem sexo, porém, a
criatividade não tem nada a ver com
isso: há, no entanto, um carácter específico da personalidade
feminina. Nisso sou exemplo típico. As mulheres são mais audaciosas.
Mesmo caladas, e se analisarmos bem a História, são audazes. A mulher é
muitíssimo mais forte, e eu sou uma mulher muito forte, porque faço da
minha fragilidade força. AMG - Em «O Mestre», escreve que muitas vezes os seres são claros e translúcidos
por serem primários e que, à medida que vão evoluindo, tornam-se
opacos. Nesta fase da sua
vida e obra, sente-se como? AH - Para mim, sou transparente, para os outros,
mais opaca, porque têm dificuldade em abarcar a totalidade das minhas
facetas. Não diria que sou opaca, mas poliédrica. Nunca ninguém tem a
certeza absoluta de que lado vou estar. Nem eu. AMG - Bataille escreveu que poesia que não se eleva
até à impotência - é vazio de poesia. Concorda? AH - A afirmação pode ser lida de várias
maneiras. Se eu disser que não consigo atingir o sublime, isso também
pode ser entendido como forma de impotência. No fundo, é o problema do
conhecimento; nunca conseguimos atingir o limite do poder do criativo.
Nesse aspecto, há sempre falta. AMG - Qual é, para si, o maior motivo de riso? AH - Há muitas formas de riso e de rir. Entre o rir
e o sorrir, existe um espaço extremamente complexo. Não cultivo o riso,
cultivo a ironia. A ironia não chega a ser riso, também não é sorriso,
estando mais próxima do sorriso do que o riso. O riso, subjacente a
alguns dos meus textos, é uma forma de ironia, manifestação pouco comum
na tradição portuguesa. Quando se diz rir em português significa algo
em que não me incluo de maneira nenhuma, embora possa rir com os amigos.
Existem alguns sorrisos na minha obra, riso não. AMG - Vive rodeada de quê? De palavras? AH - Também. |
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Ana Marques Gastão (Portugal, 1962). Poeta e crítica de literatura. Autora de livros como Terra sem mãe (2000), Nocturnos (2002) e A definição da noite (2003). Entrevista originalmente publicada no suplemento Dna, do Diário de Notícias (Lisboa, 12/07/2003). Contato: amgastao@dn.pt. Fotografia de Ana Hatherly por Maria José Pella. Página ilustrada com obras da artista Ileana Moya (Costa Rica). |