revista de cultura # 35 - fortaleza, são paulo - agosto de 2003






 

São Paulo, 1960: encontros, anarquia & provocações

Claudio Willer

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Claudio WillerTalvez seja o caso de pôr on line mais alguma informação factual, complementando Meditações de Emergência, a entrevista comigo por Roberto Piva publicada em Agulha # 34. Retomo o que escrevi em outros lugares, especialmente no posfácio para a Antologia Poética da Década de 60, organizadores Carlos Felipe Moisés e Álvaro Alves de Faria, Nankin Editora, 2000; e o que foi dito no documentário em vídeo Uma outra cidade de Ugo Giorgetti, por mim e pelos demais protagonistas, Antonio Fernando de Franceschi, Jorge Mautner, Roberto Piva e Rodrigo de Haro.

E repito: nada de saudosismo. Evocações, subentendendo que algum período fosse melhor que o presente, desconhecem que sempre é possível indicar aquilo que piorou e aquilo que melhorou. Inadmissível dar como superior um período no qual, mesmo antes da tomada do poder pelos militares em 1964, havia censura. O escândalo de 1959, por exemplo, foi a proibição do hoje inócuo Les Amants de Louis Malle, por causa da sugestão de um orgasmo. Teatro, então, que pente fino usavam para determinar o que podia ser encenado. Palavrões e sexo, sem chance. Hoje, vivemos em uma sociedade mais aberta, com outro nível de participação, de exercício da cidadania e direitos fundamentais, a comunicação e o acesso à informação são mais fáceis, e metrópoles como São Paulo oferecem uma agenda cultural incomparavelmente superior.

Exceto pelo seguinte: além das desigualdades sociais mais tênues, era tudo barato. A facilidade de acesso ao dinheiro e, quando necessário, ao mercado de trabalho, ajudou a fazer florescer uma cultura jovem e juvenil, rebelde e anárquica em seus melhores momentos. Vivendo de pequenos salários, de mesada, de nada, podia-se ir a restaurantes, freqüentar quase todos os lugares, enfrentar uma diversidade de programas. E comprar livros, mesmo apertando orçamentos e recorrendo a empréstimos lícitos ou ilícitos.

Anarquia de então e transgressão do comportamento não eram nada, comparadas ao que acontece em qualquer festa rave, baile funk ou casa noturna. Talvez fossem mais engraçadas, mais impregnadas de humor. Tinham um caráter de exceção e um sentido político, ao se contraporem a uma sociedade fechada, regrada, que justificava usarmos, de modo quase maniqueísta, as categorias de “burguês” e “antiburguês” para indicar quem estava de qual lado. Não era para menos: lembro-me bem da noite na casa do poeta da geração de 45, sua esposa, exaltada, a repudiar o recém-publicado Paranóia de Roberto Piva (Massao Ohno editor, 1963, segunda edição Instituto Moreira Salles, 2000 – ver, a propósito, meu artigo Poeta em São Paulo, na Agulha # 6): “Mas como? Poesia, com esses palavrões? Willer, você que é inteligente, como pode admitir uma coisa dessas?”

Aquela gente convidava à provocação. Por essa e por outras razões, levamos, alguns de nós, uns vinte anos até sermos lidos.

O termo “transgressão do comportamento” é de Georges Bataille, que a distingue da “transgressão do pensamento”. Essa sim, vale do mesmo modo. Não usamos mais as mesmas roupas; não freqüentamos os mesmos bares; dificilmente re-encenaríamos aquelas confusões. Mas os livros que lemos, bem como as músicas que ouvimos, os filmes e muitas das peças teatrais a que assistimos, não perderam em atualidade e contemporaneidade.

Falei há pouco de agenda cultural mais rica e diversificada; porém, em matéria de livrarias, a São Paulo de quarenta anos atrás ganhava folgadamente desta de hoje. Ia à Biblioteca Mário de Andrade para pesquisas e consultas. Menos que nas últimas duas décadas como espectador, coordenador ou protagonista de sessões em seu auditório. Nem precisava, pela oferta de títulos de qualidade em estabelecimentos como a Livraria Francesa, as importadoras de livros mexicanos e argentinos, Ler e Mestre Jou, o Palácio do Livro na Ipiranga, com um estoque impressionante de pockets, a Parthenon, entre outras. E havia mais: – a Livraria Italiana e as tradicionais brasileiras, como Teixeira, Jaraguá e Brasiliense. Até mesmo, durante alguns anos, a Editora Ibrasa manteve uma livraria no térreo do prédio onde eu morava, onde achei os Tristes Trópicos e uma boa edição das poesias de Rafael Alberti. Resumindo: havia de tudo. O mundo nos era apresentado através de capas de livros. Comprávamos na Livraria Francesa os volumes da obra completa de Artaud, publicados pela Gallimard, à medida que estes iam saindo; na Ler, o excelente periódico literário mexicano El Corno Emplumado; meus primeiros Kerouac e Henry Miller, achei-os no Palácio do Livro; outras edições da Beat, as da City Lights, tínhamos como fazê-las vir de San Francisco. A renovação do estoque da Biblioteca não tinha como acompanhar o ritmo acelerado de nossas leituras.

Ileana MoyaAlém disso  (a propósito de freqüentar pouco a Biblioteca Municipal), políticas culturais públicas eram algo inexistente, ou sem importância, naquela época. Depois do decisivo momento inicial, da criação do Departamento de Cultura por Mário de Andrade, Paulo Duarte, Rubem Borba de Morais, Sérgio Milliet, houve, sem dúvida, um refluxo. Para os Prestes Maia e Faria Lima, os prefeitos mais importantes do período que estou examinando, governar não era muito mais que construir avenidas. Lembro-me de uma mostra da Catequese Poética de Lindolf Bell na Biblioteca, em sessenta e poucos. Contudo, as demais leituras de poesia e manifestações correlatas de que participei ou tive notícia foram em outros lugares, nos teatros como o Arena e Ruth Escobar, bares como o Juão Sebastião, auditórios e salas como o Centro Dom Vital e até a ACM. Regularidade nas programações do auditório da Biblioteca Mário de Andrade é algo que vem, com poucos lapsos e quebras de continuidade, de 1980 para cá. Esperando não confundir a história da administração cultural pública de São Paulo com minha própria biografia, sei que, desde o lançamento da programação Escritor nas Bibliotecas, naquela época, volta e meia tenho estado aí; antes, não.

Mas, durante quase dez anos, freqüentei o entorno da Biblioteca de modo regular. Não podia deixar de fazê-lo. Morando onde morava, não havia escapatória: bastava descer, para circular pela região onde se dava um febril cruzamento de vida cultural, boemia e desfile de toda sorte de tipos.

Não é o caso de entoar novamente o réquiem do Paribar ou do Barbazul, tão bons ou medíocres quanto infinitos locais de ontem e de hoje. Bares e casas noturnas não são o Jardim do Éden. Interessam pela gente que os freqüentou, cujo ponto de confluência, no que me concerne, foi o "Leco". Ninguém sabe por quê aquela alternativa menos refinada ao Paribar, chamada La Crémerie, ganhou esse apelido. Ali se cruzavam intelectuais e artistas de diferentes campos e matrizes, estudantes, rapazes que correspondiam ao que então chamavam, genericamente, de "playboy", vindos do hábitat natural, a Rua Augusta, pederastas, mulheres de todos os tipos. E os excêntricos amistosos, espécie diferente dos loucos furiosos e dos chatos. Um deles, um senhor aposentado que desenvolveu um modelo de física no qual a repulsão substituía a gravitação. Transformara o bar em segundo lar, e sua mesa servia de ancoradouro para quem ia chegando. Certa noite, despediu-se dizendo que estava com gripe e iria para casa beber bastante água gelada a fim de matar os bacilos. Dias depois, soubemos de sua morte, de pneumonia.

Aterrissar naquele trecho, pontilhado de indicadores de mudanças, permitia realizar todas as possibilidades do encontro casual: conversas banais, discussões de atravessar a noite, uma farra, uma paquera trivial, um novo caso amoroso, fugaz ou duradouro. Precedendo a contracultura, preparando-lhe o campo, o sexo havia-se desconfinado e estava à solta, fazendo parte da vida da cidade. Não era mais coisa da "zona", assim como ter relações mais íntimas com uma namorada, aos poucos, deixava de ser um drama. Mulheres desacompanhadas sugeriam todo tipo de relação, desde as garotas para levar no carro até companhias para uma noite de conversa sobre poesia ou cinema ou os mistérios da existência. Sinal dessa abertura, os pederastas, antes reduzidos, em sua parcela aparente, a dois ou três freqüentadores de uma cafeteria da Avenida São João e aos espécimes que atuavam na porta do Cine Marabá, já podiam circular como pessoas iguais às outras.

Que densidade de equipamentos culturais e pontos de encontro naqueles poucos quarteirões! Na paralela, a Rua Sete de Abril, funcionavam o MASP, o Bar do Museu e o auditório da Cinemateca, tudo isso no prédio dos Diários Associados, mais um botequim de cineastas e jornalistas, além do Cine Coral dos filmes de arte, europeus (de Dante Ancona Lopes, que depois abriria o Belas Artes). Na outra paralela, Barão de Itapetininga, as livrarias Francesa, Brasiliense e Parthenon, mais a casa de chá Viena, com orquestra e tudo, e o cineclube do Centro Dom Vital (debate sobre novos poetas, 1963, um da geração cinco anos anterior, dedo em riste para nós da mesa, histérico: “Ser brasileiro é ter tido uma infância normal..! É ter tido uma infância normal..!” – como as pessoas se exaltavam com facilidade...). Na transversal, Rua Marconi, a Livraria Teixeira das tardes de autógrafos. Atrás do Caetano de Campos, a Livraria Ler. Na Ipiranga, o Palácio do Livro, todos os pockets do mundo. Na Martins Fontes, a Livraria Mestre Jou.

Ileana MoyaHavia um roteiro de bares. Reconstituo-o: na praça Dom José Gaspar, o Tourist, ponto de gente de cinema, o Paribar, o Leco, a entrada da Galeria Metrópole a partir de 1963 (Chá Moon dos drinques de fim de tarde, Barroquinho de Zilco Ribeiro onde fiz sessão de autógrafos de meu primeiro livro). Na São Luiz, o Arpége, com clientela gay, e Barbazul, de mesas na calçada. O derradeiro footing ia até a esquina-Sampa, Ipiranga com São João, do Jeca de fim de noite e duas lanchonetes importantes, uma de quibes e a Salada Paulista. Vejam só: mencionei, com omissões, bares, livrarias, alguns pontos culturais; nem me detive nos restaurantes e nos demais cinemas.

Incrível: exceto a Livraria Francesa, nada disso existe. Acabou tudo! Só a Biblioteca Mário de Andrade subsiste e resiste, isolada, solitária. Repito: São Paulo não era nenhum paraíso e sempre foi caótica. Mas, mesmo assim, para a descrição adequada do que temos hoje na mesma região, a paisagem de garotos da cola e crack, assaltantes, caos de barracas de camelôs, prédios sujos e rabiscados, teria que adotar o tom de profeta raivoso do admirável Abraçado ao meu rancor, de João Antonio.

Até que ponto tudo aquilo gravitou ao redor da Biblioteca Mário de Andrade, e se constituiu por causa dela? Os bares na praça Dom José Gaspar e na Avenida São Luiz, teriam eles sido locais de encontro, chegada e partida, se a Biblioteca houvesse sido construída, digamos, na Praça do Patriarca ou na João Mendes? Vá-se saber. Faz sentido a hipótese da irradiação, dos círculos concêntricos. Por comodidade, talvez, Sérgio Milliet, um de seus fundadores e seu diretor, deslocava-se alguns metros, a separarem seu expediente diurno e o início do expediente noturno no Paribar, assim como outros de seus freqüentadores, inclusive os jovens intelectuais hoje conhecidos como Os adoradores da Estátua. Isso é relatado nos artigos de Bento Prado Jr. e Manoel Carlos publicados no vol. 50, de 1992, da Revista da Biblioteca Mário de Andrade (Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo). Aliás, eu estava na festa à fantasia ao fim da qual um grupo foi lá, de madrugada, para tentar roubar a estátua de Dante Alighieri: esta desabou sobre a cabeça do excelente poeta Celso Paulini (a quem examinei na Agulha # 16), que acabou sendo levado, ensangüentado e ainda vestido de grego, ao pronto-socorro.

Ou não. Literatos não promovem transformações urbanas nessa escala. São Paulo tinha um perfil bem definido nas décadas de 50 e 60. Com a identidade celebrada e afirmada por ocasião do seu Quarto Centenário, tornava-se metrópole. Sua vida cultural tinha uma agenda balizada pela criação do TBC, seguido por ramificações, Teatro Sérgio Cardoso e Maria Della Costa, e dissidências, Arena e Oficina, possibilitando a vida teatral, mais a Bienal de artes plásticas, e os grandes museus, MASP, MAM e MAC. Foi quando a Avenida São Luiz adquiriu importância, recebendo pessoas e atividades transferidas do Centro Velho para o Centro Novo, atravessando o Viaduto do Chá. A mudança, que incluiu a passagem estudantil do Largo de São Francisco para a Rua Maria Antônia, da Academia para a Filosofia, não foi só de lugares, mas de conteúdos.

O ambiente mais arejado incluía uma intensa vida musical, da Bossa Nova (seu pólo, o Juão Sebastião Bar) aos festivais da Record onde, em 67, seria revelada a Tropicália, passando pela revitalização do rock e afirmação da Jovem Guarda. No cinema, além do aparecimento do Cinema Novo, a renovação da cinematografia européia, com a nouvelle vague que, a partir de 1959, mostrou filmes que eram manifestos libertários, a exemplo do Acossado de Godart, revoluções na linguagem, como Hiroshima meu amor e O ano passado em Marienbad de Resnais, e outros protagonizados por gente parecidíssima conosco, como Os Primos de Chabrol. Os italianos se apresentavam com o Fellini de Dolce Vita (quantas vezes o revi com a sensação de ter estado naquelas festas) e a ruptura de Oito e Meio, além do Antonioni de A Viagem e A Noite, o Visconti de Rocco e seus Irmãos, as parcerias Bolognini – Pasolini. Essas obras mostravam vidas, inquietações e rebeliões em que se espelhavam jovens de classe média, entre os quais prevalecia um difuso existencialismo. Um acontecimento marcante, a visita de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir a um país mais distante da Europa, menos visitado por celebridades. São Paulo cabia nos teatros João Caetano e Cultura Artística, locais de palestras de Sartre e Simone.

Ileana MoyaComo já disse, era provinciana a São Paulo na qual se cruzava a toda hora com alguém de outra turma na esquina da Consolação e São Luís, ou se estava a duas mesas de distância no mesmo Paribar ou Ferro’s Bar. Mas aquela agitação, evidente em dois planos nitidamente complementares, um deles o da farra boêmia, outro, da produção, quando não proliferação de poesia, foi um sintoma de vitalidade. Permeava-a uma perspectiva apocalíptica, mais característica dos fins de século e de milênio, porém dominante nos anos 60. Um ambiente de milenarismo antecipado, com a expectativa de uma mudança, um fim e um recomeço na forma de catástrofe, utopia ou ambos. Quem se engajasse em organizações e movimento políticos o fazia para mudar o mundo, transformar a sociedade. Artistas iniciantes vinham revolucionar a arte. Novos poetas estavam aí para subverter a poesia, derrubar cânones. Daí a postura messiânica ou demiúrgica, expressa de diferentes modos, mais ou menos enfáticos, quando aqueles que, na década de cinqüenta, haviam eleito o entorno da Biblioteca Municipal como ponto de encontro, foram sucedido pelos Novíssimos do editor Massao Ohno, logo cindidos em grupos e subgrupos, compondo um ciclo cujo reexame, hoje, mostra reputações confirmadas, e outras saídas de cena, talvez provisoriamente, talvez em definitivo. Mas todos, cada um a seu modo, dando alguma contribuição para o capítulo das relações entre poesia e vida, e para o baudelairiano tópico da relação entre poesia e metrópole. 

Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm). Página ilustrada com obras da artista Ileana Moya (Costa Rica).

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