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corner (estados
unidos)
MEM - Pode-se dizer que a sua poesia, ao manter um diálogo
criativo com diferentes campos do saber, é um convite sempre instigante ao
exercício da pluralidade. Você não circunscreve sua palavra ao espaço
apenas da literatura, mas busca na filosofia, nas ciências ocultas, nas
artes plásticas e visuais, nas tecnologias contemporâneas e na história
muitos elementos para o seu processo de criação. Você poderia falar um
pouco sobre essas interseções de sua poesia com outras áreas? CC - Minha poesia é um coro de muitas vozes, uma pele com
múltiplas tatuagens. Severo
Sarduy definiu sua escritura como travestismo, metamorfoses contínuas,
referências a outras culturas, mescla de idiomas, múltiplos registros de
vozes, enfim muitos gestos. Estas idéias de Sarduy me seduzem e se aplicam
perfeitamente à minha poesia. Com registros diferentes, minha poesia
celebra muitos gestos. Na primavera de 1997, a revista norte-americana ANQ
editou um número especial dedicado à influência da poesia norte-americana
na obra de escritores hispânicos. Edward Stanton, o editor desse número,
convidou-me para colaborar. Eu não queria escrever um ensaio tradicional,
pois isso não iria responder à minha verdadeira relação com a literatura
norte-americana. Ou talvez deva dizer, em meu caso, a cultura
norte-americana. Ocorreu-me um ensaio bastante livre, à maneira de uma
colagem, a que dei o título de “From Mickey Mouse to Jack Foley; Chorus
with Multiple Tattoos” (De Mickey a Jack Foley. Coro com múltiplas
tatuagens). Digo que nesse ensaio apareceram muitos autores, músicos e
personagens de cartoons... me fascina o que disse John Cage sobre as
influências em suas composições, esse “Here Comes Eveybody” que o
compositor norte-americano tomou emprestado do Finnegans
Wake de James Joyce. Assim que meu HERE COMES EVERYBODY inclui Mickey
Mouse, o Gato Félix, Super Pipo (Goofy), Edgar Allan Poe, T.S. Eliot, Ezra
Pound, Henry Miller, Anaïs Nin, Anne Sexton, Mina Loy, Isaac Bashevis
Singer, Autor desconhecido, Louis Armstrong, Billie Holiday...
para citar apenas alguns dos convidados à festa. Creio que meu pai,
Francis Caulfield, foi quem me iniciou nessa dança de vozes. Não só
alimentando meu apetite com certos clássicos da literatura norte-americana,
mas também com a música. Talvez tudo venha de minha extraordinária paixão pelos
dicionários. Meu grande tesouro quando eu tinha 7 anos era um Larousse
ilustrado que eu protegia com intensa paixão. Também descobri na curiosa
biblioteca de nossa casa um livro sobre Paracelso. Assim começou minha paixão
pelos alquimistas. Anos mais tarde, em 1981, quando vivia em Zurique, não
apenas me deleitei enormemente passeando pelos portais em que Paracelso
havia pisado, como também pude consultar alguns tratados originais de
alquimia na Biblioteca Central da cidade. Se você for ao meu Libro de
los XXXIX escalones, um dos poemários mais “tatuados” de minha
obra, vai encontrar muitas referências à alquimia, à pintura – em
particular a surrealista (o livro está dedicado à pintora Remedios Varo)
– e ao autobiográfico. Além das edições limitadas desse livro (uma em
espanhol-inglês, publicada em Los Angeles; e a outra, em espanhol-italiano,
publicada em São Francisco-Veneza,), o
Libro de los XXXIX escalones saiu também em formato CD-Rom, em 1999,
com o subtítulo: “ a poetry game for discovery and imagination”, pela
InteliBooks, na Califórnia. O formato multimídia é quase ideal para o
tipo de poesia que gosto de fazer, um tipo de poesia hipertextual. O mais
importante desses poemas eletrônicos é que são interativos. Cada ação
do "leitor" -- clicar uma tecla, apertar um botão eletrônico no
mouse, etc.-- gera uma reação do poema. Textos que estavam ocultos se
mostram ou adquirem vida própria e algumas vezes são acompanhados de música
e sons. De fato, grande parte do livro está oculta à primeira vista e
depende da curiosidade do leitor descobrir esses aspectos de
hipertextualidade e intertextualidade latentes nos poemas. Meus trinta e
nove poemas dialogam com a pintura renascentista, a poesia sufí, a
alquimia, o misticismo judeu, a vanguarda e minhas memórias pessoais, tanto
escritas como fotográficas. O livro foi criado como homenagem ao labirinto
da imaginação e aos meus gatos, em particular a Amach, felino adivinho com
poderes de parapsicologia, um total mestre Zen, que morreu em setembro do
ano 2001. O teatro e a performance também influenciaram minha obra,
mas acho melhor não entrar nesse tema, porque ainda há outras perguntas
pelo caminho. MEM - Um outro aspecto de seu trabalho poético é o
experimentalismo. Você tem buscado sempre novas configurações de
linguagem para seus textos, sobretudo no campo das tecnologias contemporâneas.
Como você definiria sua relação com as estéticas de vanguarda? CC - No que se refere ao experimentalismo, cito como
exemplo de uma de minhas primeiras aventuras no computador o
disquete Visual Games for Words
& Sounds. Em 1993, desenhei com Servando González esse livro eletrônico
de hiperpoemas, aos quais chamei collaged poems, termo do poeta
norte-americano Jack Foley. Esse
livro experimental foi pensado como uma homenagem à vanguarda internacional
e ao misticismo. Há poemas na linha DADA que jogam com idéias budistas,
referências à literatura espanhola medieval e a Joyce. Neles, Cage volta a
ser uma presencia importante, assim como a música do compositor
norte-americano Alvin Curran. Há poemas em inglês, alemão, espanhol e
italiano. Os poemas ainda fazem uma homenagem à dança moderna (eu havia
assistido a uma oficina de dança com uma aluna de Alvin Alley e me sentia
inspirada) e, como sempre, trazem também o autobiográfico. Desse modo,
viajei por diferentes temas e experiências que estão muito relacionadas
com minha vida. Foi muito divertido criar esses jogos visuais, que hoje já
são parte do passado. Impossível vê-los nos novos computadores. Talvez
possamos falar de uma arte efêmera de computador. Meus collaged poems
foram um produto típico de nosso tempo, onde tudo padece de una rápida
condição de perecimento. Poderíamos seguir falando de experimentação por muito
tempo. Sou uma apaixonada pela vanguarda, tanto a européia quanto a
hispano-americana, e desde o ano de 1994 tenho estado muito atenta ao que
acontece na poesia experimental catalã. Passei longas temporadas em
Barcelona e pude participar do movimento catalão de poesia
experimental. Entre meus bons amigos catalães estão alguns poetas visuais
como Xavier Canals. Barcelona foi, desde 1890, um centro importante de
poesia experimental (pensemos nos caligramas de Antoni Bori i Fontestá e
nos caligramas e poemas visuais de Josep María Junoy y J.V. Foix), e
é hoje em dia um dos centros mais dinâmicos de poesia experimental
do mundo. Você encontra na Catalunha um movimento de polipoesia que tem uma
grande força. O termo poesia experimental, no caso, reúne muitas tendências:
poesia visual, poesia concreta, poesia objeto, poesia sonora, poesia fonética,
poesia vídeo, poesia ação. Alguns dos poetas mais conhecidos são Joan
Brossa e Guillem Viladot. Outros poetas inovadores são Xavier Sabater,
Carles Hac Mor, Esther Xargay, Enric Casassas, Albert Subirats,
Bartomeu Ferrando, Pere Sousa, Josep M. Calleja e Eduard Escoffet. Eu mencionaria ainda meu trabalho como editora de Corner,
revista eletrônica dedicada a la vanguarda (http//www.cornermag.org). Corner
nasceu graças ao meu interesse pela poesia visual catalã e ao grande estímulo
de Xavier Canals e do fotógrafo Teresa Hereu. O primeiro número do outono
de 1998 foi dedicado à vanguarda catalã, e nela os leitores podem ler uma
entrevista chave de Canals com Brossa. No ano de 1999, participei com
Corner na exposição Poesía
visual catalana, organizada por Calleja e Canals,
que foi inaugurada em 1999 no Centro de Arte de Santa M.
Essa exposição também poderia ter sido intitulada Here Comes
Everybody from Cataluña, já que estavam também presentes Ramon Llull
com algumas de suas “figuras combinatórias”. Como você pode ver,
sempre trato de estar em companhia dos experimentalistas. MEM - Você mencionou agora há pouco a presença do
trabalho da artista Remedios Varo em um de seus livros e acaba de confessar
sua paixão pelas vanguardas. Daí a inevitável questão: qual é a importância
do surrealismo para a sua poesia? CC - Esta pergunta me leva ao ano de 1995, quando ganhei na
Itália o prêmio Riccardo Marchi por uma coleção de três poemas em
espanhol e italiano (traduzidos por Pietro Civitareale). Chamou-me a atenção
o fato de a comissão julgadora ter considerado o “Para Cornelius” um
texto surrealista. A verdade é que, quando o escrevi não pensei na
poesia surrealista, mas na música experimental norte-americana e
inglesa, que escutei ao escrevê-los. Não creio que minha poesia tenha
muito do surrealismo. Nela há muitas presenças. Diferentes críticos a
chamaram de confessional, pós-moderna, etc. A verdade é que eu adoraria
ser mais surrealista. Me fascinam alguns poemas surrealistas de amor
escritos por Louis Aragon, René Char, Robert Desnos, Paul Eluard, Joyce
Mansour, Alice Paalen, Benjamin Péret, assim como as receitas de Remedios
Varo para quem quer ter sonhos eróticos. MEM - Um dos aspectos que mais me chamaram a atenção em
seu livro A las puertas del papel con
amoroso fuego é o uso de estratégias ficcionais. Você cria cartas apócrifas
de personagens históricos e literários, reinventa essas personagens e
forja relações amorosas entre elas. Essa prática do artifício, da encenação
de subjetividades fictícias, que aponta inegavelmente para os escritos de
Fernando Pessoa e Borges, não tem sido muito explorada pela poesia
contemporânea, mas permanece no campo da narrativa de ficção. Eu gostaria
que você discorresse um pouco sobre a presença dessas estratégias em sua
poesia. CC - O poeta e crítico Jack Foley disse uma vez que eu era
una poeta-arqueóloga. Embora eu deteste qualquer tipo de classificação,
essa denominação me encantou. Durante minha adolescência eu quis ser,
além de ser alquimista, atriz; e depois, mais que arqueóloga,
antropóloga. Mas ao final, o que estudei na Universidade de Habana foi
Historia, para depois dedicar-me à literatura, nos Estados Unidos. Daí
talvez me venha essa paixão por rastrear,
por descobrir marcas deixadas por outros, em particular por outras mulheres. A
las puertas del papel con amoroso fuego é um livro que se inspira em
parte nas Heróidas de Ovidio. Uma
de minhas leituras preferidas de todos os tempos foi A arte de amar,
de Ovidio. Como você se lembra, nesse livro o poeta convida à leitura
de Anacreonte, Safo, Menandro, Propércio, Tíbulo, Virgílio, e outros
poetas clássicos. Ele também convoca as
“estudantes” para ler seus Amores
e as Heróidas, sobretudo porque o segundo livro é um gênero novo do
qual se considera inventor (Ignotum
hoc aliis ille novavit opus). Bem, Ovídio, contrariamente a outros
poetas (veja o caso de Propércio, que fala de sua dívida poética com Calímaco)
não se declara herdeiro de nenhum outro poeta na criação de suas Heróidas.
Isso é certo, se bem que já existiam as elegias latinas, como as de Propércio,
que falam sobretudo do poeta como amante. Entretanto, o que faz Ovídio em
suas Heroides epistolae é
totalmente revolucionário. Ele explora os detalhes das histórias de suas
famosas heroínas (Medéia, Ariadna, Fedra...) e as transforma em amantes
modernas, especialistas na arte da retórica, com personalidades muito
definidas, distintas umas das outras. Digo que sou uma discípula moderna de Ovídio, a ele devo
minha inspiração para o poemário A
las puertas... Como nas Heróidas,
meus poemas têm o eco do famoso odi
et amo de Catulo (outro de meus mestres). Minhas heroínas, como a Fedra
de Ovídio, falam da escrita como uma paixão que domina todo tabu, toda modéstia,
conseguindo o que o discurso oral torna impossível. O livro começa com um
verso de Safo que diz: “y rota / calla la lengua, mientras la mano
escribe”. A las puertas... está
composto de 37 cartas de mulheres conhecidas e desconhecidas. Há nelas uma
espécie de “tragédia lúdica” que aprecio muito, já que o amor é
precisamente isso. Devo retomar o fio de tua pergunta e responder que sim, que
reinvento essas personagens de muitas maneiras diferentes, embora eu celebre
muito de suas vozes reais. É possível encontrar no livro
um gênero epistolar peculiar através dessa prática do artifício a
que você se refere. O leitor se depara com referências a cartas existentes
de mulheres famosas (Lucrecia Borgia, Isadora Duncan, Rosa Luxemburgo,
Carolina Lamb, Flora Tristán, Gertrudis Gómez de Avellaneda) que se
confundem (apesar dos embustes que uso muitas vezes para distinguir os
textos reais dos imaginários) com minhas próprias invenções e fantasias.
Entre essas mulheres não podia faltar a famosa Sóror Mariana de
Alcoforado, aquela monja portuguesa do século XVII, cujas cartas causaram
grande tumulto, e que mais tarde inspiraram um texto chave na historia do
feminismo português: as Novas
cartas portuguesas (Livro das três Marias) de 1971, obra escrita por Maria Isabel Barreño, Maria Teresa
Horta ee Maria Velho da Costa, considerada uma obra-prima e censurada quase
de imediato pelo governo português. Você menciona Pessoa e Borges, os grandes mestres da ficção.
Interesso-me sobetudo pelas máscaras líricas, daí que a heteronímia e as
ideologias estéticas de Pessoa sempre tenham me seduzido. Embora tudo já
esteja nos poetas malditos, esse “ser el otro que es uno mismo para ser
además ‘je suis plusieurs’”. Nas ficções de Borges há uma
consciência irônica de armadilhas e abismos, que me inspira.
Definitivamente, sou partidária do sujeito múltiplo. Meu poemário Oscuridad
divina é outro jogo de máscaras. É um livro de 1985, data em que me
inicio no “eu sou outras”,
mas não com mulheres reais da história, mas com deusas da
mitologia universal, muitas delas pouco conhecidas. Tanto Oscuridad
divina quanto A las puertas
navegaram com boa sorte no mundo literário, com prêmios e várias edições em diferentes idiomas. A
editora InteliBooks publicou, em outubro de 2001, uma edição bilíngüe
(español/inglês) de A las puertas...
Já Oscuridad
foi publicado na Itália em 1990, alguns anos depois de que receber o Premio
“Ultimo Novecento” de Poesia. MEM - Ainda com relação à questão do jogo de
subjetividades, como você explicaria o paradoxo do título de seu último
livro, Autorretrato en ojo ajeno?
Seria mais um exercício de “otredad”? CC - Você torna a me colocar no olho alheio... a refletir
sobre meus olhares. A verdade é que esta é uma pergunta difícil, mas
tentarei respondê-la. A abetura do
livro é a chave de muitos poemas do mesmo. Optei por colocar nela um de
meus quadros favoritos, que está no Kunsthistoriches Museum, de Viena, e se
chama Autoritratto nello specchio
convesso,
de Francesco Mazzola, conhecido como Parmigianino (1503-1540). Comecei a
escrever os poemas desse livro precisamente em Viena, depois de uma visita
de mais de três horas ao meu amado quadro. O livro está dividido em duas
partes: En un espejo convexo e Tríptico
de furias. Pessoa aparece mencionado em um dos poemas, que se intitula
“Desde una ventana de San Francisco”. Mas voltemos ao quadro em que Parmigianino olha o que o
olha em um exercício de “otredad”, com um certo desafio irônico. Meu
livro é esse olhar-me e descobrir-me em um jogo de sombras chinesas:
“Hasta el eje sediento de mi centro / no existe ningún espejo claro”.
Em meus poemas o sujeito poético usa um disfarce para não ser descoberto
de todo, mas também o tira para ser descoberto. Autorretrat... é ao mesmo tempo um livro de poesia erótica e uma
homenagem à pintura. MEM - Quais são os seus “livros de cabeceira”? E em
que intensidade os autores que você ama interferem em seu próprio processo
criativo? CC - Meus livros de cabeceira são muito variados. O Oráculo
manual y arte de prudencia,
de Baltasar Gracián, me ajuda a sobreviver dia a dia, e a não morrer presa
nas intrigas e no caos do mundo. Outra de minhas bíblias é Il
Grande Lupo Alberto, um livro dedicado ao famoso e simpático lobo
italiano criado por Silver. Este é um livro em quadrinhos que me faz feliz.
Outros livros que têm me acompanhado durante muito tempo são Zen
in the Art of Archery,
de Eugen Herrigel; uma antologia de poesia irlandesa; um livrinho de
haikais; uma tradução para o inglês da poesia completa de Catulo; Open Closed Open, antologia da poesia de Yehuda Amichai; De
umbral a umbral, de Paul
Celan; Variaciones sobre el pájaro y la red con La piedra y el centro, ensaios de José Angel Valente; a
correspondência entre Maiakovski e Lili Brik, bem como a de Kurt Weill com
Lotte Lenya. Também El
pulso de las cosas, antologia poética de Henri Michaux,
e La casa de cartón, de Martín Adán. Eu diria que Valente, Celan y Amichai me ensinam a ser
poeta. Há outros autores que me apaixonam, entre eles Trakl, mas prefiro não
seguir acrescentando nomes à lista, já que teria que ir à Idade de Ouro
espanhola e à poesia italiana. MEM - Como você avalia, em termos gerais, a poesia
latino-americana de hoje? Quais seriam as principais linhas de força da
produção poética de nosso continente? CC - A poesia latino-americana que mais conheço é a
mexicana. Sempre me interessei muito pela geração dos Contemporâneos, em
particular José Gorostiza e Gilberto Owen (latino-americano-irlandés como
eu). Também fui, há muitos anos, uma leitora voraz de Octavio Paz. Dos
poetas mais jovens, digamos dos nascidos depois dos anos quarenta,
tenho alguns favoritos: Francisco Hernández, Coral Bracho, David
Huerta, Elva Macías,Gloria Gervitz, Pura López Colomé e Eduardo Milán,
entre outros. Do Brasil: Cecília Meireles, Adélia Prado e Maria Esther
Maciel. Nos últimos meses tenho lido Floriano Martins. Da poesia argentina
conheço bem a obra de Alejandra Pizarnik e Luisa Futoransky. A segunda parte de tua pergunta me obrigaria a assumir o
papel de crítico literário e, além disso, não creio que conheça o
suficiente de poesia latino-americana para respondê-la. A única coisa que posso comentar é que encontro na poesia
latino-americana muita ousadia iluminadora. Há poetas que me surpreendem
constantemente com suas explorações da linguagem, em seu dizer
barroco-surrealista, em seu
equilíbrio e sua desmesura. MEM - Você poderia falar um pouco sobre a poesia cubana
feita nos Estados Unidos? Como você trabalha a questão do exílio em sua
própria poética? CC - Da poesia cubana escrita em espanhol nos Estados
Unidos a que mais me interessa é a escrita por mulheres, com a exceção da
poesia de José Kozer e Jesús J. Barquet. Tenho me dedicado ao estudo crítico
da obra de Juana Rosa Pita e Magali Alabau. Na poesia de Pita há muita
inovação idiomática e uma linguagem coloquial que me atraem. Encontramos
em sua obra uma grande insatisfação com a história oficial, e ela, com
grande ousadia, a reescreve através do mito. Suas propostas inovadoras estão
bem representadas em Viajes de Penélope
y Crónicas del Caribe. Já Magali
Alabau é uma das poetas cubanas mais transgressoras da atualidade. Sua
poesia é herdeira de sua experiência cênica, já que a poeta se dedicou
durante vários anos (tanto em Cuba quanto em Nova York) ao teatro, como
atriz e diretora. Me interessa também em Alabau a sua reescritura audaciosa
dos mitos clássicos a partir de uma posição feminista. Isto vemos
sobretudo na sua Electra, Clitemnestra. Mas seus livros La extremaunción diaria e Ras
é que se destacam como obras essenciais para se entender a realidade
alienante e insuficiente que rodeia o escritor exilado. A cidade de Nova
York é o espaço principal onde a poeta conduz seus enfrentamentos
humanos/sua busca do ser. Alabau transtorna os pontos de referência do
considerado “normal” e cria dimensões espantosas a partir do olhar do
sujeito poético insatisfeito, um sujeito que se vale do
paradoxo, da ironia e do
humor negro para ler a cidade e a casa/corpo, a partir de zonas de
excentricidade. Também me interessa muito o tema da violência nessa
poesia. Outras poetas relevantes são Maya Islas, Alina Galliano y
Lourdes Gil. Publiquei dois livros dedicados às poetas cubanas da diáspora:
Web of Memories, Interviews with Five
Cuban Women Poets e Voces viajeras,
que é uma antologia voltada para o tema da peregrinação e da viagem em
poetas cubanas. Nela incluo também outras poetas que não vivem nos Estados
Unidos. Meu primeiro livro, 34th
Street and other poems, escrito em Nova York nos anos oitenta, pode ser
inserido, em parte, dentro do espaço da poesia cubana da diáspora, quanto
ao tema da nostalgia. É um livro dedicado à minha mãe e que narra
poeticamente muitas de minhas experiências na cidade de Nova York. Não com
o dilaceramento que encontramos na poesia de Alabau, mas com um olhar crítico,
e até certo ponto harmonioso, de um sujeito poético em viagem de
descoberta e de rememoração da infância. Cheguei a Nova York, saída de Zürich,
em 1981, e embora minha vida não tenha sido um paraíso do ponto de
vista material, Nova York foi meu espaço cosmopolita de iniciação como
poeta, uma moderna urbe que me enriqueceu culturalmente. O resto de minha obra deixa para trás essas referências do exílio, até o Libro de los XXXIX escalones, no qual regresso a Havana e a Zürich, e sobretudo à minha meninice. Mas, agora, através de jogos alquímicos e leituras de quadros surrealistas. Jesús J. Barquet, um dos críticos que com maior argúcia estudou minha poesia, disse que grande parte de minha obra resulta excêntrica dentro da poesia cubana do exílio, mas ao mesmo tempo trata de encontrar traços do cubano em minha poesia a todo custo, como um bom detetive. Barquet disse que meus malabarismos e exotismos não foram nunca alheios à poesia cubana, e menciona Julián del Casal e José Lezama Lima. O livro de Barquet, Escrituras poéticas de una nación: Dulce María Loynaz, Juana Rosa Pita y Carlota Caulfield, publicado em Havana pelas Edições Unión em 1999, é uma boa fonte para os leitores que se interessem em rastrear minha identidade cubana. Definitivamente, não me interessa defender nenhuma identidade em particular, talvez a única que me atreva a defender seja a de poeta. |
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