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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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Sophia de Mello Breyner: substantiva e concreta Maria Maia
SMB - Falei em grego? Eu não sei grego, só uns versos. MM - Falou alguns versos… a senhora é muito marcada pela
visão do mundo grego? SMB - Sim, sim, evidentemente. MM - Como assim? SMB - É natural, não é? É muito parecido. Como na Grécia
tem a mesma cor, se come azeitona, figo, azeite. É como a Itália, não? Sabe, nós não sabemos ao certo como nos marcam as coisas
que verdadeiramente nos marcaram. É como um amigo que perguntou: como
fazer verso? MM - Não se explica. SMB - Eu pelo menos não explico. Só as pessoas que fazem
maus versos podem explicar. O que marcou e o que fez verso. MM - Quando a senhora começou a escrever? SMB - Quando comecei escrever eu não sabia escrever. Eu
tinha uma pena enorme (rindo). Eu pedi a minha mãe papel e caneta.
Escrevia uma grafia que eu tinha imaginado, imagine você…Uns desenhos
de umas letras inventadas por mim. Eu contava em voz alta. MM - Muito criança ainda, antes de ser alfabetizada? SMB - É. Foi. E depois aprendi a ler e a escrever. Comecei
a escrever cedo, sim. 14 anos, 12 anos. Primeiro mal, depois melhor, não
é? MM - E publicou com uns vinte e poucos anos. SMB - 23 ou 24, já não lembro mais. Primeiro livro, sim.
(pausa. Retoma decidida). Não, publiquei antes. Em revistas e coisas
assim. Depois publiquei um livro. Creio que aos 24 anos. É. MM - Isso em 44. O livro Poesias, não é? SMB - Poesia. No singular. MM - Poesia. É. Depois então em 64 ganhou um prêmio
importante aqui em Portugal. SMB - Um prêmio importante? Sim, foi no ano passado. MM - O prêmio Camões, no ano passado. Mas em 1964 um
livro de poesia da senhora já tinha sido premiado. SMB - Sim. MM - E sua relação com a poesia brasileira, conheceu
poetas brasileiros? SMB - Bem, eu acho que tive uma relação muito profunda
com o João Cabral e com as coisas que ele procurava (pausa). Eu não
pensava muito nisso. Nunca tive muita teoria. Fui sempre uma pessoa muito
antiteórica. Mas encontrei muita coisa. Quando encontrei João Cabral ele disse-me assim: eu tenho
muita admiração por si…que é que ele disse? (pausa) como é que foi
que ele disse? (procurando na memória) …porque você é uma poeta que
usa muito substantivo concreto.(ri). Eu pensei: é? Mas é verdade, não
é? Nos encontramos em Sevilha. Nós fomos com uns amigos
brasileiros que iam lá convidados pelo João, para a casa dele. E o João
disse: por que vocês não vêm e ficam no hotel? E fomos e ficamos num
hotel lindo que o João descobriu. Era lindo, era um antigo palácio de
uma família sevilhana. Já não existe, sabe? (dando um trago no
cigarro). Já destruíram (jogando as cinzas no cinzeiro). O turismo é
uma desgraça em toda parte do mundo, não é?
O encontro com João Cabral foi quando ele era cônsul em
Barcelona, não? E a partir daí a senhora entrou em contato com a poesia
brasileira? SMB - Não. Eu já tinha lido o Manuel Bandeira. Já tinha
lido vários poetas brasileiros. É que nesse tempo havia uma relação
muito mais próxima, sabe? Porque o mundo não estava tão confuso como
agora. Sai tanto livro. Sai tanta confusão. Agora um poeta se projeta,
fala-se de sua obra, não é porque escreveu livros bons. É porque tem
uma boa pessoa encarregada de sua propaganda. MM - De preparação na mídia, nos jornais. É verdade. SMB - Naquele tempo não. Vinha um amigo que dizia assim: -
"Li ontem um poeta brasileiro extraordinário". Ele não tinha
nada a ver com propaganda alguma. Mas a gente, se queria, lia o livro. MM - E a senhora considera importante esta relação entre
a poesia portuguesa e brasileira? SMB - Bem, eu considero importante a relação entre toda a
poesia. A portuguesa com a brasileira é importante, como é importante a
relação com a poesia africana. A poesia moçambicana é ótima, não é?
Porque são países que falam português. Quer dizer, tem uma experiência
de linguagem falada, de uma língua só. MM - E agora, ultimamente a senhora fez O Búzio de Cós, o
último livro publicado foi O Búzio de Cós. E continua escrevendo? SMB - Sim, continuo. MM - E o sentido do trágico? A sua poesia é trágica, no
sentido grego… A senhora se considera da mesma tradição de Fernando
Pessoa? SMB - Não acho muito parecido com a tradição do Pessoa não.
(pausa longa) O pessoa é um homem que para escrever renunciou a viver.
Isso não se parece comigo nem com o João Cabral, não é? MM - A sua é uma poesia de quem vive, não é? SMB - Sim. É uma poesia de quem vive. MM - A senhora tem um artigo, um ensaio, sobre a Cecília
Meirelles. SMB - Tenho. Foi o primeiro artigo que fiz na minha vida, não
é mesmo? Porque eu não gostava nada de artigos. Mesmo hoje em dia não
gosto nada. Mas naquela época eu gostava menos, sabe? MM - E por que escreveu sobre a Cecília? SMB - Porque havia uma homenagem à Cecília e me
convidaram para ir. Então eu fiz o artigo. Correu bem. Houve muita palma
na minha intervenção. Mas a Cecília não foi, você sabe? Então
aconteceu uma coisa, uma história engraçada. Ela não foi porque tinha
uma amiga -agora se pode dizer porque a Cecília já morreu e a amiga também.
E a amiga dela era uma mulher feia, fazia muita intriga. E disse à Cecília
que éramos comunistas. A Cecília teve medo. Tratou a sério e não veio. Eu fui e também li os poemas dela. Depois ela ficou um
bocado escandalizada, não é? Então a Cecília no Natal mandou uma grande caixa com
frutos de natal, sabe? Frutas secas, nozes, essas coisas de natal. Você
sabe que todos os natais eu ponho na árvore de natal ainda hoje? Mas eu
nunca agradeci à Cecília. MM - Foi um equívoco que aconteceu entre vocês. Lamentável. SMB - (Levantando-se para pegar o segundo cigarro). Foi
pateta. Mas é melhor perdoar, não? (longo silêncio. Sophia levanta-se,
pega a carteira de cigarros na mesa em frente ao sofá e leva para o seu
escritório, contíguo à sala onde estamos sentadas). Vou guardar para não fumar mais. Fumo muito pouco. Eu
tenho muito pouco cigarro. É uma coisa terrível, porque não se vendem cá
estes cigarros. Então quando vem um amigo, me traz. MM - Ah! Não se vendem aqui em Portugal?
Espero. Depois de instantes, Sophia retorna com um cigarro,
que mantém apagado. MM - A fonte de sua poesia é Portugal, o mundo ou é
interior? SMB - Daí eu não sei a diferença entre interior e
exterior. Eu vejo com os olhos, ouço com os ouvidos, como com os dentes,
sinto com o nariz. Quanto a minha poesia, é Portugal, é interior e é
exterior. Tenho uma parte intelectual, evidentemente. Tem uma parte de
cultura, tem uma parte intelectual. Mas tem uma parte vivida, não é? MM - E a senhora teria uma definição para a atitude poética? SMB - Não, não é possível. MM - É fazer. SMB - É. MM - E suas fontes, referências dentro da poesia, da tradição
poética? SMB - (partindo o cigarro ao meio e me oferecendo metade)
Quer? MM - Não. SMB - Eu parto aqui (dividindo um cigarro entre 2/3 e 1/3)
É que até aqui não se fuma (apontando a parte do cigarro que, por
incluir o filtro, focou maior). Esta parte não se fuma, não é? Se eu
partir aqui (aponta o meio do cigarro) não fica nada (risos) MM - Eu parei de fumar. Mas de vez em quando fumo um
pouquinho. SMB - (acendendo o meu cigarro e o dela) Estou muito
mesquinha hoje. Estou um bocado cansada. MM - Quer parar? SMB - Não. Daqui mais um quarto de hora. MM - Então a senhora estava falando das referências. Eu
perguntei sobre as referências poéticas da senhora. SMB - (pausa, Sophia dá uma longa tragada) Pois, o que é que você chama de referências poéticas,
ter lido Homero? Ter lido João Cabral? MM – Sim SMB - Eu acho que é muito mal um poeta que só lê o que
escreve. Mas há muito poeta assim hoje em dia, não é? Por isso é que a
literatura moderna está tão confusa…O texto mais bonito do Saramago é
um artigo não muito longo que ele publicou quando teve o prêmio. Ele
fala da sua relação com o avô quando era pequeno. É muito bonito. É o
texto mais nostálgico e mais poético que o Saramago escreveu. É um
texto que ele fala da sua própria vida. Ele fala o que os livros não
falam ou se falam, falam de uma outra maneira. MM - Atualmente em Portugal se faz muita poesia boa? SMB - Há poetas bons, sim. Antonio Ramos Rosa é muito
bom, e outros bons poetas. MM - A senhora considera a língua portuguesa uma língua
boa para se tratar de poesia? SMB - Eu penso que sim. Porque é uma língua que tem uma
grande dificuldade em dizer tudo. Falar com tudo, não é. Não é uma língua
estereotipada como é um pouco o francês e o inglês. No inglês há
muita coisa compacta. O inglês é muito rico, mas tem que ser num único
sentido. Em inglês deve-se começar o verso pela primeira pessoa. Eu sei
porque tenho colaborado com escritores que me traduziram. Faz muita
diferença. A única língua na qual se pode traduzir bem o poeta português
é o italiano. Porque é a mesma organização da frase, não é? MM - Interessante esta relação da língua portuguesa com
outras. Porque também me parece que a língua portuguesa tem
possibilidades extraordinárias. SMB - Sim, porque tem uma capacidade de dizer, de formar
novas palavras.
SMB - É. MM - O que é ser poeta hoje? Porque o mundo está tão
confuso, tão fragmentário… tem lugar para o poeta hoje? SMB - Eu penso que tem, se ele arranja. Evidentemente que
é importante que elas encontrem o eco da sua voz. (Toca o telefone,
Sophia atende, era engano) MM - Este livro aqui foi encontrado entre os escritos de
Fernando Pessoa, O que o turista deve ver em Lisboa . Foi encontrado há
uns dez anos. SMB - Está escrito em que língua? MM - Ele foi escrito originalmente em inglês, mas esta edição
é bilíngüe. SMB - Ah! Muito bom, muito interessante. MM - Porque ele achava que o povo português precisava ser
mais respeitado dentro da Europa. SMB - Pois acontece uma coisa, sabe? Nós gostamos muito da
Espanha, da arte espanhola. E o espanhol tem feitos extraordinários. Mas
o espanhol é muito afirmativo, tem a mania de negar o outro. E eles têm
feito uma política muito antiportuguesa. E eles atrás dos portugueses
descobrindo a mesma coisa que os portugueses já tinham descoberto. E é
preciso lembrar que as caravelas portuguesas que iam para os
descobrimentos os espanhóis saqueavam na volta e mesmo na ida. MM - É também muito curioso que grande parte dos poetas
contemporâneos importantes sejam poetas de língua portuguesa, não é? O
Fernando Pessoa, a senhora, o Jorge de Sena…Mesmo poetas brasileiros
importantes como Jorge de Lima, João Cabral… SMB - Você vê como o João Cabral usa a língua
portuguesa - ele usa e quer usar - muito como Camões. Aqueles poemas
conhecidos do Camões, da Índia, são poemas que brincam muito com a
palavra. É muito parecido com o João Cabral. MM - E o seu exercício poético é também brincar com as
palavras? SMB - É sim. Jogo. Há muita parte de jogo, sim. Eu acho que o melhor momento da escrita do poema é quando as pessoas começam a sentir as palavras moverem-se sozinhas, sabe? E a brincarem umas com as outras. Andar a procura da rima, andar a procura do tempo, a procura da consonância, não é? |
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Maria Maia (Acre, 1959). Poeta, roteirista e diretora
de documentários. Autora de Alma Brasileira (sobre Villa-Lobos).
Contato: mariasmaia@hotmail.com.
Página ilustrada com obras do artista Fernando Casás (Galiza). |