![]() |
revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003 |
Livros da Agulha
É com alegria que, finalmente,
começamos a ver os autores portugueses mais recentes e de excelente
qualidade, como são o Caso de Ana Marques Gastão, António Osório, a
entrarem no Brasil pela
mão da reputada Escrituras Editora, de São Paulo. A inexplicável ignorância da
literatura que existe, entre os países irmãos, tende a diminuir de um e
de outro lado, pouco a pouco. Se até há bem pouco tempo só os consagradíssimos
conseguiam franquear as fronteiras, agora a porta de entrada alargou-se e
parece ser um bom prenúncio para as trocas culturais entre ambos os países. O título da obra, A Definição
da Noite, anuncia desde logo esse elemento matricial com o qual se
conforma a sua poesia. Elemento nocturno e obscuro, caos informe e que é
necessário recortar com o fio da linguagem, traçando uma caligrafia do
amor e da morte, inscrita a luz, se é possível falar nessa clareira da
linguagem que os versos de Ana Marques Gastão gravam, no tecido volátil
da noite. Ana Marques Gastão já havia
publicado em Portugal Tempo de morrer, Tempo para viver (1998),
Terra sem mãe (2000), Três vezes Deus, em co-autoria com António
Rego Chaves e Armando Silva Carvalho (2001) e Nocturnos (2002).
A sua obra tem conhecido uma excelente recepção, tanto por parte do público,
como pela crítica portuguesa. A antologia que se publica agora, no
Brasil, colige poemas de cada um dos livros editados, com uma última
parte de textos inéditos da autora e que sairão brevemente em Portugal. Cada uma das suas obras tem
revelado uma crescente maturidade e uma densidade assinaláveis, sobretudo
no caso de Nocturnos e nos poemas ainda inéditos, o que reflecte
uma inquietação e uma busca da linguagem, sem se deixar arrastar pelo
facilitismo ou pelo mero efeito rectórico. Nesse sentido, a sua vigorosa
voz afasta-se completamente das correntes actuais da novíssima poesia
portuguesa, cuja orientação tem consistido num reacender do movimento do
“retorno ao real”, tão preconizado por Joaquim Manuel Magalhães. Por
outro lado, a sua poesia passa, também, ao lado de uma certa flanerie
que se insinuou lentamente na poesia, na geração de 90, com excepções
como Daniel Faria e Luís Miguel Nava. Numa linguagem claramente
perpassada pelo pathos do ser, pelo lirismo e pela desmesura romântica
e melancólica, Ana Marques Gastão percorre um território poético de
alto risco, sem nunca descambar no sentimentalismo e na subjectividade da
emoção, pois a sua escrita é constantemente vigiada pela lucidez do
verdadeiro poeta, que toma para si a linguagem como o amante toma o corpo
por objecto, para retomar a expressão, que me é caríssima, de Schiller.
O corpo difuso da linguagem, o amor, nas suas mais variadas formas, o
impalpável e obscuro magma da existência e da experiência da vida,
confinada pelo limite da morte, constituem essencialmente os temas da sua
poética, numa subtileza que brota da delicadeza do entrelaçamento entre
forma e conteúdo, entre experiência vivida e transfiguração poética.
“O amor é a força do olhar”, a plenitude da visão, mas é também o
“leopardo branco”, o obscuro desígnio que espreita o homem. A imagem
adquire um tom alegórico que, frequentemente, se vislumbra ao longo da
sua poesia, pois o clarão que ilumina o mundo é, muitas vezes,
espectral, e não apolíneo. Ergue-se, nessa Terra sem mãe
– que Carlos Nejar comparou a Waste Land de T. S. Eliot – a
nostalgia de um passado aurático e que perpassa por versos
“impiedosos” como estes “Corpo quente/frágil corpo/tão longe/a infância/perdida/em
tuas mãos/geladas.//Os órfãos morrem de condenação.” ou, ainda,
“Eis o que resta/da minha pátria./A mão que procura/sem lógica
amargura/o corpo desses mortos.” Esse tom alegórico é constante em
toda a sua obra, na clivagem que se crava ferozmente entre a morte e a
degenerescência do humano e o desejo de salvação das coisas pela sua
redenção na linguagem. Trata-se, assim, de uma poesia
liberta dos constrangimentos sociais e que se constrói individualmente,
numa clara oposição ao efémero e ao mundanismo. A expressão lírica
foge das coisas materiais e da atenção pormenorizada ao elemento social,
construindo-se, ainda assim, como uma reivindicação da palavra inviolada
e interdita. Resiste, por isso, ao poder silenciador, por um apelo à
salvação: “A melancolia/vive no teu lugar./Mãe, salva-me/de teus
olhos mortos.”. Pode afirmar-se que, aqui, há um retorno, um desejo que
aspira à plenitude do Ser, num desejo de redenção, que se eleva como um
canto sobre o reino da morte: “Pela dor íngreme/se chega a ti/vergasta
o vento/teu breve corpo /silencioso, feliz,/em sua urna de água.”. Os poemas de Ana Marques Gastão,
por se situarem num registo lírico, são “inactuais” e a sua voz um
canto isolado, no panorama da poesia portuguesa. A sua poética oscila
entre dois registos que revelam o domínio do fazer poético. Se, por um
lado, sobretudo em “O Silêncio de Deus”, têm um carácter quase aforístico,
como este “Toda a lucidez/é consciência/da perda de Deus.”, de uma
economia notável, por outro, há nos seus últimos poemas e em certos
“Nocturnos” um canto e um ritmo densíssimo da linguagem, de fôlego
quase narrativo, o que mostra estarmos diante de uma poeta que se sente tão
à vontade no género elegíaco como no aforismo. É sobretudo nos poemas
de Terra sem mãe que mais intensamente se concentra o género elegíaco,
pois os seus versos alimentam-se nostalgicamente do ser amado que se
perdeu e eleva, assim, o objecto do seu luto a uma nobreza espiritual que
apenas existe nessa exaltação do poema: “Tínhamos o movimento da
Terra/e eu compreendia as coisas/como se absorve a luz com os
olhos./Existiam as tuas mãos.” Num tempo em que a maioria das
vozes se perde em inúteis questões sobre as poéticas dos anos 90 em
Portugal, seria bom que os críticos pudessem avaliar com mais seriedade o
peso e a maturidade singular de uma voz poética como a de Ana Marques
Gastão, cujos versos são um consolo para a nostalgia de uma vertente poética
que se encontra em vias de extinção: a tradição lírica portuguesa. [Maria
João Cantinho]
Entre
1956 e 1959, na página semanal Poesia-Experiência, Mário Faustino
apresentava poetas clássicos e iniciantes a fim de atualizar a discussão
sobre a poesia brasileira, considerando a produção estrangeira da época
e a melhor tradição internacional. O
jornalista, crítico e poeta Mário Faustino (1930-1962) via o escritor
como um intérprete de sua época e de seu povo, fortemente ligado ao
presente histórico. Ao mesmo tempo, acreditava que o poeta deveria ser
capaz de identificar a beleza na tradição e seguir inovando para se
projetar no futuro. Para ele, a função social do poeta era agir por meio
da linguagem, modificando a língua e, por extensão, as formas de
pensamento e de percepção do mundo.
Em
alguma circunstância, o gênio de Albert Einstein proferiu: “É mais fácil
desintegrar um átomo do que um preconceito”. Com certeza, a ocasião fora
bem diversa desta em que um leitor privilegiado ousa refletir sobre as
pistas de acesso ao futuro da literatura. Se
o aceno é para um futuro, a um tempo que será mais sóbrio, ou talvez nada
frugal, mas indiscutivelmente esperado, não convém pensar que o gesto se
volte para o hibridismo de gêneros, ou para a reprodução virtual de
“blogs”, ou para a descoberta do grande buraco negro no centro do
Universo em conexão com as pulsões de criação e de destruição da
palavra, ou mesmo para a sociologia do pensamento do homem contemporâneo.
Talvez seja mais urgente, embora mórbido, pensar como Augusto dos Anjos:
“Que o homem universal de amanhã vença / O homem particular eu que ontem
fui!”. Mas que o olhar se expanda também ao passado. Aliando,
pois, os tópicos relativos a preconceito, veleidade artística e futuro
(que, paradoxalmente, aqui já pode ser lido como passado), reconstruímos,
via leitura, os 31 textos da obra O
sangue dos dias transparentes (Ateliê Editorial, 2002), estréia do crítico
literário Paulo Franchetti na curta narrativa. Primeiro,
falemos de preconceito. Há uma tendência na escritura atual a desmarcar
compromissos com qualquer das formalidades estéticas, por muitos, ditas
vencidas. Seguindo o mesmo caminho, neste caso em atalho, e mesmo sem
relacionamentos, uma gama de pretensos leitores ou de não-leitores prefere
rebater qualquer tipo de escritura. Sem falar naqueles que repudiam a própria
existência, para usar outros como alvo de vingança, restam aqueles que
apenas escrevem, compromissados consigo mesmos – uma das formas de estar
em dia com a vida – , além ou aquém de qualquer tipo de transgressão.
Neste caso, é provável que surjam preconceitos às reminiscências
abreviadas, aos sobressaltos de presente e futuro, às cenas do cotidiano,
aos gestos simples, aos atos banais, às ironias, aos desejos e aos
fracassos, aos enigmas dos textos breves de Franchetti. O
autor tende a esquecer que vive no século XXI – e isto não é um defeito
– pela coragem de criar um narrador ou narradores que possam dizer, mesmo
fora de qualquer contexto, que “era melhor sem compreender. Uma tradução
matava tudo. O bom era imaginar, colocar ali o que se quisesse, quebrado,
sem ordem, cada hora uma coisa.” (In: “Casal”). Mas nada é fora de
propósito. Estamos diante de um fragmento de um texto fragmentário, entre
outros, que seguem, no entanto, uma rígida forma de apresentação. Com
exceção de “Campo de aviação”, os contos brevíssimos apresentam uma
palavra como título e estão dispostos em ordem alfabética. Os paradoxos são
sempre desintegradores. Agora,
pensemos na veleidade artística. A grande ilusão de um criador de textos
é pensar que o leitor está na outra margem, de braços abertos, esperando
a voz, a verdade. Ou, de outra forma, imaginar que concluiu a sua obra-prima
ao ponto final. O escritor, como qualquer artista é pleno de vaidades,
expostas ou não, doentias ou não. O leitor, por sua vez, é sempre um vilão
necessário. Na obra em questão, os textos às vezes são insólitos, mas
com simplicidade. A trama pode até não se concluir, mas as sugestões
validam o conteúdo, mesmo deixando o leitor em falso. Parece, contudo, que
Franchetti também pensou na possibilidade de, ao tratar do desconforto de
viver, deixar o caminho cruzado para perdoar o leitor e eximir-se de
qualquer desvio. No conto “Duplo”, há uma passagem que parece aludir a
esta sensação: “Tudo acabaria como quando se acorda de um sonho e a
realidade é a cama de todas as noites, cheirando a suor e situada no espaço
já sem mistério nem surpresas.” Por
fim, evoquemos o futuro (ou o passado). A pergunta “o que há de novo?”
parece movimentar as catracas rústicas da humanidade. A impressão é de
que pouca gente sabe que no Eclesiastes já foi dito sabiamente que não
existe mais novidade nenhuma sob o sol. E na literatura? Há grandes polêmicas
e indícios de uma enorme frustração. O que se escreve hoje, realmente, já
foi novidade. Mas, nunca mais será! Haverá remodelação, maquiagem, mas
tudo continua como dantes. Uma vez mais, Franchetti assenta a dica, em um
dos pequenos grandes textos da coletânea, “Noite”: “Antes que o corpo
se estendesse por inteiro no colchão, completou maquinalmente a frase, como
se a questão ali reposta pudesse erguer-se, ou pelo menos ficar mais leve,
se apoiada em velhos pedaços de literatura: ...talvez sonhar”. Se
sonho é desejo, quem sabe se a literatura não é a própria “morte tão
cheia de vida” (In: “Conselho”), por isso, dói? [Jorge
Pieiro]
Os
versos de António Osório chegam até nós pela Escrituras Editora. A
ignorância da morte é o primeiro volume de poemas do autor português
publicado no Brasil. Com
sua linguagem sóbrea, discreta e silenciosa, António Osório fala de
saudade, do amor aos pais, das lembranças de sua vida e seus
"mortos" - Guardo bem / os meus mortos: / numa pasta de arquivo. /
Pai, Mãe... - Um amor obstinado que passeia pela sua poesia de uma forma
dolorida, mas, ao mesmo tempo, saudosa e controlada. Fala com humildade das
coisas e dos seres que cercam sua poesia. Sua
expressão poética é uma música de câmara, discreta, quase silenciosa,
interior (...) uma missa em voz baixa, em que os silêncios alimentam as
palavras de sua imensa reserva de ser. Há em sua narrativa a presença do
constante regresso às suas origens, o que, como nas tribos primitivas, é
uma forma de cura, de recuperação de forças. Na primeira parte do livro,
Aldeia de irmãos, o autor fala de coisas da terra, de raízes, da volta ao
nascimento, reproduz questionamentos e cenas de sua infância. O sentimento
de interioridade é uma constante nesta primeira parte. Na
segunda parte, fica clara a forte ligação com a mãe, a vontade de voltar
no tempo e se sentir protegido - Na rua de repente ocorre-me / ir a tua casa
- ver passos / trôpegos, o copo de leite, / os teus biscoitos, refrescos /
de ginja, papas de milho - as calorosas lembranças de viver junto aos pais.
No poema Ainda me acolho, o autor confessa seu apego às coisas que ficaram
de seus pais, a madressilva, o cedro, até mesmo as marcas de dedos nas
portas, possuído de uma enorme nostalgia.Tudo para que se sinta acolhido,
para que não se sinta sozinho. Há ainda a lembrança dos avós que também
se foram. Tudo
é silêncio e convite à meditação nesses poemas em que o poeta se funde
à poesia para com ela formar uma túnica sem suturas.
Sua obra é uma visita ao tempo perdido, à infância, aos mitos, ao amor. António
Osório nasceu em Setúbal, em 1933, filho de pai português e mãe
italiana. Poeta e ensaísta premiado, é licenciado em Direito. Seu primeiro
livro publicado, A raiz afectuosa, veio em 1972, apesar de sua atividade poética
ter sido iniciada muito antes. Publicou vários livros de poesia e um
ensaio. Teve muitas de suas obras traduzidas em francês, italiano, catalão,
inglês, entre outras.
Una
lectura desprevenida (a veces, acaso la mejor lectura) de El
arte de callar puede llevarnos
hacia la antesala del silencio, una especie de despedida de un poeta que,
como Rodolfo Alonso, fue construyendo una obra coherente, sólida y sin
fisuras, en épocas en que la coherencia no abunda. Hay, desde luego, a poco
de andar, preguntas por lo que fue y ya nunca será (el viejo ubi
sunt aquí redefinido con
elegancia y estilo, cualidades propias de este autor), mirada hacia atrás,
reflexión, y posición tomada sobre todo: un dulce asentamiento sobre el
verso, el peso del disfrute maduro de la palabra, ni puro ímpetu ni fuego
fatuo. "... ¿Y adónde se quedaron / tanta pasión y fuego, / tanto
ardor, tanto vuelo / provocador y propio? / ¿Qué los hizo dejar / de ser
y, antes, ser?..." Abundando
en esa primera y tentadora y también correcta lectura, la cita que abre el
libro recoge ese conocido (y sabio) proverbio árabe que dice: "Si lo
que tienes que decir no es más bello que el silencio, no lo digas".
Sin embargo, Alonso no va hacia el silencio, sino que lo instaura como el
agonista con quien dialogará a lo largo de todo el libro. El silencio será
uno de los extremos hacia el que tiende la poesía y "lo que tiene que
decir" el poeta es algo "bello", más bello que el silencio,
si cabe. Alonso asume el reto. La
lectura prevenida, en consecuencia, alude a lo que en realidad es todo El
arte de callar: un enorme y lúcido tratado de arte poética (Alonso
coparticipa de esa generación que, desde Poesía
Buenos Aires, hizo de la reflexión sobre el propio hacer poético y de
la traducción de los mejores autores de diversas lenguas sus banderas más
celebradas), una manera de bucear en la experiencia poética, de indagar sin
ingenuidad pero sin malicia en, parafraseando al título de la obra, el arte
de decir. Así,
equidistante entre la palabra y el silencio, entre decir y no hacerlo,
Alonso abre polos antagónicos: hacia el silencio, versos despojados,
limpios, desolados a veces, exactos si se permite el término, versos cortos
que instauran una construcción vertical y que son una marca registrada de
este autor, capaz de forjar "naturalmente" una respiración que no
es "natural" y que en un poeta menos hábil sería un apurado
jadeo; y hacia el sonido, hacia la palabra, la búsqueda (la búsqueda, aún
la búsqueda, empecinadamente la búsqueda, un modo de hacer y de ser más
que un programa) tanto temática como métrica, la búsqueda que lo hace ir
del tango hacia Gauguin, de la mujer al ser nacional, de Jonathan Swift a
Wittgenstein, un recorrido "occidental", muy lejano a cualquier
noción de "silencio", contrapuesta, si se quiere, a ese arte de
callar aludido en el título. Alonso
tiene ya la suficiente sabiduría, la vital y la artística (escindan
ustedes, si quieren), como para entender que esa búsqueda es el canto mismo
y que incluye la posibilidad fundante del silencio. En lo personal, celebro
esa impronta capaz de eludir la clausura: Alonso tiene obra hecha y quienes
formulamos crítica literaria tendemos a trabajar con clichés. Esos clichés
determinarían para esta etapa de Alonso una madurez en el trabajo del verso
y la estrofa (que existe, qué duda cabe) y el apurado cierre o coronación
de ideas ya conocidas y expuestas. Alonso desoye juvenil y felizmente el
prolijo comentario que lo querría de esta u otra manera. Alonso busca.
Alonso arriesga. La
comparación del poeta con el ave no es nueva pero nada lo es en arte (la
formulación de dos o tres preguntas, una y otra vez) y Alonso la convoca
para discurrir sobre la oposición callar-decir que da razón a este libro.
Dice en el medular Dulce pájaro, ¿cantas?:
"Dulce pájaro, ¿cantas / todavía, entre ruinas, / tu propia lengua
viva, / tu lengua universal?..." Y también: "...¿No ironizas, tú,
eterno, / no parodias, no mimas, / sordo cantor intenso / asediado en tu
rama?..." Y también, lúcidamente: "...¿Te arriesgas o te
adaptas?..." Y, abundando: "...¿Era cantar un arte / o era un
don, una gracia?..." La
paradoja es en Alonso honesta y está más y mejor planteada que resuelta.
La búsqueda es una de las claves: "...Al
color libre / y salvaje huí..." dice en Gauguin
recuerda a Francia en Mururoa. La misma búsqueda que le hace decir en El peso de tu paso (es constante en todo el libro el juego con las
palabras: hay notorias aliteraciones --en Poderes
de la lluvia, por ejemplo, se lee "...Rodando en la quebrada /
roncan las rocas madres. ..."), que "...Somos lo que sabemos /
ver, lo que nos hace ver, / siendo somos lo sido, / seremos lo que sé, / lo
que sé ser: ser sed." Alonso
tiene sed de decir y de callar y por eso no extraña que el último poema,
el que además no casualmente da el nombre al volumen, abra con la palabra
"no" y cierre con la palabra "sí". En esa oscilación
pendular, en esa a veces ligera y a veces dramática oposición, en ese difícil
arte de (no-sí) callar, está, nada menos, la poesía. [Néstor
Fenoglio]
Aos
30 anos, o gaúcho Fabrício Carpinejar anda antecedendo o próprio tempo: já
publicou quatro livros, já recebeu importantes distinções - como o prêmio
Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras - e já virou nome de concurso
literário. Caixa de Sapatos é o volume que acaba de ser lançado e
que traz uma antologia de poemas publicados em cinco anos de carreira. Pode
parecer precoce, mas não é: o poeta já tem, sim, uma obra. [Cíntia
Moscovich]
Los
dos libros que más me impresionaron en la segunda parte de mi infancia
–la primera estuvo marcada por Verne, Scott, Las Mil y una noches,
Selma Lagerloff...- fueron Las palabras, de Jean Paul Sartre, y Presidio
modelo, de Pablo de la Torriente Brau. Yo
tenía -y tengo- orejas grandes, y los pelados que me hacían de pequeño
agigantaban mis orejas. También
la tartamudez ayudó. Sartre
era tartamudo y bizco y su prosa me pareció tan convincente que sus
defectos me parecían intrínsecos a la sustancia que
malformaba su cuerpo. Aún
hoy, a pesar de que Sartre sea vilipendiado y menos leído, me parece el
mejor prosista contemporáneo en lengua francesa. Cosas de la infancia. Presidio
modelo
fue mi iniciación en la literatura cubana. Lo leí varias veces intentando
comprender si el Mal nos concernía a todos o si sólo tenía lugar en
espacios cerrados como el presidio. Esa comprensión duró años y aún
dura. Por otra parte, pasé varios años de mi vida en espacios cerrados
–primero un internado militar a los once años, luego seis años de
servicio militar en el expresidio el Castillo de El Príncipe, y la pregunta
seguía –sigue- en pie. Pablo
de la Torriente Brau escribió su libro entre
1932 y 1935. Fue mecanógrafo del antropólogo cubano Fernando Ortiz.
Había nacido en Puerto Rico y había vivido de niño con su padre en
Santander, de donde viajó a la Habana, luego de nuevo a Puerto Rico, luego
Santiago de Cuba y por fin la Habana, en 1919. Fue herido en 1930 en la
manifestación de septiembre contra Machado y encarcelado 105 días, y otra
vez a la cárcel poco después, casi un año: Presidio Modelo, Isla de
Pinos. Se fue a España. (“¿Cómo no se me ocurrió antes la idea? La
culpa es de Nueva York. Aquí, en año y medio de exiliado político, no he
hecho otra cosa que cargar bandejas y lavar platos. Me puse estúpido. Me
volví tornillo.”) Murió en combate en Majadahonda, Madrid, en 1936. Había
ido de periodista y murió de miliciano. Es uno de esos escritores que
Harold Bloom u otro cualquiera no incluiría en su canon, aunque escribió
algunas crónicas y cuentos importantes, al menos para la literatura cubana.
Y ese libro inolvidable: Presidio Modelo, que rebasa la literatura y
se vuelve pura transparencia de las cosas, como en el capítulo titulado La
mordaza: “Cuando
yo la vi, ninguna conmoción me sobrecogió. Era de cuero, fuerte, con una
hebilla de hierro para cerrarla por la nuca, y por la frente, a la altura de
la boca, formada por varias capas superpuestas, tenía una especie de tacón,
que obligaba a la lengua a retroceder, atropellada, contra la glotis,
produciendo una asfixia lenta y desesperante.” Apenas llegó al Presidio en la Isla de Pinos –islita al sur
de Cuba- conoció a su director, el inolvidable capitán Castells, expresión
de la estupidez cubana: mezcla de retórica, voluntad de redención e
instinto biológico predador. Un
parlanchín asesino. Un
obseso de su tarea salvífica por medio de las instituciones modernas: la
“regeneración” del ser a través de un equilibrio entre Violencia e
Ilustración. Castells.
Su
nombre resonaba en mi infancia de manera peculiar. No sabía que era un
apellido catalán. Ahora que vivo en Cataluña la dureza de sus sílabas,
sin embargo, no deja de tener cierta emoción épica, como si el Mediterráneo
lo amplificara en otro aire transparente. Castells suena hermoso a mis oídos:
apellido catalán que llevaba un sinvergüenza. Ahora se refiere a
castillos, pueblos, rentistas... Los
personajillos del libro concurren en una suerte de corte de los milagros,
quitándole la “gracia” a la figura literaria “corte de los
milagros”. La astucia, el rencor, la picardía, la puñalada por detrás,
el sigilo, la delación... Eso y sólo eso había. Una picardía corrompida
hasta el fondo del alma. Y sin embargo la vida corriendo a raudales, como si
el Presidio fuera la República en diminutivo: “El
Viejo Lugo, como le decíamos nosotros, era un guajiro lépero, astuto,
ladino, inteligente e ignorante, cercano a la cincuentena e inverosímilmente
conservado, pues tenía un aspecto lleno de robustez, con un cuello firme,
macizos los brazos, y una vivacidad en los ojos verdosos de felino, que era
el doble reflejo de una vitalidad singular y de un mundo interior pendiente
del acecho y la emboscada”. En
el Presidio eran frecuentes las estrangulaciones, la mayoría de las cuales
se resolvían entre varios. La enfermería y el pabellón de los
tuberculosos eran buenos recintos para ese género de tareas: “Y
efectivamente, sentados amistosamente en la cama, conversaban con el
muchacho Domingo el Isleño y Agustín Gómez Montero, que sólo esperaban
la hora para matarlo... Y
poco después que relevó en la “imaginaria” a Montpellier, mientras
disimulaba su espanto con un libro de aritmética, oyó los gritos ahogados
de José ángel Campos, que sólo tenía 21 años, y al que estrangularon
entre Lugo, Domingo, Victoriano Miranda, Antonio Pérez Rosabal y Mario Ávila.” Por
el libro desfilan los nombres del “Comandola” Loys, el Cojo Estrada, Quijada
(Guillermo Valdés Urdaneta, que murió “suicidado” el 11 de julio de
1932), Cristalito (“¿Por qué le pondríamos Cristalito? De todos modos
fue un acierto, porque aún hoy, después de tanto tiempo, su recuerdo es
una cosa transparente, cordial y simpática a nuestro corazón. Y cristalito
era negro. Tan negro que brillaba...”), Cuchi Escalona, Cosita, el Hombre
Mosca, el Chino Wong, Goyito (que despachó a los tres anteriores), el
soldado Peligro, Bartolo, Puchito Álvarez, el Viejo Zacarías Lara, El
Monito (que decía hablar todos los idiomas, “un negrito, negro como pájaro
negro, casi enano, de ojos pícaros y brillantes... Uno le decía: -Monito,
¿tú hablas francés?... y respondía imperturbable con cualquier enredo de
sonidos indescifrables”), Matanzas, Centella... Un
capítulo delirante es el dedicado a Castells, “La Filosofía de un
farsante”, donde se enumeran los proverbios que el jefe del Presidio
peroraba en el comedor o en las galeras. Un preso había reunido en un
cuaderno las sentencias de Castells: “El
odio es consecuencia de la envidia, y ésta, la expresión de la
incompetencia de los seres pequeños.” De
Castells, según anotó el penado Reyna Leyva, se decía: No
aceptaba regalos de nadie. Se
acostaba a las 9 de la noche, pero antes leía 45 minutos, siempre libros
sociológicos y tratados de Agricultura. Leía historia. Se levantaba a las
4 de la mañana y volvía a leer y hacía ejercicios “Sueca”. Ponía
sumo cuidado en todo. El
gobierno de Castells fue una serie de fracasos: Anunciaba una cosecha de plátanos
estupenda hoy, al otro día el viento derribaba el platanal. (¿A quién nos
recuerda este Castells en versión moderna? Castro y Castells no hacen una
mala pareja sonora.) Admiraba
a Martí y a Napoleón y tenía algo de Robespierre. Sus
palabras favoritas eran: Cabrón, Recabrón, Maricón, Tortillero. Bobo.
Mentecato. Cero listo. Vivo
del Presidio. Bicho. Cucaracha. Cara de Ud y es tú. Majá con bigote.
Vendedor de periódicos. Jugador de Gallo y Dominó. Recientemente
he comenzado a escribir una novela y curiosamente, uno de sus personajes
principales, el capitán Buenaventura, un asesino institucional cualquiera,
lleva su Cuaderno de notas. ¿Es este Buenaventura una copia platónica de
Castells? Es muy posible. Uno olvida pero la memoria trabaja por uno, como
el inconsciente, según Freud. Desde mi infancia no había vuelto a tocar el
libro, y es ahora, en el exilio, que retomo su lectura. Y vuelve a
sorprenderme. Como me sorprenden los libros de otro cubano olvidado, Miguel
de Marcos, que encontró una prosa increíblemente absurda y a la vez real
para describir nuestro paisito. Nuestro regalito envuelto en papel de plata,
para que no se descomponga. Yo
creía estar más cerca de Paradiso, la novela de Lezama, y resulta
que mi mente (mi pobre desmemoria) trabajaba a la vez en otros espacios.
Castells es uno de esos reductos neuronales donde las sílabas encajan a la
perfección. Le agradezco a Pablo su libro. Le agradezco que no haya sido
otro libro, ni los Versos sencillos o La edad de oro, de Martí.
No que estos no sean excelentes y que no los haya leído con placer y hasta
con fervor. Pero le agradezco a Pablo haber estado preso en mi infancia en
sueños y mientras lo leía. Castells... No
recuerdo cómo era ni si Pablo lo describe. Creo que no lo describe. Que
odiara a los poetas no es algo importante. Casi todo el mundo odia a los
poetas. Pero el uniforme de Gala Blanco. ¿Cuándo se lo puso Castells? De
eso sí que no me acuerdo. [Rolando Sánchez] |
|
Livros para Agulha deverão ser
enviados aos editores, nos endereços a seguir: |