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revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003 |
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O trapézio das artes: três momentos recentes mas tão antigos Floriano Martins
1 Planos de foco: Sean Scully (a propósito de Wall of light. Sean Scully. Centro de Arte Helio Oiticica. Rio de Janeiro. Setembro de 2002.)
O que me chama a atenção é
que a jornalista tenha informado, na matéria, que Scully "encheu os
olhos e o espírito dos visitantes que zanzaram pela 25ª
Bienal de São Paulo sedentos por alguma pintura entre tantos vídeos e
instalações". A jornalista se chama Cleusa Maria. Se escrevesse
menos levianamente sobre mais uma das notórias falhas de curadoria da
Bienal de São Paulo, este seria um bom começo. Mas não. Apenas opõe o
artista irlandês ao que ouviu pelos corredores da redação como sendo
questionável ali. A exemplo da maioria quase absoluta dos jornalistas
brasileiros, não sabe bem do que fala. Impressiona ver que na entrevista
Mr. Scully se mostra como um conservador austero: "pintar é uma árvore
de raízes de 800 anos de profundidade", esbravejando contra o vídeo,
como se a consistência estética estivesse ligada ao recurso técnico ou
equivalentes. Mas este não é o maior detalhe de nosso equívoco? Já não
fazemos isto aqui mesmo entre nós? Para que buscar reforço em um artista
irlandês? A arte não está propriamente tomada por um formalismo
excessivo. Me parece que, em nome do formalismo, ela mostra uma faceta inócua,
de quase nenhuma expressividade no diálogo com um ambiente contemporâneo
que não tem necessariamente que ser aceito, mas antes questionado. Não entendo como um artista
pode simplesmente aceitar seu tempo, adequar-se a ele. Isto não é arte.
Isto é mercado. É preciso esclarecer bem o assunto. Arte é negação do
tempo em que se dá. Não existe outra razão de ser. Arte é afirmação
de um conflito. O conflito é irrepetível em si mesmo. Não posso amanhã
apresentar como conflitante algo que hoje já foi absorvido por um sistema
conceitual qualquer. Arte não se repete. No entanto, estamos a expor a
repetição como arte. É uma forma conservadora de apresentar a
vanguarda. Uma determinação da vanguarda em seu aspecto histórico,
digamos, mas com ares de atualidade. Anacronismo sistemático que
naturalmente confunde aqueles artistas jovens que estão a tentar
livrar-se de influências pegajosas. É uma tática de mercado, sim, mas
igualmente uma estratégia política de desnorteamento do que
eventualmente possa surgir como novo. E isto não se passa somente no âmbito
das artes plásticas. Há uma leitura sistemática de propagação desse
engodo entre uma afirmação estética e sua mera repetição. A exposição
de Sean Scully nos mostra isso bem claramente, seja no Rio ou em São
Paulo. Estamos a viver uma ressaca
conceitual. Que o mercado apresente uma visão distorcida do que seja a
vanguarda, é de se entender. Curioso é que os críticos mais balizados
do país embarquem na mesma canoa. E muitos se tornam curadores de mostras
bem questionáveis. O padrão estético foi convertido, decerto, em padrão
monetário. Não resta lá muita dúvida. Aqueles que discordam de mim serão
bem vindos a uma mesa aberta de diálogo. Coloquemos as coisas da maneira
mais claro possível: acho natural que um artista medíocre queira se
passar por gênio inovador. Aceito que um galerista qualquer descubra nele
uma fórmula rentável. Até pode ser compreensível que na imprensa, nos
deslocamentos de gente de áreas de economia para cultura e variantes, se
possa encontrar alguém que não entenda bem do riscado. A pobre vítima
será sempre o público, não resta dúvida. Agora, o mediador ainda se chama crítico e pesa sobre seus ombros uma mínima isenção que me anima a dizer: mesmo com toda essa dilatada prancha de equívocos, podemos confiar no crítico, que nos alertará sobre essas malandragens estéticas, esses conluios éticos etc. Penso que sim. Espero não estar enganado, pois estamos aqui todos reunidos em torno do que se afirma como Associação Brasileira de Críticos de Arte. É o que chamei inicialmente de perspectivas de leitura. Abrimos uma página de jornal ao acaso e nos deparamos com algo que nos chama a atenção. Tornemos saudável essa prática, de buscar discussão aberta a respeito de nosso ambiente de trabalho. Quem sabe estas minhas apressadas observações não nos conduzem a uma discussão mais detida acerca da própria razão de ser da entidade. É o que pretendo.
2 Vik Muniz e
a família do artista
Uma simples pergunta: a obsessão
da arte em explicar-se como arte não a teria tornado uma negação de si
mesma? A partir do instante em que o artista situa como central a discussão
em torno de suportes, ateliês, elementos, espaços urbanos, interferências
ou efemeridade, para onde escoa a arte que deixa escapar de suas mãos? Ao
deslocar o essencial, substituindo-o pelo acessório, vamos perdendo a noção
de um papel humanístico que possui a arte em sua raiz. Recordo aqui algumas palavras de
Francis Bacon: "Acho que estamos numa posição muito curiosa hoje,
porque não existe qualquer tradição, o que existe são dois extremos
opostos. Há o depoimento direto que é muito parecido com um relatório
de polícia. E há a tentativa de se buscar uma arte maior. Mas a chamada
arte, que realmente é de meio-termo, numa época como a atual não
existe." O desafio radical da solidão,
do isolamento, do recolhimento, é algo que o artista em nosso tempo
necessita aprender a enfrentar. A vaidade estaria a roubá-lo da própria
arte, é o que parece nos dizer esse culto à personalidade, os spots da mídia constantemente lançados sobre uma hipotética
genialidade, e as teorizações acadêmicas em torno do que é ou não artístico.
Tais parâmetros se parecem contraditórios ou dispersos entre si, mas não
são senão mais uma tática ilusória. Duchamp descria de qualquer
importância social que sua obra pudesse vir a alcançar, dizendo-se
mergulhado apenas em "uma espécie de euforia constante".
Rigorosamente tal alcance é imprevisível, somente constatado quando o
artista já não pode interferir em mais nada. Contudo, crítica e mercado
persuadem os menos atentos com sopros de devaneio. E sentem-se uns tantos
geniais a crer que a arte se encontra nos chamados componentes materiais
da linguagem. Divertem-se a converter truques em poética. E adoram o jogo
de conceitos esfuziantes, como no dizer, por exemplo, de Vik Munir, que se
considera não um ilusionista, mas "um realista distorcido". A recorrência a materiais perecíveis
ou rejeitos neste artista em muito se aproxima dos assim designados
trabalhos aromáticos de um outro brasileiro, Ernesto Neto. Convenhamos
que o importante nas composições de John Cage não é propriamente que
ele tenha preparado as teclas de
seu piano, nem que Hermeto Paschoal esteja a soprar chaleiras ou apertar
pescoço de gansos no palco. Bacon defendia que somente por vias
insuspeitas ou indiretas é que o artista consegue expressar a semelhança. Todos os comentários até o
momento me surgem a propósito de uma exposição no Centro Dragão do Mar
de Arte e Cultura, no Ceará (Brasil), julho/Agosto de 2002, do artista
Vik Muniz (São Paulo, 1961). Há um certo excesso de crítica, uma mal
disfarçada comoção de certo setor da crítica, ao tratar de uma
perspectiva que se insere muito bem no que observei até então. Um
artista como Fernando Casás, galego residente no Brasil nos anos 80, não
foi devidamente percebido por um detalhe bastante sutil, que explico:
mesmo trabalhando com a recolha do que se poderia chamar de ready-mades,
Casás era um homem entregue à contemplação. Mesmo sua apropriação de
elementos naturais se dava como uma entrega. Seguia a rigor o que dissera
José Ángel Valente a respeito de Antoni Tàpies: "Criar traz
consigo o signo da feminilidade. Não é ato de penetração na matéria e
sim paixão de ser por ela penetrado." Pois bem, essa disponibilidade
para o vazio entra verticalmente em choque com aquela premeditação do
vazio que vamos encontrar nos ilusionistas ou realistas distorcidos da
chamada arte contemporânea. Talvez uma carência do mercado brasileiro de
termos representantes que se aproximem a experiências-limite, como no
caso de Duchamp ou do cultuado grupo Fluxus, tenha levado o crítico
Carlos von Schmidt a traçar paralelos entre Vik Muniz e Andy Wharol. E
decerto a necessidade de interação entre arte e espectador seja mais do
mercado do que propriamente da arte. Duchamp dizia que a família força
o artista "a abandonar suas idéias reais para trocá-las por coisas
aceitas por ela, pela sociedade e todo o resto!". O que resta saber
hoje é quem o artista considera sua família. Creio que a arte já não
trata da permanência da imagem nas memórias coletivas, mas sim do
permanente questionamento dos métodos empregados no usufruto dessas memórias. Não estou aqui a discutir a
obra plástica de Vik Muniz, o que poderá ser feito em outra ocasião,
mas antes me atenho à geratriz de um apressado entendimento de que sua
arte tem algo de audacioso e original. Não tem, em definitivo. E expressa
um desgaste conceitual em torno da própria idéia de arte como interferência
direta no tecido social. Reitero que essa relação tornou-se uma obsessão
de mercado. Caberá unicamente ao artista, no entanto, romper com uma
dilaceração que o torna quando muito um fantoche, um desses bonecos
articulados que ele próprio sempre buscou manipular. Trata-se de um novo conceito de
família, recorrendo ao que sabiamente aludira Duchamp. Ángel Valente
dizia que "a única coisa que o artista por acaso cria é o espaço
da criação". Artistas brasileiros menos cultuados pela mídia ou
programados pelo mercado, já haviam compreendido essa assertiva
essencial. No mesmo Dragão do Mar onde encontramos uma exposição de Vik
Muniz é possível visitar o breve acervo do Museu de Arte Contemporânea
no que diz respeito à obra de Antonio Bandeira. A maneira como Bandeira
soube subverter conceitos como paisagismo, abstracionismo e figurativismo
o situa como um artista além de seu tempo. Todo o resto, já o dizia
Verlaine há mais de um século, é literatura. |
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Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm). Página ilustrada com obras da artista Ileana Moya (Costa Rica). |