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revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003 |
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Cesário Verde, Fernando Pessoa, Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge: por outros mares literários Maurício Matos
Que margens têm os rios Natália Correia
O moto literárioA presença da obra camoniana é
tão notadamente marcante no paradigma das letras portuguesas, que de um mesmo
especialista podemos extrair vastos comentários sobre ambas as formas de
apropriação de sua obra. Iniciemos por um exemplo do processo de atualização
literária, destacado de Cesário - Duas ou três coisas - introdução
de Jorge Fernandes da Silveira à sua edição dos poemas de Cesário Verde. Na
seguinte passagem, o autor analisa “O Sentimento dum Ocidental” (1880) a
partir de sua referência direta, Os Lusíadas (1572): Ao invés de reduzir a evocação
do passado [Camões] ao saudosismo ou ao fatalismo, o poeta [Cesário
Verde] adianta uma das mais inovadoras proposições de interlocução com o passado:
minimizar no presente a monumentalização do passado. Num
cruzamento de opostos não necessariamente excludentes, interseccionam-se o
tempo do fato histórico (…) e o da ficção do fato histórico (…).
Comparado aos textos contemporâneos sobre as relações entre Literatura
e História, este poema [“O Sentimento dum Ocidental”] é de uma
atualidade empolgante. Atualidade ainda mais viva, quando se percebem na sua
trama os princípios com que se investigam os desastres de uma certa economia
mental portuguesa que, a partir d’Os Lusíadas, confundiu ficcionalização
do fato histórico com historicização da ficção. [Grifos nossos] Cesário Verde certamente não
apostou no Quinto Império, sequer foi um saudosista da época em que do porto
de Lisboa partiam as soberbas naus ultramarinas. Tanto o fatalismo quanto o
saudosismo são exatamente as canonizações do passado que o poeta não
apenas excluiu sumariamente do conteúdo de sua obra, como negou,
especificamente, em “O Sentimento dum Ocidental” - que, em seu primeiro
movimento, descreve um passeio do poeta pelas ruas oitocentistas de Lisboa:
Nas nossas ruas, ao anoitecer, Revela-se portanto uma cidade
desmonumentalizada, cujas ruas, ao anoitecer, exalam sentimentos densos,
soturnos, melancólicos. Através da maresia, o mar, outrora instigador de
aventuras e descobrimentos, desperta no poeta “um desejo absurdo de sofrer”.
Talvez exatamente instigado por este sentimento contraditório, o poeta tenha literariamente
percorrido tais ruas e chegado, por fim, a errar pelos cais, onde já não mais
atracavam as soberbas naus do passado, senão minimizadas, à estética
de Cesário Verde e de seu presente, em pequenos botes:
Voltam os calafates, aos magotes, É nesta interseção espácio-temporal,
ante o mar e ao fim da tarde, que Cesário Verde se sente inspirado a evocações
passadas:
E evoco, então, as crônicas navais: O poeta, então, ressuscitando o
tempo épico de Camões, dos mouros, baixéis e heróis, moveu o passado
diretamente a seu tempo presente, como podemos constatar verbalmente:
“Luta Camões” e “Singram soberbas naus”. Entretanto, estas evocações
incomodaram-no (“E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!”) na medida em que
sua grandiosidade não correspondia à realidade presente que se
desvelava ante sua percepção: a realidade das soberbas naus que não veria
jamais. Contudo, na poesia de Cesário
Verde o mar também inspira heroísmos, ainda que sejam outros em relação
aos do passado, incomodamente evocado. Os barões da expansão
ultramarina contavam com as grandiosas naus, de retorno incerto e, portanto, de
ingresso heróico. O heroísmo, ao final do século XIX, carecia destas embarcações
e das sangrentas batalhas que a fé e o império outrora haviam dilatado: a
Terra já se encontrava integralmente descoberta e o mar desbravado. Enquanto,
para Camões e seu tempo, enfrentar o mar era o ápice do heroísmo condecorado,
no tempo de Cesário Verde, o mar já se encontrava vencido desde há muito. O
que ainda não havia sido enfrentado era a já referida economia mental
portuguesa que, desde Os Lusíadas, ainda via no mar do passado,
literalmente, a única via da glória lusitana. O poeta moveu, pois, o heroísmo
a seu tempo, alterando-o, e heroicamente enfrentando (num barquinho ou num
bote), não o mar já vencido, mas a visão literal que ainda se tinha
deste, como podemos perceber em seu poema, justamente intitulado, “Heroísmos”
(1874): Contudo, num barquinho
transparente, E ouvindo muito ao perto o seu
bramar, Retornemos, pois, a “O
Sentimento dum Ocidental”, onde “As armas e os barões assinalados” - o
incipit d’Os Lusíadas - encontram ecos, na estética oitocentista de
Cesário Verde, reverberando nas nona e décima estrofes de sua primeira parte:
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Vêm sacudindo as ancas opulentas! Nestes versos, os barões
assinalados de outrora correm sacudindo as ancas opulentas, alterados no cardume
negro das hercúleas e galhofeiras varinas: O que era profecia ou maldição
n’Os Lusíadas - os desastres em terra causados pelas viagens marítimas
- eleva-se a primeiro plano na palavra contrariada do poeta do rigor e da análise. Nas rimas das varinas, um
sábio deslocamento de actantes é um valor forte na questão, agora inexorável,
de nomear quem é sujeito nessa história de “varões valerosos”
outrora assinalados, e hoje desempregados. É a partir dessas peixeiras que se
poderia ouvir, numa não muito despropositada traição à etimologia, o sentido
do nome varina. Cesário propõe os termos bipolares da tensão: o nome e
seu atributo, ou seja, varina e varonil em confluência conflituosa.
Varonil vem do varão (o “barão”) que “alevantou” o peito
ilustre lusitano. (…) São elas [as varinas] que, no presente, trabalham e
vivem dos restos do mar. Com toda a certeza, as varinas de troncos varonis
representam uma vontade outra de pôr em movimento a questão do ingresso
de Portugal na modernidade. [Grifos nossos] Cesário Verde, como se pode
notar, atualizou a leitura da epopéia camoniana, alterando-a conforme sua própria
realidade temporal, o que conseqüentemente manteve o poema no mesmo moto
literário através do qual foi concebido, configurado e deve ser lido
(devemos dizer) em nome da honestidade, pelo menos, literária. O poeta
oitocentista desmonumentalizou Camões, compreendendo o seu dinamismo original
e, assim, movendo-o em direção a um outro tempo. Ao mover Os Lusíadas para mais
de trezentos anos adiante, o autor de “O Sentimento dum Ocidental” não
apenas atualizou o poema, mas também o eternizou: se foi possível e legítimo
movê-lo ao final do século XIX, logo é igualmente possível e legítimo movê-lo
para qualquer outra época. Assim, não apenas na obra de Cesário Verde - e em
seu tempo - encontramos construções literárias refinadamente pautadas
no já citado processo de recriação da poesia camoniana: anterior às dez canções
que compõem Outro nome (1965), de Gastão Cruz (que abordaremos a
seguir), Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (seu único livro publicado
em vida), é mais um poderoso exemplo do processo literário sobre o qual
nos encontramos debruçado. Apelemos, pois, à notória autoridade de Cleonice
Berardinelli para compreender a questão da intertextualidade entre Os Lusíadas
e Mensagem: Um estreito parentesco une
Mensagem a Os Lusíadas: o “signum” que encontramos à entrada
de Mensagem já vinha do primeiro verso d’Os Lusíadas: “As
armas e os barões assinalados”; ambos glorificam a grandeza de Portugal,
ambos celebram o domínio do mar; a voz do Velho do Restelo ecoa nas estrofes de
“Mar Português”, o Mostrengo é o próprio gigante Adamastor. Há entre os
dois poemas, no entanto, uma diferença profunda que corresponde ao diverso
enfoque dos mesmos elementos: o poeta renascentista [Camões] procura
ressaltar a feição heroicamente atuante dos seus reis e heróis e assim o
vemos, ao enumerar todos os reis de Portugal, consagrar escassos versos a D.
Dinis ou a D. Duarte, enquanto as bélicas façanhas de Afonso III ou Afonso IV
são longa e enfaticamente cantadas; o poeta do século XX [Pessoa] não
enumera, seleciona, como se pôde ver, fazendo soar em contraponto o lado menos
ativo e mais passivamente heróico, representado sobretudo pelas quinas. [Grifos
nossos] Fernando Pessoa fez, portanto, a
sua leitura d’Os Lusíadas e compôs sua Mensagem à luz de seu
século; século muito posterior a Alcácer-Quibir (1578), momento decisivo para
a história de D. Sebastião, o jovem Rei de Portugal ao tempo da edição
princeps d’Os Lusíadas (1572). Ainda que Luís Vaz de Camões tenha vindo a
falecer um ou dois anos após a batalha supracitada e que, por conseguinte,
tenha sido informado do desastroso desfecho da mesma, o curso de sua epopéia não
poderia ter sido desviado pela recepção desta notícia, posto que já se
encontrava publicada havia cerca de seis anos. Por outro lado, Fernando Pessoa
indubitavelmente tomou conhecimento das ocorrências e das seqüelas dessa
malfadada batalha; desastres que exercem influência determinante em sua Mensagem:
outro tempo, outro poeta, outro poema, outra literatura…
Aproveitemos, pois, a deixa - declaradamente proposital - e observemos as
considerações de Manuel Gusmão sobre o já citado Outro nome, do poeta
Gastão Cruz: O canto é o dar de outros
nomes às coisas que são, o desejo de que elas se movam em direção a
outros nomes e, nesse preciso movimento, a esperança pode ser
figurada sob a modalidade de uma figura da/na linguagem: a alegoria, por
exemplo, como expansão de uma metáfora. Mas há ainda que perceber que, então,
a esperança não é apenas o futuro daquilo que se canta, é também o modo
(figural) de dizer o presente, no registro da invocação de um mundo
que se transforma.
À guisa de maior aprofundamento
no processo de recriação literária, analisemos a princípio,
comparativamente com Os Lusíadas, a última estrofe da “Canção
Quarta” de Outro nome: Outro consumo vivo de
palavras
outro
fogo de luz sobre a magoada Sendo outra canção, em
consonância com os cantos d’Os Lusíadas, o outro rio de Gastão
Cruz é, a um só tempo, o mesmo Tejo a partir de onde embarcaram os nautas lusíadas
de Camões no século XVI e um outro Tejo que, visto à luz do século
XX, pode ser deserto - imagem que logo abordaremos. Os ventos da poesia camoniana -
que n’Os Lusíadas, iniciando a narrativa da viagem de Vasco da Gama,
“brandamente respiravam / Das naus as velas côncavas inchando” (I, 19) e
aos quais em sua obra lírica, especificamente na significativa canção
“Junto de um seco, fero e estéril monte”, o saudoso e algo ciumento Poeta,
então exilado, pergunta por notícias de sua amada, e deles espera por uma
resposta que atravesse o mar que os separa - alteram-se no vento cruciano, que
“espalha a cinza / no rio em pedra aberto endurecida”; e assim, o puro nome,
rumoroso e veloz, desvia, outro, do dia / da morte. Podemos perceber, pois, lendo
agora o primeiro verso da estrofe destacada, que Gastão Cruz desviou sua canção
da paralisação da morte, movendo Os Lusíadas para um “outro consumo
vivo de palavras”. É o moto da vida contraposto, por desvio, à
paralisia da morte. Vejamos, ainda por mais alguns
passos, a intertextualidade atualizante da obra Outro nome, desta vez
diretamente em relação à obra lírica de Camões. A última estrofe da “Canção
Primeira” (“Assim lutamos”) cruciana atualiza, em declarada citação, o
derradeiro envio da “Canção IX” camoniana (“Assi vivo”), “Junto de
um seco, fero e estéril monte”, incluída já na edição princeps, de 1595. Assim
lutamos Assi
vivo, e se alguém te perguntasse Ainda que a simples justaposição
das estrofes fale por si, pois, como já dissemos, trata-se de uma citação,
uma glosa, é importante atentar para o fato de que ambos os poemas encontram-se
no tempo presente (“Assim lutamos” = “Assi vivo”), mas não no
mesmo tempo. Gastão Cruz, partindo do tempo de Camões, moveu a canção
camoniana em direção a um outro presente (o século XX), alterando o
seco, fero e estéril monte para as praias, as dunas, sobre as quais o esforço
se move e - já poderíamos arriscar o complemento - cria literatura. Sobre a
canção camoniana, observemos a leitura de Cleonice Berardinelli: As três primeiras estrofes da
canção [“Junto de um seco, fero e estéril monte”] são a recriação poética
da região inóspita aonde o Destino o arrastou, e tal recriação, forte,
impressiva, se deve sobretudo a uma adjetivação abundantíssima e reveladora
da visão pessoal do Poeta afetado em sua funda sensibilidade. (…) De todos
estes epítetos [adjetivos valorativos], o mais carregado de emoção é inútil,
pois que antecipa a negação da vida contida nos três versos seguintes: nem
vida animal (ave ou fera), nem vegetal (ramo), nem aquilo que no reino mineral dá
vida e a simula em sua manifestação viva de som ou movimento: o rio, a fonte,
o vento. Por isso é o monte inútil e informe, rocha apenas, mais nada. Alterando este inútil monte,
este locus anti-amoenus, Gastão Cruz criou sua duna literária que
significa, em sentido literal: segundo o verbete do Dicionário
brasileiro da língua portuguesa (1993), um “monte de areias acumuladas pelo
vento à beira mar”; conforme o Collins Cobuild english language dictionary
(1990), “a hill of sand near the sea or in a sand desert” (um monte de areia
próximo ao mar ou num deserto arenoso); e que o Pequeno dicionário brasileiro
da língua portuguesa (1972) apresenta como a designação de um “monte de
areia móvel formado pelo vento” - donde, sintetizando as três definições,
temos, para duna, o seguinte significado: monte de areia móvel, acumulada pelo
vento, situado ou próximo ao mar (na praia, portanto) ou em deserto arenoso. Assim, o monte cruciano, que é a
duna, é criado e recriado, ou seja, movido, através do vento; mas não através
do mesmo que impulsionava o movimento das soberbas naus quinhentistas, que desde
a poesia de Cesário Verde se encontram já encalhadas (ou esteticamente
soterradas), mas sim através daquele outro vento, que “espalha a cinza
endurecida” no “rio em pedra aberto”, ecoando na poesia cruciana. Considerando que a cinza é,
essencialmente, o produto final de um processo de esterilização, as dunas
crucianas - que, ao que o poema indica, são mais cinzentas que arenosas ou
pedregosas - possuem a mesma esterilidade do monte camoniano. Por outro ângulo,
entretanto, sob a ação do vento as dunas movem-se e, metaforicamente, afirmam
a vida; o que não ocorre com o monte seco e fero que, inútil, a nega. Desta
forma, partindo da infertilidade e da inutilidade do monte camoniano, em cuja
degradante adjetivação a vida é negada, Gastão Cruz chegou a outro
monte, à duna que, por sua própria constituição, exige o movimento e, conseqüentemente,
promove a afirmação da vida… um outro rio, um outro vento
motor para um outro monte: a duna. O vento de Camões, pois, move a
nau pelo espaço marítimo e o de Gastão Cruz, sendo outro, a duna, pelo
terrestre: à praia, ao deserto (onde, como vimos, as dunas podem existir), à
“funda espessura de outro rio”, outro Tejo, dando um “Outro
nome ao passado…”, condizente com um mundo que, através da ação do tempo,
se transforma, como diz Manuel Gusmão, em passagem já citada. Desta forma,
alterada a estética marítima na terrestre, a poesia cruciana seguiu a mesma
linha literária percorrida por Cesário Verde: De frente para o rio, mas de
costas para o passado, Cesário apresenta um elenco de figuras à margem
da revolução comercial; na extensão de suas “contrariedades”, o que ele vê
são os náufragos da civilização industrial, os órfãos da passada euforia
expansionista: operários, pequena burguesia citadina, emigrantes rurais,
prostitutas, atrizes e mulheres de “dom”, de “bom-tom”… (…), os seus
poemas exprimem a dolorosa consciência da decisão de viver para dentro, na
cidade [terra], e, em oposição, da desistência de viver para fora, no mar. [Grifo nosso] O pó, a areia e a cinza abundam
nas canções crucianas, enquanto a água, escassa, parece estar em segundo
plano. Em Outro nome é o pó, e não a água, que lava as ruas de
Lisboa, alterada em lisboa, como percebemos na “Canção Segunda”: Do rio de lisboa Em rio vai de pó inverno achando Fundindo três elementos
conceituais - a cinza formadora móvel das dunas de Gastão Cruz, a ave que,
segundo Cleonice Berardinelli, por exclusão, é um dos elementos de negação
da vida no inútil monte da canção camoniana e o moto que podemos
perceber nos gerúndios (achando, passando, mudando) das estrofes acima
destacadas da canção cruciana, bem como o ciclo renovador que este movimento
revela (“de novo a luz do rio a vai turvando [lisboa] / de novo acha o inverno
a humidade / e novamente o pó com que lavá-la”) - vemos a configuração
de um elemento que deles se compõe e salta aos olhos: a fênix = ave + cinza +
movimento cíclico renovador: A fênix, segundo o que relataram
Heródoto ou Plutarco, é um pássaro mítico (…) que tem o poder, depois de
consumir-se em uma fogueira, de renascer de suas cinzas. (…) Os aspectos do
simbolismo aparecem, então, com clareza: ressurreição e imortalidade,
reaparecimento cíclico. É por isso que toda a Idade Média [que ao tempo de
Camões alterava-se na Idade Moderna] fez da fênix o símbolo da Ressurreição
de Cristo e, às vezes, da Natureza divina - sendo a natureza humana
representada pelo pelicano. Assim, a cinza proveniente da
incineração da fênix, exclusivamente neste caso alegórico, ganha o atributo
da fertilidade autogenética da ave: a vida da fênix é morrer para de suas
cinzas renascer, ou seja, ela vive (não morre), pois morre, renasce e, assim,
vive. Desta forma, através das cinzas crucianas, podemos reler o envio da
“Canção IX” como uma inusitada alusão a este processo: Assi vivo, e se alguém te
perguntasse
Neste momento, depois de
verificarmos três literaturas exemplares advindas do processo de recriação
da poesia camoniana, cabe ser advogado do diabo e perguntar: o que Camões
atualizou, para o século XVI, em sua obra? Ora, se consideramos como condição
primeira da configuração literária o moto, a poesia camoniana não
seria literatura se nada tivesse movido a seu tempo. Recorramos, pois, a
“El Mar”, de Jorge Luis Borges para movimentar a questão: El mar. El joven mar. El mar de Ulises
En el diario ejercicio de la guerra. O mar, o antigo e jovem,
incessante, rejuvenescido pelas correntes que movimentam o humido elemento e,
mais ainda, renovada sua água pelo processo cíclico de sucessivas, perpétuas
e complementares evaporações e precipitações, é, a um só tempo, o antigo,
o de Homero, e o novo, que, a seu tempo (século XVI), é aquele outro
de Camões. Crendo-nos ainda avalizado por um soneto do mesmo autor intitulado
“A Luis de Camoens”, em cujo último verso são Os Lusíadas (ditos)
a Eneida lusitana - e em cujas estrofes, tal qual no poema acima transcrito, o
nome de Camões não é citado literalmente -, podemos ver nítida a relação
feita por Jorge Luis Borges entre a epopéia camoniana e as epopéias da antigüidade
de Homero (Odisséia) e Virgílio (Eneida). Assim, quem seria o outro
Ulisses senão Vasco da Gama e, logo, quem seria aquele cavaleiro que, no lamaçal
de Goa, escrevia a epopéia e a elegia de sua pátria senão o próprio Camões?
Salientemos, pois, uma semelhança: Das epopéias antigas, Camões
manteve a presença de um narrador principal que introduz um segundo narrador -
o herói: Ulisses, Enéas ou Vasco da Gama (…). Agora, uma diferença: Camões, consciente de que a
conquista do mar é resultante de séculos de preparação das virtudes que
enrijam o homem, faz de Vasco da Gama o narrador de toda a história de Portugal
e não apenas de uns breves antecedentes do feito, como acontece com os heróis
de Homero e Virgílio. E, finalmente, a conclusão: Os Lusíadas
são a epopéia de novos tempos, tempos contraditórios. Alimentado de
tais contradições o poema adquire modernidade e se afirma como a única epopéia
representativa do Renascimento europeu. [Grifo nosso] São, pois, Os Lusíadas
uma outra epopéia de um outro tempo (o século XVI), para o qual
Camões moveu as antigas Odisséia e Eneida. É exatamente a isto
que o Poeta se propõe logo na terceira estância do poema, onde podemos ler
claramente: Cessem do sábio Grego e do
Troiano A última estrofe da “Proposição”
d’Os Lusíadas não deixa dúvidas: o verbo cessar tem por objeto, nos
dois primeiros versos, as “grandes navegações que fizeram” o “sábio
Grego” e o “Troiano” (por antonomásia, Ulisses e Enéias) e, nos dois últimos,
“tudo o que a Musa antiga [por metonímia, a poesia antiga] canta”, pois “outro
valor mais alto se alevanta”. Ora, quem propõe a cessação do
antigo em nome de um outro, não pode senão estar delegando a este o
atributo do novo. Desta forma, outro e novo tornam-se, ao
menos literariamente, sinônimos; o que, conseqüentemente, nos leva a
uma aproximação bastante oportuna dos versos de dois poetas da Poesia 61: um,
já citado, Gastão Cruz, e outra, Luiza Neto Jorge, que neste passo tem seu
primeiro comparecimento com seus Dezanove Recantos - epopéia sumária
(1969), que, segundo Jorge Fernandes da Silveira, bem como sugere o próprio título
da obra, “são declaradamente uma releitura dos 10 cantos d’Os Lusíadas.
Dez dobrados em menos um, já que somam 19”; portanto, bem como os já citados
Cesário Verde, Fernando Pessoa e Gastão Cruz, a poeta Luiza Neto Jorge move o
grande épico lusitano a um novo discurso, emergente do surrealismo
português e, conseqüentemente, condizente com o seu tempo, a segunda metade do
século XX: No depoimento publicado num
suplemento literário, a propósito (…) [de Dezanove recantos],
refere-se Luiza Neto Jorge a uma revolta das palavras, apelando para um novo
discurso (…), um discurso que opere a síntese entre a longa tradição
discursiva que vai de Cesário Verde a Mário Cesariny de Vasconcelos e a
Herberto Helder e as tendências antidiscursivas manifestadas no começo do decênio
[1960]. A poesia surrealista, que,
como se sabe, assumiu em Portugal uma forma muito particular, (…), prepara a
desagregação do discurso de que se ocupará Poesia 61 - ou parte dela. Não
sendo possível (…) prosseguir por muito tempo nessa via, em breve começa a
notar-se a tendência para a criação do novo discurso a que Luiza Neto
Jorge se refere no depoimento citado. [Grifos nossos] A partir desta citação do próprio
Gastão Cruz, podemos justapor o seu “outro consumo vivo de palavras”
à “revolta das palavras, apelando para um novo discurso”,
desenvolvido por Luiza Neto Jorge; e reafirmar, em relação ao épico
camoniano, que com outras palavras se pode construir um novo
discurso, que seja, portanto, vivo. Este discurso de palavras vivas e
revoltadas, outras e novas, foi o que formalizou a síntese -
poderíamos arriscar, da forma surrealista com o estilo épico - empreendida
pela poeta e que certamente justifica o subtítulo de seu livro: epopéia sumária,
que é, portanto, uma outra epopéia atualizada a seu tempo, uma nova
epopéia, como diz Gastão Cruz: Os Dezanove Recantos (…)
vêm demonstrar que Luiza Neto Jorge compreendeu que era possível transpor para
a poesia de hoje [décadas de 60 e 70] o tratamento surrealista do discurso,
ou, mais exatamente, que era possível descrever e narrar utilizando largamente
as relações de choque das palavras e a elipse. Por isso, a narração é
sincopada e descontínua - por isso, Dezanove Recantos é uma epopéia
sumária. [Grifos nossos] Assim, podemos traçar uma reta
progressiva de atualizações: epopéia antiga (Homero e Virgílio) ® epopéia moderna (Camões) ®
epopéia sumária (Luiza Neto Jorge); e, assim, Gastão Cruz insere o grande
poema épico do século XX no paradigma das obras ditas de vanguarda: A vanguarda é, (…), o ponto em
que a crise gerada por um certo número de conflitos inerentes à saturação de
uma linguagem se resolve numa síntese, que, mais cedo ou mais tarde,
gerará, por sua vez, uma nova crise. É por isso que - passando agora para o
caso específico da poesia - a vanguarda pode, a certa altura, dar relevo a uma
organização rigorosa e estável do discurso, para, passado algum tempo, pôr
essa organização em causa e, mais tarde, voltar a estabelecê-la de forma diversa.
[Grifo nosso] Façamos, agora, uma ponte - com
um texto recente do já citado Jorge Fernandes da Silveira, apelando, pois, à
sua autoridade - interligando as idéias sobre a literatura de vanguarda, de
Gastão Cruz, à própria vanguarda literária de Luiza Neto Jorge:
RECANTO I Proposição: Contorno-vos.
Socorre-se a terra de mim Enquanto se gastam montanhas vosso contorno
vence Poder que vos desfoca,
dinamite. [Grifos nossos] Assim, tal como Camões procedeu
em relação às epopéias da antigüidade, Luiza Neto Jorge - bem como Cesário
Verde, Fernando Pessoa, Gastão Cruz, entre outros grandes poetas - não leu a
obra camoniana literalmente, mas literariamente. Por esta via, e
por nenhuma outra, o poema, sempre atual no moto de suas leituras e no da
literatura que se fez a partir destas, permanece fiel à sua própria essência
motora. O mito literalNeste passo, para que a economia
deste trabalho não se perca, convém explicitarmos o que concebemos como a
postura oposta à de Cesário Verde e dos demais poetas à sua altura. O mesmo
Jorge Fernandes da Silveira, em outro texto, nos fornece os subsídios necessários
para a compreensão do que denominou por historicização da ficção, cujo
processo vem a resultar na monumentalização do passado, na criação do mito.
À ideologia resultante deste procedimento não se pode dar o nome de crítica
literária, sequer de literatura. A obra de Camões, durante o
fascismo, deixa de ser o objeto literário, que é, para ser transformada
num sujeito ativo, “braço às armas feito” lado a lado com o governo
salazarista. Aqui a ideologia veiculada
é a do português forte e patriota por natureza. Decerto este desrespeito pela
cultura, louva, por via transversa, a ação da censura. Afinal, letras e artes
não valem nada… Apagadas as marcas dos escritores, ofendido o seu trabalho,
os versos de Camões, deliberadamente tornados “surdos” e “endurecidos”,
estão também a dirigir o colonialismo mental e, literalmente, político do
regime. [Grifos nossos] Trata-se, na verdade, da utilização,
neste caso, do texto camoniano como forma de legitimação do poder através da
apropriação falsificadora da intenção estética d’Os Lusíadas,
reduzindo-o a apenas uma entre suas possibilidades de leitura. Tal redução literal
paralisa o poema e o transforma numa mera seleção intencional de fatos sem
vida, aos quais se dá o nome de história. Segundo José Saramago, “a história
foi vida real no tempo em que ainda não poderia chamar-se-lhe história
e tudo quanto não for vida, é literatura, A história também”.
A literatura pode ser, portanto, a ficcionalização da história, pois,
no caso em questão, são Os Lusíadas a ficcionalização da viagem de
Vasco da Gama - e, neste caso, a recíproca (a historicização da ficção) não
pode ser verdadeira. A equivocada inquestionabilidade,
fundada pela designação histórica, gera um tipo de sentimento comum
que apaga o processo de atualização do poema em nome da instauração
paralisante da fé de que aquilo que se conta possui a aura da verdade absoluta.
O resultado disto, na cultura portuguesa, é um ciclo vicioso em que o fatalismo
de um futuro simétrico à inquestionável grandeza do passado impede o
indivíduo de questionar a situação marítima passada (e a partir desta
inventar o próprio presente), que lhe aparece como um “paradigma
frontalmente inatacável”, como diz Maria Gabriela Llansol. Neste passo, não se trata mais
de literatura, mas sim de uma problemática intrínseca a um período da
realidade social portuguesa, que aprendeu a ler literalmente Camões e
parece ter acreditado piamente na ideologia veiculada: híbrido
resultante de um desastroso cruzamento dos fatos com a ficção. Sobre esta
situação social manifesta-se, com a lucidez que lhe é característica, o sociólogo
Boaventura de Sousa Santos: Puderam dizer tudo impunemente
sobre Portugal e os portugueses e transformar o que foi dito, numa dada geração
ou conjuntura, na “realidade social” sobre a qual se pôde discorrer na geração
ou na conjuntura seguinte. O resultado imediato desta
impunidade cultural, gerenciadora do silêncio (e gerenciada pelos
silenciadores), admite apenas uma única interpretação da realidade. É como
uma máscara que, em dado momento, se confunde com o próprio rosto. A cultura
portuguesa, conscientemente ou não, é crente de que seu destino há de emergir
grandiosamente do passado para a formação futura e definitiva do Quinto
Império. A crença de ser o povo eleito faz com que o país espere e, enquanto
espera, paralisado, não pense, o que resulta num desenvolvimento aquém de suas
potencialidades, outrora grandiosamente reveladas. Ainda recentemente Hans Magnus
Enzensberger se perguntava como é que Portugal, sendo um dos países menos
desenvolvidos da Europa, é capaz de tanta utopia (do sebastianismo à
revolução de 25 de Abril de 1974), a tal ponto que seria certamente uma grande
potência numa “Europa dos Desejos”. [Grifo nosso] Desta forma, a partir do épico
camoniano, como já foi dito, constatamos duas posições: com a primeira,
cria-se literatura; com a segunda, legitima-se a ideologia. Sobre
a redução literal (ideológica) sofrida pel’Os Lusíadas
e articulada principalmente pelo núcleo detentor do poder no período da
ditadura salazarista em Portugal, manifesta-se corajosamente Jorge de Sena de
maneira irredutível: Camões não é o pastelão patriótico-clássico
que durante anos tem sido. Os Lusíadas são, na verdade, um dos mais
belos poemas longos que as literaturas modernas produziram, e os portugueses
podem realmente admirá-lo como obra de arte do mais alto nível, e impor
um novo respeito internacional pelo poema, sem que, para tal, seja necessário
apelar para sentimentos nacionais ou para a simpatia dos amigos de Portugal.
[Grifos nossos] Talvez, se levarmos em conta
poemas dedicados a Camões como “Tasso a Camões”, do italiano Torquato
Tasso (século XVI), “Camoens (before)” e “Camoens in the hospital
(after)”, do norte-americano Herman Melville (século XIX, consagrado pela
autoria do romance marítimo Moby Dick, publicado em Londres pela primeira vez,
em 1851), o já citado “A Luis de Camoens”, do argentino Jorge Luís Borges
(século XX), e “A Camões”, do brasileiro Manuel Bandeira (século XX),
possamos perceber que o respeito e a admiração internacionais pela obra
camoniana já se encontram impostos, pela própria magnitude de sua poesia,
desde seu século (XVI), para além da Europa, a toda a extensão do continente
americano. Assim, o que faz Jorge de Sena é
munir o leitor d’Os Lusíadas da plena consciência de um fator que
transcende às legitimações nacionalistas e que configura o poema, antes de
mais nada, como obra de arte, ou seja, literatura. É exatamente este o
centro para onde pretende convergir este trabalho: uma tentativa de
desacorrentar Camões do rígido paradigma espácio-temporal (Portugal, século
XVI) em que, tal qual Prometeu, permanece preso, funcionando quase como um santo
(um mito colocado no altar do patriotismo português), em detrimento do moto
literário que o fez viajar pelos dez cantos lusíadas e por sua obra lírica.
O próprio Camões, como que prevendo seu destino no imaginário lusitano, através
de Inês de Castro, tece seu juízo a respeito de tal utilização redutora,
mitificadora ou assassina, como fazem parecer seus versos: Se dizem fero Amor que a sede
tua, Nem com lágrimas tristes se mitiga: É porque queres áspero e tirano.
Tuas aras banhar em sangue humano. (III, 119) Nesta estância mostra-se
nitidamente o conflito que há entre o humano, vivo, sangüíneo e dinâmico, e
o mítico, mortalmente estático, ensangüentado sobre um altar. É o moto
de circulação do sangue que se renova contraposto à sua coagulação mítica
e mortal. Portanto, o episódio da tragédia amorosa de Inês de Castro é
exemplar: paralisa-se o moto vivo para que predomine o mito,
morto. Contudo, visando a que esta compreensão não se faça frágil e não
pareça mera especulação sobre determinada passagem descontextualizada,
achamos conveniente destacar mais uma em que a mesma idéia salta do papel: Trouxe o filho de Jápeto do Ceu Ao enunciar esta passagem, o
Poeta, através do Velho do Restelo, atenta para a essência humana quando a
condiciona ao fogo de altos desejos que a move (na guerra ou na arte), do qual o
mito, a estátua, a imagem, paralíticas ou mortas, estão desprovidas.
Entretanto, foram intencionalmente mal compreendidas as idéias de Camões e o
grande Poeta de Portugal, o Príncipe dos poetas de seu tempo, acabou como uma
estátua de bronze, na qual não vive o fogo de altos desejos, que o movera a
escrever sua obra, senão timidamente aprisionado num pilar, como se pode
flagrar em “O sentimento dum Ocidental”:
Mas, num recinto público e vulgar, É esta a imagem paralítica de
Camões que serve, aos interessados, para a formação de uma ideologia
de cunho nacionalista, através da contemplação do exemplo passado, com
o qual não se pode estabelecer qualquer comunicação que revele e atualize a
força de seu moto literário e gere mais força e mais literatura. No processo de mitificação,
funda-se um desnível em que o leitor tem que olhar para cima, para o altar onde
há o exemplo paralítico, e procurar imitá-lo, para não cair no que pode ser
julgado como crime, pela pátria, ou pecado, pela religião. A lógica é simples:
historicizando a ficção metrificada por Camões, criou-se uma realidade
exemplar passada, um tempo mítico em que o português fora grande e,
conseqüentemente, para que o seja novamente, cabe tomar tal momento como
exemplo inatacável e seguí-lo, sem questionamentos. A acusação deste
processo paralisante, podemos encontrá-la na passagem destacada, de Eduardo
Lourenço: Tornou-se então claro que a
consciência nacional (nos que a podiam ter), a nossa razão de ser, a raiz de
toda a esperança, era o termos sido. E dessa ex-vida são Os Lusíadas a
prova de fogo. O viver nacional que fora quase sempre viver sobressaltado,
inquieto, mas confiado e confiante na sua estrela, fiando a sua teia da força
do presente, orienta-se (…) para um futuro de antemão utópico pela
mediação primordial, obsessiva, do passado. Descontentes com o presente,
mortos como existência nacional imediata, nós começamos a sonhar
simultaneamente o futuro e o passado. [Grifos nossos] Desta forma, todas as
possibilidades de refiguração atualizante do poema são tiranicamente
paralisadas, ou mesmo proibidas, como por decreto. A lógica (ideológica)
acima mencionada sugere, portanto, que não a seguir é não delegar ao português
o alto lugar que merece, é incorrer em crime contra a pátria. Fundindo as palavras crime e
pecado - através do raciocínio até então exposto - num mesmo significado,
podemos afirmar que é na morte do literário que se funda a ideologia;
na do humano, a mitificação; na do místico, a religião: “Tuas aras banhar
com sangue humano”. Portanto, literário, humano e místico são
elementos em moto - navios que são viagens -, enquanto ideologia,
mitificação e religião são paralisações deste moto - viagens que são
navios. Se é assim, criminosos e pecadores, movamos questões para que possamos
manter a poesia de Camões sempre atualizada a seu tempo: não o literal,
contado em anos, mas o literário, metrificado e rimado, além das
margens dos rios. |
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Mauricio Matos (Brasil, 1973). Jornalista, poeta e ensaísta. Tem textos publicados no Brasil e em Portugal sobre poetas de língua portuguesa, tais como Fernando Lemos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Camões, Jorge de Sena, etc. Como editor, exerceu o cargo de Assistente Editorial na Fundação Nacional de Arte - FUNARTE, entre 2000 e 2001. Contato: mauricio.matos@bol.com.br. Página ilustrada com obras da artista Ileana Moya (Costa Rica). |