![]() |
revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003 |
|
São Paulo, 1960: encontros, anarquia & provocações Claudio Willer
E repito: nada de saudosismo. Evocações, subentendendo que
algum período fosse melhor que o presente, desconhecem que sempre é possível
indicar aquilo que piorou e aquilo que melhorou. Inadmissível dar como
superior um período no qual, mesmo antes da tomada do poder pelos
militares em 1964, havia censura. O escândalo de 1959, por exemplo, foi a
proibição do hoje inócuo Les Amants de Louis Malle, por causa da
sugestão de um orgasmo. Teatro, então, que pente fino usavam para
determinar o que podia ser encenado. Palavrões e sexo, sem chance. Hoje,
vivemos em uma sociedade mais aberta, com outro nível de participação,
de exercício da cidadania e direitos fundamentais, a comunicação e o
acesso à informação são mais fáceis, e metrópoles como São Paulo
oferecem uma agenda cultural incomparavelmente superior. Exceto pelo seguinte: além das desigualdades sociais mais
tênues, era tudo barato. A facilidade de acesso ao dinheiro e, quando
necessário, ao mercado de trabalho, ajudou a fazer florescer uma cultura
jovem e juvenil, rebelde e anárquica em seus melhores momentos. Vivendo
de pequenos salários, de mesada, de nada, podia-se ir a restaurantes,
freqüentar quase todos os lugares, enfrentar uma diversidade de
programas. E comprar livros, mesmo apertando orçamentos e recorrendo a
empréstimos lícitos ou ilícitos. Anarquia de então e transgressão do comportamento não
eram nada, comparadas ao que acontece em qualquer festa rave, baile
funk ou casa noturna. Talvez fossem mais engraçadas, mais
impregnadas de humor. Tinham um caráter de exceção e um sentido político,
ao se contraporem a uma sociedade fechada, regrada, que justificava
usarmos, de modo quase maniqueísta, as categorias de “burguês” e
“antiburguês” para indicar quem estava de qual lado. Não era para
menos: lembro-me bem da noite na casa do poeta da geração de 45, sua
esposa, exaltada, a repudiar o recém-publicado Paranóia de
Roberto Piva (Massao Ohno editor, 1963, segunda edição Instituto
Moreira Salles, 2000 – ver, a propósito, meu artigo Poeta em São Paulo, na Agulha
# 6): “Mas como? Poesia, com esses palavrões? Willer, você que é
inteligente, como pode admitir uma coisa dessas?” Aquela gente convidava à provocação. Por essa e por
outras razões, levamos, alguns de nós, uns vinte anos até sermos lidos. O termo “transgressão do comportamento” é de Georges
Bataille, que a distingue da “transgressão do pensamento”. Essa sim,
vale do mesmo modo. Não usamos mais as mesmas roupas; não freqüentamos
os mesmos bares; dificilmente re-encenaríamos aquelas confusões. Mas os
livros que lemos, bem como as músicas que ouvimos, os filmes e muitas das
peças teatrais a que assistimos, não perderam em atualidade e
contemporaneidade. Falei há pouco de agenda cultural mais rica e
diversificada; porém, em matéria de livrarias, a São Paulo de quarenta
anos atrás ganhava folgadamente desta de hoje. Ia à Biblioteca Mário de
Andrade para pesquisas e consultas. Menos que nas últimas duas décadas
como espectador, coordenador ou protagonista de sessões em seu auditório.
Nem precisava, pela oferta de títulos de qualidade em estabelecimentos
como a Livraria Francesa, as importadoras de livros mexicanos e
argentinos, Ler e Mestre Jou, o Palácio do Livro na Ipiranga, com um
estoque impressionante de pockets, a Parthenon, entre outras. E
havia mais: – a Livraria Italiana e as tradicionais brasileiras, como
Teixeira, Jaraguá e Brasiliense. Até mesmo, durante alguns anos, a
Editora Ibrasa manteve uma livraria no térreo do prédio onde eu morava,
onde achei os Tristes Trópicos e uma boa edição das poesias de
Rafael Alberti. Resumindo: havia de tudo. O mundo nos era apresentado
através de capas de livros. Comprávamos na Livraria Francesa os volumes
da obra completa de Artaud, publicados pela Gallimard, à medida que estes
iam saindo; na Ler, o excelente periódico literário mexicano El Corno
Emplumado; meus primeiros Kerouac e Henry Miller, achei-os no Palácio
do Livro; outras edições da Beat, as da City Lights, tínhamos como fazê-las
vir de San Francisco. A renovação do estoque da Biblioteca não tinha
como acompanhar o ritmo acelerado de nossas leituras.
Mas, durante quase dez anos, freqüentei o entorno da
Biblioteca de modo regular. Não podia deixar de fazê-lo. Morando onde
morava, não havia escapatória: bastava descer, para circular pela região
onde se dava um febril cruzamento de vida cultural, boemia e desfile de
toda sorte de tipos. Não é o caso de entoar novamente o réquiem do Paribar ou
do Barbazul, tão bons ou medíocres quanto infinitos locais de ontem e de
hoje. Bares e casas noturnas não são o Jardim do Éden. Interessam pela
gente que os freqüentou, cujo ponto de confluência, no que me concerne,
foi o "Leco". Ninguém sabe por quê aquela alternativa menos
refinada ao Paribar, chamada La Crémerie, ganhou esse apelido. Ali se
cruzavam intelectuais e artistas de diferentes campos e matrizes,
estudantes, rapazes que correspondiam ao que então chamavam,
genericamente, de "playboy", vindos do hábitat natural, a Rua
Augusta, pederastas, mulheres de todos os tipos. E os excêntricos
amistosos, espécie diferente dos loucos furiosos e dos chatos. Um deles,
um senhor aposentado que desenvolveu um modelo de física no qual a repulsão
substituía a gravitação. Transformara o bar em segundo lar, e sua mesa
servia de ancoradouro para quem ia chegando. Certa noite, despediu-se
dizendo que estava com gripe e iria para casa beber bastante água gelada
a fim de matar os bacilos. Dias depois, soubemos de sua morte, de
pneumonia. Aterrissar naquele trecho, pontilhado de indicadores de
mudanças, permitia realizar todas as possibilidades do encontro casual:
conversas banais, discussões de atravessar a noite, uma farra, uma
paquera trivial, um novo caso amoroso, fugaz ou duradouro. Precedendo a
contracultura, preparando-lhe o campo, o sexo havia-se desconfinado e
estava à solta, fazendo parte da vida da cidade. Não era mais coisa da
"zona", assim como ter relações mais íntimas com uma
namorada, aos poucos, deixava de ser um drama. Mulheres desacompanhadas
sugeriam todo tipo de relação, desde as garotas para levar no carro até
companhias para uma noite de conversa sobre poesia ou cinema ou os mistérios
da existência. Sinal dessa abertura, os pederastas, antes reduzidos, em
sua parcela aparente, a dois ou três freqüentadores de uma cafeteria da
Avenida São João e aos espécimes que atuavam na porta do Cine Marabá,
já podiam circular como pessoas iguais às outras. Que densidade de equipamentos culturais e pontos de
encontro naqueles poucos quarteirões! Na paralela, a Rua Sete de Abril,
funcionavam o MASP, o Bar do Museu e o auditório da Cinemateca, tudo isso
no prédio dos Diários Associados, mais um botequim de cineastas e
jornalistas, além do Cine Coral dos filmes de arte, europeus (de Dante
Ancona Lopes, que depois abriria o Belas Artes). Na outra paralela, Barão
de Itapetininga, as livrarias Francesa, Brasiliense e Parthenon, mais a
casa de chá Viena, com orquestra e tudo, e o cineclube do Centro Dom
Vital (debate sobre novos poetas, 1963, um da geração cinco anos
anterior, dedo em riste para nós da mesa, histérico: “Ser brasileiro
é ter tido uma infância normal..! É ter tido uma infância normal..!”
– como as pessoas se exaltavam com facilidade...). Na transversal, Rua
Marconi, a Livraria Teixeira das tardes de autógrafos. Atrás do Caetano
de Campos, a Livraria Ler. Na Ipiranga, o Palácio do Livro, todos os
pockets do mundo. Na Martins Fontes, a Livraria Mestre Jou.
Incrível: exceto a Livraria Francesa, nada disso existe.
Acabou tudo! Só a Biblioteca Mário de Andrade subsiste e resiste,
isolada, solitária. Repito: São Paulo não era nenhum paraíso e sempre
foi caótica. Mas, mesmo assim, para a descrição adequada do que temos
hoje na mesma região, a paisagem de garotos da cola e crack, assaltantes,
caos de barracas de camelôs, prédios sujos e rabiscados, teria que
adotar o tom de profeta raivoso do admirável Abraçado ao meu rancor,
de João Antonio. Até que ponto tudo aquilo gravitou ao redor da Biblioteca
Mário de Andrade, e se constituiu por causa dela? Os bares na praça Dom
José Gaspar e na Avenida São Luiz, teriam eles sido locais de encontro,
chegada e partida, se a Biblioteca houvesse sido construída, digamos, na
Praça do Patriarca ou na João Mendes? Vá-se saber. Faz sentido a hipótese
da irradiação, dos círculos concêntricos. Por comodidade, talvez, Sérgio
Milliet, um de seus fundadores e seu diretor, deslocava-se alguns metros,
a separarem seu expediente diurno e o início do expediente noturno no
Paribar, assim como outros de seus freqüentadores, inclusive os jovens
intelectuais hoje conhecidos como Os adoradores da Estátua.
Isso é relatado nos artigos de Bento Prado Jr. e Manoel Carlos publicados
no vol. 50, de 1992, da Revista da
Biblioteca Mário de Andrade (Secretaria Municipal de Cultura de São
Paulo). Aliás, eu estava na festa à fantasia ao fim da qual um grupo foi
lá, de madrugada, para tentar roubar a estátua de Dante Alighieri: esta
desabou sobre a cabeça do excelente poeta Celso Paulini (a quem examinei
na Agulha # 16), que acabou sendo levado, ensangüentado e ainda
vestido de grego, ao pronto-socorro. Ou não. Literatos não promovem transformações urbanas
nessa escala. São Paulo tinha um perfil bem definido nas décadas de 50 e
60. Com a identidade celebrada e afirmada por ocasião do seu Quarto
Centenário, tornava-se metrópole. Sua vida cultural tinha uma agenda
balizada pela criação do TBC, seguido por ramificações, Teatro Sérgio
Cardoso e Maria Della Costa, e dissidências, Arena e Oficina,
possibilitando a vida teatral, mais a Bienal de artes plásticas, e os
grandes museus, MASP, MAM e MAC. Foi quando a Avenida São Luiz adquiriu
importância, recebendo pessoas e atividades transferidas do Centro Velho
para o Centro Novo, atravessando o Viaduto do Chá. A mudança, que
incluiu a passagem estudantil do Largo de São Francisco para a Rua Maria
Antônia, da Academia para a Filosofia, não foi só de lugares, mas de
conteúdos. O ambiente mais arejado incluía uma intensa vida musical,
da Bossa Nova (seu pólo, o Juão Sebastião Bar) aos festivais da Record
onde, em 67, seria revelada a Tropicália, passando pela revitalização
do rock e afirmação da Jovem Guarda. No cinema, além do aparecimento do
Cinema Novo, a renovação da cinematografia européia, com a nouvelle
vague que, a partir de 1959, mostrou filmes que eram manifestos libertários,
a exemplo do Acossado de Godart,
revoluções na linguagem, como Hiroshima
meu amor e O ano passado em
Marienbad de Resnais, e outros protagonizados por gente parecidíssima
conosco, como Os Primos de Chabrol. Os italianos se apresentavam
com o Fellini de Dolce Vita
(quantas vezes o revi com a sensação de ter estado naquelas festas) e a
ruptura de Oito e Meio, além do Antonioni de A Viagem e A Noite, o
Visconti de Rocco e seus Irmãos,
as parcerias Bolognini – Pasolini. Essas obras mostravam vidas, inquietações
e rebeliões em que se espelhavam jovens de classe média, entre os quais
prevalecia um difuso existencialismo. Um acontecimento marcante, a visita
de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir a um país mais distante da
Europa, menos visitado por celebridades. São Paulo cabia nos teatros João
Caetano e Cultura Artística, locais de palestras de Sartre e Simone.
|
|
Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm). Página ilustrada com obras da artista Ileana Moya (Costa Rica). |