revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003

Livros da Agulha

A definição da noite, de Ana Marques Gastão1 A definição da noite, de Ana Marques Gastão. Escrituras Editora. São Paulo. 2003. 160 pgs.

É com alegria que, finalmente, começamos a ver os autores portugueses mais recentes e de excelente qualidade, como são o Caso de Ana Marques Gastão, António Osório, a entrarem no Brasil pela mão da reputada Escrituras Editora, de São Paulo. A inexplicável ignorância da literatura que existe, entre os países irmãos, tende a diminuir de um e de outro lado, pouco a pouco. Se até há bem pouco tempo só os consagradíssimos conseguiam franquear as fronteiras, agora a porta de entrada alargou-se e parece ser um bom prenúncio para as trocas culturais entre ambos os países.

O título da obra, A Definição da Noite, anuncia desde logo esse elemento matricial com o qual se conforma a sua poesia. Elemento nocturno e obscuro, caos informe e que é necessário recortar com o fio da linguagem, traçando uma caligrafia do amor e da morte, inscrita a luz, se é possível falar nessa clareira da linguagem que os versos de Ana Marques Gastão gravam, no tecido volátil da noite.

Ana Marques Gastão já havia publicado em Portugal Tempo de morrer, Tempo para viver (1998), Terra sem mãe (2000), Três vezes Deus, em co-autoria com António Rego Chaves e Armando Silva Carvalho (2001) e Nocturnos (2002). A sua obra tem conhecido uma excelente recepção, tanto por parte do público, como pela crítica portuguesa. A antologia que se publica agora, no Brasil, colige poemas de cada um dos livros editados, com uma última parte de textos inéditos da autora e que sairão brevemente em Portugal.

Cada uma das suas obras tem revelado uma crescente maturidade e uma densidade assinaláveis, sobretudo no caso de Nocturnos e nos poemas ainda inéditos, o que reflecte uma inquietação e uma busca da linguagem, sem se deixar arrastar pelo facilitismo ou pelo mero efeito rectórico. Nesse sentido, a sua vigorosa voz afasta-se completamente das correntes actuais da novíssima poesia portuguesa, cuja orientação tem consistido num reacender do movimento do “retorno ao real”, tão preconizado por Joaquim Manuel Magalhães. Por outro lado, a sua poesia passa, também, ao lado de uma certa flanerie que se insinuou lentamente na poesia, na geração de 90, com excepções como Daniel Faria e Luís Miguel Nava.

Numa linguagem claramente perpassada pelo pathos do ser, pelo lirismo e pela desmesura romântica e melancólica, Ana Marques Gastão percorre um território poético de alto risco, sem nunca descambar no sentimentalismo e na subjectividade da emoção, pois a sua escrita é constantemente vigiada pela lucidez do verdadeiro poeta, que toma para si a linguagem como o amante toma o corpo por objecto, para retomar a expressão, que me é caríssima, de Schiller. O corpo difuso da linguagem, o amor, nas suas mais variadas formas, o impalpável e obscuro magma da existência e da experiência da vida, confinada pelo limite da morte, constituem essencialmente os temas da sua poética, numa subtileza que brota da delicadeza do entrelaçamento entre forma e conteúdo, entre experiência vivida e transfiguração poética. “O amor é a força do olhar”, a plenitude da visão, mas é também o “leopardo branco”, o obscuro desígnio que espreita o homem. A imagem adquire um tom alegórico que, frequentemente, se vislumbra ao longo da sua poesia, pois o clarão que ilumina o mundo é, muitas vezes, espectral, e não apolíneo.

Ergue-se, nessa Terra sem mãe – que Carlos Nejar comparou a Waste Land de T. S. Eliot – a nostalgia de um passado aurático e que perpassa por versos “impiedosos” como estes “Corpo quente/frágil corpo/tão longe/a infância/perdida/em tuas mãos/geladas.//Os órfãos morrem de condenação.” ou, ainda, “Eis o que resta/da minha pátria./A mão que procura/sem lógica amargura/o corpo desses mortos.” Esse tom alegórico é constante em toda a sua obra, na clivagem que se crava ferozmente entre a morte e a degenerescência do humano e o desejo de salvação das coisas pela sua redenção na linguagem.

Trata-se, assim, de uma poesia liberta dos constrangimentos sociais e que se constrói individualmente, numa clara oposição ao efémero e ao mundanismo. A expressão lírica foge das coisas materiais e da atenção pormenorizada ao elemento social, construindo-se, ainda assim, como uma reivindicação da palavra inviolada e interdita. Resiste, por isso, ao poder silenciador, por um apelo à salvação: “A melancolia/vive no teu lugar./Mãe, salva-me/de teus olhos mortos.”. Pode afirmar-se que, aqui, há um retorno, um desejo que aspira à plenitude do Ser, num desejo de redenção, que se eleva como um canto sobre o reino da morte: “Pela dor íngreme/se chega a ti/vergasta o vento/teu breve corpo /silencioso, feliz,/em sua urna de água.”.

Os poemas de Ana Marques Gastão, por se situarem num registo lírico, são “inactuais” e a sua voz um canto isolado, no panorama da poesia portuguesa. A sua poética oscila entre dois registos que revelam o domínio do fazer poético. Se, por um lado, sobretudo em “O Silêncio de Deus”, têm um carácter quase aforístico, como este “Toda a lucidez/é consciência/da perda de Deus.”, de uma economia notável, por outro, há nos seus últimos poemas e em certos “Nocturnos” um canto e um ritmo densíssimo da linguagem, de fôlego quase narrativo, o que mostra estarmos diante de uma poeta que se sente tão à vontade no género elegíaco como no aforismo. É sobretudo nos poemas de Terra sem mãe que mais intensamente se concentra o género elegíaco, pois os seus versos alimentam-se nostalgicamente do ser amado que se perdeu e eleva, assim, o objecto do seu luto a uma nobreza espiritual que apenas existe nessa exaltação do poema: “Tínhamos o movimento da Terra/e eu compreendia as coisas/como se absorve a luz com os olhos./Existiam as tuas mãos.”

Num tempo em que a maioria das vozes se perde em inúteis questões sobre as poéticas dos anos 90 em Portugal, seria bom que os críticos pudessem avaliar com mais seriedade o peso e a maturidade singular de uma voz poética como a de Ana Marques Gastão, cujos versos são um consolo para a nostalgia de uma vertente poética que se encontra em vias de extinção: a tradição lírica portuguesa.

[Maria João Cantinho]

De Anchieta aos Concretos, de Mário Faustino2 De Anchieta aos Concretos, de Mário Faustino (org. Maria Eugenia Boaventura). Cia. das Letras. São Paulo. 2003. 536 pgs.

Entre 1956 e 1959, na página semanal Poesia-Experiência, Mário Faustino apresentava poetas clássicos e iniciantes a fim de atualizar a discussão sobre a poesia brasileira, considerando a produção estrangeira da época e a melhor tradição internacional.
Os textos que Maria Eugenia Boaventura reuniu em De Anchieta aos concretos, publicados em 1957 e 1958, tratam de quatro séculos de poesia brasileira e de língua portuguesa. É a primeira parte de sua obra teórica, que conta também com uma grande produção crítica sobre poesia de língua estrangeira.
Como escreve o escritor e jornalista Ruy Castro na orelha do livro, Poesia-Experiência era referência para escritores estreantes e para poetas consagrados: "É arrepiante imaginar como não se sentiam os leitores à espera da página - mesmo os medalhões, então vivos e ativos, deviam ter calafrios. Mário se debruçava sobre a obra de, digamos, Gregório de Matos, Cecília Meirelles ou Drummond, e 'lia' cada poema apontando o que era bom e (às vezes com rudeza) o que eles deveriam ter atirado no lixo. Fazia o mesmo com os jovens. E não poupava os críticos e historiadores por não serem rigorosos como ele. Mas quem podia ter a sua independência?".

O jornalista, crítico e poeta Mário Faustino (1930-1962) via o escritor como um intérprete de sua época e de seu povo, fortemente ligado ao presente histórico. Ao mesmo tempo, acreditava que o poeta deveria ser capaz de identificar a beleza na tradição e seguir inovando para se projetar no futuro. Para ele, a função social do poeta era agir por meio da linguagem, modificando a língua e, por extensão, as formas de pensamento e de percepção do mundo.
Na coluna Poesia-Experiência, o escritor criticava a letargia da poesia, da crítica e do jornalismo literários brasileiros. Defendia uma linguagem menos discursiva, que procurasse apresentar em vez de representar o objeto. Para ele, o poema era um corpo vivo, orgânico, do qual nenhuma parte poderia ser suprimida e ao qual nada poderia ser acrescentado. Por detrás dessa concepção da literatura estava o objetivo de infundir a escrita da experiência vivida e de devolver à vida o artesanato da palavra poética.
De suas diversas influências, Faustino escolheu uma frase do poeta Ezra Pound como lema para a sua prática literária: "Repetir para aprender, criar para inovar". Para cumprir esse programa, o poeta utilizou procedimentos criativos típicos de outras artes - como a colagem cubista, tomada das artes plásticas, e a montagem, emprestada do cinema do diretor russo Sergei Eisenstein. Os poetas que lhe serviram de inspiração foram, principalmente, Stéphane Mallarmé e T.S. Eliot.
 

O sangue dos dias transparentes, de Paulo Franchetti3 O sangue dos dias transparentes, de Paulo Franchetti. Ateliê Editorial. São Paulo. 2002. 124 pgs.

Em alguma circunstância, o gênio de Albert Einstein proferiu: “É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”. Com certeza, a ocasião fora bem diversa desta em que um leitor privilegiado ousa refletir sobre as pistas de acesso ao futuro da literatura.

Se o aceno é para um futuro, a um tempo que será mais sóbrio, ou talvez nada frugal, mas indiscutivelmente esperado, não convém pensar que o gesto se volte para o hibridismo de gêneros, ou para a reprodução virtual de “blogs”, ou para a descoberta do grande buraco negro no centro do Universo em conexão com as pulsões de criação e de destruição da palavra, ou mesmo para a sociologia do pensamento do homem contemporâneo. Talvez seja mais urgente, embora mórbido, pensar como Augusto dos Anjos: “Que o homem universal de amanhã vença / O homem particular eu que ontem fui!”. Mas que o olhar se expanda também ao passado.

Aliando, pois, os tópicos relativos a preconceito, veleidade artística e futuro (que, paradoxalmente, aqui já pode ser lido como passado), reconstruímos, via leitura, os 31 textos da obra O sangue dos dias transparentes (Ateliê Editorial, 2002), estréia do crítico literário Paulo Franchetti na curta narrativa.

Primeiro, falemos de preconceito. Há uma tendência na escritura atual a desmarcar compromissos com qualquer das formalidades estéticas, por muitos, ditas vencidas. Seguindo o mesmo caminho, neste caso em atalho, e mesmo sem relacionamentos, uma gama de pretensos leitores ou de não-leitores prefere rebater qualquer tipo de escritura. Sem falar naqueles que repudiam a própria existência, para usar outros como alvo de vingança, restam aqueles que apenas escrevem, compromissados consigo mesmos – uma das formas de estar em dia com a vida – , além ou aquém de qualquer tipo de transgressão. Neste caso, é provável que surjam preconceitos às reminiscências abreviadas, aos sobressaltos de presente e futuro, às cenas do cotidiano, aos gestos simples, aos atos banais, às ironias, aos desejos e aos fracassos, aos enigmas dos textos breves de Franchetti.

O autor tende a esquecer que vive no século XXI – e isto não é um defeito – pela coragem de criar um narrador ou narradores que possam dizer, mesmo fora de qualquer contexto, que “era melhor sem compreender. Uma tradução matava tudo. O bom era imaginar, colocar ali o que se quisesse, quebrado, sem ordem, cada hora uma coisa.” (In: “Casal”). Mas nada é fora de propósito. Estamos diante de um fragmento de um texto fragmentário, entre outros, que seguem, no entanto, uma rígida forma de apresentação. Com exceção de “Campo de aviação”, os contos brevíssimos apresentam uma palavra como título e estão dispostos em ordem alfabética. Os paradoxos são sempre desintegradores.

Agora, pensemos na veleidade artística. A grande ilusão de um criador de textos é pensar que o leitor está na outra margem, de braços abertos, esperando a voz, a verdade. Ou, de outra forma, imaginar que concluiu a sua obra-prima ao ponto final. O escritor, como qualquer artista é pleno de vaidades, expostas ou não, doentias ou não. O leitor, por sua vez, é sempre um vilão necessário. Na obra em questão, os textos às vezes são insólitos, mas com simplicidade. A trama pode até não se concluir, mas as sugestões validam o conteúdo, mesmo deixando o leitor em falso. Parece, contudo, que Franchetti também pensou na possibilidade de, ao tratar do desconforto de viver, deixar o caminho cruzado para perdoar o leitor e eximir-se de qualquer desvio. No conto “Duplo”, há uma passagem que parece aludir a esta sensação: “Tudo acabaria como quando se acorda de um sonho e a realidade é a cama de todas as noites, cheirando a suor e situada no espaço já sem mistério nem surpresas.”

Por fim, evoquemos o futuro (ou o passado). A pergunta “o que há de novo?” parece movimentar as catracas rústicas da humanidade. A impressão é de que pouca gente sabe que no Eclesiastes já foi dito sabiamente que não existe mais novidade nenhuma sob o sol. E na literatura? Há grandes polêmicas e indícios de uma enorme frustração. O que se escreve hoje, realmente, já foi novidade. Mas, nunca mais será! Haverá remodelação, maquiagem, mas tudo continua como dantes. Uma vez mais, Franchetti assenta a dica, em um dos pequenos grandes textos da coletânea, “Noite”: “Antes que o corpo se estendesse por inteiro no colchão, completou maquinalmente a frase, como se a questão ali reposta pudesse erguer-se, ou pelo menos ficar mais leve, se apoiada em velhos pedaços de literatura: ...talvez sonhar”.

Se sonho é desejo, quem sabe se a literatura não é a própria “morte tão cheia de vida” (In: “Conselho”), por isso, dói?

[Jorge Pieiro]

A ignorância da morte, de António Osório4 A ignorância da morte, de António Osório. Escrituras Editora. São Paulo. 2003. 192 pgs.

Os versos de António Osório chegam até nós pela Escrituras Editora. A ignorância da morte é o primeiro volume de poemas do autor português publicado no Brasil.

Com sua linguagem sóbrea, discreta e silenciosa, António Osório fala de saudade, do amor aos pais, das lembranças de sua vida e seus "mortos" - Guardo bem / os meus mortos: / numa pasta de arquivo. / Pai, Mãe... - Um amor obstinado que passeia pela sua poesia de uma forma dolorida, mas, ao mesmo tempo, saudosa e controlada. Fala com humildade das coisas e dos seres que cercam sua poesia.

Sua expressão poética é uma música de câmara, discreta, quase silenciosa, interior (...) uma missa em voz baixa, em que os silêncios alimentam as palavras de sua imensa reserva de ser. Há em sua narrativa a presença do constante regresso às suas origens, o que, como nas tribos primitivas, é uma forma de cura, de recuperação de forças. Na primeira parte do livro, Aldeia de irmãos, o autor fala de coisas da terra, de raízes, da volta ao nascimento, reproduz questionamentos e cenas de sua infância. O sentimento de interioridade é uma constante nesta primeira parte.

Na segunda parte, fica clara a forte ligação com a mãe, a vontade de voltar no tempo e se sentir protegido - Na rua de repente ocorre-me / ir a tua casa - ver passos / trôpegos, o copo de leite, / os teus biscoitos, refrescos / de ginja, papas de milho - as calorosas lembranças de viver junto aos pais. No poema Ainda me acolho, o autor confessa seu apego às coisas que ficaram de seus pais, a madressilva, o cedro, até mesmo as marcas de dedos nas portas, possuído de uma enorme nostalgia.Tudo para que se sinta acolhido, para que não se sinta sozinho. Há ainda a lembrança dos avós que também se foram.

Tudo é silêncio e convite à meditação nesses poemas em que o poeta se funde à poesia para com ela formar uma túnica sem suturas. Sua obra é uma visita ao tempo perdido, à infância, aos mitos, ao amor.

António Osório nasceu em Setúbal, em 1933, filho de pai português e mãe italiana. Poeta e ensaísta premiado, é licenciado em Direito. Seu primeiro livro publicado, A raiz afectuosa, veio em 1972, apesar de sua atividade poética ter sido iniciada muito antes. Publicou vários livros de poesia e um ensaio. Teve muitas de suas obras traduzidas em francês, italiano, catalão, inglês, entre outras.

El arte de callar, de Rodolfo Alonso5 El arte de callar, de Rodolfo Alonso. Alción Editora. Córdoba. 2003. 112 pgs.

Una lectura desprevenida (a veces, acaso la mejor lectura) de El arte de callar puede llevarnos hacia la antesala del silencio, una especie de despedida de un poeta que, como Rodolfo Alonso, fue construyendo una obra coherente, sólida y sin fisuras, en épocas en que la coherencia no abunda. Hay, desde luego, a poco de andar, preguntas por lo que fue y ya nunca será (el viejo ubi sunt aquí redefinido con elegancia y estilo, cualidades propias de este autor), mirada hacia atrás, reflexión, y posición tomada sobre todo: un dulce asentamiento sobre el verso, el peso del disfrute maduro de la palabra, ni puro ímpetu ni fuego fatuo. "... ¿Y adónde se quedaron / tanta pasión y fuego, / tanto ardor, tanto vuelo / provocador y propio? / ¿Qué los hizo dejar / de ser y, antes, ser?..."

Abundando en esa primera y tentadora y también correcta lectura, la cita que abre el libro recoge ese conocido (y sabio) proverbio árabe que dice: "Si lo que tienes que decir no es más bello que el silencio, no lo digas". Sin embargo, Alonso no va hacia el silencio, sino que lo instaura como el agonista con quien dialogará a lo largo de todo el libro. El silencio será uno de los extremos hacia el que tiende la poesía y "lo que tiene que decir" el poeta es algo "bello", más bello que el silencio, si cabe. Alonso asume el reto.

La lectura prevenida, en consecuencia, alude a lo que en realidad es todo El arte de callar: un enorme y lúcido tratado de arte poética (Alonso coparticipa de esa generación que, desde Poesía Buenos Aires, hizo de la reflexión sobre el propio hacer poético y de la traducción de los mejores autores de diversas lenguas sus banderas más celebradas), una manera de bucear en la experiencia poética, de indagar sin ingenuidad pero sin malicia en, parafraseando al título de la obra, el arte de decir.

Así, equidistante entre la palabra y el silencio, entre decir y no hacerlo, Alonso abre polos antagónicos: hacia el silencio, versos despojados, limpios, desolados a veces, exactos si se permite el término, versos cortos que instauran una construcción vertical y que son una marca registrada de este autor, capaz de forjar "naturalmente" una respiración que no es "natural" y que en un poeta menos hábil sería un apurado jadeo; y hacia el sonido, hacia la palabra, la búsqueda (la búsqueda, aún la búsqueda, empecinadamente la búsqueda, un modo de hacer y de ser más que un programa) tanto temática como métrica, la búsqueda que lo hace ir del tango hacia Gauguin, de la mujer al ser nacional, de Jonathan Swift a Wittgenstein, un recorrido "occidental", muy lejano a cualquier noción de "silencio", contrapuesta, si se quiere, a ese arte de callar aludido en el título.

Alonso tiene ya la suficiente sabiduría, la vital y la artística (escindan ustedes, si quieren), como para entender que esa búsqueda es el canto mismo y que incluye la posibilidad fundante del silencio. En lo personal, celebro esa impronta capaz de eludir la clausura: Alonso tiene obra hecha y quienes formulamos crítica literaria tendemos a trabajar con clichés. Esos clichés determinarían para esta etapa de Alonso una madurez en el trabajo del verso y la estrofa (que existe, qué duda cabe) y el apurado cierre o coronación de ideas ya conocidas y expuestas. Alonso desoye juvenil y felizmente el prolijo comentario que lo querría de esta u otra manera. Alonso busca. Alonso arriesga.

La comparación del poeta con el ave no es nueva pero nada lo es en arte (la formulación de dos o tres preguntas, una y otra vez) y Alonso la convoca para discurrir sobre la oposición callar-decir que da razón a este libro. Dice en el medular Dulce pájaro, ¿cantas?: "Dulce pájaro, ¿cantas / todavía, entre ruinas, / tu propia lengua viva, / tu lengua universal?..." Y también: "...¿No ironizas, tú, eterno, / no parodias, no mimas, / sordo cantor intenso / asediado en tu rama?..." Y también, lúcidamente: "...¿Te arriesgas o te adaptas?..." Y, abundando: "...¿Era cantar un arte / o era un don, una gracia?..."

La paradoja es en Alonso honesta y está más y mejor planteada que resuelta. La búsqueda es una de las claves: "...Al color libre / y salvaje huí..." dice en Gauguin recuerda a Francia en Mururoa. La misma búsqueda que le hace decir en El peso de tu paso (es constante en todo el libro el juego con las palabras: hay notorias aliteraciones --en Poderes de la lluvia, por ejemplo, se lee "...Rodando en la quebrada / roncan las rocas madres. ..."), que "...Somos lo que sabemos / ver, lo que nos hace ver, / siendo somos lo sido, / seremos lo que sé, / lo que sé ser: ser sed."

Alonso tiene sed de decir y de callar y por eso no extraña que el último poema, el que además no casualmente da el nombre al volumen, abra con la palabra "no" y cierre con la palabra "sí". En esa oscilación pendular, en esa a veces ligera y a veces dramática oposición, en ese difícil arte de (no-sí) callar, está, nada menos, la poesía.

[Néstor Fenoglio]

Caixa de Sapatos, de Fabrício Carpinejar6 Caixa de Sapatos, de Fabrício Carpinejar. Cia. das Letras. São Paulo. 2003. 80 pgs.

Aos 30 anos, o gaúcho Fabrício Carpinejar anda antecedendo o próprio tempo: já publicou quatro livros, já recebeu importantes distinções - como o prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras - e já virou nome de concurso literário. Caixa de Sapatos é o volume que acaba de ser lançado e que traz uma antologia de poemas publicados em cinco anos de carreira. Pode parecer precoce, mas não é: o poeta já tem, sim, uma obra.
Publicada pela paulista Companhia das Letras, uma das mais prestigiadas do país, Caixa de Sapatos traz seleção feita pelo próprio poeta, que procurou organizar um volume que tivesse ares de coisa inédita. Buscando material em As Solas do Sol, de 1998, Um Terno de Pássaros ao Sul, de 2000, Terceira Sede, publicado em 2001, e Biografia de uma Árvore, de 2002, Fabrício escapuliu da forma narrativa - quase épica - que era a marca de seus livros, pinçando poemas que, no conjunto, alcançam grande consistência lírica e emocional.
- Os livros anteriores eram meus dias da semana. Na antologia, descanso e intensifico o que já fiz. Me dou ao luxo de um sábado e um domingo - diz Fabrício, sempre se valendo de desconcertantes metáforas.
Emprestando seu nome a um concurso de incentivo a novos talentos literários em São Leopoldo, onde mora, Fabrício colhe muito cedo o reconhecimento que, pela ordem de praxe, demanda anos e anos de intenso trabalho. Desde seu primeiro livro, o poeta causou alvoroço na cena nacional, com versos pungentes, de intensa motivação sonora, que alcançam insuspeitados e originais significados. Com grande capacidade de efabulação, todos os seus livros têm um enredo subjacente, que se relaciona com o arquétipo familiar. Em As Solas do Sol, o poeta valia-se de elementos telúricos para narrar sua vinculação com a terra natal e com o mundo. Em Um Terno de Pássaros ao Sul, num único e longo poema, o poeta acertava contas com a figura paterna. Em suas obras mais recentes, Terceira Sede e Biografia de uma Árvore, Fabrício se antecipou ao tempo - ou fundou o anacronismo -, trazendo para o presente sua própria velhice.
O título da antologia refere-se a uma brincadeira dos tempos de menino, quando arrancava pedaços das cascas das árvores e nelas escrevia, a canivete, frases que eram epígrafes de diversos bonecos - o patrimônio de sonhos era guardado numa caixa de sapatos. Fabrício resume a importância da antologia na sua vida e na sua carreira:
- Com o novo livro, consegui amarrar tudo o que estava solto. Foi como amarrar os cordões dos sapatos do mundo. Estou pronto para começar.

[Cíntia Moscovich]

Presidio Modelo, de Pablo de la Torriente Brau7 Presidio Modelo, de Pablo de la Torriente Brau. Ediciones La Memoria. La Habana. 2000.

Los dos libros que más me impresionaron en la segunda parte de mi infancia –la primera estuvo marcada por Verne, Scott, Las Mil y una noches, Selma Lagerloff...- fueron Las palabras, de Jean Paul Sartre, y Presidio modelo, de Pablo de la Torriente Brau.

Yo tenía -y tengo- orejas grandes, y los pelados que me hacían de pequeño agigantaban mis orejas.

También la tartamudez ayudó.

Sartre era tartamudo y bizco y su prosa me pareció tan convincente que sus defectos me parecían intrínsecos a la sustancia que  malformaba  su cuerpo. Aún hoy, a pesar de que Sartre sea vilipendiado y menos leído, me parece el mejor prosista contemporáneo en lengua francesa. Cosas de la infancia.

Presidio modelo fue mi iniciación en la literatura cubana. Lo leí varias veces intentando comprender si el Mal nos concernía a todos o si sólo tenía lugar en espacios cerrados como el presidio. Esa comprensión duró años y aún dura. Por otra parte, pasé varios años de mi vida en espacios cerrados –primero un internado militar a los once años, luego seis años de servicio militar en el expresidio el Castillo de El Príncipe, y la pregunta seguía –sigue- en pie.

Pablo de la Torriente Brau escribió su libro entre  1932 y 1935. Fue mecanógrafo del antropólogo cubano Fernando Ortiz. Había nacido en Puerto Rico y había vivido de niño con su padre en Santander, de donde viajó a la Habana, luego de nuevo a Puerto Rico, luego Santiago de Cuba y por fin la Habana, en 1919. Fue herido en 1930 en la manifestación de septiembre contra Machado y encarcelado 105 días, y otra vez a la cárcel poco después, casi un año: Presidio Modelo, Isla de Pinos. Se fue a España. (“¿Cómo no se me ocurrió antes la idea? La culpa es de Nueva York. Aquí, en año y medio de exiliado político, no he hecho otra cosa que cargar bandejas y lavar platos. Me puse estúpido. Me volví tornillo.”) Murió en combate en Majadahonda, Madrid, en 1936. Había ido de periodista y murió de miliciano. Es uno de esos escritores que Harold Bloom u otro cualquiera no incluiría en su canon, aunque escribió algunas crónicas y cuentos importantes, al menos para la literatura cubana. Y ese libro inolvidable: Presidio Modelo, que rebasa la literatura y se vuelve pura transparencia de las cosas, como en el capítulo titulado La mordaza:

“Cuando yo la vi, ninguna conmoción me sobrecogió. Era de cuero, fuerte, con una hebilla de hierro para cerrarla por la nuca, y por la frente, a la altura de la boca, formada por varias capas superpuestas, tenía una especie de tacón, que obligaba a la lengua a retroceder, atropellada, contra la glotis, produciendo una asfixia lenta y desesperante.”

 Apenas llegó al Presidio en la Isla de Pinos –islita al sur de Cuba- conoció a su director, el inolvidable capitán Castells, expresión de la estupidez cubana: mezcla de retórica, voluntad de redención e instinto biológico predador.

Un parlanchín asesino.

Un obseso de su tarea salvífica por medio de las instituciones modernas: la “regeneración” del ser a través de un equilibrio entre Violencia e Ilustración.

Castells.

Su nombre resonaba en mi infancia de manera peculiar. No sabía que era un apellido catalán. Ahora que vivo en Cataluña la dureza de sus sílabas, sin embargo, no deja de tener cierta emoción épica, como si el Mediterráneo lo amplificara en otro aire transparente. Castells suena hermoso a mis oídos: apellido catalán que llevaba un sinvergüenza. Ahora se refiere a castillos, pueblos, rentistas...

Los personajillos del libro concurren en una suerte de corte de los milagros, quitándole la “gracia” a la figura literaria “corte de los milagros”. La astucia, el rencor, la picardía, la puñalada por detrás, el sigilo, la delación... Eso y sólo eso había. Una picardía corrompida hasta el fondo del alma. Y sin embargo la vida corriendo a raudales, como si el Presidio fuera la República en diminutivo:

“El Viejo Lugo, como le decíamos nosotros, era un guajiro lépero, astuto, ladino, inteligente e ignorante, cercano a la cincuentena e inverosímilmente conservado, pues tenía un aspecto lleno de robustez, con un cuello firme, macizos los brazos, y una vivacidad en los ojos verdosos de felino, que era el doble reflejo de una vitalidad singular y de un mundo interior pendiente del acecho y la emboscada”.

En el Presidio eran frecuentes las estrangulaciones, la mayoría de las cuales se resolvían entre varios. La enfermería y el pabellón de los tuberculosos eran buenos recintos para ese género de tareas:

“Y efectivamente, sentados amistosamente en la cama, conversaban con el muchacho Domingo el Isleño y Agustín Gómez Montero, que sólo esperaban la hora para matarlo...

Y poco después que relevó en la “imaginaria” a Montpellier, mientras disimulaba su espanto con un libro de aritmética, oyó los gritos ahogados de José ángel Campos, que sólo tenía 21 años, y al que estrangularon entre Lugo, Domingo, Victoriano Miranda, Antonio Pérez Rosabal y Mario Ávila.”

Por el libro desfilan los nombres del “Comandola” Loys, el Cojo Estrada, Quijada (Guillermo Valdés Urdaneta, que murió “suicidado” el 11 de julio de 1932), Cristalito (“¿Por qué le pondríamos Cristalito? De todos modos fue un acierto, porque aún hoy, después de tanto tiempo, su recuerdo es una cosa transparente, cordial y simpática a nuestro corazón. Y cristalito era negro. Tan negro que brillaba...”), Cuchi Escalona, Cosita, el Hombre Mosca, el Chino Wong, Goyito (que despachó a los tres anteriores), el soldado Peligro, Bartolo, Puchito Álvarez, el Viejo Zacarías Lara, El Monito (que decía hablar todos los idiomas, “un negrito, negro como pájaro negro, casi enano, de ojos pícaros y brillantes... Uno le decía: -Monito, ¿tú hablas francés?... y respondía imperturbable con cualquier enredo de sonidos indescifrables”), Matanzas, Centella...

Un capítulo delirante es el dedicado a Castells, “La Filosofía de un farsante”, donde se enumeran los proverbios que el jefe del Presidio peroraba en el comedor o en las galeras. Un preso había reunido en un cuaderno las sentencias de Castells:

“El odio es consecuencia de la envidia, y ésta, la expresión de la incompetencia de los seres pequeños.”
“A mi juicio, el hombre tiene el corazón que necesita; pero le sobra estómago.”
“El hombre es una máscara viva.”
“La mujer es madre, esposa, hija; pero no esclava.”
“La verdad se oculta temporalmente; pero no se pierde.” (¿Leía Castells a Heidegger?, digo yo)
“Generalmente existe más sinceridad en la injuria que en la lisonja.”
“Son los presidios y manicomios, terrenos abonados en que se desarrolla con exuberancia la literomanía.”

De Castells, según anotó el penado Reyna Leyva, se decía:

No aceptaba regalos de nadie.
Hacía una sola comida.
No fumaba ni bebía.

Se acostaba a las 9 de la noche, pero antes leía 45 minutos, siempre libros sociológicos y tratados de Agricultura. Leía historia. Se levantaba a las 4 de la mañana y volvía a leer y hacía ejercicios “Sueca”.

Ponía sumo cuidado en todo.
Le molestaba toda clase de ruido.
Pegaba con frecuencia a su chofer.
Tenía la mirada dura y recelosa.
Sólo tenía 3 trajes de militar. Kaki. 1 de Gala Blanco. De paisano ninguno.
El día que ordenó matar a los 12 dijo: “Este día es demasiado pequeño para poder hacer todo lo que tengo pensado”
Odiaba a los poetas.

El gobierno de Castells fue una serie de fracasos: Anunciaba una cosecha de plátanos estupenda hoy, al otro día el viento derribaba el platanal. (¿A quién nos recuerda este Castells en versión moderna? Castro y Castells no hacen una mala pareja sonora.)

Admiraba a Martí y a Napoleón y tenía algo de Robespierre.
Cúmplase la orden: Esto era una sentencia de muerte.
Otra: “Cabo, este no quiere volver a las filas”.
Otra: “Cabo, le regalo a este tipo”.
Bostezaba 150 veces al día por lo menos.
Odiaba a los perros pero le gustaban los cocodrilos.
Le tomaba el pulso a los enfermos con guantes.

Sus palabras favoritas eran: Cabrón, Recabrón, Maricón, Tortillero. Bobo. Mentecato. Cero listo. Vivo del Presidio. Bicho. Cucaracha. Cara de Ud y es tú. Majá con bigote. Vendedor de periódicos. Jugador de Gallo y Dominó.

Recientemente he comenzado a escribir una novela y curiosamente, uno de sus personajes principales, el capitán Buenaventura, un asesino institucional cualquiera, lleva su Cuaderno de notas. ¿Es este Buenaventura una copia platónica de Castells? Es muy posible. Uno olvida pero la memoria trabaja por uno, como el inconsciente, según Freud. Desde mi infancia no había vuelto a tocar el libro, y es ahora, en el exilio, que retomo su lectura. Y vuelve a sorprenderme. Como me sorprenden los libros de otro cubano olvidado, Miguel de Marcos, que encontró una prosa increíblemente absurda y a la vez real para describir nuestro paisito. Nuestro regalito envuelto en papel de plata, para que no se descomponga.

Yo creía estar más cerca de Paradiso, la novela de Lezama, y resulta que mi mente (mi pobre desmemoria) trabajaba a la vez en otros espacios. Castells es uno de esos reductos neuronales donde las sílabas encajan a la perfección. Le agradezco a Pablo su libro. Le agradezco que no haya sido otro libro, ni los Versos sencillos o La edad de oro, de Martí. No que estos no sean excelentes y que no los haya leído con placer y hasta con fervor. Pero le agradezco a Pablo haber estado preso en mi infancia en sueños y mientras lo leía.

Castells... 
Sabe Dios cómo era Castells.

No recuerdo cómo era ni si Pablo lo describe. Creo que no lo describe. Que odiara a los poetas no es algo importante. Casi todo el mundo odia a los poetas. Pero el uniforme de Gala Blanco. ¿Cuándo se lo puso Castells? De eso sí que no me acuerdo.

[Rolando Sánchez]

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