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babel (brasil)
CW - Conte algo sobre suas origens e procedência,
inclusive sobre sua vida itinerante, de múltiplas residências e procedências.
Apresente-se. Já havia feito periodismo literário antes de Babel?
CW - Como é que surgiu a idéia de fazer Babel? Você
já tinha essa intenção, de fazer uma revista, faz tempo, ou foi algo
que aconteceu assim de repente num estalo em um ímpeto de inspiração? AD - A militância cultural de certa forma sempre esteve
presente em minha vida, do cineclubismo à publicação de folhetos de
poesia ou jornais estudantis, mas nada tão expressivo, foi acúmulo de
experiência apenas. Na pós-graduação mantive esse interesse analisando
vários periódicos ou suplementos como Letras & Artes
(1947-53), Autores e Livros (1937-53), Pensamento da América
(1937-53) (estes três do jornal A Manhã, do Rio); a Revista
Americana (circa 1900 a 1925), e li várias das revistas dos
modernistas, assim como me formei intelectualmente lendo O Pasquim,
Versus, Opinião, Movimento, Revista da Civilização Brasileira e
outros. Mas a Babel surgiu num dado momento em que, com a
possibilidade da troca de e-mails, algumas amizades que estavam dispersas
puderam se intensificar com uma troca mais viva e constante gerando
discussões e a necessidade de um veículo que permitisse participar do
debate de idéias e fundamentalmente estimulasse a reflexão e a escrita
quebrando a sensação de isolamento e de falta de acesso aos veículos
existentes. CW - Foi você, ou foram você e seus parceiros, Marco Aurélio,
Mauro, Susana? Desde o início, o projeto teve caráter coletivo? Qual o
papel ou função de cada um? AD - Sempre me correspondi com o Cremasco e o Mauro, em
virtude da amizade que fizemos – o Cremasco foi colega na universidade e
em folhetos de poesia que fazíamos, assim como o Mauro, que morava e
estudava em Floripa, mas que só vim a conhecer depois que fui morar em
Curitiba - ele fazia cinema, muito inspirado em Glauber Rocha, e escrevia
em jornais e também em revistas que ele mesmo publicava, com uma postura
constestadora que muito me agradava – chegamos, eu e Mauro, a discutir a
publicação de uma revista, que teve um número apenas; passaram-se uns
anos em que que todos ficamos equidistantes até que, com a possibilidade
do e-mail, basicamente houve um reinício de conversa entre eu e cada um
deles e logo isso se tornou um grupo e formou-se uma cozinha de discussão
entre nós três, daí a idéia, incentivada por eles, de editarmos uma
revista. Relutei mais de um ano porque não acreditava muito que isso
fosse dar certo devido à absoluta heterogeneidade de idéias entre nós.
A idéia por fim se impôs sobre as diferenças e decidimos que a revista
devia ser aberta e não se caracterizar como sendo de um grupinho, como em
geral é o que acontece, devendo se diferenciar por refletir a cena
contemporânea com ecletismo de vozes, publicando alguns consagrados e
muitos novos que julgássemos interessantes. Para viabilizar isso
acertamos que, dado o caráter aberto da revista, convidaríamos várias
pessoas para participar. Dos que convidamos apenas a Susana abraçou a
causa e alguns outros se tornaram com o tempo colaboradores eventuais.
Somou-se a nós o Amir Brito Cadôr, de Santos, que agora mora em
Campinas, onde estuda Artes Plásticas, e faz a edição gráfica da
revista; e também o Paulo de Toledo, que mora em Santos e é redator de
propaganda, tem dado apoio. Ela é deficitária, ou seja: pagamos do nosso
bolso rachando as despesas, à exceção do primeiro número que foi pago
graças a um patrocínio conseguido pelo Mauro, de uma rede de
supermercados, e que possibilitou um arranque inicial importante. Quanto
à função de cada um, dividimos tarefas conforme nossas possibilidades;
em geral cada um tem suas leituras e traduções e sugere o que gostaria
de ver publicado. O Mauro tem feito uma espécie de relações públicas
com estrangeiros, enquanto eu dou mais atenção aos escritores locais, a
Susana faz uma ponte na universidade, o Marco e o Amir são livres
atiradores. Vamos discutindo uma pauta que vai se formando e fechamos a
edição buscando alguns ganchos que dêem a ela um rosto. Com a falta de
grana as edições têm se tornado anuais, o que dispersa demais a discussão,
mas possibilita que cada um use o tempo em suas próprias reflexões,
afinal editar uma revista toma um tempo danado pois há dezenas e dezenas
de pessoas querendo publicar, saber o que achamos de seus textos e ler
isso, selecionar, traduzir, responder... toma muito tempo, um tempo que
tem que ser encontrado entre o trabalho pra ganhar a vida e a família. CW - A propósito, como é fazer revista com um corpo de
editores translocal, cada um morando em um lugar diferente? Sem a
informatização e a net, isso seria possível? AD - Moro em Santos, o Mauro e a Susana em Florianópolis e
o Marco e o Amir em Campinas. A discussão vai se dando aos poucos por
e-mail, até fechar a edição. Já nos encontramos várias vezes e eu
pessoalmente os vejo com regularidade maior – já houve um debate
intenso em grupo mas essa possibilidade se esgotou e creio não ser mais
possível dada a diferença de pensamento entre todos; desse modo, tenho
sido o fiel da balança coordenando a continuidade da revista, com 5 edições
publicadas e a sexta em andamento – o que não quer dizer que não tenha
tido desavenças com os outros editores – tive e as superamos, creio que
porque já éramos muito amigos bem antes de começar essa cozinha que tem
sido a revista. Com certeza fazer uma revista como a Babel seria
muito mais difícil, talvez impossível, sem a internet e a fazemos com
certa obstinação porque é uma referência importante, um estímulo que
alimenta o trabalho de cada um. CW - Você partiu de alguma reflexão crítica sobre o
jornalismo literário atual, uma intenção de preencher um espaço vazio,
cobrir uma lacuna, algo assim? AD - Discutimos muito isso pois achávamos que lá por 1998
a 2000, quando começamos a pensar na Babel, havia creio que apenas
a Inimigo Rumor, muito circunscrita a um grupo do Rio, que considerávamos
fechada, e a Medusa, de outro grupo do Paraná, com pouco espaço,
a Cult, sem espaço naquele momento e mais comercial; havia o SL-MG, e a Dimensão. O
fato é que não era fácil ser aceito nesse clubinhos – todos enviamos
poemas a vários e não deu liga; nunca fomos dados a lobby,
de insistir até dar em alguma coisa. Diante disso concluímos que o cenário
precisava de uma revista mais aberta, que mostrasse de forma mais ampla e
crítica a riqueza da produção contemporânea, tida por nós como uma
Babel multifacetada que não cabia mais em caixas de ferramentas tão
específicas como era o caso da Inimigo publicando de certa forma
apenas herdeiros do modernismo e a Medusa não muito interessada em
novos desconhecidos. Era o que achávamos naquele momento. Há uma
diversidade maior de publicações hoje - Inimigo Rumor, Sibila,
Coyote, Sebastião, Rodapé, Etc, Cacto, Rascunho, Ácaro, SL-MG, Iararana,
O Escritor, Salamandra/Camaleoa, Ponto Doc, Gazua,
Cult além das inúmeras eletrônicas e blogs que já parecem
apontar a revolução do celular, um homem, um celular – um homem, um
site… CW - Admitida uma divisão de Babel em setores - inéditos
de autores brasileiros, traduções, artigos e resenhas, entrevistas e
depoimentos -, qual deles está mais bem resolvido? AD - Penso que a publicação de poesia brasileira
contemporânea está bem resolvida e sempre abrangente, tendo alcançado
um bom resultado na edição 5, a qual, somada às anteriores, dá um
painel interessante do cenário nesta década 00; os depoimentos e
entrevistas também têm sido pontos fortes na revista, assim como as
traduções de estrangeiros contemporâneos que até poderia ser mais
ampla se tivéssemos mais espaço, no que poderíamos reforçar ainda mais
a idéia de Babel, pois o
contato facilitado com estrangeiros hoje é algo concreto também –
temos feito algum trabalho especificamente com argentinos, mas há
contatos com norte-americanos, portugueses, franceses e escoceses. Há
pouco espaço, porém, para resenhas e críticas, sendo impossível
resenhar ou criticar tudo que sai publicado. CW - Continuarão os debates, provocações e exercícios
de pluralismo em Babel? Há uma intenção deliberada de procurar
matérias e entrevistados que possam gerar polêmica, de Waly Salomão a
Raúl Antelo? AD - Trata-se de um diferencial interessante e temos
buscado isso pois o que se vê em geral nas publicações são apenas
entrevistas mornas, mais empenhadas em conhecer o escritor ou ressaltar o
seu mais recente trabalho, fato que nem por isso as torna
desinteressantes, mas pensamos que a revista deveria ter essa
peculiaridade, provocar e abrir espaço para quem quer dizer o que
normalmente não se diz. Temos tido boa receptividade pois as entrevistas
ou depoimentos de Waly Salomão, Paulo Franchetti, Glauco Mattoso, Raúl
Antelo e Daniel Muxica têm esse diferencial de sair do lugar-comum. Mas há
também entrevistas interessantes como as de Luiz Nazário e Milton Hatoum
e uma que considero histórica pela sua abrangência e objetividade, com
Boris Schnaiderman. CW - O que você gostou mais de publicar em Babel,
quais matérias e autores lhe proporcionaram especial prazer por ter
podido fazê-los saírem? AD - O depoimento de Waly Salomão foi um, não só por ser
incomum uma vez que ele nunca foi dado a entrevistas ou testemunhos como o
que saiu em Babel, o que está
bem evidenciado lá. Foi um momento de sinergia interessante, em que ele
interagiu com as pessoas e o ambiente e falou do seu trabalho e de outros.
Gosto dessa interatividade que a entrevista permite, por isso elas são
algo que me deram prazer fazer na revista. Mas não é só isso. Não
consegui, por exemplo, um depoimento do Sérgio Rubens Sossélla, um
escritor algo obsessivo que mora no interior do Paraná e já publicou
cerca de 300 livros de forma artesanal. Passei uma tarde tomando café e
conversando com ele em sua biblioteca em Paranavaí enquanto ele fumava
pequenos charutos e esse foi um prazer que não pude dividir com ninguém
porque tive que desligar o gravador. Mas daí saiu uma amizade e uma troca
e ele passou a ser uma espécie de colaborador da Babel pois seus textos têm sido publicados nela com regularidade.
Ou seja: o trabalho com a revista tem possibilitado encontros, trocas,
conhecimento e permitido que não se fique no isolamento que pode levar à
estagnação. A publicação da revista levou também à elaboração de
um outro trabalho que julgo importante, que foi o convite da Imprensa
Oficial do Paraná, através do crítico Miguel Sanches Neto, para
elaborar uma antologia que resultou no livro Passagens
– Antologia de poetas contemporâneos do Paraná, com 28 escritores,
que fiz buscando fazer um balanço da produção desses poetas e também
para expor alguns problemas, não de todos, mas comum naquele Estado, como
a sombra do Leminski e a praga do haicai. Fora essa interatividade, há o
prazer de publicar novos autores ou que estejam subvalorizados ou
desconhecidos, mas que são interessantes, como Jairo Batista Pereira, que
ganhou um impulso positivo depois de sair em Passagens
– publicou um livro pela Editora Medusa e teve uma seleção de poemas
na Coyote, assim como Marcelo
Ariel, um poeta humilde de Cubatão que saiu em Babel
e depois na Cult e tem, com
isso, obtido uma valorização que talvez não conseguisse facilmente. Mas
há outros casos, como ter publicado poemas de Milton Hatoum, uma
entrevista com Boris Schnaiderman bem interessante, e a possibilidade de
fazer um mapeamento da produção contemporânea diferente das outras
revistas, mas que a elas se soma. CW - E o que falta fazer, o que precisa melhorar? AD - O problema fundamental de uma revista como Babel
é o de como pagá-la. Já tentamos via projeto pela Lei Rouanet mas não
conseguimos captar dinheiro. Vamos tentar novamente. Outro problema é que
geralmente os textos estão um tanto expremidos mas precisam sair naquele
espaço e naquele orçamento. Se tivéssemos melhores condições os
textos poderiam ser valorizados, respirar melhor na revista, poderíamos
melhorar a apresentação gráfica com ilustrações que sempre estiveram
subutilizadas porque o que mais importa é o texto e sobretudo há
necessidade de aumentar o número de páginas para pelo menos umas 180 por
edição, cuja regularidade ideal seria a semestral e não anual como
ocorre atualmente. Em termos de conteúdo, a leitura crítica de livros e
reflexões sobre poética mereceriam mais espaço. CW - Tiragem de algumas centenas de exemplares - isso é
inserção na elite cultural ou contingência? Há chances de crescimento? AD - Certamente que é contingência pois simplesmente não
existe um sistema de distribuição no Brasil que possibilite a existência
de pequenas publicações. Ou se está ancorado numa editora que tem um
catálogo e cuida disso (como Inimigo
Rumor e Sibila) ou se está
fora do mercado, mesmo porque é impraticável ficar enviando revistas a várias
livrarias e ficar administrando isso, quando o mais importante para os
poetas que se reúnem em torno de revistas é escrever, publicar e
circular seu trabalho entre os leitores ou os que estão envolvidos com
essa atividade. Com patrocínio, no entanto, fica mais fácil, como é o
exemplo das revistas Medusa e Coyote que, sem
precisar se preocupar com seu custo (financiadas por leis de patrocínio
municipal respectivamente em Curitiba e Londrina, possibilitando também
uma tiragem maior para distribuição), conseguiram distribuição via
Editora Iluminuras. No caso de Babel,
em que praticamente a custeamos com nossos recursos, não é possível uma
tiragem maior que 400 exemplares. Porém, com essa tiragem atingimos nosso
objetivo, que é fazer a revista circular entre um número significativo
de escritores no país e fora dele. Ou seja, por falta de recursos a
revista acaba confinada a essa elite que você menciona mas o que importa
é que ela exista e circule pelo menos entre esse conjunto de leitores, o
que já considero uma proeza neste país de triste miséria cultural em
que nem com uma lei de incentivo que prevê resgate de 100% do total
investido em livro se encontre empresário disposto ao patrocínio. De
minha parte não me encanto com a falácia iluminista, ou populista, de
“formar leitores”, de sair de porta em porta vendendo esse peixe, daí
que quando decidimos fazer a revista um pré-requisito foi o compromisso
de dividirmos as despesas quando não se conseguisse patrocínio e,
resolvendo a questão da distribuição, enviá-la às pessoas mais
atuantes na área. CW - Que lhe parece o aumento, quando não proliferação
de revistas de poesia e periódicos literários? Teria destaques,
positivos ou negativos, comentário sobre alguns deles ? AD - Temos hoje cerca de 10 revistas impressas dedicadas à
poesia no Brasil (Inimigo Rumor,
Poesia Sempre, A Cigarra, Azougue, Babel, Sebastião, Cacto, Sibila,
Coyote e Etc; Lagartixa e Gazua, só de poemas, e outras como Cult, Rodapé, Teresa, Ácaro,
Iararana, Calibán e Literatura,
ou jornais que a ela dedicam espaço como Rascunho,
SL/MG, O Escritor – e acho importante mencionar também a revista Medusa,
que embora tenha se extinguido após 10 edições, de certa forma faz
parte desse cenário, também ocupado em parte por Dimensão,
graças à legião de um homem só que é o Guido Bilharinho), o que
é um número insignificante para um país imenso como o nosso, em que a
quantidade de leitores é irrisória e de compradores menor ainda. Por
outro lado, essas publicações praticamente dão conta do registro do que
há de significativo no país contemporaneamente e, como uma rede, umas se
somando às outras, há interligações com escritores de outros países
também. Logicamente, considerando-se que nessa economia sem sistema literário
ter 10 revistas feitas por poetas, além dessas outras mais amplas em
conteúdo, é um acontecimento, pois várias surgiram motivadas pela
necessidade de ampliar o espaço sempre insuficiente para acomodar novos
escritores. São publicações muito diferentes umas das outras, algumas
mais importantes, outras menos - pelo conteúdo que estampam, mas prefiro
lê-las no conjunto, de onde se extrai uma riqueza de leituras, traduções
e experiências que vão do regionalismo desproblematizado, passando pelo
esforço de continuidade da herança modernista, e até mesmo pelo impulso
pop e contracultural vindo dos anos 60/70, que se atualiza pelo vigor
acrescentado por novos meios como a internet, sites e blogues. Acho
particularmente interessante a experiência ocorrida com Inimigo
Rumor, a mais antiga, com 14 edições, que, depois de 10 edições, o
que já é um fato a se comemorar, passou a ser co-editada com um grupo de
Portugal, criando-se um novo influxo à sua existência, trazendo às páginas
um calor de debate que antes não era comum, porque muito circunspecta. Na
edição 12, por exemplo, um ensaio de Marjorie Perloff sobre como se
resenha poesia nos EUA, traduzido pelos portugueses, abriu um debate muito
relevante, perfeitamente apropriado ao Brasil, que repercutiu na edição
seguinte e teve na Cacto também
uma resposta. A herança modernista às vezes é um fardo que extrapola
dos poemas e chega a dar a ela uma aparência acadêmica, universitária,
no que acaba por ser um ótimo contraponto para as outras revistas, mais
irreverentes, que apostam mais no risco e não estão tão preocupadas com
“a obra”, “a biografia” e outras cenouras idealizantes. Poesia
Sempre, além de estar presa aos humores oficialescos, tem tido uma
história um tanto beletrista, de e com fiducidade na ABL, mais para uma
literatura acomodada, no que Calibán
se parece com ela, assim como Literatura
e Iararana que, além disso,
em doses diferenciadas, apresentam também características regionalistas,
desproblematizadas, que as confinam. Acho muito boa também a Sibila
– num primeiro momento pareceu girar demais em torno de Regis Bonvicino,
mas cresceu em conteúdo e seu olhar para a literatura e arte
norte-americanas, contra, por exemplo, uma Inimigo
Rumor européia, é enriquecedor para nosso cenário. O investimento
de Sebastião, assim como Rodapé,
em análises das obras dos poetas em atuação é fundamental para quem
está escrevendo agora (é importante frisar isso porque em geral faz-se
isso na academia, nas universidades, mas em geral em relação a obras que
chegaram ao ponto final da morte do escritor). Com duas edições,
considero a experiência de Sebastião,
além de inédita, interessantíssima por nos dar de forma específica
os modos de se ler os poetas contemporâneos e seus métodos, por eles
mesmos. A Cacto, com duas edições, parece percorrer o caminho da primeira
fase da Inimigo Rumor, marcada
até no formato pela circunspecção e com ótimo investimento em poemas e
reflexão sobre poéticas brasileiras, com interesse pela geração que
deu base para a Inimigo Rumor,
afinidade afinal registrada no editorial do primeiro número. Já a Coyote, colocada ao lado dessas revistas todas, a Babel
inclusive, causa um choque pelo tratamento visual dado ao texto, com o
luxo de ter designers gráficos, os poetas Marcos Losnak e o também
editor Joca Reiners Terron – cujo ótimo trabalho na editora Ciência do
Acidente é um capítulo à parte nesse cenário; a poesia não é o único
interesse na Coyote, pois o que
a ordena é um conceito de cultura que expande a idéia de texto e
assimila todas as manifestações artísticas, da poesia à história em
quadrinhos, semioticamente; essa distinção em relação às outras
publicações me parece explicável pelo fato de que seus editores são
jornalistas, ou formados nessa área, possibilitando essa outra forma de
fazer uma publicação, experiência que se verificou também na revista Medusa,
embora lá a tônica visual fosse nas artes plásticas. É interessante
nessas duas a postura contracultural e a predileção pela cultura beat.
Na nova revista Etc o trato
visual é também um diferencial, menos contaminado que na Coyote,
e com exuberância para o texto, orientada pelo interesse em “literatura
& arte”. Porém o que mais me chama a atenção em todas essas
publicações, o que é comum nelas, é a atenção que têm dado a
escritores latino-americanos - cubanos, mexicanos e outros, mas sobretudo
argentinos, mantendo um interesse que sempre foi marcante em nossa cultura
– um dos objetivos apregoados pela Etc
é o de ser uma revista “do Brasil para as Américas”, ou algo assim,
conforme vi num informe, tal como muitas revistas já fizeram no Brasil.
Quanto à Cult, acho importante
seu papel de formadora de leitores por ser uma revista distribuída em
bancas, com outro formato – nesse sentido também é valioso o espaço
nela chamado Radar, dividido em
Gaveta de Guardados e Criação, dedicados a textos inéditos e a novos
escritores, além do que eventualmente ela cobre com esforço o que se
escreve e publica de interessante por muitas pequenas editoras que não
existem para as grandes publicações, procurando ousar, como na recente
edição dedicada a Paulo Coelho, resenhando sua obra e dedicando uma crítica
demolidora ao mais recente livro dele – ou indo entrevistar um autor que
ninguém quer saber, como é o caso de Mário Chamie, ainda que meio que
se desculpando por o estar entrevistando. Finalmente, caberia uma nota ao Rascunho,
que julgo importante pelo espaço que dedica à resenha do que se publica
no mercado, variando em qualidade, mas com cobertura que nenhum jornal
mais se digna fazer; é valioso o espaço que dá a poemas, traduções e
a entrevistas que podem ser consideradas históricas pelo tamanho e
amplitude – veja-se uma feita com Luis Vilela ou outra com Bernardo
Carvalho, entre várias outras. Seu cacoete, porém, é um certo encanto
com o opinionismo que teve em Paulo Francis seu modelo – aquele da
“metralhadora giratória”, que parece encantar particularmente o
Polzonoff. É um jornal feito por jornalistas – leitores -, ou seja, sob
esse aspecto, de fora do meio, pois não fiquei sabendo ainda de pretensões literárias deles. A postura que muitos
consideram belicista, de diatribe, comprovada em artigos contra o Marcelo
Mirisola, o Sebastião Uchoa Leite e agora o Arnaldo Antunes, prefiro ver
como irreverência e acho mesmo que eles têm a vocação de serem o Casseta
& Planeta literário nesse cenário – há um senso de humor
divertido naqueles comentários. Todas as publicações são sérias –
ou circunspectas - demais, salvo uma ponta de ironia na Coyote
e a irreverência da Ácaro –
que por exemplo tem um suplemento
chamado Menas! - Suplemento de Domingo,
para gozar o Mais! da Folha
e o Jornal do Brasil. Essa postura das publicações é uma expressão
sintomática do próprio meio, que às vezes parece um pasto, tantas as
vacas sagradas – ou elefantes..
– que não podem ser abatidas por nenhum tipo de crítica que logo se
parte para a ignorância
(Mirisola quis esmurrar o editor do Rascunho
num bar) ou se motiva abaixo-assinados e movimentos em defesa da moral e
dos bons costumes das letras – há uma contradição aí - ou tijolaços
ensaísticos como os que se sucederam em defesa do Elefante
e da poesia de Chico Alvim – que acho deliciosa (ocorridos na Folha, particularmente no Mais!
e no Jornal de Resenhas, por
Roberto Schwarz, assim como em outros veículos após crítica feita no Estadão
por Paulo Franchetti.) Trata-se, em verdade, de um meio muito
apaixonado, de aficcionados, o que
é superlegal, em que o percentual de egos blindados por metro
quadrado é muito alto, daí ser possível entender por que essa poesia
que se diz nada valer motiva tanta raiva, como a exposta no debate
circulado pela rede, havido entre os ex-editores da Medusa e agora entre os editores da Etc. Mas a poesia passa ao largo, como num poema: “Vai-se/ passa
por uma coluna/ e outra/ não olha/ dobra um vidro/ a última pilastra/
desaparece” – e aí está. CW - Como é isso, reportando-me a conversas nossas e
depoimentos seus, da concentração de novas publicações literárias na
região Sul-Sudeste? Isso tem lógica, alguma explicação? AD - A maioria estão em São Paulo e Rio de Janeiro por
serem naturalmente as grandes metrópoles do país e reunirem condições
para isso. Mas é realmente um fato curioso que haja uma efervescência
delas, principalmente no Paraná, onde hoje temos a Coyote
(com 5 edições), a Etc (com
2), a Babel (com 5 e a sexta em
preparo – embora não seja feita lá, ela tem quatro editores nascidos
no PR e com fortes vínculos locais), além da recente e extinta Medusa
(10 edições), do Radar (2 edições,
pela Imprensa Oficial do PR) - certamente lastreadas numa tradição
marcada pelas mais importantes que são: Joaquim,
publicada por Dalton Trevisan nos anos 1946-8 (recentemente reeditada
integralmente tal como era, pela Imprensa Oficial do PR), Nicolau, tablóide publicado nos anos 80 por Wilson Bueno, Raposa,
tablóide publicado por Miran nos anos 80, Ran
(publicada em Londrina pelos editores da Coyote,
nos anos 80) e até mesmo a estupenda revista Gráfica,
a mais importante, creio, da América Latina, na área de artes gráficas/arte
(mais de 40 edições, ainda circulando, editada por Miran – há uma edição
especial nas bancas, publicada pela Escala). Ou seja, pode-se sugerir que essa tradição seja
disseminante pois é impossível fazer uma publicação de qualidade no
Paraná desconhecendo a riqueza dessas outras que são exemplares na forma
como se colocaram em seu tempo, sem se afundar no regionalismo e no
bairrismo mediocratizante e dialogando com o melhor que se fazia no país
e fora dele. O Paraná é um Estado de colonização recente – veja-se
o caso do hoje rico norte do Estado em que há cidades como Londrina e
Maringá, que têm cerca de 50 anos de fundação
- a literatura produzida no Paraná esteve sempre circunscrita a Curitiba,
por ser capital e por estar integrada de forma sistêmica à vida
nacional, enquanto que o interior do Estado, de colonização incipiente,
cujas maiores cidades têm poucas décadas de existência, somente começou
a ter escritores e vida cultural muito recentemente. Muitas dessas publicações
têm sido feitas por escritores oriundos desse velho
oeste (o poeta Sossélla tem grande prazer em se imaginar um
pistoleiro em seus poemas, tributário do cinema clássico mas também
dessa vida no interior), que hoje é uma região de grandes cidades
industrializadas, em que a pobreza não é tão evidente quanto em outros
locais, embora exista, e que tem produzido artistas e escritores cuja obra
é marcada pela crítica social e política e pela irreverência: Cambé,
Arrigo Barnabé, Domingos Pellegrini Jr, Wilson Bueno, Itamar Assumpção,
Laerte, entre tantos outros, aos quais se somam os das novas gerações. No Rio Grande do Sul curiosamente não têm
havido – pelo menos que eu saiba – revistas como essas comentadas
aqui, embora lá haja um importantíssimo e muito peculiar mercado
editorial que tem vida própria, com escritores, editoras e o que é mais
incrível, leitores. Há, claro, o Eduardo Sterzi, que é gaúcho, mora em
São Paulo e co-edita com o Tarso de Melo a Cacto,
fato esse que não quer dizer nada naquela revista. Já em Santa Catarina
há várias editoras que surgiram nos últimos anos ou década e têm
publicado poesia, como a Semprelo, depois transformada em Letras Contemporâneas,
cujo editor é o Fábio Brüggemann, ou a Letradágua, do Joel Gehlen, atualmente fazendo um trabalho mais
importante que a Semprelo ao publicar poesia. No entanto lá também não
têm havido revistas, embora haja um movimento no sentido de mudar isso,
cuja tentativa importante foi a Linguarudos,
publicada por Dennis Radünz e Joel Gehlen no final de 2000, mas que não
teve continuidade, embora tenham a intenção de retomá-la este ano, o
que seria um fato importante, tendo em vista que as publicações lá
existentes que se dedicam à literatura e às artes, salvo uma ou outra
exceção na universidade (Cadernos
de Tradução, Travessia, Boletim do Nelic), são oficiais e inócuas
e enterradas no bairrismo. A título de fait
divers, como em Florianópolis moram dois dos editores da Babel,
ela já foi chamada de catarinense nos jornais locais, segundo essa forma
de pensar e apropriar das culturas locais, que é muito forte fora dos
grandes centros mais urbanizados São Paulo e Rio, o que considero um
problema pois é engessante do pensamento ao cair no regionalismo estéril,
muitas vezes rural, sem problematização, reforçado pelas falácias da
globalização. CW - Para terminar, faça comentários sobre periodismo
eletrônico em geral e Agulha em especial. Aliás, a propósito,
conexão ibero-americana o tem interessado? E conexão lusófona? AD - A Internet de fato proporcionou uma revolução de
comunicação pois as mais diversas e impensáveis revistas estão às
nossas mãos no mundo todo, o que é um problema, pois mal damos conta de
lermos os livros e publicações impressas. Mas não poderia ser
diferente, pois é muito mais simples e econômico fazer uma revista eletrônica
que uma impressa, além do que o público que se atinge é infinitamente
maior – o trabalho de contatos com o público e escritores e sua elaboração
é o mesmo, a diferença fundamental está na sua finalização e circulação.
Essa nova realidade exige versatilidade de leitura, seleção e compreensão
de ainda mais línguas e linguagens, o que é desafiador e estimulante
pois está havendo uma intensificação de criatividade com a proliferação
de meios. Escreve hoje para a gaveta quem quer, não por imposição –
ainda que se possa encontrar gente que escreve à mão por impossibilidade
econômica, social e política de acesso a um computador, conforme vi
recentemente em Cubatão. Tenho acompanhado o trabalho de alguns sites e
revistas eletrônicas, muitos de forma esparsa, caso dos portugueses, de língua
espanhola e outros. No Brasil leio regularmente a Agulha, na qual já tive ensaio publicado, com alguns ganchos
em outras revistas amigáveis como o TriploV, acompanho a Tanto,
a Weblivros e sempre dou uma olhada em outras publicações. Ou seja,
tenho uma relação de leitor com esse meio uma vez que não me interessei
em participar dele criando um site, um blogue ou uma revista eletrônica,
ainda que temos pensado em disponibilizar as edições da Babel na rede. Sei que há aí um terreno imenso de possibilidades a
se explorar, porém falta tempo para isso e tem sido divertido essa
excrescência que é fazer uma revista impressa, o que, por enquanto, tem
nos bastado. No caso da Agulha,
gosto da interatividade que há nela, o tratamento gráfico é primoroso e
as seções “galeria de revistas” ou “revistas em destaque” são
de uma importância de registro histórico incomum, assim como o conteúdo,
com particular destaque para o material sobre surrealismo, investindo num
campo pouco valorizado no Brasil. Por fim, a porta de entrada que se abre
para o mundo hispânico nela com links para outras publicações é
instigante, estendendo um trabalho do Floriano Martins com essas publicações
que já tive oportunidade de ver exposto. [diálogo realizado em
julho de 2003]
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