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revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003 |
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Pedro Nava: a experiência do tempo qualitativo Rodrigo Petronio
Sentir já é pensar. Teofrasto
Outro aspecto problemático é a
comparação de dois escritores. Como enquadrá-los em suas realidades específicas?
Como não estabelecer uma hierarquia de valor entre ambos, de modo a fazer
de um a continuidade e o apêndice do outro - e, nesse caso, atestar a
subserviência da literatura brasileira aos cânones europeus, fornecedor
dos modelos a serem glosados por aqui? Colocar a questão dessa forma
pressupõe que creiamos numa evolução contínua do Espírito, e num centro
virtual dos seus produtos e agentes, que ora ou outra se atualiza em um dado
momento da História e em um dado ponto geográfico, e que autoriza Hegel,
espécie de doublet de filósofo,
curiosamente usado como cartilha pelos mestiços dos tristes trópicos, a
dizer que os indianos, por exemplo, se encontram num estágio anterior ao
grande florescimento racional do Ocidente - leia-se, por antonomásia, alemão
- e a excluir a América das suas Lições de História Universal, o
que nos revela que, para Hegel, a América surpreendentemente não pertence
ao universo, fato que seria muito engraçado se não fosse tão ridículo.
Porque no nosso caso estamos tratando de Proust, considerado um dos maiores
escritores do século XX, e de Pedro Nava, autor que gozou de certa
notoriedade em vida, principalmente entre seus pares e o público high
brown, mas que no entanto sempre se situou à margem do cânone da
literatura do Brasil. É certo que esses conceitos não
são unânimes, e variam com o tempo. O próprio Shakespeare, tido como um
dos maiores poetas de todos os tempos, foi vilipendiado por Buffon e pela
maior parte da crítica do XVIII francês, que considerava-o de mau gosto,
esquemático e vulgar. Nem a inteligência eqüestre de Voltaire escapou a
esse éthos idiota, e o autor do King
Lear só veio a se tornar o que é hoje a partir do XIX. Já a publicação
da Busca foi vetada por ninguém
menos que André Gide, que depois se arrependeu. Henry James, escritor e
leitor refinado, não terminou o primeiro volume, dizendo tratar-se de obra
feita por um perverso polimorfo com tendências megalomaníacas. Outros
diziam ser impossível levar a sério um autor que gasta cinqüenta páginas
narrando o processo de adormecimento do seu protagonista. E assim por
diante. Hoje essas frases viraram anedotas, folclore de interesse
circunstancial, enquanto a obra de Proust só cresce em importância. O próprio Nava nos adverte
quanto à facilidade da filiação de sua obra à de Proust, não
propriamente um memorialista, mas um autor que se vale da experiência do
tempo qualitativo para compor a trama em primeira pessoa de seu romance, e
nega de antemão o esquemático da comparação. Ao refutar a idéia de ser
um possível plagiador do francês, alegando as particularidades de cada um,
diz que o uso da memória, em Proust, não impede a sua adoção por outro
escritor que possa manejá-la de modo diverso. Sabemos que os conceitos de
originalidade e plágio são valores românticos, históricos, e que, embora
tomados como virtudes indispensáveis em uma sociedade de mercado e de livre
concorrência, não são peças fundamentais para a aferição da qualidade
estética de uma obra. Pois, sob essa ótica, teríamos que invalidar toda a
produção artística que, do século XIX até hoje, não se enquadre nessa
premissa personalista, e não se guie pela crença (ingênua) em uma
individualidade criadora que extrai obras ex
nihilo. Ou seja, deveríamos começar por Machado de Assis, cujas Memórias
Póstumas gozam de transcrições quase literais de Xavier de Maistre,
de Sterne e do Gil Blas, e, passando pelos contos de Kafka (baseados em parábolas
orientais) e pelo Ulisses de James
Joyce (bebido em Homero), censurar poetas como T. S. Eliot e Ezra Pound, que
viam a poesia como a releitura e a tradução de uma tradição
intelectualmente viva, vindo desaguar na invalidação dos labirintos de
Borges (repetição de tópicas retóricas encontráveis em toda a história
da literatura) e de Calvino, e acabando, enfim, por desprezar a Máquina
do Mundo de Drummond, inspirada diretamente na poesia quinhentista e
seiscentista. Antes de cometer esse genocídio, seria preciso reconhecer
modestamente a insuficiência da nossa premissa. A não ser que prefiramos a
integridade (equívoca) de um rebotalho crítico ao que de melhor se
produziu nas letras desse século amargo que ora terminou.
É claro que em toda sensação
há um resquício de passado, dada a fugacidade do presente. Santo Agostinho
diz que este não é nada mais que a confluência entre passado e futuro: o
ponto real onde eles se encontram mas que, no entanto, não existe por si
mesmo, não tem autonomia. E é interessante ver como o padre Antonio Vieira
bebe nas idéias do santo para compor o magnífico Sermão
de Quarta-Feira de Cinzas. Pois é a partir delas que o orador nos
explica o famoso versículo bíblico, segundo o qual somos pó e ao pó
retornaremos. Se viemos do nada e vamos para o nada - argumenta Vieira - já
somos nada. E a vida terrena é vista como um teatro de ilusão, representação
e vaidade. Mas, voltando a Bergson, a função
da memória, nesse caso, ganha grande relevância: ela é o único meio de
que disponho para organizar o conjunto de imagens que me são suscitadas
pelos afetos, e o único instrumento que me torna possível a representação.
Sem ela, sucumbiríamos numa massa amorfa de estados psíquicos sem resolução,
e seríamos incapazes de relacionar coisas diferentes. Dos tipos de memória,
dois se destacam: a voluntária, de arquivo, e a involuntária, também
chamada de qualitativa. Para o vitalismo de Bergson, esta última será de
maior importância, pois é ela que demonstra a ligação íntima entre as
minhas faculdades, as qualidades que depreendo da experiência e os eventos
que se dão, e que são selecionados por esse “centro de ação real”
que é o meu corpo. Ela será a base de sua especulação, e, seguindo um
esquema em forma de cone, se encontrará na interseção entre a atualidade
do momento presente - a ponta do cone - e a virtualidade de todos os
acontecimentos passados que trago comigo - toda a extensão progressiva do
polígono. O curioso dessa proposta é não estarmos lidando com o passado
exclusivo de um indivíduo, na medida em que a sua memória é feita de ecos
ancestrais da espécie, pode-se dizer até de rudimentos biológicos e não
articulados, e estes podem ser atualizados conforme a exigência da circunstância
ou a natureza da experiência sensível.
Percebemos então o quão
ambicioso é o projeto de Proust. Dado que, num sentido genérico, a
literatura é uma arte temporal, ele quis usar o seu próprio fundamento
como alicerce de sua obra. Platão nos diz que se instruir e lembrar são a
mesma coisa; cria que já trazemos todo o repertório de conhecimentos implícitos
em nossa alma, pois já o vivemos num passado remoto, e os conceitos nunca
podem nascer dos sentidos, mas apenas do inteligível. Por isso, Aristóteles,
mais tarde, dirá que todo o conhecimento está ligado ao tempo, e que a memória
é o “princípio da sensibilidade”. A “reaquisição” da memória
seria a reminiscência - quando apreendemos algo pela segunda vez. O que é
interessante, no entanto, é a passagem em que o filósofo grego nos diz que
a “sensação de uma coisa leva a outra semelhante”. Ora, é basicamente
esse o princípio de composição de toda a Busca: o princípio da analogia e da metáfora.
Os estados flutuantes da nossa
percepção que Proust nos apresenta nos levam a uma falta de compromisso
com a verdade, e nos impossibilita de pintar o mundo tal e qual. Há uma série
de reflexões do narrador sobre as suas impressões. Ora descreve uma
paisagem sem delinear seus contornos, ora fala dos vitrais de uma igreja de
forma difusa. Às vezes esse limite é tão tênue que não conseguimos
sequer descrever um objeto. É o que ocorre quando o jovem Marcel, passando
o veraneio em Balbec a convite de Saint-Loup, vai ao ateliê do pintor
Elstir. Lá este lhe mostra um retrato masculino que fizera, e o narrador,
por um motivo que ele próprio desconhece, só consegue enxergar no quadro o
rosto andrógino de Odette. Ou, quando em um passeio pelo balneário dessa
região, num grupo de meninas correndo na areia só consegue ver uma massa
amorfa se movendo à revelia de qualquer ordem. O mundo se nos oferece, não
como uma representação coesa, mas como um simulacro. Toda vez que vamos às
coisas idealizando o que elas possam ser, nos frustramos - a realidade está
sempre aquém da nossa expectativa. E esse é um dos componentes da ironia
de Proust: o idealismo. Marcel está sempre forjando imagens ideais da
realidade, que estão, por sua vez, se destruindo de maneira consecutiva,
conforme vão sendo adaptadas à mesma. É o caso, por exemplo, do espetáculo
que vê com a atriz Berma interpretando Fedra. De tal modo ele havia
idealizado essa representação que, ao vê-la de fato, sentiu nojo, pois
ela não correspondia a uma pequena parte do que idealizara. Algo parecido
se dá quando pode enfim conhecer a duquesa de Guermantes, à distância,
numa cerimônia religiosa destinada a nobres: o amor e a reverência que ele
lhe atribuía ruíram diante daquele rosto impoluto, frio, resignado, que,
segundo o próprio narrador, pareciam mirar o vazio. Esse movimento de busca
de algo absoluto e a conseqüente corrupção de suas prerrogativas, em uma
espécie de oscilação entre a totalidade (artificial) e a realidade
(insuficiente), está presente em toda a Busca. Faz parte do espírito fin
de siècle, e está desenvolvido à exaustão nos paraísos artificiais
e no dandismo da aristocracia artística então decadente, dos quais Proust
é um filho legítimo. O fato é que em muitos momentos a maneira pela qual
o narrador expressa seu idealismo é tão afetada e tão pedante que gera
uma situação irônica. É como se, submetidos aos jogos sociais e aos
simulacros da realidade, nossos próprios paradigmas éticos e racionais
parecessem inócuos. Quando ele começa a enumerar as centenas de motivos
que levaram a fenecer seu amor por Gilberte, e ao fim dos quais nos diz que
poderia ser qualquer um deles ou outra coisa muito mais simples e banal na
qual não houvesse pensado, se não tivermos um pouco do humour
francês para entender a ironia, é capaz de dormirmos lá pela metade do
desenvolvimento.
Como se pode ver, a proposta
desse texto precisaria de um desenvolvimento muito mais longo e detido, que
virá à luz no futuro, quem sabe? É impossível
abranger três mil páginas de uma das prosas mais matizadas e complexas que
já se escreveu, a relação entre os conceitos de tempo, memória e percepção
numa perspectiva histórica e filosófica e, de quebra, sintetizar o
pensamento de Bergson em meia dúzia de páginas. Nem o demiurgo de Platão
conseguiria essa proeza. Isso é apenas um esboço onde tentei registrar
alguns apontamentos de leituras. O que posso concluir? Nava demonstra uma
boa habilidade narrativa; peca pelas menções que faz a seu autor favorito,
pois elas dão o testemunho de um modelo que ele aspirava incorporar. O Baú
de Ossos cita excessivamente. Nesse sentido, talvez ele, sozinho, seja
um documento histórico mais importante e mais repleto de fontes e precisão
do que a Busca. Mas em termos artísticos
essa sua precisão e seu rigor evidenciam que Nava escreveu a partir da memória
voluntária, ora ou outra fazendo uma intervenção reflexiva sobre a essência
mesma da memória. Já Proust desenvolve toda
a sua obra a partir do elã vital que encontramos na filosofia de Bergson, o
que me parece mais rico esteticamente, e mesmo no sentido retórico. Roger
Shattuck fez uma comparação muito pertinente entre Kafak e Proust. Segundo
ele, ambos os escritores demonstram um mal-estar diante do mundo. O primeiro
pela ausência, o vazio espiritual e de sentido, o segundo pelo excesso e
pelo acúmulo. Os personagens de Kafka estão sempre perdidos porque o vazio
gera o absurdo, e esse a incompreensão. Em Proust tudo significa de forma
absoluta; devido à sensibilidade do seu narrador, sensibilidade que beira o
patológico, os sentidos são hipertrofiados a tal ponto que os conceitos
também perdem a consistência, e os objetos se tornam relativos a um
extremo insuportável. É o caso das causas de sua separação de Gilberte
de que falei aqui, entre dezenas de outros exemplos. Essa capacidade de
fruir de uma infinidade de formas distintas um mesmo evento, transformá-lo
em uma simulação da realidade e não mais na realidade em si mesma e vê-lo
sob uma série de perspectivas diferentes parece ser a grande virtude da
obra de Proust. Seu excesso - digressões de trinta páginas - nos
desconcerta. Ao passo que o excessivo, em Nava, apenas cansa. |
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Rodrigo Petrônio (Brasil, 1975). Poeta e ensaísta. Autor de História Natural (poemas) e Transversal do Tempo (ensaios). Contato: www.rodrigopetronio.hpg.ig.com.br. Página ilustrada com obras da artista Ileana Moya (Costa Rica). |